Escritas

Se em verdade não sabes (nem sustentas

Fernando Pessoa Ano: 598
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
        Operoso a não vives?

Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
        Gozas menos que ganhas.

Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
        De (...)

Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
        Sem ele. (...)

Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.

Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
        O que o Destino manda.
1 317 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment