Escritas

Odes de Ricardo Reis

1946
Odes de Ricardo Reis

A abelha que, voando, freme sobre

A abelha que, voando, freme sobre
A colorida flor, e pousa, quase
Sem diferença dela
À vista que não olha,
Não mudou desde Cecrops. Só quem vive
Uma vida com ser que se conhece
Envelhece, distinto
Da espécie de que vive.

Ela é a mesma que outra que não ela.
Só nós – ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte! –
Mortalmente comp'ramos
Ter mais vida que a vida.


02/09/1923

A cada qual, como a estatura, é dada

A cada qual, como a statura, é dada
A justiça: uns faz altos
O fado, outros felizes.
Nada é prêmio: sucede o que acontece.
Nada, Lídia, devemos
Ao fado, senão tê-lo.

A flor que és, não a que dás, eu quero. [2]

Ad juvenem rosam offerentem

A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço?
Tão curto tempo é a mais longa vida,
        E a juventude nela!

Flor vives, vã; porque te flor não cumpres?
Se te sorver esquivo o infausto abismo,
Perene velarás, absurda sombra,
        O que não dou buscando.

Na oculta margem onde os lírios frios
Da infera leiva crescem, e a corrente
Monótona, não sabe onde é o dia,
        Sussurro gemebundo.

A folha insciente, antes que a própria morra

A folha insciente, antes que a própria morra
        Para nós morre, Cloé,
Para nós, que sabemos que ela morre
        Assim, Cloé, assim
Antes que os próprios corpos, que empregamos
       No amor, ela envelhece.
Assim, diversos, somos, inda jovens,
        Só a mútua lembrança.
Ah, se o que somos é sempre isto, e apenas
        Uma hora é o que somos,
Com tal fúria nessa hora nos usemos
        Que arda sua lembrança
Como vida, e nos beijemos, Cloé,
        Como se, findo o beijo
Único, houvesse de ruir a súbita
       Mole do morto mundo.

A mão invisível do vento

A mão invisível do vento roça por cima das ervas.
Quando se solta, saltam nos intervalos do verde
Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos,
E outras pequenas flores azuis que se não vêem logo.

Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube
Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra
Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.
Também por mim um desejo inutilmente bafeja
As hastes das intenções, as flores do que imagino,
E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse.


30/01/1921

A nada imploram tuas mãos já coisas,

A nada imploram tuas mãos já coisas,
Nem convencem teus lábios já parados,
No abafo subterrâneo
Da húmida imposta terra.
Só talvez o sorriso com que amavas
Te embalsama remota, e nas memórias
Te ergue qual eras, hoje
Cortiço apodrecido.
E o nome inútil que teu corpo morto
Usou, vivo, na terra, como uma alma,
Não lembra. A ode grava,
Anónimo, um sorriso.


05/1927 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)

A palidez do dia é levemente dourada.

A palidez do dia é levemente dourada.
O sol de Inverno faz luzir como orvalho as curvas
Dos troncos de ramos secos.
O frio leve treme.

Desterrado da pátria antiquíssima da minha
Crença, consolado só por pensar nos deuses,
Aqueço-me trémulo
A outro sol do que este.

O sol que havia sobre o Parténon e a Acrópole
O que alumiava os passos lentos e graves
De Aristóteles falando.
Mas Epicuro melhor

Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre
Tendo para os deuses uma atitude também de deus,
Sereno e vendo a vida
À distância a que está.


19/06/1914

A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora

A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre o impossível.

Acima da verdade estão os deuses.

Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,

Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.


16/10/1914

Aguardo, equânime, o que não conheço —

Aguardo, equânime, o que não conheço –
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.


13/12/1933

Amanhã estas letras em que te amo

Amanhã estas letras em que te amo.
        Serão vistas, tu morta.
Corpo, eras vida para que o não foras,
        Tão bela! Versos restam.
Quem o (...)

Amo o que vejo porque deixarei

Amo o que vejo porque deixarei
        Qualquer dia de o ver.
        Amo-o também porque é.

No plácido intervalo em que me sinto,
        Do amar, mais que ser,
        Amo o haver tudo e a mim.
Melhor me não dariam, se voltassem,
        Os primitivos deuses,
        Que também, nada sabem.

Anjos ou deuses, sempre nós tivemos

Anjos ou deuses, sempre nós tivemos
A visão perturbada de que acima
De nós e compelindo-nos
Agem outras presenças.

Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,

Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem
E nós não desejamos.


16/10/1914

Antes de nós nos mesmos arvoredos

Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?


08/10/1914

Antes de ti era a Mãe Terra escrava

Antes de ti era a Mãe Terra scrava
Das trevas súperas que da alma nascem
E caem sobre o mundo
Porque atrás o sol brilha.

A realidade ao mundo devolveste
Que haviam os cristãos fechado na alma
E as portas reabriste
Por onde Aurora o carro

Ou Febo guie e os dois irmãos celestes
Quando no extremo mastro à noite luzem,
Mais valem que um luzeiro
Na ponta de um pau seco.

Restituíste a Terra à Terra. E agora
És parte corporal da própria terra,
Ou sombra (...)
Erras nas sombras frias,

Mas ao ouvir-te os passos com que auroras
Do abismo os íncolas as tristes fontes
Erguem e sentem deuses
Caminhar pela sombra.

E eis que de nova luz o abismo se enche
E um céu raia a cobrir o absorto fundo
Da fama misterioso
Que traga o fim da vida.


07/11/1918

Ao longe os montes têm neve ao sol,

Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.

Aos deuses peço só que me concedam

Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado.
Não quieto nem inquieto meu ser calmo
Quero erguer alto acima de onde os homens
Têm prazer ou dores.

Àquele que, constante, nada espera

Àquele que, constante, nada espera
Não pode negar Jove; nem para ele
        Murcham as frágeis flores
        Que nunca esperou  ver.
Consiste a força do ânimo em não tê-la
Para os alacres fins da fantasia,
        Mas em saber conter-se
        Nos limites d (...)

Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro,

Aqui, dizeis, na cava a que me abeiro,
Não está quem eu amei. Olhar nem riso
Se escondem nesta leira.
Ah, mas olhos e boca aqui se escondem!
Mãos apertei, na alma, e aqui jazem.
Homem, um corpo choro!


06/07/1927

Aqui, Neera, longe

Aqui, Neera, longe
De homens e de cidades,
Por ninguém nos tolher
O passo, nem vedarem
A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.

Bem sei, ó flava, que inda
Nos tolhe a vida o corpo,
E não temos a mão
Onde temos a alma;
Bem sei que mesmo aqui
Se nos gasta esta carne
Que os deuses concederam
Ao estado antes de Averno.

Mas aqui não nos prendem
Mais coisas do que a vida,
Mãos alheias não tomam
Do nosso braço, ou passos
Humanos se atravessam
Pelo nosso caminho.

Não nos sentimos presos
Senão com pensarmos nisso,
Por isso não pensemos
E deixemo-nos crer
Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.


02/08/1914

Aqui, neste misérrimo desterro

Aqui, neste misérrimo desterro
Onde nem desterrado estou, habito,
Fiel, sem que queira, àquele antigo erro
Pelo qual sou proscrito.
O erro de querer ser igual a alguém
Feliz, em suma – quanto a sorte deu
A cada coração o único bem
De ele poder ser seu.


06/04/1933

Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,

Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,
Sem um suspiro abandonemos Cristo
        E a febre de buscarmos
        Um deus dos dualismos.

E longe da cristã sensualidade
Que a casta calma da beleza antiga
        Nos restitua o antigo
        Sentimento da vida.

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.


31/05/1927

Azuis os montes que estão longe param.

Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.


31/03/1932

Bocas roxas de vinho

Bocas roxas de vinho
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa:

Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos, mudos,
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.

Antes isto que a vida
Como os homens a vivem,
Cheia da negra poeira
Que erguem das estradas.

Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas.


28/08/1915

Breve o dia, breve o ano, breve tudo.

Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos.
Isto, pensando, me de a mente absorve
Todos mais pensamentos.
O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
Que, inda que mágoa, é vida.


27/09/1931

Breve o inverno virá com sua branca

Breve o inverno virá com sua branca
        Nudez vestir os campos.
As lareiras serão as nossas pátrias
        E os contos que contarmos
Assentados ao pé do seu calor
        Valerão as canções
Com que outrora entre as verdes ervas rijas
        Dizíamos ao sol
O ave atque vale triste e alegre,
        Solenes e carpindo.
Por ora o outono está connosco ainda.
        Se ele nos não agrada
A memória do estio cotejemos
        Com a esperança hiemal.
E entre essas dádivas memoradas
        Como um rio passemos.

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do sol).

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.


30/07/1914

Cada dia sem gozo não foi teu

Cada dia sem gozo não foi teu
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!


14/03/1933

Cada momento que a um prazer não voto

Cada momento que a um prazer não voto
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
        Porque o sonho de um gozo
        No gozo não é sonho.

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Cada um é um mundo; e como em cada fonte

Cada um é um mundo; e como em cada fonte
Uma deidade vela, em cada homem
        Porque não há de haver
        Um deus só de ele homem?

Na encoberta sucessão das cousas,
Só o sábio sente, que não foi mais nada
        Que a vida que deixou.

Cantos, risos e flores alumiem

Cantos, risos e flores alumiem
        Nosso mortal destino,
Para o ermo ocultar fundo, nocturno
        De nosso pensamento,
Curvado, já em vida, sob a ideia
        Do plutónico gozo,
Cônscio já da lívida esperança
        Do caos redivivo.

Cedo demais vem sempre, Cloé, o inverno.

Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno.
É sempre prematuro, inda que o espere
        Nosso hábito, o esfriar
        Do desejo que houve.

Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
        Morra com isso ao menos
        O não amar ou crer.

Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
        Nesta má circunstância
        Do tempo eternos somos.

Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
        Furte ao tempo a vitória
        Das mudanças depressa,

E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
        Uma igual vida, súbito
        Precipite no abismo.

