Escritas

Lista de Poemas

MULHER MORENA

Mulher pequena, tranquila

De traço moreno vincado

Olhares de ferro que abri

Água dura derretida

Consciência entendida

Certeza de estar aqui

Olhar de memória parado

Olhar vidrado partido

Lábio de fogo acobreado

De gosto saboreado

Amargo, doce que senti.

 

Mulher grácil, morena

O amor não tem segredo

Amar vale sempre a pena

Ama-te a ti sem medo

Sem gestos perdidos

Sem frio e sem mágoa

Eu guardo e tenho na mão

A corrente do teu coração

Quando para ti dizeres

Eu quero a vida solta

E se assim o entenderes

Eu dou-to de volta


João Murty

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ALQUIMIA DO TEMPO

Corro em volta do pensamento
Porfiando um amor que em mim se fechou
E nele ecoam as vozes que o tempo calou
Afogadas na mordaça do pântano do lamento. 

Por águas turvas em cinzenta espuma
Um derradeiro olhar para te encontrar
Na espiral de vultos que levitam na bruma.
Batem asas de anjos nos meus ouvidos
Sinto na minha pele o aroma do teu perfume
Sinto na minha a tua boca rosa de lume
Estrebuchando a alma despertando os sentidos.

Reinvento-te por entre o tempo perdido
Moldando o meu desejo ao imaginário
Dou-te a forma do caminho percorrido. 
Retenho no meu, o teu espirito celeste 
Soletrando a palavra desejo incendiada
Nos teus seios, jaz a ampulheta cinzelada
Tempo de areia acaricia teu corpo agreste.

Alquimias do tempo, trazidas no vento Suão
Galgando, bramindo por entre pinheiros mansos
Zunem orquestradas pelas estrelas da constelação. 
São gotas de orvalho, perolas no jardim da ilusão. 
Que minha mão colhe nas lágrimas do teu pranto
Marcas o tempo, na areia lanças magia e encanto
Suavizando a saudade que corrói o coração

Alopatia da cura nos segredos do universo
Transgressão da harmonia desalinhamento astral 
Viajem alucinante nas letras do verso.
Segrega a voz do lamento da tua queixa

Selando de mármore os ouvidos de quem ama

Varrem-se as memórias apagando a chama
Rompendo o sopro que tudo leva e nada deixa

Recordação angélica telepatia da nossa história
Eco longínquo do momento do reencontro
Um fogacho cadente no tempo e na memória. 
Vou fazer o teu sorriso com afetos de alquimia
Batida do coração ao ritmo do bolero de Ravel
Duas raspas da tua alma num poema de Brel 
Tempero com sol e lua, decanto com a luz do dia. 

Num gesto de tédio, dardejando o pensamento sem espaços
Bebo o cálice da alquimia mato a fome e a sede no infinito
A visão esbatesse a tela da lembrança projeta-se num grito 
Selo a memória e o momento do teu corpo nos meus braços.
Nossos corpos alados ganham garras e forma de condor
Rodopiam em bebedeiras de azul, num volteio ligado
Entrelaçados pela harmonia do tempo, num bailado de amor

 

João Murty

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MATRIARCA

Nesse teu porte altivo e sério, de carácter e vontade

Trazes na aura a justiça de alma nobre e guerreira

Onde o presente é futuro e o passado foi bandeira

Das vozes filhas da dor, que choraram por igualdade.

 

Nesse coração solidário, que chora por ver chorar

O teu sal é semente dos frutos gerados na magia

Do pensamento verdadeiro de quem ama e quer amar

De quem sente e sacia a sede, na fonte da sabedoria.

 

Se a vida são vivências de sucessivas experiências

Que de forma repetitiva, sucedem sem cessar

As rugas desse teu rosto são sulcos dessa vivência

Que na pele suportou dores, de quem teve de lutar.

 

Matriarca, senhora de ontem, mãe, esposa, tia, avó, e amiga.

Nesse coração puro e vigilante, podes ser o que bem quiseres

De cetro justo e cintilante, senhora de hoje, em vida antiga

Bendito seja o que fizeres, louvado seja o que disseres.

