Lista de Poemas
traço
depois,
sem saber se era ele o esboço de seus sonhos
ou se seus sonhos eram o esboço de si,
ficou só como um destes tantos
desenhos
que iniciara
em cadernos esquecidos.
rabiscos
ali perdidos, para sempre sem pernas,
sem mãos,
nem faces
nem nomes.
antropomórficos sem dinâmica
em páginas cruas.
desenhos
até que bem legais
sem saber se era ele o esboço de seus sonhos
ou se seus sonhos eram o esboço de si,
ficou só como um destes tantos
desenhos
que iniciara
em cadernos esquecidos.
rabiscos
ali perdidos, para sempre sem pernas,
sem mãos,
nem faces
nem nomes.
antropomórficos sem dinâmica
em páginas cruas.
desenhos
até que bem legais
👁️ 263
poema de hades à espera do inverno
mediu-se à maneira de anúbis
e viu voar a pluma
não por seu ódio,
mas por seu amor,
tão impiedoso quanto
e viu voar a pluma
não por seu ódio,
mas por seu amor,
tão impiedoso quanto
👁️ 265
feliz aniversário
as velas se multiplicam
sobre o silêncio da distância
eu te conhecerei por quem você não é
e você me conhecerá por quem eu não sou
e assim vamos
de mãos dadas
através do fogo
eternamente unidos e desconhecidos
sobre o silêncio da distância
eu te conhecerei por quem você não é
e você me conhecerá por quem eu não sou
e assim vamos
de mãos dadas
através do fogo
eternamente unidos e desconhecidos
👁️ 241
fósforo
vida: em maior parte, reticências
(mil contos nas distâncias de três pontos)
estando nela, nunca estamos prontos
o coração coleciona ausências
e cresce sem que cresça o seu tamanho
(daí a sensação de decepado
embora nada tenha se anulado)
fendido entre o familiar e o estranho
e assim levamos este peso, sem
saber bem a o que ou a quem
tantas reminiscências entregar
de estarmos cheios do que não sabemos
querendo nascer, de cada dispêndio
a partir da parte que nunca lemos:
a parte que resta depois do incêndio
em seu sonho perpétuo de queimar
na chama extinta que não sobe achar
(mil contos nas distâncias de três pontos)
estando nela, nunca estamos prontos
o coração coleciona ausências
e cresce sem que cresça o seu tamanho
(daí a sensação de decepado
embora nada tenha se anulado)
fendido entre o familiar e o estranho
e assim levamos este peso, sem
saber bem a o que ou a quem
tantas reminiscências entregar
de estarmos cheios do que não sabemos
querendo nascer, de cada dispêndio
a partir da parte que nunca lemos:
a parte que resta depois do incêndio
em seu sonho perpétuo de queimar
na chama extinta que não sobe achar
👁️ 266
fotocópia
mil poemas depois
e ainda não encontrei
conclusão
aos teus olhos.
por mais que eu parta
e desafie o tempo,
por mais que eu me debruce
longamente
sobre as grandes questões e doenças,
e percorra, nômade,
os labirintos da palavra,
é sempre à infinita banalidade
dos teus olhos
que regresso.
dois faróis doloridos
resistindo sobre as sombras
das ilhas naufragadas.
mais esquecidos a cada lembrança.
mais vivos a cada vez que os mato.
onde até mesmo o esquecimento
se torna modalidade
da memória.
e ainda não encontrei
conclusão
aos teus olhos.
por mais que eu parta
e desafie o tempo,
por mais que eu me debruce
longamente
sobre as grandes questões e doenças,
e percorra, nômade,
os labirintos da palavra,
é sempre à infinita banalidade
dos teus olhos
que regresso.
dois faróis doloridos
resistindo sobre as sombras
das ilhas naufragadas.
mais esquecidos a cada lembrança.
mais vivos a cada vez que os mato.
onde até mesmo o esquecimento
se torna modalidade
da memória.
👁️ 527
a rosa mnemónica
– s.
ponto de referência
em si mesmo indefinido
de um tempo de espanto e incerteza:
poderia mesmo ter explodido?
poderia mesmo ter colorido
as paredes com seu pigmento,
e abraçado a casa toda
no rubor de um só momento?
ou – menos que isso – poderia, ainda,
ter permanecido, simplesmente, em sua jarra triste,
sem mais que um vento , a que se desse,
nem mais que um olhar, a que iludisse?
explosão, ilusão? desdobra-se, rosa, ao sabor
sempre vário da minha incongruência,
que em mim se reparte e ressuscita,
ao que reinvento a tua essência
do xilema ao floema do poema,
as pétalas se desprendem dos segundos,
desintegrando-se diante dos meus olhos,
reconstruindo-se em meus abismos mais profundos
disforme, conforme, pluriforme rosa,
perpétua na dor que carrego sempre comigo;
é e não é, e o que será, já não sei:
a dúvida em meu peito é o seu jardim ambíguo
ponto de referência
em si mesmo indefinido
de um tempo de espanto e incerteza:
poderia mesmo ter explodido?