Com que vida encherei os poucos breves

Com que vida encherei os poucos breves
Dias que me são dados? Será minha
        A minha vida ou dada
        A outros ou a sombras?
À sombra de nós mesmos quantos homens
Inconscientes nos sacrificamos,
        E um destino cumprimos
        Nem nosso nem alheio!
Ó deuses imortais, saiba eu ao menos
Aceitar sem querê-lo, sorridente,
        O curso áspero e duro
        Da estrada permitida.
Porém nosso destino é o que for nosso,
Que nos deu a sorte, ou, alheio fado,
        Anónimo a um anónimo,
        Nos arrasta a corrente.

Como este infante que alourado dorme

Como este infante que alourado dorme
        Fui. Hoje sei que há morte.
Lídia, há largas taças por encher
        Nosso amor que nos tarda.
        Qualquer que seja o amor ou as taças, breve
          Ajamos. Teme e desfruta.

Concentra-te, e serás sereno e forte;

Concentra-te, e serás sereno e forte;
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.
Tudo mais empobrece, porque é pobre.

Coroai-me de rosas! [3]

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas –
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.


12/06/1914 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)

Coroai-me de rosas. [2]

Coroai-me de rosas.
Coroai-me em verdade
        De rosas.
Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
        E leve,

Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
        Sob ramos.

Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
        E basta.

Crer é errar. Não crer de nada serve.

Crer é errar. Não crer de nada serve.

Cuidas tu, louco Flaco, que apertando [1]

Cuidas tu, louco Flaco, que apertando
Os teus estéreis, trabalhosos dias
        Em feixes de hirta lenha,
        Cumpres a tua vida?
A tua lenha é só peso que levas
Para onde não tens fogo que aquecer-te,
        Nem levam peso ao colo
        As sombras que seremos.
Aprende calma com o céu havido
E com o pranto a ter contínuo curso.
        Não sigas a clepsidra
        Que conta a hora dos outros.

Cuidas tu, louro Flacco, que cansando [2]

In Flaccum

Cuidas tu, louro Flacco, que cansando
Os teus estéreis trabalhosos dias
        Darás mais sorrisos ao campo
E serão mais altos os peitos de Ceres
Põe mais vista em notares que tens flores
        No teu jardim (...)

Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.

Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
        Deixa haver a injustiça.
        Nada muda, que mudes.

Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
        Governa, até à fronteira,
        Onde a vontade finge.

Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
        Não há a dupla derrota
        De derrota e vileza.

Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
        Expilo, como a um servo
        Intromissor da mente.

Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
        Onde me a mente e corpo
        Não são mais do que parte?

Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
        Giram, sois centros servos
        De um movimento externo.

Da lâmpada nocturna

Da lâmpada nocturna
A chama estremece
E o quarto alto ondeia.

Os deuses concedem
Aos seus calmos crentes
Que nunca lhes trema
A chama da vida
Perturbando o aspecto
Do que está em roda,
Mas firme e esguiada
Como preciosa
E antiga pedra,
Guarde a sua calma
Beleza contínua.


02/08/1914

Da nossa semelhança com os deuses

Da nossa semelhança com os deuses
Por nosso bem tiremos
Julgarmo-nos deidades exiladas
E possuindo a Vida
Por uma autoridade primitiva
E coeva de Jove.

Altivamente donos de nós-mesmos,
Usemos a existência
Como a vila que os deuses nos concedem
Para esquecer o Estio.

Não de outra forma mais apoquentada
Nos vale o esforço usarmos
A existência indecisa e afluente
Fatal do rio escuro.

Como acima dos deuses o Destino
É calmo e inexorável,
Acima de nós-mesmos construamos
Um fado voluntário

Que quando nos oprima nós sejamos
Esse que nos oprime,
E quando entremos pela noite dentro
Por nosso pé entremos.


30/07/1914

De Apolo o carro rodou pra fora

De Apolo o carro rodou pra fora
Da vista. A poeira que levantara
Ficou enchendo de leve névoa
O horizonte;

A flauta calma de Pã, descendo
Seu tom agudo no ar pausado,
Deu mais tristezas ao moribundo
Dia suave.

Cálida e loura, núbil e triste,
Tu, mondadeira dos prados quentes,
Ficas ouvindo, com os teus passos
Mais arrastados,

A flauta antiga do deus durando
Com o ar que cresce pra vento leve,
E sei que pensas na deusa clara
Nada dos mares,

E que vão ondas lá muito adentro
Do que o teu seio sente cansado
Enquanto a flauta sorrindo chora
Palidamente.


12/06/1914

De uma só vez recolhe

De uma só vez recolhe
        Quantas flores puderes.
Não dura mais que até à morte o dia.
        Colhe de que recordes.

        A vida é pouco e cerca-a
        A sombra e o sem remédio.
Não temos regras que compreendamos,
        Súbditos sem governo.

        Goza este dia como
        Se a Vida fosse nele.
Homens nem deuses fadam, nem destinam
        Senão o que ignoramos.

Débil no vício, débil na virtude

Débil no vício, débil na virtude
A humanidade débil, nem na fúria
        Conhece mais que a norma.

Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
        Será à liberdade.

Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
        Mando e uso de si mesmo.

Deixa passar o vento

Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…

Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe
Mais flores do que Flora pelos campos,
Nem dá de Apolo ao carro
Outro curso que Apolo.

Contemplação estéril e longínqua
Das coisas próximas, deixemos que ela
Olhe até não ver nada
Com seus cansados olhos.

Vê como Ceres é a mesma sempre
E como os louros campos entumece
E os cala prás avenas
Dos agrados de Pã.

Vê como com seu jeito sempre antigo
Aprendido no orige azul dos deuses,
As ninfas não sossegam
Na sua dança eterna.

E como as hamadríades constantes
Murmuram pelos ramos das florestas
E atrasam o deus Pã
Na atenção à sua flauta.

Não de outro modo mais divino ou menos
Deve aprazer-nos conduzir a vida,
Quer sob o ouro de Apolo
Ou a prata de Diana.

Quer troe Júpiter nos céus toldados,
Quer apedreje com as suas ondas
Neptuno as planas praias
E os erguidos rochedos.

Do mesmo modo a vida é sempre a mesma.
Nós não vemos as Parcas acabarem-nos.
Por isso as esqueçamos
Como se não houvessem.

Colhendo flores ou ouvindo as fontes
A vida passa como se temêssemos.
Não nos vale pensarmos
No futuro sabido

Que aos nossos olhos tirará Apolo
E nos porá longe de Ceres e onde
Nenhum Pã cace à flauta
Nenhuma branca ninfa.

Só as horas serenas reservando
Por nossas, companheiros na malícia
De ir imitando os deuses
Até sentir-lhe a calma.

Venha depois com as suas cãs caídas
A velhice, que os deuses concederam
Que esta hora por ser sua
Não sofra de Saturno

Mas seja o templo onde sejamos deuses
Inda que apenas, Lídia, pra nós próprios
Nem precisam de crentes
Os que de si o foram.

Dia após dia a mesma vida é a mesma.

Dia após dia a mesma vida é a mesma.
O que decorre, Lídia,
No que nós somos como em que não somos
Igualmente decorre.
Colhido, o fruto deperece; e cai
Nunca sendo colhido.
Igual é o fado, quer o procuremos,
Quer o 'speremos. Sorte
Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa
Forma alheio e invencível.


02/09/1923

Diana através dos ramos

Diana através dos ramos
Espreita a vinda de Endymion
Endymion que nunca vem,
Endymion, Endymion,
Lá longe na floresta…
E a sua voz chamando
Exclama através dos ramos
Endymion, Endymion…

Assim choram os deuses…

Do que quero renego, se o querê-lo

Do que quero renego, se o querê-lo
Me pesa na vontade. Nada que haja
Vale que lhe concedamos
Uma atenção que doa.
Meu balde exponho à chuva, por ter água.
Minha vontade, assim, ao mundo exponho.
Recebo o que me é dado,
E o que falta não quero.

O que me é dado quero
Depois de dado, grato.

Nem quero mais que o dado
Ou que o tido desejo.


14/03/1931

Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,

Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
        A arte, com que todos,
—  Ora sem saber  virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
        Chegada a morte, despi-la.

Dois é o prazer: gozar e o gozá-lo.

Dois é o prazer: gozar e o gozá-lo.
Ao néscio elege o parvo, o sábio ao outro.
        E o igual fado é diverso.
Na taça que ergo, ondeio, e vejo, as bolhas
Incluo no que sinto, e ao beber
        Mais puro está no gosto.

Domina ou cala. Não te percas, dando

Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.


27/09/1931

E quanto sei do Universo é que ele

E quanto sei do Universo é que ele
        Está fora de mim.

É tão suave a fuga deste dia,

É tão suave a fuga deste dia,
Lídia, que não parece que vivemos.
Sem dúvida que os deuses
Nos são gratos esta hora,

Em paga nobre desta fé que temos
Na exilada verdade dos seus corpos
Nos dão o alto prémio
De nos deixarem ser

Convivas lúcidos da sua calma,
Herdeiros um momento do seu jeito
De viver toda a vida
Dentro dum só momento,

Dum só momento, Lídia, em que afastados
Das terrenas angústias recebemos
Olímpicas delícias
Dentro das nossas almas.

E um só momento nos sentimos deuses
Imortais pela calma que vestimos
E a altiva indiferença
Às coisas passageiras

Como quem guarda a c'roa da vitória
Estes fanados louros de um só dia
Guardemos para termos,
No futuro enrugado,

Perene à nossa vista a certa prova
De que um momento os deuses nos amaram
E nos deram uma hora
Não nossa, mas do Olimpo.

Em Ceres anoitece.

Em Ceres anoitece.
Nos píncaros ainda
        Faz luz.

Sinto-me tão grande
Nesta hora solene
        E vã

Que, assim como há deuses
Dos campos, das flores
        Das searas,

Agora eu quisera
Que um deus existisse
        De mim.

Em vão procuro o bem que me negaram.

Em vão procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins herdadas de outros
Como hão-de mais que perfumar de longe
        Meu desejo de tê-las?

Enquanto ao longe os bardos perturbarem

Enquanto ao longe os bardos perturbarem
Com a dos seus combates longa lista
        A parca e humilde chama
        De cada flébil vida,

E nem um palmo mais sequer conquistam
De riqueza ou de calma em suas almas,
        Nem são mais do que jogo
        Da ira (...) dos deuses,

Quero, livre de humanas (...)
De concordância com o sentir de outros
        Mais firmemente minha
        Possuir minha vida.

Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas

Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
E sentir toda a brisa nos cabelos
        Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
        Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura,
Que, procurando, achara o abismo em tudo
        E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Quase tudo do sentido a entendê-lo
        E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa
Campos ondula, flores abre, frutos
        Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
        E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
        Impropícia e profunda.

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

Este, seu escasso campo ora lavrando, [2]

Este, seu 'scasso campo ora lavrando,
Ora, solene, olhando-o com a vista
De quem a um filho olha, goza incerto
A não pensada vida.
Das fingidas fronteiras a mudança
O arado lhe não tolhe, nem o empece
Per que concílios se o destino rege
Dos povos pacientes.
Pouco mais no presente do futuro
Que as ervas que arrancou, seguro vive
A antiga vida que não torna, e fica,
Filhos, diversa e sua.


16/11/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)

Eu nunca fui dos que a um sexo o outro

Eu nunca fui dos que a um sexo o outro
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual a beleza apeteço
Seja onde for, beleza.

Pousa a ave, olhando apenas a quem pousa
Pondo querer pousar antes do ramo;
Corre o rio onde encontra o seu retiro
E não onde é preciso.

Assim das diferenças me separo
E onde amo, porque o amo ou não amo,
Nem a inocência inata quando se ama
Julgo postergada nisto.

Não no objecto, no modo está o amor
Logo que a ame, a qualquer cousa amo.
meu amor nela não reside, mas
Em meu amor.

Os deuses que nos deram este rumo
Também deram a flor pra que a colhêssemos
com melhor amor talvez colhamos
O que pra usar buscamos.

Fazer parar o giro sobre si

Fazer parar o giro sobre si
Do vácuo pensamento, pôr a roda
Em movimento sobre a terra escura

Poção que por magia de bebê-la
A dormente vontade em mim disperte
De viver… (...)

Feliz aquele a quem a vida grata

Feliz aquele a quem a vida grata
Concedeu que dos deuses se lembrasse
E visse como eles
Estas terrenas coisas onde mora
Um reflexo mortal da imortal vida.
Feliz, que quando a hora tributária
Transpor seu átrio porque a Parca corte
O fio fiado até ao fim,
Gozar poderá o alto prémio
De errar no Averno grato abrigo
Da convivência.

Mas aquele que quer Cristo antepor
Aos mais antigos Deuses que no Olimpo
Seguiram a Saturno –
O seu blasfemo ser abandonado
Na fria expiação – até que os Deuses
De quem se esqueceu deles se recordem –
Erra, sombra inquieta, incertamente,
Nem a viúva lhe põe na boca
O óbolo a Caronte grato,
E sobre o seu corpo insepulto
Não deita terra o viandante.


11-12/09/1916

Felizes, cujos corpos sob as árvores

Felizes, cujos corpos sob as árvores
Jazem na húmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua.

Verta Éolo a caverna inteira sobre
O orbe esfarrapado,
Lance Neptuno, em cheias mãos, ao alto
As ondas estoirando.

Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro
Que passa, finda a tarde,
Sob a árvore onde jaz quem foi a sombra
Imperfeita de um deus,

Não sabe que os seus passos vão cobrindo
O que podia ser,
Se a vida fosse sempre a vida, a glória
De uma beleza eterna.


01/06/1916

Flores amo, não busco. Se aparecem

Flores amo, não busco. Se aparecem
Me agrado ledo, que há em buscar prazeres
        O desprazer da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, arrancadas
        Não são nossas, mas mortas.

Flores que colho, ou deixo,

Flores que colho, ou deixo,
Vosso destino é o mesmo.

Via que sigo, chegas
Não sei aonde eu chego.

Nada somos que valha,
Somo-lo mais que em vão.


02/09/1923

Floresce em ti, ó magna terra, em cores

Floresce em ti, ó magna terra, em cores
A vária primavera, e o verão vasto,
        E os campos são de alegres.
Mas dorme em cada campo o outono dele
O inverno cresce com as folhas verdes
        Tudo será esquecido.

Folha após folha vemos caem

De amore suo

Folha após folha vemos caem,
        Cloé, as folhas todas.
Nem antes para elas, para nós
        Que sabemos que morrem.
        Assim, Cloé, assim,
O amor, antes que o corpo que empregamos
        Nele, em nós envelhece;
E nós, diversos, somos, inda jovens,
        Só a mútua lembrança.
Ah, se o que somos será isto sempre
        E só uma hora é o que somos,
Com tal excesso e fúria em cada amplexo
        A hausta vida ponhamos,
Que encha toda a memória, e nos beijemos
        Como se, findo o beijo
Único, sobre nós ruísse a súbita
        Mole do inteiro mundo.

Frutos, dão-os as árvores que vivem,

Frutos, dão-nos as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas coisas
Te não talhaste imaginário! Quantos,
Com a charrua,
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados!
Abdica e sê
Rei de ti mesmo.


06/12/1926

Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.

Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo.
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.
Para mim crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.


30/01/1927

Grinalda ou coroa

Grinalda ou coroa
É só peso posto
Na fronte antes limpa.

Grinalda de rosas,
Coroa de louros,
A fronte transtornam.

Que o vento nos possa
Mexer nos cabelos,
Refrescar a fronte!

Que a fronte despida
Possa reclinar-se,
Serena, onde durma.

Cloé! Não conheço
Melhor alegria
Que esta fronte lisa.

Há uma cor que me persegue e que eu odeio,

Há uma cor que me persegue e que eu odeio,
Há uma cor que se insinua no meu medo.
        Porque é que as cores têm força
        De persistir na nossa alma,
                Como fantasmas?
Há uma cor que me persegue e hora a hora
A sua cor se torna a cor que é a minha alma.

Hora a hora não dura a face antiga

Hora a hora não dura a face antiga
Dos repetidos seres, e hora a hora,
        Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
        Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
        Com côncavas mãos frias.

I - Seguro assento na coluna firme [1]

Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico,
Nem temo o influxo inúmero futuro
Dos tempos e do olvido;
Que a mente, quando, fixa, em si contempla
Os reflexos do mundo,
Deles se plasma torna, e à arte o mundo
Cria, que não a mente.
Assim na placa o externo instante grava
Seu ser, durando nela.


29/01/1921 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)

II - As rosas amo dos jardins de Adónis

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o Sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.


11/07/1914 (Athena, nº1, Outubro de 1924)

III - O mar jaz; gemem em segredo os ventos [1]

O mar jaz; gemem em segredo os ventos
                Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
                Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
                Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
                Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
                Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
                Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
                Ecoa de Saturno?

Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.

Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.
Quantos, se pensam, não se reconhecem
Os que se conheceram!
A cada hora se muda não só a hora
Mas o que se crê nela, e a vida passa
Entre viver e ser.


26/04/1928

Ininterrupto e unido guia o teu curso

Ininterrupto e unido guia o teu curso
Lídia, e sereno para o mar distante.
        Teus manes não to param.
        Interrompem-to apenas.
Mas conta tu as tuas próprias horas,
À tua espera dá-te incerta Naiade
        Que a porta te não está
        Tua segunda vida...
Condescendente p'ra contigo própria,
Deixa aos certos Letes de fugir
        Vive com a verdade
        No instante dos demónios
Que alhures a saber preso com deles
O céu do Fado, gozam a delícia
        Altiva de viverem
        Onde guardam suas vidas.

IV - Não consentem os deuses mais que a vida.

Não consentem os deuses mais que a vida.
Tudo pois refusemos, que nos alce
A irrespiráveis píncaros,
Perenes sem ter flores.
Só de aceitar tenhamos a ciência,
E, enquanto bate o sangue em nossas fontes,
Nem se engelha connosco
O mesmo amor, duremos,
Como vidros, às luzes transparentes
E deixando escorrer a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco.


17/07/1914 (Athena, nº1, Outubro de 1924)

IX - Coroai-me de rosas, [1]

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
        De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
        Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
        E basta.

Já sobre a fronte vã se me acinzenta

Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos,
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.


13/06/1926 (Presença, nº 10, 15 de Março de 1928)

Jovem morreste, porque regressaste,

A. Caeiro

Jovem morreste, porque regressaste,
Ó deus inconsciente, onde teus pares
        De após Cronos te esperam
        Ressuscitados deles.

Antes de ti já era a Natureza,
Mas não a alma de compreendê-la.
        Deu-te o deus o instinto
        Com que sentir as cousas.

Os deuses imortais reconduziste
À humana visão obscurecida
        (...)
        (...)

Sós ficamos, mas não abandonados,
Porque a obra, que deixaste, és tu ainda
        Qual luz à extinta estrela
        Póstuma a terra alaga.

Por seu os deuses contam quem
E com teu nome a divindade prestas
        De ser eterna à pátria
        Odisseia cidade

Igual des ti às sete que contendem,
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
        Ou heptápila Tebas
        Ogígia mãe de Píndaro.

Lenta, descansa a onda que a maré deixa.

Lenta, descansa a onda que a maré deixa.
Pesada cede. Tudo é sossegado.
Só o que é de homem se ouve.
Cresce a vinda da lua.
Nesta hora, Lídia ou Neera ou Cloé,
Qualquer de vós me é estranha, que me inclino
Para o segredo dito
Pelo silêncio incerto.
Tomo nas mãos, como caveira, ou chave
De supérfluo sepulcro, o meu destino,
E ignaro o aborreço
Sem coração que o sinta.


06/07/1927

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que estejamos.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos. Tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso.


09/06/1932

Maior é quem a passo e passo avança

Maior é quem a passo e passo avança
Na sua consciência do Universo
        E palmo a palmo ganha
        O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
        Até sentir seu corpo
        Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
        Deixa luzir p'ra outros
        As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
        A glória onde te leva
        Mais que a onde não há glória?

Manhã que raias sem olhar a mim,

Manhã que raias sem olhar a mim,
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
        É para mim que sois
        Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
        No que me nega sinto
        Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
        Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.

Me concedam os deuses lá do alto

Me concedam os deuses lá do alto
Da sua calma que não custa ou serve
        Ter uma vida tal qual eles
        Se fossem homens a teriam...
Dominando desejos e esperanças
Não para ser comprado pelas ínguas
        A maldizer da (...)…

Mestre, são plácidas

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos.
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o Sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.


