Escritas

A folha insciente, antes que a própria morra

Fernando Pessoa Ano: 598
A folha insciente, antes que a própria morra
        Para nós morre, Cloé,
Para nós, que sabemos que ela morre
        Assim, Cloé, assim
Antes que os próprios corpos, que empregamos
       No amor, ela envelhece.
Assim, diversos, somos, inda jovens,
        Só a mútua lembrança.
Ah, se o que somos é sempre isto, e apenas
        Uma hora é o que somos,
Com tal fúria nessa hora nos usemos
        Que arda sua lembrança
Como vida, e nos beijemos, Cloé,
        Como se, findo o beijo
Único, houvesse de ruir a súbita
       Mole do morto mundo.
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