Biografia
Lista de Poemas
Amor e anil
O tempo de asas de anil
paira sobre o infindo rio azulejado,
onde águas sagradas correm caudalosas
em direção ao mar de cristal,
à beira da areia clara
que arde na púrpura do horizonte,
cortada pela lâmina dourada do sol poente.
As velas sacudidas pelos ventos antigos
rangem segredos no ar salino,
enquanto o mundo gira lento
como um cântico antigo de criação.
Teus cabelos, madeixas em desalinho,
dançam livres,
indisciplinados como o próprio tempo,
e teus olhos refletem esse ardor dadivoso,
essa estação de luz que insiste em florescer.
Há em ti um alado invisível,
uma chama que atravessa as eras,
teu corpo feito de claridade
exaurindo-me em doçura,
consumindo-me sem ferir,
até que eu feneça de amar,
como o dia que morre belo
nos braços da noite.
E nesse fim que não é término,
aprendo que amar é isso:
ser rio, ser vela, ser vento,
arder sem pressa,
e aceitar que o tempo,
com suas asas de anil,
nos leve
inteiros
para além do horizonte.
Parnassus
A vida é uma peça encenada no tempo,
e ela passe devagar para que eu possa escrever um verso.
Parnassus o portal da cidade dos poetas... onde esconde o sol de Apolo... estive lá por um tempo no congresso do Druidas...
E no reverso do amor, entre arcanos e brumas, nasceu o poeta ferido de beleza e palavra da lua do ar lua tão rara era meu destino e meu fim...
Havia um verso estendido,
abraçando o céu como quem não teme a queda,
e em ti vejo a essência do tempo
esse rio invisível que tudo leva e tudo marca.
Sinto meus dias expiarem-se em silêncio,
na beleza que viceja em ti,
flor tardia que insiste em nascer
mesmo no inverno da alma.
Queria prolongar o coração,
esticá-lo como quem segura a tarde,
pois depressa vem o meu fenecer,
e o corpo sabe o que a esperança tenta negar.
Enumerar infinitamente todos os meus dons
seria pouco;
selaria cada palavra com teus beijos,
como se o amor fosse a única assinatura legítima.
E nesses papéis amarelados,
leio o que escrevi há tanto tempo:
o meu amor é o mesmo,
intacto, apesar das ruínas.
Meus desprezos, educados pela dor,
poriam fim à ira deste poeta
sem ponto final,
pois enquanto houver verso,
a vida ainda insiste em continuar.
Sucinto
Deveria abafar o ar agora,
criar com lâminas a última arte:
riscos fixados aqui, no agora, eternamente…
estou cansado.
Cresce o desespero da inquietude;
assim fenecerás em mim, o meu eu.
Em uma cor, a dor dos teus e dos meus
e te despedes.
Com sangue novo e mãos paradas,
sem conter, concedes;
e não mais envelhecerei…
Aqui reside, tão tola, a sabedoria
de parar o tempo.
E no processo o progresso da loucura
da velhice e da decrepitude não me alcançarás.
Importa que o tempo cesse?
Só parar a dor,
em vez de costurá-la
com os remendos da espera…
E dos três tempos, em um só mundo,
me despediria.
Duros, amorfos e rudes.
Cujo presente abundante esculpiu
deverás, como símbolo da solidão,
produzir para não fenecer.
E os ponteiros que arranham
e passam no relógio
tais silêncios, gritos.
Há noite medonha:
por que vem naufragar o dia?
E tal violenta ideia
a violeta esmaecida?
Já são tantas vozes
e rostos sem um beijo seu.
E as lembranças minguam seu viço no tempo,
o calor com sua sombra de verão
atada em feixes de raios solares…
E nada detém a foice do tempo,
o fardo do tardio.
