Escritas

Lista de Poemas

lembra

poucos meses de isolamento
comportam séculos de esquecimento

poucos meses de cinzas
caídas sobre a mesa
poucos meses de poeira cobrindo as prateleiras
poucos  meses de fome
de penumbra
de ausência
                        de amor

subitamente toco as letras de um caderno:
coisas vivas de há poucos meses
acenam de algum lugar da eternidade
– quem escreveu estas coisas?
quem encarnou estas preocupações?

eu
não lembrava

havia vida aqui:
havia uma casa, um orquidário,
havia planos traçados,
o escarlate da vontade
sangrava pelos poros do papel

havia qualquer coisa que não fosse cinzas,
poeira, fome e penumbra,
como agora as minhas mãos parecem
implicar

havia uma carta a enviar, uma viagem a ser feita,
uma canção sempre a descobrir;
poemas embrionários,
sincera comoção pelos vencidos.
um cansaço distinto do exílio.

e para onde foi?
(pode um lírio desfazer-se
sem legar qualquer perfume?)
quanto desta repentina piedade será só culpa,
falta de cautela,
miragem?

e, no entanto, eu sei:
sou eu

tanta coisa minha
que eu nem lembro
de ter esquecido

eu não lembrava, céus,
eu não 
              lembrava

não é o esquecimento tão mais belo
    quanto mais terrível
    do que a morte?
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semente

– j.

há uma semente aqui,
ela me disse,

e o tempo agora revela
um campo estéril
de tulipas mortas...

com as mãos vazias e sujas, penso:
não se pode semear
a névoa de medo e sonho
que precede o solo real,
por mais sedutora que seja.
é necessário transpô-la,
e isso demanda coragem.

também não basta semear
o solo perfeitamente tangível
e manter a armadura que limita
o alcance das mãos que cuidam,
é preciso deixá-la de lado,
e isso demanda coragem.
fazer valer a semente
demanda sempre muito amor,
e o amor demanda coragem,
muita, muita coragem
nesta terra de desterros.

porque o amor é sempre
o primeiro gesto de vulnerabilidade
diante da face da morte:
somente assim
pode-se não morrer;


é o coração exposto
que não sente medo
de buscar,
é o olhar calmo à espera da verdade,
é a força que nos põe à margem
da fenda abissal e nos faz apreciar
os infinitos tons de azul.

não subsiste onde suas raízes
ficam soltas ou feridas,
em reinos de resistência e podridão
onde imperam as distâncias,
preferindo ceder à ruína.
em campos assim
restam somente pétalas imaginárias.

e eu ouço,
sob o peso de minha exaustiva armadura,
os sussurros das pétalas:
através de poemas,
através de memórias já gastas.
numa voz disforme e ausente,
elas me dizem:

havia uma semente aqui.
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episódio

tão breve
  dançou dentre
as brasas
  e já se esvaiu

  dessa cinza
se faz tinta:
  eis a vida
após a morte

dança de novo
  coração medroso
na cor morta
  que imita a aurora

  celebra em ti
teu sonho distante
  que não se conclui
                        jamais
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lembrar é criar

nada se perde:
o que era azul
ficou em algum lugar
entre o amarelo
e o verde

o busco
– com sangue o busco –
na paleta,
e quando enfim o acho
o acho violeta

nada se perde, mas
nada se acessa, jamais
o azul que ali viaja
só se revê violeta,
roxo, talvez lilás
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fóssil

amor é espécie
que somente em eventos
de extinção em massa
desaparece

extingue-se do que permanece,
e o permanecido parece
desaparecer:
leva consigo lugares
que não retornam nunca
à matéria pré-amorosa,

leva consigo a neutralidade
mesmo de certas sílabas,
que não mais cortam o silêncio
sem cortar a lembrança
(nome, faca sutil
amolada entre gestos
                          e signos,
desenhando no ar
um par de olhos, uma boca,
indicando, no mapa,
um endereço
para o qual não há caminhos)

