Escritas

Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.

Fernando Pessoa Ano: 598
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
        Pantéon que preside
        À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
        Trouxe algo que faltava
        Ao número dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
        Vai enxugar o pranto
        Dos humanos que sofrem.

Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
        Das presenças maiores
        E parceiras da tua.

A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
        Supersticiosos leigos
        Na ciência dos deuses.

Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
        Cada vez maior força
        Plo número maior.

Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
        Nós homens nos façamos
        Unidos pelos deuses.
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