Escritas

Lista de Poemas

JARDIM DE QUERUBIM

 

No teu jardim de querubim,

Auréolas de seda pairam no ar

Sussurrantes, tremem banhadas de luz

Ritmados, na batuta do delfim

Asas de anjos tremulam no esvoaçar

Palpitantes nos seus corpos nus

Sorriam por entre as flores do jardim

 

Ressoa notas cristalinas do clarim

Onde nasce o bem da existência

E a eternidade se funde na ausência

Presa na imaginação que coloris

A Via-Látea abre uma porta

Com as cores do arco-íris

No teu jardim de querubim

 

Venho do fundo remoto do tempo

A Esperança não sucumbe, ela não cansa

Não tenho tempo a perder

Bate nela a minha crença

No tempo sem horas no tempo sem fim

Abalam sonhos nas asas da descrença

Criam-se sonhos nas asas da esperança

Por penas aladas de querubim

 

Só queria ser um arcanjo

Sentir um amor exclusivo

Condensado nas normas celestiais

Flutuar no pecado abrasivo

E chorar por todos os demais

Sorrir quando o sol perder a luz

Sentir a sombra do corpo de anjo

Nas asas que transporte a minha cruz.


João Murty

👁️ 304

NOITE DE ESPIRITOS I

Foi a noite mais louca

de todas as noites

 

Invoquei, chamei, e tu chegaste……….

 

Num vórtice de luz, brincando, escondendo

ondulando na escuridão, em vagas de desejo

sombras fugazes, longas esbranquiçadas,

lábios alvos sequiosos bebem na imaginação

dois vultos catalépticos, presos num beijo

correria etérea, num espaço sombrio em negra magia

rumores, suspiros cadenciados reabrem a ilusão

um estrebuchar bruxuleante, de prazer maldito

condensando o tempo, até ao romper do dia

nas asas do querer, voei alcançado o proibido.

 

Foi a noite mais triste de todas as noites

 

Eu pedi, insisti, mas tu não ficaste……….

 

João Murty

👁️ 312

PAIXÃO DEVOLUTA

Tanta loucura, tanta paixão
neste amor prematuro
não á bela sem senão
não á bem que sempre dure
nesta vida transitória, deste triste coração
não sei se fostes ilusão ou ansiedade,
um déjà-vu ou uma realidade. 

Um silêncio, um olhar.
o ensejo do primeiro beijo,
uma história, um desejo,
nada fica, nada resta,
nesta agonia da tarde,
num amor podre que não presta,
o meu lume por ti já não arde.

Nesta minha partida,
já não sei o que sei,
já esqueci se te beijei
no adeus da tua ida,
fiquei mudo, fiquei surdo
quando a mentira se espalha,
a nau parte ou encalha
nas histórias de conveniência,
que me disseram quase tudo
e os silêncios da tua ausência,
mataram um amor, parco e devoluto

Que outros braços te apertem,
e outros afetos ,beijam essa boca de rosa e lume
que sintam o odor do teu perfume,
onde a volúpia do desejo, mata a lealdade,
tudo se apaga ou fica na memória,
desvanecendo-se aos poucos na sanidade,
amortalhando a desilusão, na serena realidade.

João Murty
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LIBERDADE SEM IRA

Por muito culpado que me julgues, não me flageles com palavras

O meu corpo sangra, e a minha alma foi engolida pelo esquecimento

Não, não quero mais sangue, nem mitos nem histórias, nem lavras

Pintado por um padrão de horrores, sem piedade nem sentimento.

 

Também não grites para essa gente, filhos de um passado presente

Surdos, não querem ouvir, nem saber as razões de quem sentira

O erro de não querer ser igual a tantos outros. Querer ser diferente

Esquecer o passado de dor. E crescer sem ódio, sem mágoa, sem ira.

 

Se cada um cumpre o destino que lhe cumpre, deixa-me ser como sou

Deixa-me então cumprir o meu, livre das amarras deste meu passado

Cantando e chorando por ser livre, podendo escolher por onde vou

Sendo certo, que o caminho mais perto, nem sempre é o do pecado.