 

Nesta sede de viver, talvez eu me posso perder

Nas noites escuras e profanas de encruzilhadas sem via

Feitas de ventos e tormentos que cegam, e não deixam ver

O farol da verdade, que tremula de enganos no pavio da utopia.

 

Se essa for a vontade, grita por mim, mostra-me o meu norte

Mantém acesa a chama da harmonia, aponta o rumo que devo tomar

Nessa luz de tom branco onde mora o chamamento, talvez eu tenha sorte

E ouça o sentimento que perdura para além da morte e me faça voltar.

 João Murty

 

 

 

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MÁGOAS – II

    Podes sair, fugir, correr

Mas não te podes esconder

Pintei o teu amor com

Labaredas de fogo

 

Enlaçando no meu peito,

As cores do teu querer

Escondido nos gestos

Desse sedutor jogo

Tapei esse teu corpo com,

As minhas mãos vazias

Procurando esse sonho,

Que te acalma e descansa

Nas águas alcalinas, que Deus te deu,

Misturei tinta de amor ardente,

Neste querer que não te alcança

 

Dardejando, palpitante perto

Sem queixume

É um desejar que não sabe

Que existe, ou como nasceu

É cair nos teus olhos negros,

Embriagado no teu perfume

É sentir o pulsar do teu corpo,

E beijar essa boca rosa de lume

 

Podes sair, fugir, correr,

Mas não te podes esconder

Onde habita o sonho e flui o sentimento

Encontram-se as amarras do teu querer,

Porque se eu te perder!

Quem é que abraça com força o meu corpo,

E entrelaça a minha mão,

Fundindo-se por entre acordos de um bolero.

Na penumbra do meu leito?

Quem é que me afaga, e alimenta a ilusão!

Quem é que me beija, e morde o peito?

 

Sem ti o sol morre de frio, e o mar se veste de luto

Matando este amor estranho, e devoluto,

Nascido em asas brancas, que tu me deste

Pena a pena vai caindo, pela mágoa que me fizeste

 

João Murty

 

 

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REENCARNAÇÃO

Percorro as linhas da vida, em contagem decrescente

Como um foguete lançado na vastidão do universo

Vivo nesta escuridão, carregado de culpa só e penitente

Morro e ressuscito, como uma força fluida no tema deste verso.

 

Raspando as entranhas do tempo, com a culpa que me domina

Num tempo sem horas, onde o pó da memória não pára de correr

Suave em mágica espiral, vaie-se amontoando em forma de colina

Esculpindo no destino, o percurso que me cumpre percorrer.

 

Neste vale das almas, em que o passado é presente na lembrança

Findo o tempo do peso do meu karma, minha alma liberta o medo

O anjo - guia canta e clama às almas, desabrochando a mudança.

Num parto prematuro, num corpo de menino, reencarna mais cedo.


João Murty

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FLOR DE QUERUBIM

No teu Jardim de querubim

onde nasce o bem da existência

e a eternidade se funde na ausência

flutuam auréolas de prata e cetim.

 

Nesse jardim da ilusão

há poetas e poesias,

profetas e nostalgias,

uma estátua de marfim,

um jardim lendário,

um solitário jasmim,

com perfume imaginário.


Há sonho, magia, canto e prosa

um segredo indecifrável,

de uma diva e  uma rosa.

lendas intangíveis, mas tão sensíveis

gladiam o inóspito e o áspero

juntando fragmentos miscíveis

que fervem na  palma da mão

histórias lindas, mesmo que findas

pra sempre ficarão.

 

No teu Jardim de querubim

habita a lenda da flor que chora,

lágrimas de um triste fim,

gerado por um amor prematuro,

sucumbi-o à desilusão e foi embora,

não à bem que sempre dure

nem mal que não salte fora,

foi o corpo da bela diva, a solidão e o momento

um segredo corrompido, na paixão e  amor

uma traição, um gemido, um lamento

o triste chorar sentido,

no canteiro da rosa em flor

comunga da sua dor nas pétalas caídas ao vento

na quietude do silencio, no chão jaz o odor

o orgulho ferido, o despeito revolvido

e marcas no sentimento.


