Escritas

Cronos e caos

Charlanes Olivera Santos

O hoje conseguiria rasgar-me aqui

como um mau ator no palco,

a pele ressecada gritando

e todos embriagados, sem prestar atenção.

Sem uma libra na madeira do palco…

dizer uma palavra de hoje

e ninguém saber o seu significado.

Temer o próprio papel:

apropria-se a fera,

tomada pelo excesso do tempo.

A sublime cerimônia do enlace amoroso

do meu eu só.

Em cada salto, o poder parece decair,

sem poder fugir de mim;

meu rosto verte no espelho,

a dor conhece os presságios surdos

do meu peito arfante.

Nada muda.

Ansiavam o caminho

e procuram a recompensa da língua

que tanto expressou o erro das palavras

no desejo seu.

O amor, em silêncio, escreve no escuro;

os olhos brindam e pintam-te,

e tua face lança-se no abismo comigo.

Morde-me o peito tão fundo

que consome até o ar.

E o ser que verteres do teu alento,

se não isto, eu o prenunciaria.

A fórmula da tua beleza

na tela dos meus olhos

a moldura contida,

tua imagem retratada em todo o meu espaço,

pendurada nas janelas lustradas: você.