yuri petrilli

yuri petrilli

n. 2000 BR BR

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n. 2000-12-26, Cerquilho SP

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as nossas canções

não.
as nossas canções não tocam
nos bares
nem nas ruas
nem nas festas
nem nos carnavais.

e entanto
nas ruas
nos carnavais
nos bares
e nas festas
as nossas canções tocam em mim.

e eu nunca estou 
nos carnavais
nem nas festas
nem nas ruas
nem nos bares.
não.

estou sempre nos lugares imateriais
aos quais me remetem
as nossas canções.
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Poemas

169

Humano Amor

Não a amarei perfeitamente
Mas a amarei com humanidade
Na mais pura sinceridade
De quem ama humanamente;

A ti serei perfeito somente
Dentro da honestidade
Com a qual, em verdade
Amarei-te imperfeitamente;

E se nesta imperfeita condição
Ainda almejares meu candor
A ti consagrarei meu coração;

Amemo-nos livres da dor
Que seria buscar perfeição
No imperfeito mistério do amor;
211

Lugar de Memória

É fevereiro. Trago livros. Chuvisca. Estou só.
Cruzo, outra vez, a mesma calçada da mesma praça.
Tanto já a cruzei, de lá pra cá, que já me acostumei,
De modo que, por vezes, visita-la é algo como
Visitar um parente morto.

Na praça, tem uma árvore pálida e descascada.
E ao pé da árvore paira uma memória antropomórfica
Que me sorri tristemente – e eu sinto seu sorriso
Mais nitidamente do que jamais senti sua pele ao tatear
Seus ombros com os dedos.

Sorrio de volta, como se isso importasse.
Peço perdão à forma ferida, como se fizesse sentido.
Vejo-me defronte a um lugar que não mais existe,
Senão sob a égide de dois olhos cansados que sonham.
Chove. Chovo. E vou-me embora com frio.
336

Bolha de Sabão

Descanso na humilde honestidade
Com que me sento à calçada,
Destituído, nesta tarde,
De qualquer outra pretensão
Que não seja a de folhear
As poesias que trago no regaço.
O céu está denso e cinza.
Poucos cães ululam em cio
Do outro lado da rua...
Inda menos crianças correm brincando,
Mais efusivas que os cães...
Não há vento que balance
As folhas das árvores cinzentas...
Nada de música. Nada de místico. Nada de nada.
Há somente a vida que corre
Como que com desdém aos ideais
Que nos fazem cultivar percepções,
Tal como a de que qualquer
Coisa de verde ou azul teria, supostamente,
Um significado transcendente,
E a capacidade de fecundar
Olhos ressequidos de avidez.
Não. Não há nada disso. Não há nada
Senão pouco mais do que é visto.
... E o tudo do pouco que há
É-me o bastante para descansar.
É-me o bastante para notar
A leveza que reside no reconhecimento
Da insignificância de um momento
Tão efêmero como é a vida:
– Folheando, à calçada, poesias
Antigas, que se renovam sobre o mofo
E se desdobram em novos significados à luz
Desta circunstância simplória.
E cada sonho meu, cada ideal, ilusão
Dá a mão a cada singular elemento
De realidade – e fazem ciranda
Diante dos meus olhos
Com a leveza da despretensão
E a pureza da desilusão.
A ciranda da sinceridade sublime
Não demanda mais que uma calçada qualquer.
E eu sorrio à calçada, vencido,
Tal como uma criança sorri
Em face à magia insignificante do estouro
De uma bolha de sabão.
172

Última Valsa

Da televisão, fez-se candelabro.
Do assoalho, fez-se vasto salão.
E ao tomar tua tristeza pela mão,
Fez-se a última valsa de amor glabro.

Rodopios dentre véu de descalabro.
Beijos salgados por um pranto vão.
E ao tomar tua alma baça pela mão,
Faz-se dança a tudo. A ti desabro.

E a mim tu desabre. E ri. E chora.
Exaure nos passos atrapalhados
A essência ambivalente deste agora.

Segue a dança triste. Agridoces fados.
Valsamos decadentes até a aurora.
Eu e tu, dois amantes despedaçados.
70

O Poema na Gaveta

O amor é um poema adormecido
Na mais profunda gaveta do mundo,
À espera de ser alvorecido
Por alguém que o resgate do profundo.

Quem abre a gaveta e o encontra escondido,
Bem redescobre a si mesmo, e ao mundo,
E paga o preço por ser enxerido:
Vive-o e sofre-o a cada segundo.

Alterna, em seus versos, a dor e o sonho
Escritos com esmero contumaz
Que fazem do amante escravo risonho.

Arranca-lhe, bem como lhe dá, a paz.
E inda assim, que arda o bálsamo, eu suponho:
Não vale viver sem lê-lo jamais.
102

Viagem

O fetiche do distante
Faz-nos cegos
Ao que há por perto
Em cada instante.

Tola inconformidade.

Há sempre amores perdidos
E países desconhecidos
Do outro lado da cidade.
102

Invernos

No inverno de há três anos,
Tive-a, sobre mim, a aquecer-me.

No inverno de há dois anos,
Pude, ao menos, dizer tê-la tido no inverno passado.

No inverno de há um ano,
Nem mesmo isto eu pude dizer, sem que fosse mentira.

No presente inverno,
Tê-la tido, há três anos, parece-me um mero sonho vago.

...E, conforme o tempo passa,
Tornando mais distante tal saudosa memória,

Mais intenso se torna o frio que sinto
A cada novo inverno que surge.
201

Frio

Lembro-me bem
Era um dia escuro, estava frio
Só o que havia de luz naquele quarto era a televisão
E você, que emanava radiante;
Sentei-me ao teu lado em silêncio
Observei-te, você notou, sorriu
E então, aproximou-se lentamente de mim
Fechei meus olhos,
E senti toda a minha angústia esvair-se num beijo teu;
Por um breve momento, assim, me senti aquecido
E pude finalmente sorrir;
Então, abri os olhos.
Ainda estava escuro.
E frio.
Mas você não estava lá.
Você nunca esteve.
233

Soneto do Colibri

De tudo, era o teu lábio o mais conspícuo
Estando ele enrubescido ou desnudo
Ou prosaico ardente, ou poeta mudo:
Distante farol de um sonho improfícuo...

Impossível flor de um jardim oblíquo
Que eu, pobre colibri, via, sobretudo,
Sedento pelo ósculo; e, contudo,
Não provei senão do nada perspícuo...

Sonhei, vindo de ti, o som do meu nome
Sussurrado por teu lábio ao meu ouvido
Seguido por um beijo, a findar a fome,

Que cultivei por não tê-la esquecido:
Esta imaginação que me consome,
Um náufrago sabor desconhecido...
92

Comentários (4)

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sthefany

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi

Belos textos.