12/06/1914

Meu gesto que destrói

Meu gesto que destrói
A mole das formigas,
Tomá-lo-ão elas por de um ser divino;
Mas eu não sou divino para mim.

Assim talvez os deuses
Para si o não sejam,
E só de serem do que nós maiores
Tirem o serem deuses para nós.

Seja qual for o certo,
Mesmo para com esses
Que cremos serem deuses, não sejamos
Inteiros numa fé talvez sem causa.

Nada fica de nada. Nada somos. [1]

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
        Da húmida terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
        Poente, porque não elas?
Somos contos contando contos, nada.

Nada fica de nada. Nada somos. [2]

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

Nada me dizem vossos deuses mortos

Nada me dizem vossos deuses mortos
Que eu haja de aprender. O Crucifixo
        Sem amor e sem ódio
        Do meu (...) afasto.

Que tenho eu com as crenças que o Cristo
Curvado o torso a mim, latino, morra?
        Mais com o sol me entendo
        Que com essas verdades.

Que o sejam... Deus a mim não só foi dado
Que uma visão das cousas que há na terra
        E uma razão incerta,
        E um saber que há deuses...

Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo

Ouço, como se o cheiro
De flores me acordasse...
É música – um canteiro
De influência e disfarce.

Impalpável lembrança,
Sorriso de ninguém,
Com aquela esperança
Que nem esperança tem...

Que importa, se sentir
É não se conhecer?
Ouço, e sinto sorrir
O que em mim nada quer.


21/08/1933

Não a ti, Cristo, odeio ou te não quero.

Não a Ti, Cristo, odeio ou te não quero.
Em ti como nos outros creio deuses mais velhos.
Só te tenho por não mais nem menos
Do que eles, mas mais novo apenas.

Odeio-os sim, e a esses com calma aborreço,
Que te querem acima dos outros teus iguais deuses.
Quero-te onde tu stás, nem mais alto
Nem mais baixo que eles, tu apenas.

Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia
Como tu, um a mais no Panteão e no culto,
Nada mais, nem mais alto nem mais puro
Porque para tudo havia deuses, menos tu.

Cura tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a vida
É múltipla e todos os dias são diferentes dos outros,
E só sendo múltiplos como eles
Staremos com a verdade e sós.

Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.

Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
        Pantéon que preside
        À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
        Trouxe algo que faltava
        Ao número dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
        Vai enxugar o pranto
        Dos humanos que sofrem.

Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
        Das presenças maiores
        E parceiras da tua.

A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
        Supersticiosos leigos
        Na ciência dos deuses.

Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
        Cada vez maior força
        Plo número maior.

Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
        Nós homens nos façamos
        Unidos pelos deuses.

Não batas palmas diante da beleza.

Não batas palmas diante da beleza.
Não se sente a beleza demasiado.
        A beleza não passa
        É a sombra dos Deuses.

Mexa-se embora a nossa estéril vida,
Desdobre Éolo sobre nós seus sopros
        (...)
        (...)

As estátuas aos deuses representam
Porque as estátuas são calmas e eternas
        Nem lhes fiam seu curto
        E negro linho as Parcas.

Segundo frias leis Júpiter troa
Em certas noites aparece Diana
        E as leis porque aparece
        Dão-lhe a divina calma.

O que chamamos leis na acção dos Deuses
São apenas a calma que eles têm
        Não de cima lhes vêm.
        São a vida que querem.

Não canto a noite porque no meu canto

Não canto a noite porque no meu canto
O sol que canto acabará em noite.
Não ignoro o que esqueço.
Canto por esquecê-lo.

Pudesse eu suspender, inda que em sonho,
O Apolíneo curso, e conhecer-me,
Inda que louco, gémeo
De uma hora imperecível!


02/09/1923

Não como ante donzela ou mulher viva

Não como ante donzela ou mulher viva
Com calor na beleza humana delas
        Devemos dar os olhos
        À beleza imortal.

Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
        Não de outro modo é ela
        Imortal como os deuses.

Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
        Devemos olhar de néscios
        Olhos para a beleza.

Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
        Diante da beleza
        Façamo-nos sóbrios.

Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
        Por isso a contemplemos
        Num claro esquecimento.

E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
        E o longínquo sorriso
        De quem assiste à vida.

Não consentem os deuses mais que a vida. [2]

Não consentem os deuses mais que a vida.
Por isso, Lídia, duradouramente
        Façamos-lhe a vontade
        Ao sol e entre as flores.
Camaleões pousados na Natureza
Tomemos sua calma e alegria
        Por cor da nossa vida,
        Por um jeito do corpo.
Como vidros às luzes transparentes
E deixando cair a chuva triste,
        Só mornos ao sol quente,
        E reflectindo um pouco.

Não inquiro do anónimo futuro

Não inquiro do anónimo futuro
        Que serei, pois que tenho,
Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro
        Os olhos do vindouro.
Odeio o que não vejo. Se pudera,
        Vê-lo, grato o não vira.
Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem
        Não tenho o que não tenho.
O que o Destino manda, saiba-o ele.
        A ignorância me basta.

Não mais pensada que a dos mudos brutos

Não mais pensada que a dos mudos brutos
Se fada a humana vida. Quem destina
        Mais que os gados nos campos
        O fim do seu destino?

Não morreram, Neera, os velhos deuses.

Não morreram, Neera, os velhos deuses.
Sempre que a humana alegria
        Renasce, eles se voltam
        Para a nossa saudade.

Não porque os deuses findaram, alva Lídia, choro…

Não porque os deuses findaram, alva Lídia, choro...
Mas porque nas bocas de hoje os nomes sobrevivem
Mortos apenas, como nomes em pedras sepulcrais.
        Por isso, Lídia, lamento
Que Vénus em bocas cristãs seja uma palavra dita,
Que Apolo seja um nome que usam quantos
Sequentes de Cristo — e a crença lúcida
        Nos deuses puramente deuses,
Tenha passado e ficado, cinza do que era fogo,
Lama do que era água reflectindo as árvores,
Tronco morto do que dava fruto e florescia.
        Mas se choro, não creio
Menos que ainda existo, como existem os deuses.

Não pra mim mas pra ti teço as grinaldas

Não pra mim mas pra ti teço as grinaldas
Que de hera e rosas eu na fronte ponho.
Para mim tece as tuas
Que as minhas eu não vejo.

Um para o outro, mancebo, realizemos
A beleza improfícua mas bastante
De agradar um ao outro
Plo prazer dado aos olhos.

O resto é o fado que nos vai contando
Pelo bater do sangue em nossas frontes
A vida até que chegue
A hora do barqueiro.

Não queiras, Lídia, edificar no espaço [2]

Não queiras, Lídia, edificar no espaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
        Esta ou aquela vida.
        Tu própria és tua vida.
Não te destines. Tu não és futura.
Cumpre hoje, e a gestal taça gosta
        A que prevês seguinte
        Não gozes na que gozas.
Quem sabe se entre a taça que tu bebes
E a que queres que siga a muda Sorte
        Não interpõe, saindo,
        Toda (...)

Não quero a fama, que comigo a têm

Não quero a fama, que comigo a têm
        Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
        Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
        O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
        Porém nato e sem erro.

Não quero as oferendas

Não quero as oferendas
Com que fingis, sinceros,
Dar-me os dons que me dais.
Dais-me o que perderei,
Chorando-o, duas vezes,
Por vosso e meu, perdido.

Antes mo prometais
Sem mo dardes, que a perda
Será mais na 'sperança
Que na recordação.

Não terei mais desgosto
Que o contínuo da vida,
Vendo que com os dias
Tarda o que 'spera, e é nada.


02/09/1923

Não quero recordar nem conhecer-me.

Não quero recordar nem conhecer-me.
Somos demais se olhamos em quem somos.
Ignorar que vivemos
Cumpre bastante a vida.

Tanto quanto vivemos, vive a hora
Em que vivemos, igualmente morta
Quando passa connosco,
Que passamos com ela.

Se sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois sem poder que vale conhecermos?),
Melhor vida é a vida
Que dura sem medir-se.


02/09/1923

Não quero, Cloé, teu amor, que oprime

Não quero, Cloé, teu amor, que oprime
Porque me exige o amor. Quero ser livre.

A esperança é um dever do sentimento.


01/11/1930

Não sei de quem recordo meu passado

Não sei de quem recordo meu passado
Que outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como sentindo com minha alma aquela
Alma que a sentir lembro.
De dia a outro nos desamparamos.
Nada de verdadeiro a nós nos une –
Somos quem somos, e quem fomos foi
Coisa vista por dentro.


02/07/1930

Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,

Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?


12/11/1930

Não sem lei, mas segundo leis diversas

Não sem lei, mas segundo leis diversas
Entre os homens reparte o fado e os deuses
        Sem justiça ou injustiça
Prazeres, dores, gozos e perigos.

Bem ou mal, não terás o que mereces.
Querem os deuses a isto obrigar
        Porque o Fado não tem
Leis nossas com que reja a sua lei.

Quem é rei hoje, amanhã escravo cruza
Com o escravo de ontem que é depois rei.
        Sem razão um caiu,
Sem causa nele o outro ascenderá.

Não em nós, mas dos deuses no capricho
E nas sombras p'ra além do seu domínio
        Está o que somos, e temos,
A vida e a morte do que somos nós.

Se te apraz mereceres, que te apraza
Por mereceres, não porque te o Fado
        Dê o prémio ou a paga
De com constância haveres merecido.

Dúbia é a vida, inconstante o que a governa.
O que esperamos nem sempre acontece
        Nem nos falece sempre,
Nem há com que a alma uma ou outra cousa espere.

Torna teu coração digno dos deuses
E deixa a vida incerta ser quem seja.
        O que te acontecer
Aceita. Os deuses nunca se rebelam.

Nas mãos inevitáveis do destino
A roda rápida soterra hoje
        Quem ontem viu o céu
Do transitório auge do seu giro.

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.


01/11/1930

Não só vinho, mas nele o olvido, deito

Não só vinho, mas nele o olvido, deito
Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorrira?
Dos brutos, não a vida, senão a alma.
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não 'spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.


13/06/1926 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)

Não tenhas nada nas mãos

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.

Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra

Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.


19/06/1914

Não tenhas nada nas mãos [2]

Não tenhas nada nas mãos
Salvo uma memória na alma

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último

Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio

Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.

Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...

Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?

Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra

Que serás quando fores
O fim da tua estrada?

Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.

Não torna ao ramo a folha que o deixou,

Não torna ao ramo a folha que o deixou,
Nem com seu mesmo pó se uma outra forma.
O momento, que acaba ao começar
        Este, morreu p'ra sempre.
Não me promete o incerto e vão futuro
Mais do que esta iterada experiência
Da mutada sorte e a condição deserta
        Das cousas e de mim.
Por isso, neste rio universal
De que sou, não uma onda, senão ondas,
Decorro inerte, sem pedido, nem
        Deuses em quem o empregue.

Não torna atrás a negregada prole

Não torna atrás a negregada prole
        Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
        Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
        Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
        Saudoso de todos.

Neera, passeemos juntos

Neera, passeemos juntos
Só para nos lembrarmos disto...
Depois quando envelhecermos
E nem os Deuses puderem
Dar cor às nossas faces
E mocidade aos nossos colos,
Lembremo-nos, à lareira,
Cheiinhos de pesar
O ter quebrado o fio,
Lembremo-nos, Neera,
De um dia ter passado
Sem nos termos amado…

Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,

Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,
Que eu, 'stóico sem dureza,
Na sentença gravada do Destino
Quero gozar as letras.


21/11/1928

Nem da erva humilde se o Destino esquece.

Nem da erva humilde se o Destino esquece.
Saiba a lei o que vive.
De sua natureza murcham rosas
E prazeres se acabam.
Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem nós os conhecemos.


20/11/1928

Nem destino sem esperança

Nem destino sem esperança
Somos cegos, que vêem só quem tocam.

Nem relógio parado, nem a falta

Nem relógio parado, nem a falta
Da água em clepsidra, ou na ampulheta a areia
        Tiram o tempo ao tempo.

Nem vã esperança vem, não anos vão,

Nem vã esperança vem, não anos vão,
Desesperança, Lídia, nos governa
        A consumanda vida.
Só espera ou desespera quem conhece
Que há que esperar. Nós, no labento curso
        Do ser, só ignoramos.
Breves no triste gozo desfolhamos
Rosas. Mais breves que nós fingem legar
        A comparada vida.

Neste dia em que os campos são de Apolo

Neste dia em que os campos são de Apolo
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
        O sentirmos a vida.

Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
        Disciplina da dança...

Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
        Abdiquemos do dia,

E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
        Do dia passageiro.

Ninguém a outro ama, senão que ama

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.


10/08/1932

Ninguém, na vasta selva virgem

Ninguém, na vasta selva virgem
Do mundo inumerável, finalmente
Vê o Deus que conhece.
Só o que a brisa traz se ouve na brisa
O que pensamos, seja amor ou deuses,
Passa, porque passamos.


10/12/1931

No breve número de doze meses

No breve número de doze meses
O ano passa, e breves são os anos,
Poucos a vida dura.
Que são doze ou sessenta na floresta
Dos números, e quanto pouco falta
Para o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido, do curso
Que me é imposto correr descendo, passo.
Apresso, e breve acabo.
Dado em declive deixo, e invito apresso
O moribundo passo.


18/06/1930

No ciclo eterno das mudáveis coisas

No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo Inverno após novo Outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.


24/11/1925

No grande espaço de não haver nada

No grande espaço de não haver nada
Que a noite finge, brilham mal os astros.
        Não há lua, e ainda bem.
Neste momento, Lídia, considero
Tudo, e um frio que não há me entra
        Na alma. Não existes.

No magno dia até os sons são claros.

No magno dia até os sons são claros.
Pelo repouso do amplo campo tardam.
Múrmura, a brisa cala.
Quisera, como os sons, viver das coisas
Mas não ser delas, consequência alada
Com o real em baixo.

No momento em que vamos pelos prados

No momento em que vamos pelos prados
E o nosso amor é um terceiro ali,
        Que usurpa que saibamos
        Um ao certo do outro,

Nesse momento, em que o que vemos mesmo
Sem o vermos na própria essência entra
        Da nossa alma comum —
        Lídia, nesse momento

De tão sentir o amor não sei dizer-to,
Antes, se falo, só dos prados falo
        E põe-se música ao meu
        Eros connosco invisível.

No mundo, só comigo, me deixaram

No mundo, só comigo, me deixaram
Os deuses que dispõem.
Não posso contra eles: o que deram
Aceito sem mais nada.
Assim o trigo baixa ao vento, e, quando
O vento cessa, ergue-se.


19/11/1930

Nos altos ramos de árvores frondosas

Nos altos ramos de árvores frondosas
O vento faz um rumor frio e alto,
Nesta floresta, em este som me perco
E sozinho medito.
Assim no mundo, acima do que sinto,
Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma,
E nada tem sentido – nem a alma
Com que penso sozinho.


26/04/1928

Nós ao igual destino

Nós ao igual destino
Iniguais pertencemos.

Nunca a alheia vontade, inda que grata,

Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria. Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Niguém te dá quem és. Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário
Cumpre alto. Sê teu filho.

O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte

O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
        Quer verdade, e não sorte.

Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
        Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
        E não do que deseja.

O deus Pã não morreu,

O deus Pã não morreu,
Cada campo que mostra
Aos sorrisos de Apolo
Os peitos nus de Ceres –
Cedo ou tarde vereis
Por lá aparecer
O deus Pã, o imortal.

Não matou outros deuses
O triste deus cristão.
Cristo é um deus a mais,
Talvez um que faltava.
Pã continua a dar
Os sons da sua flauta
Aos ouvidos de Ceres
Recumbente nos campos.

Os deuses são os mesmos,
Sempre claros e calmos,
Cheios de eternidade
E desprezo por nós,
Trazendo o dia e a noite
E as colheitas douradas
Sem ser para nos dar
O dia e a noite e o trigo
Mas por outro e divino
Propósito casual.


12/06/1914

O mar jaz. Gemem em segredo os ventos [2]

O mar jaz; gemem em segredo os ventos
Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?


06/10/1914 (Athena, nº1, Outubro de 1924)

O que sentimos, não o que é sentido,

O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.


08/07/1930

O rastro breve que das ervas moles

O rastro breve que das ervas moles
Ergue o pé findo, o eco que oco coa,
A sombra que se adumbra,
O branco que a nau larga –
Nem maior nem melhor deixa a alma às almas,
O ido aos indos. A lembrança esquece.
Mortos, inda morremos.
Lídia, somos só nossos.


25/01/1928 (Presença, nº 10, 15 de Março de 1928)

O relógio de sol partido marca

O relógio de sol partido marca
Do mesmo modo que o inteiro o lapso
        Da mesma hora perdida…
O mesmo gozo com que esqueço, ou o creio,
A vida, finda, me a mim mesmo mostra
        Mais fatal e mortal,
Para onde quer que siga a certa noite
        Quer ou não a vejamos.

O ritmo antigo que há nos pés descalços

O ritmo antigo que há em pés descalços,
Esse ritmo das ninfas repetido,
Quando sob o arvoredo
Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,
Que scura a spuma deixa; vós, infantes,
Que inda não tendes cura
De ter cura, responde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo,
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
E a perene maré
Flui, enchente ou vazante.


02/08/1914 (Athena, nº1, Outubro de 1924)

O sono é bom pois despertamos dele

O sono é bom pois despertamos dele
Para saber que é bom. Se a morte é sono
Despertaremos dela;
Se não, e não é sono,

Conquanto em nós é nosso a refusemos
Enquanto em nossos corpos condenados
Dura, do carcereiro,
A licença indecisa.

Lídia, a vida mais vil antes que a morte,
Que desconheço, quero; e as Dores colho
Que te entrego, votivas
De um pequeno destino.


19/11/1927

Olho os campos, Neera [4]

Olho os campos, Neera
Verdes campos, e sinto
Como virá um dia
Em que não mais os veja.

Par de árvores cobre
O céu aqui sem nuvens
E faz correr mais triste
A viva e alegre linfa.

Mas por um só momento
Fugaz e passageiro
Esta ideia eu emprego
Para o seu uso triste.

Cedo me volve a calma
Com que me faço o espelho
Do céu imperturbado
E da fonte insciente.

Deixa o futuro, — porque
Não está aqui, não é nada;
Só o fugaz presente
Enquanto dura existe.

Vive a imperfeita hora
Sem olhar além dela
E sem nada esperares
Dos homens, nem dos deuses.

Olho os campos, Neera, [2]

Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.

Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.

Olho os campos, Neera, [3]

Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e penso
Em que virá um dia
Em que não mais os olhe.

Isto se o meditar,
Me toldará os céus
E fará menos verdes
Os verdes campos reais.

Ah! Neera, o futuro
Ao futuro deixemos.
O que não está presente
Não existe pra nós.

Hoje não tenho nada
Senão os verdes campos
E o céu azul por cima.
Seja isto todo o mundo.

Os deuses desterrados [2]

Os deuses desterrados
Os irmãos de Saturno
Às vezes no crepúsculo
Vêm espreitar a vida…

Vêm então ter connosco
Remorsos e saudades...
É a presença deles,
Deuses que o destroná-los
Tornou espirituais,
De matéria divina
Longínqua e inactiva...
E o poente tem cores
De tristeza e cansaços.
E ouve-se soluçar
Para além das esferas
Hipérion que chora
O seu palácio antigo
Que Apolo lhe roubou...

Os deuses desterrados, [1]

Os deuses desterrados,
Os irmãos de Saturno,
Às vezes, no crepúsculo
Vêm espreitar a vida.

Vêm então ter connosco
Remorsos e saudades
E sentimentos falsos.
É a Presença deles,
Deuses que o destroná-los
Tornou espirituais,
De matéria vencida,
Longínqua e inactiva.

Vêm, inúteis forças,
Solicitar em nós
As dores e os cansaços,
Que nos tiram da mão,
Como a um bêbedo mole,
A taça da alegria.

Vêm fazer-nos crer,
Despeitadas ruínas
De primitivas forças,
Que o mundo é mais extenso
Que o que se vê e palpa,
Para que ofendamos
A Júpiter e a Apolo.

Assim até à beira
Terrena do horizonte
Hipérion no crepúsculo
Vem chorar pelo carro
Que Apolo lhe roubou.

