Escritas

Na curva do infinito

Charlanes Olivera Santos

O tempo escorre lento entre meus dedos

feito mel antigo ferindo a manhã

teu nome arde nas paredes do peito

sou casa vazia chamando teu vão

Caminhas na noite com passos de lua

e o mundo silencia pra te ouvir passar

meus dias se inclinam, cansados, em prece

pedindo teu riso pra não naufragar

Se tudo é instante

deixa-me ficar

no segundo exato

em que teus olhos me chamam de lar

Na curva da eternidade eu te espero

onde o fim já não sabe começar

teu corpo é o verso que o tempo respeita

meu destino aprendeu a te amar

Se o céu desabar sobre os dias cansados

serei chão, serei chama, serei paz

na curva da eternidade, amor

somos dois — e isso basta demais

Há poeira de estrelas nos teus cabelos

e um outono doce na tua voz

teu beijo é maré que apaga meus medos

me ensina a morrer só um pouco em nós

Carrego silêncios que só tu decifras

como quem lê salmos na pele nua

meu coração, cansado de guerra,

depõe as armas quando és tu quem atua

Se o mundo sangrar

não vou fugir

teu nome é o verbo

que me faz existir

Na curva da eternidade eu te espero

onde o tempo se esquece de correr

teu amor é o erro mais certo

que escolhi repetir sem temer

Se a noite cair sobre os olhos do dia

serei luz que não pede razão

na curva da eternidade, amor

te entrego meu fim e ressurreição

E se eu fenecer antes do amanhã

guarda em ti meu último som

fui teu verso mais imperfeito

mas te amei em cada tom

Na curva da eternidade eu te espero

sem relógio, sem medo, sem véu

se amar é cair no infinito

que eu caia contigo céu