aquiles vê pentesileia
diante agora do teu rosto colho
o fruto de quando não te via:
em como vens, te despedes
em como te aproximas, te apartas
morte e vida consubstanciadas
em contraditórias flores,
crescendo, enroscadas,
dentro de mim
sem jardim
que lhes dê repouso
canto
em meio ao que permanece,
porque não permaneço,
posso sofrer e cantar
fosse eu infinito
para além da infinidade
com que sinto,
a cidade
e a canção
não eram tão grandes
o homem
o homem constrói faróis no próprio umbigo,
faróis que sugerem lares incertos
e disparam escuridão nas ilhas
que se movem sobre os oceanos.
o homem inventa paisagens verbais
com formas e belezas literárias,
as prende eternamente nas palavras
e sofre pelo mundo não ser página.
o homem morde o relógio como ao pão
sozinho no escuro, à espera, talvez,
de um amigo – embora não saiba amar.
o homem regressa a si mesmo, infinito,
vencido. o homem se come pelas pernas.
seu tempo é sua própria indigestão.
poética
quando a lua
abocanha o sono
e a sensação noturna
paralisa as mãos,
percebe-se
que entre
escrever
sobre o peso do mundo
e escrever
sob o peso do mundo,
existe um precipício
de bem mais
que só preposição.
desassossego
em memória de fernando pessoa
Debruçado no dia para o qual desperto,
Fito o vazio com o olhar entreaberto,
Trajando-o de enleios da subjetividade
Que medra no solo da sensibilidade
Da minha alma pequena que visa ser grande,
Que em si mesma não cabe e em outras se expande.
Debruçado na tarde que em mim se entreabriu,
Sinto-me tal qual Soares, quando este viu,
Por detrás dos olhos de Fernando Pessoa,
A casaria ensolarada de Lisboa
Resplandecer seus sonhos na manhã nascente,
Com a vaga nitidez de um aceno ardente.
Debruçado na noite que logo em mim chega,
O cansaço dos olhos tristes versos lega.
Sinto-me, como do quadro da vida, o pó,
Com meus sonhos todos consumados num só:
O sonho de morrer para não mais sonhar,
Retribuir o aceno ao dia, e cessar.
E na carne do meu coração sinto a dor
Que um dia pousou no poeta fingidor,
No desassossego de Bernardo Soares,
Uma de suas almas, um de seus pesares,
Um sonho desdobrado à janela da vida
Que ora sinto através da palavra incontida.
poema
beija-me,
que há tantas noites durmo
com este beijo preso
na garganta.
despeja teus olhos
nos meus sedentos olhos,
que há tantos anos espero
te ver chegar.
lê-me,
que sou todos os poemas
que um dia te compus
sem que você soubesse.
ou nada.
tanto me basta que sejas.
pois as palavras estão já distantes,
e tudo o que resta agora é este instante
em que as batalhas se sublimam.
memórias são pequenas pétalas
que caem sobre o mesmo chão
que um dia nos viu passar.
mas que não seja falso
este horizonte a que me lanço,
nem seja sonho
este instante;
este tão real instante
em que outra vez,
ao longe, vejo, e me vês,
e, perto, me sussurras
que, talvez,
nem tudo seja
sem sentido.
ambíguo
não tens resposta e não teces proposta
em poema. lamentas, mas lamentos
são cansativos e cansar desgosta.
já não te alevantas contra os momentos.
a poesia esvaziou-se toda.
a poesia não tem mais poesia.
na superfície pensas: "que se foda,
é isto", mas, de fato, sob a névoa fria
e espessa que paira sobre teus olhos
(e que te impele a escrever de tal modo,
alheio e amargurado, como agora)
cativas a luminescência entre espólios.
és vela opaca sobre um mundo todo.
e és o próprio pavio que te devora.
cosmologia
ver-te nua a compor constelações:
a água percorre teu cosmos febril,
a lâmpada te cede a estrela infante
se sobre a pele não se guarda o instante,
sob a pele se guarda o arrepio
[prosa] fragmento diurno-noturno
Segunda-feira fria, quatorze horas e quaisquer minutos que são sempre outros. É noite.
Vagarosamente permito que meus olhos se percam nas ondas dos lençóis que me cobrem as pernas cruzadas, concebendo, com a desatenção de meu olhar cansado, faces e gestos que nascem e morrem nos desenhos formados pelos vincos e sulcos dos tecidos velhos.
Nascem, porque me tocam a alma sensível que transita contente pelas choupanas cômodas da imaginação. Morrem, porque os intervalos sonoros das gotas que pingam nas calhas os desmancham com a realidade da chuva.
Segunda-feira fria, quaisquer horas e minutos que são os mesmos no pleno feriado que trespasso, sábado de agosto. O sangue corre quente nas veias impossíveis dos sonhos que derrubo nestes panos que observo. Quanta amizade pelas criaturas que penso plausíveis! Quanta ternura me causa o pássaro de renda alimentando o filho de asa rasgada! Quanta humanidade no sorriso irônico do finado ente que fui outrora, e quanta possibilidade!... Quanto esquecimento.
E quanta chuva.
Angústia. Pássaros e demais criaturas assassinas e assassinadas. A monotonia do embarque à consciência dolorosa, e o desembarque de seguida, e de novo, e de novo, através do calendário absurdo. Angústia e chuva.
E a chuva chora fria na acuidade com que sinto a realidade desamparada de tudo.
Chove, e desperto. E então encontro a realidade quebrada. E enfim sempre torno a sonhar.
Mas é noite. É sempre noite.
quimera
Toda a memória é uma quimera vaga:
A cauda, incerta, ora alegre ora triste;
O corpo, saudade; e a cabeça inexiste,
E então, é a nossa a que emprestamos à praga.
E a quimera de incerteza, saudade,
E nós mesmos, a tudo observa e pasma,
Distorcendo o tempo como um fantasma,
E roendo a si mesma com ferocidade.
Mas como amansar tal monstro distinto,
Se a ela damos a cabeça – a razão –,
E ela, impiedosa e ingênua, persiste?
Ora! Basta não alimentar-lhe o instinto,
E a ela dar não a mente – mas emoção,
No mais cauteloso afeto que existe...