Lista de Poemas
das partes que não partiram
é que somos compostos.
somente através de regressos
amamos e vivemos.
o tempo nos fere e divide.
despedimo-nos de nós mesmos e das coisas
a cada mínimo instante,
e, no entanto, não abandonamos nada.
parte a estação, resta-nos a pétala.
apertando-a contra o peito, sangramos.
e mal percebemos que é por meio dela mesma
que chegamos a novas primaveras.
parte o beijo para o impossível,
mas a reminiscência do beijo, nos lábios,
permanece – e assim, em nós, o anseio de revivê-lo,
de acalorar o corpo morno, de vencer a morte.
para cada história em nós decepada
uma busca incessante em nós se elabora.
traços vagos no meio da noite
nos guiam a sonhos incríveis.
e mal percebemos que amamos.
e mal percebemos que vivemos.
o coração se consome em música
e a poeira, à luz de um novo dia, cintila como estrelas.
o símbolo
a poesia nasce
assim amamos as flores:
para compor jardins
do que nos escapa
canto
porque não permaneço,
posso sofrer e cantar
fosse eu infinito
para além da infinidade
com que sinto,
a cidade
e a canção
não eram tão grandes
partes
é que somos compostos.
somente através de regressos
amamos e vivemos.
o tempo nos fere e nos divide.
despedimo-nos de nós mesmos e das coisas
a cada mínimo instante,
e, no entanto, jamais abandonamos nada.
parte a estação, resta-nos a pétala.
apertando-a contra o peito, sangramos.
e mal percebemos que é por meio dela
que vamos a novas primaveras.
parte o beijo para o impossível,
mas a reminiscência do beijo, nos lábios,
permanece - e assim, em nós, o anseio de revivê-lo,
de acalorar o corpo morno, de vencer a morte.
sim: para cada história em nós decepada,
uma busca incessante em nós se elabora.
traços vagos no meio da noite
nos guiam a sonhos incríveis.
e mal percebemos que amamos.
e mal percebemos que vivemos.
o tempo consome-se em música
e a poeira cintila como estrelas à luz de um novo dia.
lugar
e não ao campo,
é que provarás da liberdade.
do que é esconderijo
nenhum lar nasce,
eis a áspera verdade.
não te trarão promessas as árvores,
nem nascerão prelúdios de fantasias
nos rios profundos onde te espelhas.
nem brotará da terra o amor,
nem mesmo paz ou conclusão
surgirão sob as estrelas.
mas aguça bem o teu anseio e vê:
verdor, frescor, sementes e lumes
derramam uma realidade inteira
sobre um renovado campo sem finalidade:
pertencimento, possibilidade,
liberdade verdadeira.
e já nem saberás, de repente,
como foi que chegaste
àquele lugar...
o habitarás, simplesmente:
um lugar menos mundo, no mundo,
e mais lar.
viajar
e não quaisquer viagens: viagens independentes e perenes.
você, escritor, cria uns percursos através das palavras
e involuntariamente dá à luz certos percursos ocultos
(a que outros, que não você, possivelmente encontrarão depois),
e mal se dá conta do que faz
enquanto consuma a cada linha teu esforço e intento,
sem qualquer garantia de alívio ou precisão.
e então, uma vez concluída a obra,
é que você vê, se olhar bem, que ela está menos concluída que nunca.
subitamente,
ela é uma viagem. e é como um filho:
a tua participação foi essencial para que ela existisse,
e entanto ela não te pertence. ela está lá, se desenvolvendo à parte de ti,
no desamparo do mundo, sem esperança. existindo.
viajando e conduzindo outros a viagens sempre imprevisíveis e distintas,
se renovando sempre e desabrochando outros caminhos
que outrora estiveram dormentes
em suas entranhas absurdas.
acaso há mais doce favo de poesia do que isto?
viajo outra vez.
descobrir
mas o que me mantém vivo
é a íntima perspectiva
de descobrir algo novo
a cada ínfimo dia.
é saber que a grande noite
pode não ser maior que
as estrelas que ali estão,
contanto que eu assim as busque
e as perscrute, atentamente.
que sequer é necessário
ir tão longe para ver
que ainda há muito pra ver.
é saber que, como há estrelas,
e insetos, e aves, e sapos,
há também canções mais belas
em algum lugar, dormentes,
as quais posso despertar
e trazer até quem sou,
promovendo a integração,
a meu mundo, de um novo ar
de renovado perfume
ou sufocante verdade,
de qualquer modo bastando
por ser, sobretudo, a vida.
sim - o que me mantém vivo
é a íntima perspectiva
de descobrir, amanhã,
uma canção polonesa,
um novo sabor ou cheiro,
um país dentro de um bairro,
ou o segredo dos pássaros
(estes tais dinossaurinhos).
ou, ainda, algo menor:
um silêncio, um pensamento,
uma sensação sem nome
de serenidade ímpar.
não é o sonho de viver
quando já não for meu tempo.
nem o anseio de conter
algo eterno, a que repilo.
