[prosa] fragmento de sensação
yuri petrilli
Há momentos em que me ocorre, por qualquer razão maior que eu próprio – ou, ao menos, maior que à minha compreensão de eu próprio –, uma intensa acuidade da atenção aos mais mínimos gestos, acontecimentos, sons, detalhes e demais factos comumente tidos por insignificantes, de que se compõem grande parte de meus arredores e fôlegos quotidianos; e de seguida o que me ocorre é, em geral, a pungente tendência a comover-me por tais pequenezas, que de fato não o são.
Sim... Qualquer ente humano, querido ou desconhecido, que, proferindo uma saudação ritualística qualquer, franza de maneira distinta os olhos e altere minimamente o tom da pronúncia de suas palavras... Ou a visão ocasional e oportuna de uma formiga que, ao sair do copo que há pouco enchi de água justamente por a não ter visto inicialmente, começa, à borda do mesmo copo, a esfregar as patas magras e fortes ao redor das antenas, enxugando-se... Ou, ainda, o som ágil e despretensioso vindo dos lábios de quem me chame pelo nome – tudo, de repente, é-me uma vela, se vejo bem, com qual minha alma dormente se reacende. É tudo um sutil punhal que me penetra o coração, sangrando um profundo sentimento de piedade e carinho impossível.
Certa vez mostraram-me a fotografia de um bebê, de que não recordo o nome, embora o relembre deveras. Sorria como considerável parte dos bebês o faz em fotos; talvez, por isso mesmo, dava uma primeira impressão de não ser bebê, mas foto. Por repentino destino, no entanto, um dente único e muito branco que despontava da gengiva inferior saltou-me aos olhos como se fosse uma súbita condensação de toda a vida, algo que rasgasse o símbolo fotográfico dissimulado e trouxesse-me à alma não o bebê em si, em sua carne contornada e individualidade ainda por desenvolver, mas sim a própria consciência abstrata de que aquele bebê existe, de que outros bebês existem, de que existem bebês com corações inocentes e olhos entreabertos ao mundo e dentes de leite doídos. Aquele dente, de alguma forma, caiu-me na alma liquefata como fosse uma peça de chumbo descendo a um poço profundo, mas com tal voracidade de modo a ser capaz de elevar quase à tona – meus olhos – a água – lágrimas – há muito esquecida no fundo. Tive dentinhos de leite também, como tem esse bebê. Fui bebê também. Algo em mim talvez ainda o seja. Aquele bebê fora, naquele instante, toda a humanidade, e até por isso não cismo lembrar seu nome. A poesia foi-me quase possível outra vez, embora fosse triste.
Posso quase ousar dizer que agora compreendo o que em mim me causa tais sensações: ora, a percepção dos detalhes exige (diferentemente da percepção ampla) a admissão, ainda que inadvertida, de que é tudo real. A vida é real. O mundo é real. Eu sou real. Também o ente que observo franzir os olhos e tropeçar nas palavras tem um modo de dizer, e algo a exprimir, e possivelmente bondade ao cumprimentar outro ente que julgue digno de cumprimento. Também ele sente a alegria estúpida da realidade.
Também a formiga, por mais marginalizada que seja nos corações de seus conterrâneos humanos, tem existência, tem vida, tem um lar a que deve retornar, tem tarefas a realizar, tem a necessidade de se alimentar e de escapar do afogamento para que assim postergue a hora em que forçosamente se dispersará na terra, organicamente – seria ela assim tão diferente dos homens para que por elas não tivéssemos qualquer coisa como ternura?
...E meu nome. Também sou alguém. Também tenho um nome, um aspecto, uma figura humana reconhecível a quem se pode atribuir afeto, desprezo, nojo, ódio, indiferença. Sim, recordo-me de que sou. Eu, que tanto, por vezes, me vejo entorpecido e diluído no meio alheio, sinto-me real quando me dou conta de que tenho um nome que me distinga.
E ternura. Tenho ternura ao ponto de ter lágrimas, pela consciência de que somos todos reais, com vãs dores e vãs alegrias reais, subjugados todos ao ofício de viver. Nós, bússolas quebradas guiando caravelas infinitas que partem sem destino, em um mar de dor e de beleza. Nós todos... Almirantes fadados que aspiram ao eterno ainda que não o saibam.
Ainda que uma única estrela anã condensasse em si todo o universo, não seria tão densa, relativamente, quanto à condensação de toda a fraternidade à humanidade e ao mundo quando esta se dá em um único seio humano.
Portanto abraço a todos quando aos mínimos detalhes me atento e constato a igualdade de nossas condições.