 

Não, não me prendas as ilusões, deixa-me seguir a intuição

Deixa-me sonhar, cantar, talvez as vozes solidárias se unem

E despertem as inspirações seladas de negro, castradas na razão

Presas por gente vil, de índole maligna, em ações que se punem.

 

Como o vento que é vida, quero cantar liberdade. Liberdade sem ira

Em poemas, odes, estrofes percorridas nas vozes desses trovadores

Que juntam os versos dos poetas mortos, que abominaram a mentira

Abençoados pela sua luz de martírio, perdoaram o tempo de horrores.


João Murty

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VELAS DE MAR QUENTE

Trago comigo o silêncio, comigo mora o passado

Nubladas de angústia no pensamento, cerrado Impérvio anunciado!

Um místico sofrer fadado de censura, só em penitência permanente

 

Lembranças fugazes parcas de ternura mitigam as esperanças que persistem

No mar de razões mal-amadas, corroído por tempestades que ainda existem

No espaço sideral deste tormento, vivo a nudez das palavras assombradas

Véu tenebroso que perpétua na história alada de metáforas amordaçadas

Por ruelas escondidas, cenários sombrios de portas cerradas, becos e arcadas

Fragmentos de memórias, dos teus olhos em sentimento

Lágrimas caídas, estarrecidas no chão da noite escura

Por entre pedras e ruínas, rolam vencidas ao sabor do vento

Momento inteiro, instante único no adeus da desventura

 

Volteio no leito estreito onde me deito, melancólico triste e fatigado

Medito na imagem retida, das lágrimas dos teus olhos

Adormeço num sono profundo, que se agita perfumado

Salto no imaginário, pulando numa orbe de estrelas e de astros

De velas ao vento navego solitário, por entre a caligem da saudade

Minha alma presa em flor fia a dor na ponta alta desses mastros

Emérito de júbilo coração de amor, na voz que por ti chama e por ti luta

Por intrínseca vontade de outro valor, num frémito vibrante de ansiedade

Encontra a inocência absoluta do instante, dessa tua dor que em mim perscruta

 

Emérito de júbilo coração de amor, na voz que por ti chama e por ti luta

Por intrínseca vontade de outro valor, num frémito vibrante de ansiedade

Encontra a inocência absoluta do instante, dessa tua dor que em mim perscruta


João Murty

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GUARDIÕES DO TEMPO

Tu és o guardião do tempo, cobres ao meu lado esses gritos

De estandarte ao vento, lanças a ponte entre nós e a tormenta

No teu relógio sem horas profanas a mágica alquimia dos ritos

Soam como um lamento expirado, ronronando na tarde pardacenta.

 

A minha nave estática intranquila

Vagueia no mar do inverno ao desabrigo

Em águas revoltas permanece ao perigo do inimigo

Num crepúsculo sem luz assalta o entardecer

A noite se esmaga na terra, chegando aos meus ouvidos

Aquele eco frio e tenaz que massacra os sentidos

Num redopio alguém sem saber

Na sua sorte beijou a hora da morte.

 

A eterna mente, ainda encerra o eco frio e o sabor da terra

Que se cruza nesta vida descontente, esvaída por uma quimera

E o seu pranto cioso do silêncio em lagrimas de chuva se esvanece

Por entre muros de olhares submersos

Florindo arbustos de bagas rubras e violetas

Um prado de odor intenso ser e matéria, razão e senso

Astrolábio de estrelas incandescentes na noite de Primavera

Guardam o silêncio do tempo onde os dias se afastam dispersos.

 

Somos filhos do tempo, guardiões do silêncio

Do teu, do meu, de muitos a quem nada importa

Coabitamos com as dores, que volteiam o véu da inercia

Trespassando de forma calada profunda e lenta

E os teus medos acorrentados nos elos de cor cinzenta

São anéis da nossa ponte tecida em corda 


João Murty

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MARÉS DE SAL

Chegaste suave e leve como a brisa do ar

Desenhaste sem aviso crianças na minha mão

 

E minha alma louca por te encontrar

Pousou lentamente no teu coração

 

Nesse coração de jardim florido

Pegaste numa flor sem pressa e a tua vida pousou para me amar

Doce e lentamente na minha alma cheia de mar

 

Em revoadas soltas por leves asas brancas

Por entre dunas crescidas, feitas por ventos do norte

Em palavras floridas, por juras de promessas santas

 

