Lista de Poemas
dois dísticos
I
esta recordação vai me exceder
eu vou morrer e não vou esquecer
II
por intermédio da memória de quem fomos
viveremos sempre sendo mais do que somos
esta recordação vai me exceder
eu vou morrer e não vou esquecer
II
por intermédio da memória de quem fomos
viveremos sempre sendo mais do que somos
👁️ 4
de rosa em jasmim
e quando falas da flor,
este, que é um símbolo herdado,
falas, de fato, do amor
que algum poeta, há mil anos,
morreu sem ter confessado
este, que é um símbolo herdado,
falas, de fato, do amor
que algum poeta, há mil anos,
morreu sem ter confessado
👁️ 5
poesia
a poesia é uma coroa de flores
sobre a miséria do amor
sobre a miséria do amor
👁️ 267
o que fica
o que pretendi deixar
para deixar-me consigo,
não poupa-me de levar
a mim pra morrer comigo.
posto no que agora sou,
não posso estar no que fiz.
só sombra se enraizou
da árvore sem raiz.
se mudo de opinião
à margem do tempo ido,
as letras não sabem: são.
mas, meu nome as tendo ungido,
resto, pra sempre, em meu não.
lembrado, e entanto, esquecido.
para deixar-me consigo,
não poupa-me de levar
a mim pra morrer comigo.
posto no que agora sou,
não posso estar no que fiz.
só sombra se enraizou
da árvore sem raiz.
se mudo de opinião
à margem do tempo ido,
as letras não sabem: são.
mas, meu nome as tendo ungido,
resto, pra sempre, em meu não.
lembrado, e entanto, esquecido.
👁️ 229
sibilo
em meu mosaico de escamas
guardo as partidas estrelas;
vê-as passar, se as amas,
que é inútil buscar retê-las.
aquele que me segura
ilude-se com um fantasma;
e o perfume que procura
reduz-se a mero miasma.
por isso, inda que eu te fira
o céu vazio, possessivo,
e teu sonho até prefira
um morto sol a um sol vivo,
não fujas à minha lira,
pois tanto eu dou quanto privo:
do rastro da luz que arquivo,
já um novo astro respira
– e outra vez tua vida gira.
guardo as partidas estrelas;
vê-as passar, se as amas,
que é inútil buscar retê-las.
aquele que me segura
ilude-se com um fantasma;
e o perfume que procura
reduz-se a mero miasma.
por isso, inda que eu te fira
o céu vazio, possessivo,
e teu sonho até prefira
um morto sol a um sol vivo,
não fujas à minha lira,
pois tanto eu dou quanto privo:
do rastro da luz que arquivo,
já um novo astro respira
– e outra vez tua vida gira.
👁️ 226
pérola
surgido de sob a pele,
vindo de quaisquer dos lados,
o deserto nos impele
a oásis já desvendados.
em meio às areias dele,
nadamos, insaciados,
supondo águas que vertem
tão somente no passado;
então, vem o tempo: e corta,
antes do gole, a visão;
e resta, da imagem torta,
quando se impõe a razão,
só uma ilusão natimorta
dentro da concha da mão
vindo de quaisquer dos lados,
o deserto nos impele
a oásis já desvendados.
em meio às areias dele,
nadamos, insaciados,
supondo águas que vertem
tão somente no passado;
então, vem o tempo: e corta,
antes do gole, a visão;
e resta, da imagem torta,
quando se impõe a razão,
só uma ilusão natimorta
dentro da concha da mão
👁️ 4
a um nome
I
um som rompe o silêncio.
teu nome.
num ato reflexo adquirido,
lubrifico os lábios.
percebo-o somente
no instante seguinte.
a poesia
infiltra-se na carne,
meu bem.
o corpo não esquece.
II
porque a memória do corpo
não acompanha o compasso
do tempo.
dentro da urna corpórea
a cinza não se sabe cinza.
arde, perpétua,
na chama imóvel
do instante
original.
o amor que te tenho,
honestamente,
é muito pouco.
meu corpo, porém,
não sabe disso.
ainda dançamos
entre as sapucaias.
mortos
e quentes.
o corpo não esquece.
um som rompe o silêncio.
teu nome.
num ato reflexo adquirido,
lubrifico os lábios.
percebo-o somente
no instante seguinte.
a poesia
infiltra-se na carne,
meu bem.
o corpo não esquece.
