Lista de Poemas
Eros I
De um brinde rouco de taças vazias
Ecoam no ar as mais sutis poesias,
Que precipitam em gotas de ardor
E queimam nossas carnes sem pudor.
De âmago esparramado pelo chão,
A brasa forjou, num só coração,
Um selvagem violino que geme
Ao toque macio da mão que freme...
E, à medida que avança a sinfonia,
As cordas emaranham, e o arco pende.
Enquanto a madrugada, em carmesim,
Contempla a bagunça desta euforia
E quais são nossas almas, já não entende...
– Pois não mais distingue você de mim.
Ecoam no ar as mais sutis poesias,
Que precipitam em gotas de ardor
E queimam nossas carnes sem pudor.
De âmago esparramado pelo chão,
A brasa forjou, num só coração,
Um selvagem violino que geme
Ao toque macio da mão que freme...
E, à medida que avança a sinfonia,
As cordas emaranham, e o arco pende.
Enquanto a madrugada, em carmesim,
Contempla a bagunça desta euforia
E quais são nossas almas, já não entende...
– Pois não mais distingue você de mim.
👁️ 164
Silêncio
Quero louvar-te, meu amor,
Na mais antiga linguagem.
Louvar-te com despudor,
Louvar-te sem ter imagem.
Louvar-te além da mensagem.
Quero louvar-te, meu amor.
Quero louvar-te com calma
Ardente, como uma vela
Que te possa aquecer a alma.
Louvar-te em linguagem bela.
Linguagem que o amor revela.
– Quero louvar-te em silêncio.
Na mais antiga linguagem.
Louvar-te com despudor,
Louvar-te sem ter imagem.
Louvar-te além da mensagem.
Quero louvar-te, meu amor.
Quero louvar-te com calma
Ardente, como uma vela
Que te possa aquecer a alma.
Louvar-te em linguagem bela.
Linguagem que o amor revela.
– Quero louvar-te em silêncio.
👁️ 146
as nossas canções
não.
as nossas canções não tocam
nos bares
nem nas ruas
nem nas festas
nem nos carnavais.
e entanto
nas ruas
nos carnavais
nos bares
e nas festas
as nossas canções tocam em mim.
e eu nunca estou
nos carnavais
nem nas festas
nem nas ruas
nem nos bares.
não.
estou sempre nos lugares imateriais
aos quais me remetem
as nossas canções.
as nossas canções não tocam
nos bares
nem nas ruas
nem nas festas
nem nos carnavais.
e entanto
nas ruas
nos carnavais
nos bares
e nas festas
as nossas canções tocam em mim.
e eu nunca estou
nos carnavais
nem nas festas
nem nas ruas
nem nos bares.
não.
estou sempre nos lugares imateriais
aos quais me remetem
as nossas canções.
👁️ 1 437
Migalha
Tem muito de ti
No pouco de mim.
Tu és começo e fim
Do que escrevo aqui.
Cada rouca rima
Dedico-te, a um traço
Ou, quiçá, um abraço
– Mesmo uma lágrima.
Todas as memórias doces
São dóceis fragmentos
Do que me fosses.
E cada poema meu
Não passa de migalha
De um sorriso teu.
No pouco de mim.
Tu és começo e fim
Do que escrevo aqui.
Cada rouca rima
Dedico-te, a um traço
Ou, quiçá, um abraço
– Mesmo uma lágrima.
Todas as memórias doces
São dóceis fragmentos
Do que me fosses.
E cada poema meu
Não passa de migalha
De um sorriso teu.