consigo extingue da cidade geral
a cidade específica,
que humildemente se recolhe
à poeira da caixa,
e ali se exerce
sem novas obras,
sem
aniversários, festas,
pique
niques,
                sem
                luzes 
de natal

cafés, cheiros, plantas, bancos,
                                canções
por toda a parte
e em lugar nenhum,
coisas consumidas em marcas antigas
de garras ausentes
e dentes ferozes
outrora tão doces

cataclismo de sua própria fera
único fóssil
               que ruge
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decurso

o que em minhas mãos se aflora
e no corpo experimento
dura não mais que um agora
e então se desfaz no vento

mas não sem que antes traduza
de seu ínfimo momento
o infinito que o conduza
ao verso, seu monumento

para que de cada corte
reste a beleza incontida
e quando enfim me transporte

o tempo ao cais da partida,
eu leve só minha morte
e deixe aqui minha vida
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a casa

dentro da casa cabem muitas casas.
as paredes empurram contra as formas
todos os tempos nelas sublimados,
e em cada gesto a casa se transforma.

a cada porta que se abre ou fecha,
a cada coisa que se sente ou solta,
de dentro da caixa ou do álbum de fotos,
desdobra-se, como uma matriosca.

num canto da sala, a casa da infância
se abre, por exemplo, num tropeço,
ali, com suas presenças ausentes,
com seus brinquedos e rostos que esqueço,

e que esquecidos crio e tento achar,
rostos líquidos de voz e de sombra,
vívidos, sensíveis, invisíveis:
sem querer me ferem – e eu desvio o olhar.

dentro da casa cabem muitas casas.
logo no canto oposto à pueril
casa da infância, fechada na pálpebra,
reside a casa que ninguém mais viu,

desmoronando, roída de traças,
sobre seu alicerce imaginário,
cercada de acontecimentos ternos
que não puderam nunca entrar ali.

e na cozinha, no banheiro e quartos
diversas casas se mantêm à espreita
surgem, como na sala, de qualquer canto,
bem como da cama, quando se deita.

também é outra a casa no sofá,
se o corpo se reúne a outro instante
que tenha por acaso ali vivido
em uma casa  – a mesma – já distante.

e o mesmo se aplica a cada objeto,
e a casa comporta em seus corredores
viagens maiores que as de avião:
em qualquer cômodo, a um toque da mão,

a casa de quando ela ainda vinha,
aberta pela chave do perfume,
e a casa de logo depois da morte,
trazida pela roupa no cabide.

e o que dizer dos que a casa habitam?
em cada vida, quantas casas cabem?
a casa se reparte em cada peito,
e se projeta, múltipla, tal como

a luz num prisma, em dispersão,
e torna impossível determinar
onde vivemos – e eu quase sufoco
entre estruturas de concreto e sonho

se paro e olho em seus olhos cansados,
que pousam, bem como os meus também pousam,
sobre a matéria que, em silêncio, guarda
inglórias histórias – e quase morro

sob o peso de tanta casa, nômade,
andarilho de passo dividido,
retendo em mim esta dor singular
de não reter, de tanta casa, um lar.

dentro da casa cabem muitas casas.
o tempo as adormece e não corrói.
nenhuma das casas desaparece,
e mesmo quando alegre a casa dói.

dentro da casa cabem muitas casas.
é claro à vista por trás das janelas.
dentro da casa cabem muitas casas,
porém já não caibo em nenhuma delas.
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aquiles vê pentesileia

diante agora do teu rosto colho
o fruto de quando não te via:
em como vens, te despedes
em como te aproximas, te apartas

morte e vida consubstanciadas
em contraditórias flores,
crescendo, enroscadas,
dentro de mim

sem jardim
que lhes dê repouso
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lírio

despertei do sonho
em que te abraçava
e me vi diante
das folhas queimadas
do lírio sem flor

como se ali renascida
você morresse
            pela segunda vez
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arte

carregar aquilo que morre
ao infinito
chama-se eternidade

devolver a eternidade
àquilo que morre
chama-se arte
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Comentários (4)

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sthefany
sthefany
2020-05-22

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi
biancardi
2020-03-20

Belos textos.