II
porque a memória do corpo
não acompanha o compasso
do tempo.
dentro da urna corpórea
a cinza não se sabe cinza.
arde, perpétua,
na chama imóvel
do instante
original.
o amor que te tenho,
honestamente,
é muito pouco.
meu corpo, porém,
não sabe disso.
ainda dançamos
entre as sapucaias.
mortos
e quentes.
o corpo não esquece.
👁️ 527
ophiuchus
eu vou estender até o infinito
o breve conteúdo do recorte,
e nele hei de criar o nunca dito,
para além da ausência e para além da morte
eu vou colocar a todos, lado a lado,
em uma prateleira bem polida,
em que não pese a palavra passado,
nem possa o tempo ditar a partida
eu vou organizar toda a mobília
e esculpir cada ilusão à apoteose;
diluviar o lar de maravilhas
até esquecer seu semblante de hipótese
eu vou segurar com força o monstro
que, entre velas, rasteja pra devorar
tudo o que quero prender nos meus braços
e tudo estará bem. e eis que demonstro:
cada coisa em seu lugar
na casa caindo aos pedaços
o breve conteúdo do recorte,
e nele hei de criar o nunca dito,
para além da ausência e para além da morte
eu vou colocar a todos, lado a lado,
em uma prateleira bem polida,
em que não pese a palavra passado,
nem possa o tempo ditar a partida
eu vou organizar toda a mobília
e esculpir cada ilusão à apoteose;
diluviar o lar de maravilhas
até esquecer seu semblante de hipótese
eu vou segurar com força o monstro
que, entre velas, rasteja pra devorar
tudo o que quero prender nos meus braços
e tudo estará bem. e eis que demonstro:
cada coisa em seu lugar
na casa caindo aos pedaços
👁️ 538
continuidade
a palavra escrita
nada eterniza
só fotografa
a eternidade
da palavra nunca dita
o que se escreve
é uma fração
que cada letra
delimita
a eternidade
é como fonte
fluindo as coisas
nunca ditas
não dirás
em teu tempo
tudo o que tens
a dizer
mas dirás
algo de flor
e tocados da flor
outros dirão por você
não cantarás
todo o amor
inteiramente
profundo
mas o lerão
e farão do amor
que não foi teu
de todo o mundo
e quanto mais a palavra
resgata do nunca dito
maiores
nos tornamos
em nossos corpos finitos
nada eterniza
só fotografa
a eternidade
da palavra nunca dita
o que se escreve
é uma fração
que cada letra
delimita
a eternidade
é como fonte
fluindo as coisas
nunca ditas
não dirás
em teu tempo
tudo o que tens
a dizer
mas dirás
algo de flor
e tocados da flor
outros dirão por você
não cantarás
todo o amor
inteiramente
profundo
mas o lerão
e farão do amor
que não foi teu
de todo o mundo
e quanto mais a palavra
resgata do nunca dito
maiores
nos tornamos
em nossos corpos finitos
👁️ 547
pandora
da caixa ainda escorrem as quebradas notas
de uma canção
quase esquecida
o que dói não é
não poder recompô-la,
tampouco a impossibilidade
de sintonizar-se ao seu tempo
o que dói,
– o que de fato dói –
é a mutilada esperança
que se agarra ao fundo
enquanto a música se perde
sem que ninguém a ouça
de uma canção
quase esquecida
o que dói não é
não poder recompô-la,
tampouco a impossibilidade
de sintonizar-se ao seu tempo
o que dói,
– o que de fato dói –
é a mutilada esperança
que se agarra ao fundo
enquanto a música se perde
sem que ninguém a ouça
👁️ 557
Comentários (4)
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sthefany
2020-05-22
seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
rosalinapoetisa
2020-04-28
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
rosalinapoetisa
2020-04-28
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
biancardi
2020-03-20
Belos textos.
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