Escritas

poema vazio

yuri petrilli
Mergulho no engulho do orgulho,
Desfeito às três da madrugada,
Quando o tudo de antes é nada,
E os narcisos morrem no entulho.

Mergulho e me busco e me dano,
Incapaz de singrar-me são,
A bordo do meu coração,
E no mar do tempo me fano.

Navego, naufrago, repito.
Quantas, oh, quantas embarcações
Partidas nas recordações
Das nuas agruras que fito...

Três da madrugada, dezembro.
Vou reclinado no sofá,
Viajando, entre o que há e não há,
E o que nunca houve, e o que lembro.

Saudoso, me dispo de mim,
Vejo-me nu e inteiro, quebrado
Sobre as areias, constelado
De estrelas de angústia sem fim.

Afinal, que sou senão isto?
Isto, que em si se afoga e verte,
Que em outro que é em si se perverte,
Que vejo, e me perco e me disto?

Sufocantes águas insanas,
Mãos que me afogam e me ferem,
Que me rejeitam e me querem...
Que sou senão águas profanas?

Quatro. Madrugada sem nada.
Cravada na sala de estar,
Minha alma segue a navegar
Presa em meu corpo e estagnada.

Passam as horas, logo, eu passo...
E tudo é um sagaz contratempo;
A minha alma presa no tempo
O meu corpo preso no espaço.

Mergulho no engulho do orgulho,
E o relógio sugere a aurora...
E tudo o que recebo agora
É uma angústia em lágrima, embrulho,

Por sobre os lábios ressequidos,
Que amargos ainda se franzem,
Cobrindo os meus dentes que rangem,
Saudosos de risos perdidos.

Mas tenho inda algo de vivente,
Algum resfôlego no mar...
Algum consolo, algo que dar,
Algo de belo e decadente;

Talvez o couro do navio
– A carne deste coração –,
Nas rimas que disperso em vão
Cá neste poema vazio...
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