👁️ 597
Cinzas Ao Vento
Apanhei as memórias remanescentes
De um amor que há muito se findou
E as incendiei,
Até que não restasse mais nada
Além das cinzas,
As quais soprei em direção ao esquecimento
Ah, mas que tolo eu fui
Ao crer que lograria êxito o meu intento
Afinal, em meio às idas e vindas
Dos vendavais da vida,
As cinzas sempre retornam com o vento
De um amor que há muito se findou
E as incendiei,
Até que não restasse mais nada
Além das cinzas,
As quais soprei em direção ao esquecimento
Ah, mas que tolo eu fui
Ao crer que lograria êxito o meu intento
Afinal, em meio às idas e vindas
Dos vendavais da vida,
As cinzas sempre retornam com o vento
👁️ 846
Rasga-me, Mata-me... Mas Ama-me
Se tua preocupação é rasgar-me,
Querida, não tenhas tanto receio
No incerto âmago do teu seio.
Rasga-me. Mais que isso – mata-me.
Morrerei sem pudor.
Pior seria morrer de muito temer
E, por não aceitar sofrer,
Baldar a chama de um amor.
Rasguemo-nos mutuamente
Bailemo-nos na mesma chama
Livra-te do receio, e me ama...
Mata-me de amar intensamente.
Querida, não tenhas tanto receio
No incerto âmago do teu seio.
Rasga-me. Mais que isso – mata-me.
Morrerei sem pudor.
Pior seria morrer de muito temer
E, por não aceitar sofrer,
Baldar a chama de um amor.
Rasguemo-nos mutuamente
Bailemo-nos na mesma chama
Livra-te do receio, e me ama...
Mata-me de amar intensamente.
👁️ 692
Quantas Mortes Tem a Vida?
Quanto mais hei de morrer
Até a morte final?
Qual eu meu terei de ser
Para que viva, afinal?
Qual óbito bastará
Para abster-me de crisálidas
Vindouras? E qual será
A maior das mortes cálidas?
Não sei... Caço o coração
Que não está ainda em mim...
Se tanto morrer foi vão,
Saberei apenas no fim.
Quantas mortes tem a vida
No intercurso de sofrer?
Eis a minha eterna dúvida,
Quanta morte hei de viver?
Até a morte final?
Qual eu meu terei de ser
Para que viva, afinal?
Qual óbito bastará
Para abster-me de crisálidas
Vindouras? E qual será
A maior das mortes cálidas?
Não sei... Caço o coração
Que não está ainda em mim...
Se tanto morrer foi vão,
Saberei apenas no fim.
Quantas mortes tem a vida
No intercurso de sofrer?
Eis a minha eterna dúvida,
Quanta morte hei de viver?
👁️ 229
Soneto do Seminarista
Em memória de Machado de Assis.
Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Avisto-a e rego-a em plena terra errante
E a candura de teu néctar distante
Irradia de luz minha alma obscura!
Oh! Esperança alva! Oh! Sonho de brandura!
Desabrocha em meu peito a cada instante
Vosso nobre propósito exultante
Qual só se alcança através da ternura!
E de sonhar-te a macieza em vida
Não temo, jamais, a vinda da mortalha!
Minha vontade de ti, comovida,
Aufere as sementes do céu e as espalha,
Aos que me hão de acenar despedida.
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Avisto-a e rego-a em plena terra errante
E a candura de teu néctar distante
Irradia de luz minha alma obscura!
Oh! Esperança alva! Oh! Sonho de brandura!
Desabrocha em meu peito a cada instante
Vosso nobre propósito exultante
Qual só se alcança através da ternura!
E de sonhar-te a macieza em vida
Não temo, jamais, a vinda da mortalha!
Minha vontade de ti, comovida,
Aufere as sementes do céu e as espalha,
Aos que me hão de acenar despedida.
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
👁️ 201
a vida é súbita
súbitas foram todas as flores
pelos caminhos colhidas,
e nunca palpáveis à distância:
no ponto em que surgiram,
existiram,
e traduzidas não cessaram.
nem foram catalogados
em futurologias
os cantos das aves submersas
em folhas de verde silêncio,
que imprescindíveis
e imprevisíveis
o fogo dos poentes sustentaram.
agora,
a sombra encobre
a encruzilhada.
o silêncio não acalanta,
a voz não chega à superfície,
e entre as pedras espalhadas
pelos incompreensíveis poros
que distam presente e memória,
resquícios de riso
buscam o riso,
porém se quebram e calam.
aves com asas de faca
rodeiam a morta flor
delimitada
dentro da palavra flor.
o desperdiçado pólen
pesa sobre a mão
que conteve a abelha.
a cidade é grande,
mortalmente pragmática.