E o poente tem cores
Da dor dum deus longínquo
E ouve-se soluçar
Para além das esferas...
Assim choram os deuses.


12/06/1914

Os deuses e os Messias que são deuses

Os deuses e os Messias que são deuses
Passam, e os sonhos vãos que são Messias.
A terra muda dura.
Nem deuses, nem Messias, nem ideias
Que traz em rosas. Minhas são se as tenho.
Se as tenho, que mais quero?


08/02/1931

Os deuses são felizes.

Os deuses são felizes.
Vivem a vida calma das raízes.
Seus desejos o Fado não oprime,
Ou, oprimindo, redime
Com a vida imortal.
Não há
Sombras ou outros que os contristem.
E, além disto, não existem...


10/07/1920

Outros com liras ou com harpas narram,

Outros com liras ou com harpas narram,
       Eu com meu pensamento.
Que, por meio de música, acham nada
        Se acham só o que sentem.
Mais pesam as palavras que, medidas,
        Dizem que o mundo existe.

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.


01/06/1916

Para os deuses as coisas são mais coisas.

Para os deuses as coisas são mais coisas.
Não mais longe eles vêem, mas mais claro
Na certa Natureza
E a contornada vida...
Não no vago que mal vêem
Orla misteriosamente os seres,
Mas nos detalhes claros
Estão seus olhos.
A Natureza é só uma superfície.
Na sua superfície ela é profunda
E tudo contém muito
Se os olhos bem olharem.
Aprende, pois, tu, das cristãs angústias,
Ó traidor à multíplice presença
Dos deuses, a não teres
Véus nos olhos nem na alma.

Para quê complicar inutilmente,

Para quê complicar inutilmente,
Pensando, o que impensado existe? Nascem
        Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.

Para ser grande, sê inteiro: nada

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Passando a vida em ver passar a de outros,

Passando a vida em ver passar a de outros,
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
        Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
        E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem  (...)
        Penélopes tristes.

Pensa quantos, no ardor da jovem ida,

Pensa quantos, no ardor da jovem ida,
Um destino parou; quantos, obtendo
        Da meta inesperada
        (...)

Não esperes nem consigas; enche a taça
E abdica: tudo é natural e estranho.
        Nem justos nem injustos
        São os Deuses, senão outros.

O conseguido é dado; tudo é imposto.
Prazer ou mágoa, são qual sol ou chuva,
        Dados, ora são desejos
        Ora ao (...)

(...)
(...) esperanças breves;
        Quantos, que à meta imposta
A só esperança lembrada antequiseram.

Tal porque morre cai, tal porque vive.
O que se cumpre nunca se quisera,
        Salvo se a morte é cega
        Do pó do (...)

Pequena vida consciente

Pequena vida consciente
A quem outra persegue
A imagem repetida
Do abismo onde perdê-la.

Pequena vida consciente, sempre

Pequena vida consciente, sempre
Da repetida imagem perseguida
Do fim inevitável, a cada hora
        Sentindo-se mudada,
E, como Orfeu volvendo à vinda esposa
O olhar algoz, para o passado erguendo
A memória pra em mágoas o apagar
        No baratro da mente.

Pequeno é o espaço que de nós separa

Pequeno é o espaço que de nós separa
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será o morto
        De hoje que então acaba.
Só o passado, comum a nós e a ele,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
        Histórias esquecidas…
Se pudéssemos pôr o pensamento
Com esta visão adentro de ideia
Que havemos de ter naquela hora,
        Estranhos olharíamos
O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
        Alheia antes de a termos.

Pesa o decreto atroz do fim certeiro.

Pesa o decreto atroz do fim certeiro.
Pesa a sentença igual do juiz ignoto
Em cada cerviz néscia. É entrudo e riem.
Felizes, porque neles pensa e sente
A vida, que não eles!

Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouca diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sus! Deixai
Brincar os moribundos!

De rosas, inda que de falsas teçam
Capelas veras. Breve e vão é o tempo
Que lhes é dado, e por misericórdia
Breve nem vão sentido.


20/02/1928

Pese a sentença igual da ignota morte

Pese a sentença igual da ignota morte
Em cada breve corpo, é entrudo e riem,
Felizes, porque em eles pensa e sente
        A vida, que não eles.

De rosas, inda que de falsas, teçam
Capelas veras. Escasso, curto é o espaço
Que lhes é dado, e por bom caso em todos
        Breve nem vão sentido.

Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouco diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sós! Leixai
        Viver os moribundos!

Pobres de nós que perdemos quanto

Pobres de nós que perdemos quanto
Sereno e forte nos dava a vida
        O único modo
O único humano de a ter...
        Pobres de nós
Crianças orfãs que mal se lembram
        De pai e mãe
E andam sozinhas na vida cega
        Sem ter carinhos
        Nem saber nada
De aonde vamos pela floresta,
Nem donde viemos pla estrada fora…
E somos tristes, e somos velhos,
        E fracos sempre…
        Sem que nos sirva…

Pois que nada que dure, ou que, durando,

Pois que nada que dure, ou que, durando,
Valha, neste confuso mundo obramos,
E o mesmo útil para nós perdemos
Connosco, cedo, cedo,

O prazer do momento anteponhamos
À absurda cura do futuro, cuja
Certeza única é o mal presente
Com que o seu bem compramos.

Amanhã não existe. Meu somente
É o momento, eu só quem existe
Neste instante, que pode o derradeiro
Ser de quem finjo ser?


16/03/1933

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,

Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,
        Qual aquilo que gosta.
Pares quem os fados diferentes
        Como rios diversos,
Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte,
        Sempre ao mar em que acabam.
Gostemos pois aquilo em que pusémos
        O gosto inaprendido,
Temos as tenras tardes, não (...)

Quando Neptuno houver alongado

Quando Neptuno houver alongado
Até quase aos bosques ao cimo da praia
Os seus braços com mãos ruidosas de espuma
        E Éolo houver
Largado por sobre o mar sob o azul
        Onde Apolo aquece
Os cavalos frescos dos ventos leves,
        Eu irei contigo
Passear na altura cheirosa a mar
        Dos (...) altos
E concluir que esta vida é pouco
        Desde que os deuses
Foram velados e os homens ingratos
Dos altares esquecidos tiraram todos
        Os ex-votos velhos,
Os ex-votos velhos que eram (...)
(...)
        Que Cristo e Maria
E de antes que a cruz pusesse a nudez
        Da sua secura
De encontro ao céu sempre velho e novo.

Quando, Lídia, vier o nosso Outono

Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa –
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.


13/06/1930 (Presença, nº 31/32, Março-Junho de 1931)

Quanta tristeza e amargura afoga

Quanta tristeza e amargura afoga
Em confusão a 'streita Vida! Quanto
Infortúnio mesquinho
Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anónimo, e entra
Na morte como em casa;
Ou o sábio que, perdido
Na ciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que ergue
Braços que se desfazem
A um céu inexistente.


13/06/1926 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)

Quanto faças, supremamente faze.

Quanto faças, supremamente faz.
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possível,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.


27/02/1932

Quantos gozam o gozo de gozar

Quantos gozam o gozo de gozar
Sem que gozem o gozo, e o dividem
        Entre eles e o verem
        Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
        Aos outros como prémio
        De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
        Aprende o que te ensina
        Teu corpo, teu limite.

Quatro vezes mudou a estação falsa

Quatro vezes mudou a estação falsa
No falso ano, no imutável curso
        Do tempo consequente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde;
E não sabe ninguém qual é o primeiro,
        Nem o último, e acabam.

Que mais que um ludo ou jogo é a extensa vida,

Que mais que um ludo ou jogo é a extensa vida,
Em que nos distraímos de outra coisa —
        Que coisa, não sabemos —;
Livres porque brincamos se jogamos,
Presos porque tem regras todo jogo;
        Quem somos? quem seremos?
Feliz o a quem surge a consciência
Do jogo, mas não toda, e essa dele
        Em o saber perdê-la.

Quem diz ao dia, dura! e à treva, acaba!

Quem diz ao dia, dura! e à treva, acaba!
E a si não diz, não digas!
Sentinelas absurdas, vigilamos,
Ínscios dos contendentes.
Uns sob o frio, outros no ar brando, guardam
O posto e a insciência sua.


21/11/1928

Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte

Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
        Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
        O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
        E o que outro tiveres?

Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;

Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
E ver é ser alheio. Meu passado
        Só por  visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que me sinto
         Chegou hoje à estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a exacta forma
         Que tem para consigo?

Quer com amor, que sem amor, senesces

Quer com amor, que sem amor, senesces
Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.

Quer pouco: terás tudo.

Quer pouco, terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.

Quero dos deuses só que me não lembrem.

Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade.

Quero ignorado, e calmo

Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.


02/03/1933

Quero versos que sejam como jóias

Quero versos que sejam como jóias
Para que durem no porvir extenso
        E os não macule a morte
        Que em cada cousa a espreita,
Versos onde se esquece o duro e triste
Lapso curto dos dias e se volve
        À antiga liberdade
        Que talvez nunca houvemos.
Aqui, nestas amigas sombras postas
Longe, onde menos nos conhece a história
        Lembro os que urdem, cuidados,
        Seus descuidados versos.
E mais que a todos te lembrando, escrevo
Sob o vedado sol, e, te lembrando,
        Bebo, imortal Horácio,
        Supérfluo, à tua glória...

Quero, da vida, só não conhecê-la.

Quero, da vida, só não conhecê-la.
Bastam, a quem o Fado pôs na vida,
        As formas sucessórias
        Da vida insubsistente.
Pouco serve pensar que são eternos
Os nossos nadas com que na alma amamos
         Os outros pobres nadas
        Que (...)
Gratos aos deuses, menos pela incerta
Posse do sonhado certo, recolhamos
        A mercê passageira
        De instantes que não duram.

