Amor e anil
O tempo de asas de anil
paira sobre o infindo rio azulejado,
onde águas sagradas correm caudalosas
em direção ao mar de cristal,
à beira da areia clara
que arde na púrpura do horizonte,
cortada pela lâmina dourada do sol poente.
As velas sacudidas pelos ventos antigos
rangem segredos no ar salino,
enquanto o mundo gira lento
como um cântico antigo de criação.
Teus cabelos, madeixas em desalinho,
dançam livres,
indisciplinados como o próprio tempo,
e teus olhos refletem esse ardor dadivoso,
essa estação de luz que insiste em florescer.
Há em ti um alado invisível,
uma chama que atravessa as eras,
teu corpo feito de claridade
exaurindo-me em doçura,
consumindo-me sem ferir,
até que eu feneça de amar,
como o dia que morre belo
nos braços da noite.
E nesse fim que não é término,
aprendo que amar é isso:
ser rio, ser vela, ser vento,
arder sem pressa,
e aceitar que o tempo,
com suas asas de anil,
nos leve
inteiros
para além do horizonte.
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