Por búzios lançados em laços de amor de pulseiras da sorte          

Por pisadas frescas marcadas há beira – água

Por feridas sem dor e por dor sem mágoa

 

Agora bate lentamente esse coração enfraquecido

O dissídio angelical dissolverá numa harmonia diva

A angústia na hora pensativa no olhar tristonho e envelhecido

 

Sem ti sinto-me velho na vida ou novo sem alegria

E esse teu ventre está oco de filhos que não vêm mais,

Tenho o frio do teu Inverno, numa herança de letargia

 

De letras surdas e trémulas, sufoco no inferno de escrita rouca

Sinto que as minhas mãos vão perder o cheiro do tempo de serem por ti tocadas

E os meus lábios vão sofrer por selar o teu sorriso na minha boca

 

Tens ainda aqui o coração deslumbrado,

À espera das mil coisas que tens para dar

E um desejo infinito de tocar o passado,

 

Amar, viver, morder no tempo, gritar um não

Exaltas a revolta no eco impotente desse grito décuplo,

Que se esbate no tempo empíreo que te dão.

 

Um doce esquecimento, um salgado gosto no chorar

Nada importa neste percurso amargurado,

Tu és o rio doce, que corre no meu mar

 João Murty

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NOITE DE ESPIRITOS II

Onde estás? Por céu, por mar e terra de procuro

porque me abandonaste e me enches de solidão

só apenas me resta as tuas histórias de perjuro

e o bruar do eco da voz, que ecoa na imensidão

uma voz doida, que chora, que grita, que clama

 rouca e fraca, por chamar por quem ama.

 

Paira na noite, sombras da mentira ou a verdade?

o eco devolve o som do vazio que me afasta

corroído na dor de uma alma doente que passou

vagueiam os  beijos de volúpia e maldade

flagelando o silêncio que me domina e me mata

 

No vácuo eterno em vão te busco sem te achar,

Introspetivo, também me procuro…sem me encontrar

 

João Murty

👁️ 295

ANATOMIA DO POEMA

Silabas magoadas, embriagadas,

á solta no berço da ilusão

vogam  livres, amaldiçoadas

Encurralado num beco escuro

ingero, frases sem sentido,

dúbio fragmento e desilusão,

mastigo letras que não procuro,

arde-me o sangue, esforço ignoto,

 sou poço de febre, um lobo de fogo,

perseguido como um  mártir devoto.

Como se tratasse de um jogo,

cospem, palavras seladas na obrigação,

em escrita boçal, sem sentimento.

Por onde andas musa?

é da poesia , que eu me alimento!

 

Vem… vem, chega de mansinho,

anatomia do poema, musa da poesia

moras na alma, carrego-te nos meus ombros

então porque não vens? O amor é magia!

ternura , emoções, loucura, olhos de quem ama

vem, caminha na dor, entre ruinas e escombros.

desgrenhada, nua e fria, feres o espirito sem chama

 

Musa inspiradora, és meu prémio e meu castigo.

Eu não morri! Vivo na alma do poema! Vivo contigo


João Murty

 

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PAIXÃO

 

Nesta fúria de paixão tresloucada

Embalada na solidão de amores imperfeitos

Ganhei a volúpia do nada.

 

Carrego em passos apressados, esses momentos de paixão

Nada vê, nada importa, não distingue cores nem defeitos

Neste amor de amante, de fúria, e de desejo

Em pressão recôndita, sem ternura, sem condição

Apenas, um sorriso fugaz num improviso de um beijo

E, as rápidas carícias, nos instantes volúveis da sedução.

 

Nada fica, nada resta, apenas o eco profundo da censura

Num silêncio lascivo, que crepita no volteio das imagens

Na mente, uma luz bruxuleante, ilumina a zona mais escura

Em danças de espíritos que gemem nas noites selvagens

Ao ritmo desta paixão indefinida, fogosa e imatura

Gerada no pensamento que vagueia em mil viagens.

 

Ganhei a volúpia do nada e nela embalo o berço

Desta paixão tresloucada filha de amores imperfeitos

Entre o remorso asfixiante e a penitência de um terço.

J oão Murty
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