Outra vez pressinto a água subir à tona do poço, embora, agora, fique presa por detrás das pálpebras, em fluxo contínuo, rumorejando a infinidade destas sensações – rumor que em falhas parafraseio e ouso traduzir.
Sim... A poesia é-me quase possível.
Sim... Qualquer ente humano, querido ou desconhecido, que, proferindo uma saudação ritualística qualquer, franza de maneira distinta os olhos e altere minimamente o tom da pronúncia de suas palavras... Ou a visão ocasional e oportuna de uma formiga que, ao sair do copo que há pouco enchi de água justamente por a não ter visto inicialmente, começa, à borda do mesmo copo, a esfregar as patas magras e fortes ao redor das antenas, enxugando-se... Ou, ainda, o som ágil e despretensioso vindo dos lábios de quem me chame pelo nome – tudo, de repente, é-me uma vela, se vejo bem, com qual minha alma dormente se reacende. É tudo um sutil punhal que me penetra o coração, sangrando um profundo sentimento de piedade e carinho impossível.
Certa vez mostraram-me a fotografia de um bebê, de que não recordo o nome, embora o relembre deveras. Sorria como considerável parte dos bebês o faz em fotos; talvez, por isso mesmo, dava uma primeira impressão de não ser bebê, mas foto. Por repentino destino, no entanto, um dente único e muito branco que despontava da gengiva inferior saltou-me aos olhos como se fosse uma súbita condensação de toda a vida, algo que rasgasse o símbolo fotográfico dissimulado e trouxesse-me à alma não o bebê em si, em sua carne contornada e individualidade ainda por desenvolver, mas sim a própria consciência abstrata de que aquele bebê existe, de que outros bebês existem, de que existem bebês com corações inocentes e olhos entreabertos ao mundo e dentes de leite doídos. Aquele dente, de alguma forma, caiu-me na alma liquefata como fosse uma peça de chumbo descendo a um poço profundo, mas com tal voracidade de modo a ser capaz de elevar quase à tona – meus olhos – a água – lágrimas – há muito esquecida no fundo. Tive dentinhos de leite também, como tem esse bebê. Fui bebê também. Algo em mim talvez ainda o seja. Aquele bebê fora, naquele instante, toda a humanidade, e até por isso não cismo lembrar seu nome. A poesia foi-me quase possível outra vez, embora fosse triste.
Posso quase ousar dizer que agora compreendo o que em mim me causa tais sensações: ora, a percepção dos detalhes exige (diferentemente da percepção ampla) a admissão, ainda que inadvertida, de que é tudo real. A vida é real. O mundo é real. Eu sou real. Também o ente que observo franzir os olhos e tropeçar nas palavras tem um modo de dizer, e algo a exprimir, e possivelmente bondade ao cumprimentar outro ente que julgue digno de cumprimento. Também ele sente a alegria estúpida da realidade.
Também a formiga, por mais marginalizada que seja nos corações de seus conterrâneos humanos, tem existência, tem vida, tem um lar a que deve retornar, tem tarefas a realizar, tem a necessidade de se alimentar e de escapar do afogamento para que assim postergue a hora em que forçosamente se dispersará na terra, organicamente – seria ela assim tão diferente dos homens para que por elas não tivéssemos qualquer coisa como ternura?
...E meu nome. Também sou alguém. Também tenho um nome, um aspecto, uma figura humana reconhecível a quem se pode atribuir afeto, desprezo, nojo, ódio, indiferença. Sim, recordo-me de que sou. Eu, que tanto, por vezes, me vejo entorpecido e diluído no meio alheio, sinto-me real quando me dou conta de que tenho um nome que me distinga.
E ternura. Tenho ternura ao ponto de ter lágrimas, pela consciência de que somos todos reais, com vãs dores e vãs alegrias reais, subjugados todos ao ofício de viver. Nós, bússolas quebradas guiando caravelas infinitas que partem sem destino, em um mar de dor e de beleza. Nós todos... Almirantes fadados que aspiram ao eterno ainda que não o saibam.
Ainda que uma única estrela anã condensasse em si todo o universo, não seria tão densa, relativamente, quanto à condensação de toda a fraternidade à humanidade e ao mundo quando esta se dá em um único seio humano.
Portanto abraço a todos quando aos mínimos detalhes me atento e constato a igualdade de nossas condições.
Outra vez pressinto a água subir à tona do poço, embora, agora, fique presa por detrás das pálpebras, em fluxo contínuo, rumorejando a infinidade destas sensações – rumor que em falhas parafraseio e ouso traduzir.
Sim... A poesia é-me quase possível.
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