Fitei-o de soslaio dentre os demais que fixavam cantoneiras à parede. Ele, destoante, intrigou-me. Aproximei-me para examiná-lo.
Dava já indícios de ferrugem, que despontava em meio às pequenas sujidades que se acumulavam ao redor de sua cabeça. Cabeça que, por sinal, não ia bem, posto que a fenda encontrava-se espanada. Apesar disso, dava ainda bom aperto. Não seria ele o responsável pela hipotética queda de minha singela prateleira, e eu bem o sabia.
Ainda assim, impelido pelo tédio, propus-me a trocá-lo, simplesmente. Capricho estético de uma tarde vaga.
Então, num súbito ímpeto de boa vontade, fui-me à loja de ferragens mais próxima. Sabia bem o que eu queria. Conhecia a medida exata do que precisava: um parafuso de cinco milímetros de espessura, por trinta de comprimento, banhado a zinco e de cabeça fenda panela, de modo a combinar com os demais.
Paguei trinta e cinco centavos. Voltei para casa.
Removi, cautelosamente, de cima da prateleira, meus livros e demais bugigangas. Apanhei a chave de fenda e extraí o feioso e o colega que o auxiliava. No mesmíssimo buraco, pus o novo parafuso. Contemplei, depois, satisfeito, o novo aspecto da prateleira. Mas, tênue, senti o antigo parafuso espetar minha mão. Olhei-o.
O havia trocado sem qualquer pudor. Afinal, o parafuso novo fará a exata função deste velho que me não serve mais. Nada sinto por ele. Nada, pois todos os parafusos me são o mesmo. Uma única coisa, todos eles: a ideia de que servem para fixar. Assim, este pobre parafuso que arranquei de seu lugar pôde logo ser reposto por um mais novo e aprazível.
E por que haveria de ser diferente?
Nunca teve este mísero parafuso algo de idiossincrático. Nunca teve este parafuso um jeito característico com o qual ajeitava os cabelos por detrás das orelhas, casualmente. Nunca me desferiu este parafuso um sorriso com uma configuração única de dentes (tampouco me cravou a carne do pescoço com a mesma). Nunca sonhei deitado ao lado deste parafuso. Nunca ouvi seus segredos, ou segredei-lhe a minha própria intimidade. Nunca tive, em meus lábios tristes, o sabor de sua mágoa. Nunca o tive enquanto em pranto, nos meus braços, em uma tarde qualquer de maio (tampouco fui eu a causa deste pranto suposto). Nunca me foi ele senão uma utilidade sem alma, substituível, descartável, barata, esquecível. Nunca me poderia deixar um espaço vazio na parede, pois posso comprá-lo a qualquer momento na loja de ferragens, pela bagatela de trinta e cinco centavos.
Um parafusinho de merda. Sujo. Feio. Nada.
E numa comoção repentina e exagerada, envergonho-me e enraiveço-me ao divagar acerca das vezes que pensei, porcamente, que eram não mais que parafusos em minha vida as vivalmas com as quais partilhei de tudo quanto é ausente nas coisas substituíveis.
Vivalmas! Cabelos, dentes, sonhos, mágoas, amores... Vivalmas! Removi-as...
Mas a elas não há peça de reposição.
O vazio do espaço onde um dia se encaixaram me permanece vazio, a despeito de outras peças análogas com quais tentei compensá-las, sem nunca obter, porém, senão novos espaços cravados em lugares distintos.
O que restou: buracos impreenchíveis em minhas paredes internas.
E a ausência dói eternamente.
E os buraquinhos perenes me fazem frouxo.
E eu, ridículo, sujo, encrostado de ferrugem na alma, fico olhando para o velho parafuso, com o pranto constipado, enroscado na garganta.