é o mero o prazer de andar
de um ponto ao outro, observando
o quanto for observável
no instante único que é tudo,
e atestar que ali há muito,
há tanto, tanto que não
conheço! e que desconheço
em meu desconhecimento!
é a recordação do espanto
buscando ressuscitar,
para outra vez afirmar
o privilégio da alma.
é o que me mantém vivo.
a íntima perspectiva
de descobrir algo novo
a cada ínfimo dia.
precisão
aproveitar o tempo, ter propósito.
e cedo aprendi que é recomendável
optar por ver somente as boas coisas
que flutuam sobre as calçadas sujas
que, sem ver, pisamos, pelo bom pão.
bem sei – é verdade! – que é preciso
rir, de olhos fechados, do diferente,
envenenando-se, sábado, à mesa,
jogando cartas e se diluindo.
e farrear, fazer sexo, ter filhos!
e recuperar-se, enfim, no domingo.
sofrer humilhações, furtar-se ao óbvio,
engolir sapos que que à fome não matam
só pra depois poder comer o básico
no intervalo entre o isto e o nada;
sim, incontestavelmente é preciso.
bem sei. trago comigo o protocolo
debaixo do braço e no peito oco.
só de algo não estou certo: ...preciso?
presença
sim, na tua presença,
que me ficou impresso em tua ausência,
desse jeito, independente...
e que a mim regressa sempre
por através de caminhos distintos.
mesmo a luz que me rege se rende
à tua figura amorfa remanescente:
mesmo que não estejas,
permanece a tua sombra,
e tudo à tal sombra se dá.
talvez porque de mim fiz uma casa a nós,
em um passado em que ainda era possível sonhar:
agora, sou uma casa sem lar,
de janelas quebradas e vivas
situada em uma rua deserta.
uma casa a que não se demole por pena,
e que se faz abrigo de fantasmas.
os mais lindos fantasmas.
os mais incompletos fantasmas.
as paredes frias compostas de silêncio,
emoldurando a porta,
e nela um cadeado – como um milímetro que separasse,
por eternidade,
dois lábios que se pertencessem.
talvez porque de mim fizeste teu deleite,
e me insinuaste teus segredos
em meus recantos menos nobres,
eternamente ardentes e incônscios,
apaixonados pela sombra à ausência da figura,
apaixonados e tristes,
porque não entendem que a vida se transforma.
talvez porque a cidade permanece a mesma,
e toda ela já nos viu passar:
esta cidade que fala demais
com casas e árvores repetidas,
com palavras repetidas,
inquiridora, galeria de espelhos.
esta cidade
que me traz de volta estes lugares
a que ainda te projeto através dos olhos,
assim como uma luz de lanterna
que denunciasse uma rosa no escuro:
uma rosa murcha,
tão murcha
e humilde,
e contrita, como se esperasse, talvez,
que lhe descesse de um céu turvo
o milagre de um perdão definitivo.
uma rosa tão murcha...
mas
tão bonita.
de qualquer maneira, é certo:
há algo no que foi tua presença
que resiste imenso, monumental,
e simples.
há algo.
resta algo.
e por isso retornas a mim repetidas vezes.
trazendo, sempre, nos teus olhos ilusórios,
a chave do cadeado,
a água para a sede dos abismos,
a possibilidade de suturar os lugares que sangram;
sem que para tanto necessites dar um passo,
sem que seja necessário um gesto.
sim, algo...
e eu estou triste,
e respiro profundamente
e escrevo desatentamente:
não é preciso atenção,
pois tua mão me calça a minha mão, agora, e me guia
através destas linhas inúteis
em direção a você – talvez na contramão de todo o resto.
em direção a esta duradoura presença
que não compreendo.
essa presença
tão distante
que só assim a ouso buscar,
e ainda assim tão presente
que não buscar se faz impossível.
algo
que chora
na casa vazia.
um homem vagueia através da noite
através da noite.
vê as estrelas,
e cada uma delas
é a ele uma palavra
por ele jamais dita.
sim. um homem vagueia
através da noite,
e já não pode mais dizer.
o momento está perdido. a voz se foi.
seu tempo é só memória,
e ademais é dor.
vagueia de braços pensos, o corpo fraco,
com as mãos cheias de artifícios
e os olhos fartos
do que nunca viram
– e do que viram,
mas já não podem comunicar.
um homem vagueia entre si e o mundo.
por vezes quase decide parar.
mas segue sempre devagar,
por vezes rindo,
permitindo, depois, que qualquer brisa
lhe tome o riso.
entretanto, não vai vazio:
um enorme estômago
com enorme náusea
e um enorme coração
com enorme espanto
lhe são muito fiéis.
foi criança, teve sonhos,
bem como aspirações da carne
e vontade de gramados silenciosos.
é, afinal, como tantos outros. vagueia através da noite.
e assim, sem vida,
escreve para não morrer.
Comentários (4)
seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
Belos textos.
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