Quero, Neera, que os teus lábios laves

Quero, Neera, que os teus lábios laves
        Na nascente tranquila
Para que contra a tua febre e a triste
        Dor que pões em viver,
Sintas a fresca e calma natureza
        Da água, e reconheças
Que não têm penas nem desassossegos
        As ninfas das nascentes
Nem mais soluços do que o som da água
        Alegre e natural.
As nossas dores, não, Neera, vêm
        Das causas naturais
Datam da alma e do infeliz fruir
        Da vida com os homens.
Aprende pois, ó aprendiza jovem
        Das clássicas delícias,
A não pôr mais tristeza que um suspiro
        No modo como vives.
Nasceste pálida, deitando a regra
        Da tua vã beleza
Sob a estólida fé das nossas mãos
        Medrosas de ter gozo
Demasiado preso à desconfiança
        Que vem de teu saber,
Não para essa vã mnemónica
        Do futuro fatal.
Façamos vívidas grinaldas várias
        De sol, flores e risos
Para ocultar o fundo fiel à Noite
        Do nosso pensamento
Curvado já em vida sob a ideia
        Do plutónico jugo
Cônscia já da lívida aguardança
        Do caos redivivo.

Quis que comigo vísseis

Quis que comigo vísseis
        A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
         Um pampal sem fruto.
 (...) —  Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
        E a raiz não medita.

Rasteja mole pelos campos ermos

Rasteja mole pelos campos ermos
O vento sossegado.
Mais parece tremer de um tremor próprio,
Que do vento, o que é erva.
E se as nuvens no céu, brancas e altas,
Se movem, mais parecem
Que gira a terra rápida e elas passam,
Por muito altas, lentas.
Aqui neste sossego dilatado
Me esquecerei de tudo,
Nem hóspede será do que conheço
A vida que deslembro.
Assim meus dias seu decurso falso
Gozarão verdadeiro.


27/02/1932

Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo,

Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.


19/06/1914

Se a cada coisa que há um deus compete,

Se a cada coisa que há um deus compete,
Porque não haverá de mim um deus?
Porque o não serei eu?
É em mim que o Deus anima
Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo –
Coisas, homens, sem alma.


Dezembro de 1931

Sê dono de ti

Sê o dono de ti
Sem fechares os olhos.
  
Na dura mão aperta
Com um tacto encavado
O mundo exterior
Contra a palma sentindo
Outra cousa que a palma.

Se em verdade não sabes (nem sustentas

Se em verdade não sabes (nem sustentas
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
        Operoso a não vives?

Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
        Gozas menos que ganhas.

Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
        De (...)

Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
        Sem ele. (...)

Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.

Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
        O que o Destino manda.

Se hás-de ser o que choras

Se hás-de ser o que choras
Ter que ser, não o chores.
Se toda a mole imensa
Do mundo ser-te-á noite,
Aproveita este breve
Dia, e sem choro ou cura
Goza-o, contente por viveres
O pouco que te é dado.

Se já não torna a eterna primavera

Se já não torna a eterna primavera
        Que em sonhos conheci,
O que é que o exausto coração espera
        Do que não tem em si?

Se não há mais florir de árvores feitas
        Só de alguém as sonhar,
Que coisas quer o coração perfeitas,
        Quando, e em que lugar?

Não: contentemo-nos com ter a aragem
        Que, porque existe, vem
Passar a mão sobre o alto da folhagem
        E assim nos faz um bem.

Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,

Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,
        Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
        Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
        No inútil infinito.

Se recordo quem fui, outrem me vejo,

Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.


26/05/1930

Segue o teu destino,

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver
só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe
a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Seguro assento na coluna firme [ 2]

Seguro assento na coluna firme
        Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
         Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
         Póstumo  substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
         Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
        Será mais eu que eu mesmo.

A obra imortal excede o autor da obra;
        E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
         Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
         Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
         Mortal e imortal  vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
         Mas se assim é, é assim.

Seguro assento na coluna firme [ 3]

Seguro assento na coluna firme
        Dos versos em que fico.
O criador interno movimento
        Por quem fui autor deles
Passa, e eu sobrevivo, já não quem
        Escreveu o que fez.
Chegada a hora, passarei também
        E os versos, que não sentem
Serão a única restança posta
        Nos capitéis do tempo.

A obra imortal excede o autor da obra;
        E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
        Morremos a obra viva.
Assim os deuses esta nossa regem
        Mortal e imortal vida;
Assim o Fado faz que eles a rejam.
        Mas se assim é, é assim.

Aquele agudo interno movimento,
        Por quem fui autor deles
Primeiro passa, e eu, outro já do que era,
         Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, também serei menos
        Que os versos permanentes.
 E papel, ou papiro escrito e morto
        Tem mais vida que a mente.

Na noite a sombra é mais igual à noite
        Que o corpo que alumia.

Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre

Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
E nós com ele, nada o árbitro escravo
        Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
        Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.

Tombai mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
        No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
       O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.

Sempre me teve o breve tempo febril

Sempre me teve o breve tempo febril
        Nem dor o faz mais lento.

Ser feliz é um jugo, o ser grande

Ser feliz é um jugo, o ser grande
É uma servidão: tudo repugno
        Salvo esta majestade.

Sereno aguarda o fim que pouco tarda.

Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.

Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.


31/07/1932

Severo narro. Quanto sinto, penso.

Severo narro. Quanto sinto, penso.
Palavras são ideias.
Múrmuro, o rio passa, e o que não passa,
Que é nosso, não do rio.
Assim quisesse o verso: meu e alheio
E por mim mesmo lido.


16/06/1932

Sim, sei bem

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Só esta liberdade nos concedem

Só esta liberdade nos concedem
Os deuses: submetermo-nos
Ao seu domínio por vontade nossa.
Mais vale assim fazermos
Porque só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.

Nem outro jeito os deuses, sobre quem
O eterno fado pesa,
Usam para seu calmo e possuído
Convencimento antigo
De que é divina e livre a sua vida.

Nós, imitando os deuses,
Tão pouco livres como eles no Olimpo,
Como quem pela areia
Ergue castelos para encher os olhos,
Ergamos nossa vida
E os deuses saberão agradecer-nos
O sermos tão como eles.


30/07/1914

Só o ter flores pela vista fora

16/06/1914

Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos
Basta para podermos
Achar a vida leve.

De todo o esforço seguremos quedas
As mãos, brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.
E vivamos assim.

Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,

Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas carícias
Dos instantes volúveis.

Pouco tão pouco pesará nos braços
Com que, exilados das supernas luzes,
Escolhermos do que fomos
O melhor pra lembrar.

Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes de repente antigos,
E cada vez mais sombras,
Ao encontro fatal

Do barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços do horror estígio,
E o regaço insaciável
Da pátria de Plutão.


16/06/1914

Sob a leve tutela

Sob a leve tutela
De deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.

Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.

Da verdade não quero
Mais que a vida; que os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.

Sob estas árvores ou aquelas árvores

Sob estas árvores ou aquelas árvores
        Conduzi a dança,
Conduzi a dança, ninfas singelas
        Até ao amplo gozo
Que tomais da vida. Conduzi a dança
        E sê quase humanas
Com o vosso gozo derramado em ritmos
        Em ritmos solenes
Que a nossa alegria torna maliciosos
        Para nossa triste
Vida que não sabe sob as mesmas árvores
        Conduzir a dança...

Sob o jugo essencial e (...)

Sob o jugo essencial e (...)
De Saturno, e de Júpiter seu filho,
        Não vale que com Marte
        Me aborreçam os momentos.
Calmo, solenemente passageiro,
Dado às cousas e à minha vida própria,
        Procuro, não nos astros
        Mas em mim mesmo um amigo.
E alheio a quanto sob os céus distantes
Troa e anuvia a placidez das cousas,
        Pertenço-me em segredo
        Perante a Natureza.

Sofro, Lídia, do medo do destino. [1]

Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
        Lídia, me aterra.
Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
        Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
        Até ao fim.
A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa estima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
        E que eu a viva.

Sofro, Lídia, do medo do destino. [2]

Sofro, Lídia, do medo do destino.
A leve pedra que um momento ergue
As lisas rodas do meu carro, aterra
Meu coração.

Tudo quanto me ameace de mudar-me
Para melhor que seja, odeio e fujo.
Deixem-me os deuses minha vida sempre
Sem renovar

Meus dias, mas que um passe e outro passe
Ficando eu sempre quase o mesmo; indo
Para a velhice como um dia entra
No anoitecer.


26/05/1917

Solene passa sobre a fértil terra

Solene passa sobre a fértil terra
A branca, inútil nuvem fugidia,
Que um negro instante de entre os campos ergue
Um sopro arrefecido.

Tal me alta na alma a lenta ideia voa
E me enegrece a mente, mas já torno,
Como a si mesmo o mesmo campo, ao dia
Da imperfeita vida.


31/05/1927

Súbdito inútil de astros dominantes,

Súbdito inútil de astros dominantes,
Passageiros como eu, vivo uma vida
Que não quero nem amo,
Minha porque sou ela,

No ergástulo de ser quem sou, contudo,
De em mim pensar me livro, olhando no alto
Os astros que dominam
Submissos de os ver brilhar.

Vastidão vã que finge de infinito
(Como se o infinito se pudesse ver!) –
Dá-me ela a liberdade?
Como, se ela a não tem?


19/11/1933

Tão cedo passa tudo quanto passa!

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.


03/11/1923

Tarda o verão. No campo tributário

Tarda o verão. No campo tributário
Da nossa esperança, não há sol bastante,
Nem se esperavam as que vêm, chuvas
        Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
        Do moribundo tudo.

Ténue, como se de Éolo a esquecessem,

Ténue, como se de Éolo a esquecessem,
A brisa da manhã titila o campo,
E há começo do sol.
Não desejemos, Lídia, nesta hora
Mais sol do que ela, nem mais alta brisa
Que a que é pequena e existe.


13/06/1930 (Presença, nº 31/32, Março-Junho de 1931)

Tirem-me os deuses

Tirem-me os deuses
Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
O Amor, glória e riqueza.

Tirem, mas deixem-me,
Deixem-me apenas
A consciência lúcida e solene
Das coisas e dos seres.

Pouco me importa
Amor ou glória.
A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra.

Mas a concisa
Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objectos
Tem abrigo seguro.

Seus fundamentos
São todo o mundo,
Seu amor é o plácido Universo,
Sua riqueza a vida.

A sua glória
É a suprema
Certeza da solene e clara posse
Das formas dos objectos.

O resto passa,
E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
E inútil do Universo.

Essa a si basta,
Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
Até deixar de ver.


06/06/1915

Toda a visão da crença se acompanha,

Toda visão da crença se acompanha,
Toda crença da acção; e a acção se perde,
        Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
        Sê teu. Não dês nem operes.