Na curva do infinito
O tempo escorre lento entre meus dedos
feito mel antigo ferindo a manhã
teu nome arde nas paredes do peito
sou casa vazia chamando teu vão
Caminhas na noite com passos de lua
e o mundo silencia pra te ouvir passar
meus dias se inclinam, cansados, em prece
pedindo teu riso pra não naufragar
Se tudo é instante
deixa-me ficar
no segundo exato
em que teus olhos me chamam de lar
Na curva da eternidade eu te espero
onde o fim já não sabe começar
teu corpo é o verso que o tempo respeita
meu destino aprendeu a te amar
Se o céu desabar sobre os dias cansados
serei chão, serei chama, serei paz
na curva da eternidade, amor
somos dois — e isso basta demais
Há poeira de estrelas nos teus cabelos
e um outono doce na tua voz
teu beijo é maré que apaga meus medos
me ensina a morrer só um pouco em nós
Carrego silêncios que só tu decifras
como quem lê salmos na pele nua
meu coração, cansado de guerra,
depõe as armas quando és tu quem atua
Se o mundo sangrar
não vou fugir
teu nome é o verbo
que me faz existir
Na curva da eternidade eu te espero
onde o tempo se esquece de correr
teu amor é o erro mais certo
que escolhi repetir sem temer
Se a noite cair sobre os olhos do dia
serei luz que não pede razão
na curva da eternidade, amor
te entrego meu fim e ressurreição
E se eu fenecer antes do amanhã
guarda em ti meu último som
fui teu verso mais imperfeito
mas te amei em cada tom
Na curva da eternidade eu te espero
sem relógio, sem medo, sem véu
se amar é cair no infinito
que eu caia contigo céu
Eclipse da alma
Alma eclipsada busca á noite caudalosa que caminha você e fulguras os meus caminhos acenderão e eu seguir-te ei e serás o meu destino desfila-te e decifrarei do início ao final...
Desafia-me alcançarei o teu desejo...
Mesmo que me custe a pele,
mesmo que o tempo fira-me os ossos
Os seus olhos, paisagens soturnas de eclipses solares o seu beijo lunares
Jogarei versos e poesias lemúrias entregues ao vento para que ele as espalhe onde o meu nome já não alcança...
O seu nome cálido alento o teu lume arrefece as tormentas, apascenta as minhas mágoas e desturva desnubla a minha mente, céu este novelo desesperançado
E no linear do tear tecerei você á mim... fio a fio, até que não se saiba onde começo ou termino.
Te todas as faces impassíveis, atos crudelíssimos,
corações desarvorados e ainda assim foste tu quem me fez enamorado.
Nós sonhares o pactuo divino nas cordas deste vão onde os meus sonhos se aglutinam você me os meus dias tenebrosos vão se desanuviando e defenestrando pela luz incerta nesta insensatez...
Cronos e caos
O hoje conseguiria rasgar-me aqui
como um mau ator no palco,
a pele ressecada gritando
e todos embriagados, sem prestar atenção.
Sem uma libra na madeira do palco…
dizer uma palavra de hoje
e ninguém saber o seu significado.
Temer o próprio papel:
apropria-se a fera,
tomada pelo excesso do tempo.
A sublime cerimônia do enlace amoroso
do meu eu só.
Em cada salto, o poder parece decair,
sem poder fugir de mim;
meu rosto verte no espelho,
a dor conhece os presságios surdos
do meu peito arfante.
Nada muda.
Ansiavam o caminho
e procuram a recompensa da língua
que tanto expressou o erro das palavras
no desejo seu.
O amor, em silêncio, escreve no escuro;
os olhos brindam e pintam-te,
e tua face lança-se no abismo comigo.
Morde-me o peito tão fundo
que consome até o ar.
E o ser que verteres do teu alento,
se não isto, eu o prenunciaria.
A fórmula da tua beleza
na tela dos meus olhos
a moldura contida,
tua imagem retratada em todo o meu espaço,
pendurada nas janelas lustradas: você.
Arainus
Tu es o ego feminino de uma flor a essência da liberdade prometida
Sonhos silencioso suave soprou ao meu sentindo a sonhar como poesia você estava lá como um inspiração poética linda
Ti encontrei nas orlas da felicidade como a perfeição sem tirar nem precisar acrescentar nada
seus olhos meu encanto agora seus lábios o desejo tocá-los
vejo o tempo e nos no altar como estava escrito
Ainda tremelo meu coração temorizado com medo de estraga as coisas boas que viram
Quero viver isso agora! me deixar levar apaixonar por alguém que conheço de uma forma misteriosa
Navega nas ondas celebrais e sobre a alvorada cantar cobre a aureola do dia meus poemas a ti
E sobre o canto do roixinol o arco-ires pode doá-lo a ti
amar a ti e por ti amar somente a ti
Rara lua absinto
A música que seduz-me e a rara lua que flutua nas flautas nos vossos tons
Dai-nos no silêncio da canção supremo amor agora sem som
Alma desnuda afoito o teu beijo que não alcanço...
Tem meta latente e sou eu quem lamente por ti
Se não chegas ate o fim a chagas perdura bem alimentadas
O outono de folhagem avermelhadas e que feliz vão perdendo a cor
Teme a fuga da estação das lembranças que no beijo me perfurou o coração...