é fácil perder
as flores.
mas a poeira nas botas
remete à permanência da estrada.
entre uma pedra e outra pedra,
súbitas são as flores.
mas o coração sabidamente vermelho
pulsa alinhado
às cores das pétalas.
súbitos são os pássaros.
a mim,
desaprendido do ofício da alegria,
não seja, talvez, tempo
de desprender-me do ofício
da esperança.
a vida é súbita,
entre a inflorescência e a semente arruinada,
lampeja e desaparece,
e então regressa,
sempre à espera de nascer.
uma centelha rompendo
um caminho sem luz.
velha vida, lembrança da vida futura,
porque te amei – não mais te amando – ainda espero.
pelos caminhos colhidas,
e nunca palpáveis à distância:
no ponto em que surgiram,
existiram,
e traduzidas não cessaram.
nem foram catalogados
em futurologias
os cantos das aves submersas
em folhas de verde silêncio,
que imprescindíveis
e imprevisíveis
o fogo dos poentes sustentaram.
agora,
a sombra encobre
a encruzilhada.
o silêncio não acalanta,
a voz não chega à superfície,
e entre as pedras espalhadas
pelos incompreensíveis poros
que distam presente e memória,
resquícios de riso
buscam o riso,
porém se quebram e calam.
aves com asas de faca
rodeiam a morta flor
delimitada
dentro da palavra flor.
o desperdiçado pólen
pesa sobre a mão
que conteve a abelha.
a cidade é grande,
mortalmente pragmática.
é fácil perder
as flores.
mas a poeira nas botas
remete à permanência da estrada.
entre uma pedra e outra pedra,
súbitas são as flores.
mas o coração sabidamente vermelho
pulsa alinhado
às cores das pétalas.
súbitos são os pássaros.
a mim,
desaprendido do ofício da alegria,
não seja, talvez, tempo
de desprender-me do ofício
da esperança.
a vida é súbita,
entre a inflorescência e a semente arruinada,
lampeja e desaparece,
e então regressa,
sempre à espera de nascer.
uma centelha rompendo
um caminho sem luz.
velha vida, lembrança da vida futura,
porque te amei – não mais te amando – ainda espero.
👁️ 20
chronos
flutuo, enquanto a chuva não cai,
ao redor dos anéis de saturno, outra vez.
do alto deste ponto, me avisto noutro ponto.
de lá, porém, eu não me avisto. estou ocupado demais
amando as coisas que já não amo,
brincando em castelos de areia agora desfeitos,
dormindo à sombra de uma luz antiga.
sorrio: somos iguais. neste instante, noutro instante,
também me vê quem não me vejo.
ele que também sorri de meus oásis
enquanto se prepara para a morte.
unidos pelo ponteiro e separados por suas voltas
– um estalido familiar, à meia noite, anuncia: é tudo real.
ao redor dos anéis de saturno, outra vez.
do alto deste ponto, me avisto noutro ponto.
de lá, porém, eu não me avisto. estou ocupado demais
amando as coisas que já não amo,
brincando em castelos de areia agora desfeitos,
dormindo à sombra de uma luz antiga.
sorrio: somos iguais. neste instante, noutro instante,
também me vê quem não me vejo.
ele que também sorri de meus oásis
enquanto se prepara para a morte.
unidos pelo ponteiro e separados por suas voltas
– um estalido familiar, à meia noite, anuncia: é tudo real.
👁️ 2
Comentários (4)
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sthefany
2020-05-22
seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
rosalinapoetisa
2020-04-28
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
rosalinapoetisa
2020-04-28
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
biancardi
2020-03-20
Belos textos.
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