Tornar-te-ás só quem tu sempre foste.

Tornar-te-ás só quem tu sempre foste.
O que te os deuses dão, dão no começo.
De uma só vez o Fado
Te dá o fado, que é um.

A pouco chega pois o esforço posto
Na medida da tua força nata –
A pouco, se não foste
Para mais concebido.

Contenta-te com seres quem não podes
Deixar de ser. Ainda te fica o vasto
Céu p'ra cobrir-te, e a terra,
Verde ou seca a seu tempo.

O fausto repudio, porque o compram.
O amor porque acontece.
Comigo fico, talvez não contente.
Porém nato e sem erro.

Eu não procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins herdadas de outros.
Como hão-de mais que perfumar de longe
Meu desejo de tê-las?

Não quero a fama, que comigo a têm
Eróstrato e o pretor
Ser olhado de todos – que se eu fosse
Só belo, me olhariam.


12/05/1921

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa
Se é para nós que cessa Aquele arbusto
Fenece, e vai com ele
Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
Nem distingue a memória
Do que vi do que fui.


07/06/1928

Tudo, desde ermos astros afastados

Tudo, desde ermos astros afastados
A nós, nos dá o mundo.
E a tudo, alheios, nos acrescentamos,
Pensando e interpretando.
A próxima erva a que não chega basta,
O que há é o melhor.


10/12/1931

Um verso repete

Um verso repete
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.

Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.

Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.

Uma após uma as ondas apressadas

Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva 'spuma
No moreno das praias.
Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o 'spaço
Do ar entre as nuvens 'scassas.
Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.
Só uma vaga pena inconsequente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.


23/11/1918

Uma cor me persegue na lembrança,

Uma cor me persegue na lembrança,
E, qual se fora um ente, me submete
        À sua permanência.
Quanto pode um pedaço sobreposto
Pela luz à matéria escura encher-me
        De tédio ao amplo mundo.

Uns, com os olhos postos no passado,

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.


28/08/1933

V - Como se cada beijo

Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.

Vem Orfeu, uma sombra

Vem Orpheu, uma sombra
Que traz nas mãos um vago filho — a lira.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.

VI - O ritmo antigo que há em pés descalços, [1]

O ritmo antigo que há em pés descalços,
Esse ritmo das ninfas repetido,
                Quando sob o arvoredo
                Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,
Que escura a espuma deixa; vós, infantes,
                Que inda não tendes cura
                De ter cura, reponde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo,
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
                E a perene maré
                Flui, enchente ou vazante.

VII - Ponho na altiva mente o fixo esforço

Ponho na altiva mente o fixo esforço
Da altura, e à sorte deixo,
E as suas leis, o verso;
Que, quando é alto e grégio o pensamento,
Súbdita a frase o busca
E o escravo ritmo o serve.


(Athena, nº 1, Outubro de 1924)

VIII - Quão breve tempo é a mais longa vida

Quão breve tempo é a mais longa vida
E a juventude nela! Ah! Cloé, Cloé,
Se não amo, nem bebo,
Nem sem querer não penso,
Pesa-me a lei inimplorável, dói-me
A hora invita, o tempo que não cessa,
E aos ouvidos me sobe
Dos juncos o ruído
Na oculta margem onde os lírios frios
Da ínfera leiva crescem, e a corrente
Não sabe onde é o dia,
Sussurro gemebundo.


24/10/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)

Vive sem horas. Quanto mede pesa,

Vive sem horas. Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.


08/09/1932

Vivem em nós inúmeros;

Vivem em nós inúmeros,
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos,
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.


13/11/1935

Vós que, crentes em Cristos e Marias

Vós que, crentes em Cristos e Marias,
Turvais da minha fonte as claras águas
Só para me dizerdes
Que há águas de outra espécie

Banhando prados com melhores horas, –
Dessas outras regiões pra que falar-me
Se estas águas e prados
São de aqui e me agradam?

Esta realidade os deuses deram
E para bem real a deram externa.
Que serão os meus sonhos
Mais que a obra dos deuses?

Deixai-me a Realidade do momento
E os meus deuses tranquilos e imediatos
Que não moram no Vago
Mas nos campos e rios.

Deixai-me a vida ir-se pagamente
Acompanhada plas avenas ténues
Com que os juncos das margens
Se confessam de Pã.

Vivei nos vossos sonhos e deixai-me
O altar imortal onde é meu culto
E a visível presença
Dos meus próximos deuses.

Inúteis Procos do melhor que a vida,
Deixai a vida aos crentes mais antigos
Que a Cristo e a sua cruz
E Maria chorando.

Ceres, dona dos campos, me console
E Apolo e Vénus, e Urano antigo
E os trovões, com o interesse
De irem da mão de Jove.


09/08/1914

Vossa formosa juventude leda,

Vossa formosa juventude leda,
Vossa felicidade pensativa,
Vosso modo de olhar a quem vos olha,
Vosso não conhecer-vos –

Tudo quanto vós sois, que vos semelha
À vida universal que vos esquece
Dá carinho de amor a quem vos ama
Por serdes não lembrando

Quanta igual mocidade a eterna praia
De Cronos, pai injusto da justiça,
Ondas, quebrou, deixando à só memória
Um branco som de 'spuma.


02/09/1923

Vou dormir, dormir, dormir,

Nirvana

Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.

Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.

Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.

X - Melhor destino que o de conhecer-se

Melhor destino que o de conhecer-se
Não frui quem mente frui. Antes, sabendo
Ser nada, que ignorando:
Nada dentro de nada.
Se não houver em mim poder que vença
As Parcas três e as moles do futuro,
Já me dêem os deuses
O poder de sabê-lo;
E a beleza, incriável por meu sestro,
Eu goze externa e dada, repetida
Em meus passivos olhos,
Lagos que a morte seca.


22/10/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)

XI - Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.

Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.
Em qualquer hora pode suceder-nos
O que nos tudo mude.
Fora do conhecido é estranho o passo
Que próprio damos. Graves numes guardam
As lindas do que é uso.
Não somos deuses; cegos, receemos,
E a parca dada vida anteponhamos
À novidade, abismo.


(Athena, nº 1, Outubro de 1924)

XII - A flor que és, não a que dás, eu quero.

A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor! Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perene
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.


21/10/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)

XIII - Olho os campos, Neera, [1]

Olho os campos, Neera,
Campos, campos, e sofro
Já o frio da sombra
Em que não terei olhos.
A caveira antessinto
Que serei não sentindo,
Ou só quanto o que ignoro
Me incógnito ministre.
E menos ao instante
Choro, que a mim futuro,
Súbdito ausente e nulo
Do universal destino.


25/12/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)

XIV - De novo traz as aparentes novas

De novo traz as aparentes novas
Flores o Verão novo, e novamente
Verdesce a cor antiga
Das folhas redivivas.
Não mais, não mais dele o infecundo abismo,
Que mudo sorve o que mal somos, torna
À clara luz superna
A presença vivida.
Não mais; e a prole a que, pensando, dera
A vida da razão, em vão o chama,
Que as nove chaves fecham
Da Estige irreversível.
O que foi como um deus entre os que cantam,
O que do Olimpo as vozes, que chamavam,
Scutando ouviu, e, ouvindo,
Entendeu, hoje é nada.
Tecei embora as, que teceis, grinaldas.
Quem coroais, não coroando a ele?
Votivas as deponde,
Fúnebres sem ter culto.
Fique, porém, livre da leiva e do Orco,
A fama; e tu, que Ulisses erigira,
Tu, em teus sete montes,
Orgulha-te materna,
Igual, desde ele, às sete que contendem
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou heptápila Tebas,
Ogígia mãe de Píndaro.


22/10/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)

XIX - Prazer, mas devagar,

Prazer, mas devagar,

XV - Este, seu escasso campo ora lavrando, [1]

Este, seu escasso campo ora lavrando,
Ora, solene, olhando-o com a vista
De quem a um filho olha, goza incerto
        A não-pensada vida.
Das fingidas fronteiras a mudança
O arado lhe não tolhe, nem o empece
Per que concílios se o destino rege
        Dos povos pacientes.
Pouco mais no presente do futuro
Que as ervas que arrancou, seguro vive
A antiga vida que não torna, e fica,
        Filhos, diversa e sua.

XVI - Tuas, não minhas, teço estas grinaldas,

Tuas, não minhas, teço estas grinaldas,
Que em minha fronte renovadas ponho.
Para mim tece as tuas,
Que as minhas eu não vejo.
Se não pesar na vida melhor gozo
Que o vermo-nos, vejamo-nos, e, vendo,
Surdos conciliemos
O insubsistente surdo.
Coroemo-nos pois uns para os outros,
E brindemos uníssonos à sorte
Que houver, até que chegue
A hora do barqueiro.


17/11/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)

XVII - Não queiras, Lídia, edificar no espaço [1]

Não queiras, Lídia, edificar no espaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não esperando.
Tu mesma és tua vida.
Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe o abismo?


(Athena, nº 1, Outubro de 1924)

XVIII - Saudoso já deste Verão que vejo.

Saudoso já deste Verão que vejo,
Lágrimas para as flores dele emprego
Na lembrança invertida
De quando hei-de perdê-las.
Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
Em que hei-de errar, sem flores,
No abismo rumoroso.
E colho a rosa porque a sorte manda.
Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
Antes que com a curva
Diurna da ampla terra.


(Athena, nº 1, Outubro de 1924)

XX - Cuidas, ínvio, que cumpres, apertando

Cuidas, ínvio, que cumpres, apertando
Teus infecundos, trabalhosos dias
Em feixes de hirta lenha,
Sem ilusão a vida.
A tua lenha é só peso que levas
Para onde não tens fogo que te aqueça,
Nem sofrem peso aos ombros
As sombras que seremos.
Para folgar não folgas; e, se legas,
Antes legues o exemplo, que riquezas,
De como a vida basta
Curta, nem também dura.
Pouco usamos do pouco que mal temos.
A obra cansa, o ouro não é nosso.
De nós a mesma fama
Ri-se, que a não veremos
Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes, de repente antigos,
E cada vez mais sombras,
Ao encontro fatal –
O barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços da frieza stígia
E o regaço insaciável
Da pátria de Plutão.


11/07/1914 (Athena, nº1, Outubro de 1924)