poderia mesmo ter colorido
as paredes com seu pigmento,
e abraçado a casa toda
no rubor de um só momento?
ou – menos que isso – poderia, ainda,
ter permanecido, simplesmente, em sua jarra triste,
sem mais que um vento , a que se desse,
nem mais que um olhar, a que iludisse?
explosão, ilusão? desdobra-se, rosa, ao sabor
sempre vário da minha incongruência,
que em mim se reparte e ressuscita,
ao que reinvento a tua essência
do xilema ao floema do poema,
as pétalas se desprendem dos segundos,
desintegrando-se diante dos meus olhos,
reconstruindo-se em meus abismos mais profundos
disforme, conforme, pluriforme rosa,
perpétua na dor que carrego sempre comigo;
é e não é, e o que será, já não sei:
a dúvida em meu peito é o seu jardim ambíguo
👁️ 247
canção para o teu silêncio
em teu primeiro silêncio,
deixei todas as palavras,
supondo que nunca mais
delas eu precisaria.
em teu último silêncio,
precisei de todas elas,
e não pude nem morrer
quando notei que as não tinha.
as letras são só relevo,
agora, do teu semblante,
onde a espera exasperada
fez-se nula, mas completa.
fora da palavra morte,
não morro. levo comigo.
de teu último silêncio
não regressarei poeta.
em teu primeiro silêncio,
construí a minha casa;
pus mais flores e mobília
do que na casa cabia.
em teu último silêncio,
desabaram as paredes
ao redor da porta aberta,
por qual jamais entrarias.
e fiquei de mãos vazias
sem verdade ou movimento,
vendo os símbolos quebrados
nas marés entreabertas.
fora da palavra vida,
só me resta carregá-la.
de teu último silêncio
não regressarei poeta.
deixei todas as palavras,
supondo que nunca mais
delas eu precisaria.
em teu último silêncio,
precisei de todas elas,
e não pude nem morrer
quando notei que as não tinha.
as letras são só relevo,
agora, do teu semblante,
onde a espera exasperada
fez-se nula, mas completa.
fora da palavra morte,
não morro. levo comigo.
de teu último silêncio
não regressarei poeta.
em teu primeiro silêncio,
construí a minha casa;
pus mais flores e mobília
do que na casa cabia.
em teu último silêncio,
desabaram as paredes
ao redor da porta aberta,
por qual jamais entrarias.
e fiquei de mãos vazias
sem verdade ou movimento,
vendo os símbolos quebrados
nas marés entreabertas.
fora da palavra vida,
só me resta carregá-la.
de teu último silêncio
não regressarei poeta.
👁️ 487
ouroboros
o tempo reúne a obra
à natureza do obreiro.
naquilo que afinal sobra
reside o que é verdadeiro.
a vida em si o desdobra
até que se mostre inteiro,
na inteira volta da cobra
aonde estava primeiro.
assim se vê claramente
no olhar dos restos do lar:
silente, longínquo, velho...
onde vagarosamente
começa a se humanizar
a infinda face do espelho.
à natureza do obreiro.
naquilo que afinal sobra
reside o que é verdadeiro.
a vida em si o desdobra
até que se mostre inteiro,
na inteira volta da cobra
aonde estava primeiro.
assim se vê claramente
no olhar dos restos do lar:
silente, longínquo, velho...
onde vagarosamente
começa a se humanizar
a infinda face do espelho.
👁️ 533
diante de um texto póstumo
prazer de encontrar-te outra vez
onde eu não te esperava
pudor de pousar o olhar
numa só palavra
primor de escutar outra vez
a tua canção
pavor de matar a esperança
de ter sido a morte
somente ilusão
onde eu não te esperava
pudor de pousar o olhar
numa só palavra
primor de escutar outra vez
a tua canção
pavor de matar a esperança
de ter sido a morte
somente ilusão
👁️ 207
rascunho
risco a palavra
no caderno de rascunhos
uma cerca de arame farpado
me separa do poema
o que ficou ali?
a vida que em mim fervia
interditou-se na tradução
e agora habita
o esquecimento
inacessível
porém jamais
inexistente
uma viva parte de mim
morrendo perpetuamente
no caderno de rascunhos
uma cerca de arame farpado
me separa do poema
o que ficou ali?
a vida que em mim fervia
interditou-se na tradução
e agora habita
o esquecimento
inacessível
porém jamais
inexistente
uma viva parte de mim
morrendo perpetuamente
👁️ 539
Comentários (4)
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sthefany
2020-05-22
seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
rosalinapoetisa
2020-04-28
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
rosalinapoetisa
2020-04-28
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
biancardi
2020-03-20
Belos textos.
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