João Murty

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FRAGMENTOS II


Vasculho na inercia a soberba, fútil e ingrata 

esmagando num sifão, o grão da alquimia, 

mesclado num tempo que não tem hora, 

perdura  os  amores e dores que me afundo, 

aguardando a hora de morrer. 

Em vácuo eterno me esvaio disperso

como o alento final d'um moribundo, 

momento jucundo! Queira a morte aparecer  

eu  aguardo, como o último suspiro do universo. 
  


Ferrado na pele, roído e flagelado no sentimento, 

perdido na dormência de tanto me encontrar perdido, 

desfaço o cansaço, que bloqueia o pensamento. 


João Murty
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UTOPIA I

Mascara de olhos verdes de sorriso

 rasgado e denso

Resplandecente como ouro

de alquimia em fusão

Mascara de aroma,

magia inebriante como o incenso

Incandescente,

penetra no meu sonho de ilusão.

 

Com quanto ardor,

este sonho de reclusão me enleou

Em noites de chamas bruxuleantes,

neve branca misteriosa

Por onde andais?

Busco-te no silêncio do êxtase

que me embebedou

Procuro no recôndito da mente,

aroma fértil da noite voluptuosa

Dos recantos escuros,

esbate-se visões diluídas por bruxedo

Doces noites de desvelo!

Riso de uma mascara sinuosa

Vida, encanto, viagem no segredo,

traços nublado da tua imagem virtuosa.

 

João Murty

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TENPOS DE INQUISIÇÃO

Cruzadas, Templários, Cavaleiros de Malta, Inquisição

Loucos foram os tempos e duros foram os anos

Ordens de fé costumes profanos que adulteram a religião

Em atos de crueldade de quem pode e causa danos.

Sagas da desgraça, que se mata por fé, por raça e por pavor

Por ordens cruéis, dadas por qualquer senhor da corte dos infernos

O ar queimado por gritos dos mártires, roucos de dor

Perfilam-se na agrura dos lares desfeitos por ódios paternos.

 

Instrumentos de tortura, grilhões partidos, foles ardidos

Em sinais de espera, dos cães de guerra dos mundos perdidos

No tempo das sombras, de rezas de bruxas, de padres e algozes

De nobres da corte, por vontade sua, travam na rua duelos ferozes

O tempo de caos, sacrificado e dolorido, amarga no desgosto

Em caras marcadas esgaces de horror, estampado no rosto

Peste nauseabunda em corpos frenéticos de transpiração

Das chagas da lepra, dos sorrisos imundos da decomposição

Fogueiras de corpos, gemendo gritando, para morrerem de pé

Caídos e erguidos, são queimados vivos, pelos falsos da fé.

 

Tempos que pariste homens perversos, loucos sem compaixão

Vingando na maldade e matando em nome da Santa Inquisição

E, no final, nem vencedores nem vencidos, nem honra nem glória

Apenas uma nódoa no passado, que marcou uma era da nossa história

Nascida no fanatismo da religião, que envergonhou o nome de Deus

Sinais dos tempos, que se encontrem reluzentes em alguns museus.

João Murty

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MANHÃ DE AMORES

As estrelas virgens vão partindo

Piscando os olhos num ar matreiro

Para a manhã que vem chegando

Sonolenta e molhada de nevoeiro

 

Manhã envergonhada que no azul cinzento

Se perde num ócio de amanhecer

As estrelas já partiram no firmamento

E o sol estende os braços para nascer

 

Lavada pela luz benigna e triunfante

Sorri para o céu com amor

Saúda esse astro dominante

Que a visita com calor

 

As horas vão passando soalheiras

Pelos bosques e cumes arraigados

E a Manhã, vai-se furtando de mil maneiras

Às ordens dos deuses arreliados

 

Manhã jovem, de ar matreiro e angelical

Não vês que a luz da tarde já tremulava

É tempo, de outros tempos, afinal

E a Tarde na penumbra, cochichava.

 

Viver junto de ti justos amores 

Ao sol que desponta nova aurora

Receber dos deuses mil favores

Beijar teus lábios sem demora.

 

E partir, só ao fim do entardecer

Desprender-me num desejo de ficar

Ver Vénus no princípio do anoitecer

E amar-te, como a Tarde sabe amar

João Murty

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