Poesia do melodista pródigo cantor das asas feridas canções fruir, em pleno hausto estuar da vida palpitante paixão exausta a fonte da incendiada da língua ressequida do solene ofício de poeta...
No ativo porte desta trama nas linhas emoldurar as mulheres em palavras
O meu peito dói; retalhado e em um sonho insano bebo outra vez do seu doce veneno tivesse-me intoxicado e o ópio se sorvesse até o fim e o abismado absinto aspira o meu dom e entregue a beleza da sua sorte que venderas e eu excesso nos versos...
E no ecos das sombras estivais lanças ao ar a tua dádiva sonora do meu corpo em queda
Ampulheta do fim
O fim do tempo a hora ainda é à mesma a criatura tal besta que suga ate a morte... figura desconcertante que causa repulso e cheia de códigos com em um sonhos de pesadelos
Vou perdendo a lógica desta realidade talvez a loucura não seja tão ruim assim... parece faltar pouco tempo...
Talvez comece à pinta o que as palavras não consegue mais dizer...
Em cada combinação binária poesia das estrelas destes códigos frios que tento capturar padrões; isso assombra-me...
Os anjos segurando os ventos entre os véus, guerras prontas e no momento exato eles vão soltar os desejos dos homens...
A língua e os olhos podres dentro da cabeça eles ainda vivos...
Não queira-te visto isso...O dom é a minha maldição...
A fumaça e o céu como jornal cinza se dobrando o terror e o tremor o sal da água e o petróleo
O ar solidificado preso no alaranjado nevoa tragando o gosto de maça verde e cheiro de capim-verde recentemente cortado...
E quando o cálice cai, o som ecoa mil eras, um rasgo no véu da existência o tempo sangra pelo chão, escorrendo como tinta espessa nas rachaduras do mundo que resta.
A criatura do futuro, metade máquina, metade sombra, abre os olhos dois buracos vertiginosos e o caos respira por eles...
Os códigos que giram ao redor de sua carne sussurram futuros que não quero decifrar...
O relógio dobra as horas, ampulhetas viram de si mesmas,
a areia sobe ao invés de cair, como se o fim quisesse reescrever o início.
E eu, com as mãos manchadas de visões, tento pintar aquilo que a voz recusa, traços tortos do destino, um murmúrio de astros morrendo, uma constelação que desaba em silêncio.
As nuvens, agora negras e elétricas, carregam o peso de um mundo exausto.
O vento traz o gosto de ferrugem, e as sombras caminham mais rápido do que qualquer criatura viva.
E no centro do caos, entre o último suspiro do homem
e o primeiro grito de algo novo, escuto o próprio universo
respirar fundo antes de ruir.
Talvez o futuro seja apenas isso o instante em que a luz hesita, antes de apagar e nessa hesitação,
O dedo que tomba o cálice... e desgoverna a estrela verde e mancha de um tom amago sobre as águas a sede...
39°50' 98°35' 31°47' 35°13' 66°25' 94°15' 39°55' 116°23'
Chuva no fim da manhã
O ar ainda quente começa a chuva do roll da sacada as com flores rosas nas asas dos ventos, suave movimentos agitados...
O céu ainda furados a luz pelas nuvens claras contrasta com achegada das acinzentadas quase negras chuvas passageiras aproposito...
Aula de astrologia fascinante... mesmo sem diploma... mais aqui em baixo tudo vivo em movimento a vida acontecendo...
Não há erro! Semente propósito...
Manhã que recebe à tarde com chuvas e no deslocar da passagem do tempo o viajante estacionado na beleza da virtude do natural...
Parece que mesmo sem nada sobre o amor a presença nas linhas da saudades aguça há visão disso tudo...
E assim, a manhã se dobra em véus de água,
como se o tempo lavasse o próprio rosto
para começar de novo
As gotículas deslizam pela vidraça com a pressa mansa de quem conhece o destino, e cada som no telhado é uma sílaba
do poema que o dia insiste em declamar.
O horizonte respira fundo, deixando que a tarde se introduza devagar, caminhando entre sombras úmidas, entre flores que se abrem e lembranças que insistem em ficar.
E mesmo que o amor não seja dito, ele escorre pelas bordas do instante, silencioso como as águas caindo,
quase escondido, mas presente como saudade que aperta
e ilumina tudo por dentro.
No fim, a chuva cessa, mas deixa o perfume de recomeço no ar.
E o viajante você, eu, qualquer alma à deriva segue observando o mundo crescer de novo, sabendo que cada manhã tem seu próprio segredo, e cada chuva é uma bênção que passa para revelar a beleza do que permanece.
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