Lista de Poemas
LAGOS
Zavaia, Lacóbrica, Lagos, terra de lendas e de mar
De
vizires, príncipes, boémios, poetas, vagabundos
Onde
o litoral palpitante manda o Atlântico beijar
Num
beijo com história da demanda de novos mundos.
Fortes,
muralhas, igrejas, descobertas, Eanes, Infante
Pedaços
de história cantados num poema que me conforta
Feitos
por filhos de hoje e de outro tempo mais distante
Forjados
na raça e orgulho de um passado que nos importa.
Nesse
azul de luz cálido de hálito brilhante que te torna mais diferente
A
mansidão do mar espraia-se num suave ronronar de um beijo permanente
Molhado
em odes que Afrodite cantou na magia do tempo que não passou.
Saltaste
no tempo, cidade de agora e do antigamente
Cresceste
exorcizada nos hábitos de apatia da tua gente
MEU AMOR QUEM SOU EU - I
Meu
amor quem sou eu?
se a morte predomina na bravura
sou um corpo que a alma esqueceu
nos anais da minha desventura.
Meu amor, minha suave agonia
caminho sem ver, nesta dor que tanto dói
tenho por companhia, o breu, na noite e no dia
em negra tinta de ansiedade em névoa que
corrói.
Meu
amor quem sou eu?
apenas minhas lágrimas marcam o passado
meu sangue errou de veia e se perdeu
apenas minhas lagrimas indicam o meu sofrer
Afinal quem sou eu?
nem o espelho reflete o meu ser!
minha alma alcança quando, transportada,
sente, alongando os olhos deste mundo
o tédio jucundo desta verdade amortalhada
por ti é tão pura a paixão de que me inundo.
Meu
amor quem sou eu?
sinto-me perdido, não posso ficar sem ti,
projeto-me num grito,
prefiro
eu, antes a morte,
para que quero eu a vida,
sem
esse enlaço tão forte...
deixo-me morrer então,
às
mãos desta minha dor,
já que não posso te ter em vida,
que
morra eu de amor
João Murty
INDEXAR IRONIA
Hoje vou indexar ironia,
Nas frases que falam, como tivessem boca
Momentos criados, em promessas e esperança
Semeado em falácias, colhidos na utopia
Num versejar, possessivo, em toada louca
Difusas, confusas no teorema e na teoria
Magos políticos, reúnam em surdina
PASSOS ardilosos, ressoam na calada
PORTAS falsas, num meio inquisitivo
Obstinados, no ar, sente-se a adrenalina
Selam o provisório, numa golpada
É o eco acéfalo no definitivo.
Em leis nuas, fulgem espadas frias
Sobre pensionistas e reformados
Estão condenados, de braços estendidos
São o elo mais fraco para vis tropelias
Por ordem dos Magos deslumbrados.
Deixam o sangue, perdem os sentidos.
Ecoam gritos, vozes se erguem na rua
Juntam-se os velhos na marcha da dor
Pernas dormentes, peito amargurado
Indignados, unidos numa luta pálida e nua
Cantam a liberdade e um hino de clamor
Pelejam por um descanso, digno e esperado.
Hoje vou indexar ironia
Vou desindexar a Demo-Cracia
Vou despedir e mudar o Povo
Sou o Demo - O Demónio sarcástico do dia
Tenho o fogo da palavra, que me liberta e
alumia
Amanhã, serei Cracia – Poder, mais justo e
novo.
João Murty
SONHOS DE ABRIL
25
DE ABRIL "40 ANOS"
Sendo um facto que nada é eterno e que as mutações temporais, aliada á sabedoria e endurance de uma sociedade, deveriam evoluir, caminhando para um processo mais justo e mais solidário. Por isso, era ensejo, de grande maioria dos portugueses, que o 25 de Abril fosse liberdade e afirmação de dignidade humana e, de democracia vivida e instituída.
Infelizmente, nos últimos tempos, assiste-se paulatinamente à degradação dos valores mais elementares, emergindo a incúria, o erro torpe, a ausência de culpa e responsabilidade.
Em memória, de um passado recente, querendo que o mesmo seja mais que uma quimera, mais que uma memória, que seja o concretizar dos valores que geram a evolução da sociedade de forma criativa, participada e pacífica. Fica o poema, brotado do peito em palavras, de desencanto, de desilusão, mas ao mesmo tempo de esperança.
SONHOS DE ABRIL
Tristeza que corrói a alma e me enche de rugas
o rosto,
profundas, vincadas pela ansiedade, pelo
desejo de gritar,
de dizer não quero, por lutar e sentir
desgosto.
Por chorar por um Abril que não vejo, que
tarda a chegar,
por um Portugal diferente. Que não seja
adulterado
por governantes políticos, sem alma e sem
soluções.
Por um País de promessas, corrompido,
queimado,
conspurcado por ganâncias, manietado por obsessões.
Sinto neste silêncio podre, místico como a
morte
o vento do descontentamento e o som da agonia,
gélido, cortante, permanente, rodopiando sem
norte,
sugando a identidade, matando a alma da
harmonia.
Comendo nas entranhas a nobreza e a memória
de um povo que tem garra, que tem raça.
Apagando a herança dos sinais fortes da
história,
de quem foi forte de quem tem credo de quem
tem casta.
Agora, um grito de revolta na minha alma
ardente,
escorrido como água, por entre o rochedo da
razão,
num doce eco fluido, que se prolonga
permanente,
neste corpo curvado cansado da espera e de
solidão.
Sinto o meu coração elanguescido, fundir-se na
saudade,
daqueles momentos vividos no prelúdio da
incerteza,
resgatados na coragem dos capitães, que
fizeram a liberdade,
de armas e cravos na mão, honraram e cantaram
a Portuguesa.
Quero afastar esta tristeza, que me invade a
alma,
quero dormir embriagado, pelo doce sabor da
ilusão,
daquela noite diferente, inquieta, livre e
calma,
deram cores aos sonhos, deram corpos e almas à
razão.
Abril dos cravos, de cores mais vivas nessa
primavera,
sofreste, crescestes por entre estertores
moribundos,
ergue-te e sai de novo à rua e grita pela voz
do povo,
para que o sonho não seja turvo e a esperança,
uma quimera.
João Murty
SENHORA DO LAGO
Donde vieste tu senhora do lago, ardente, vibrante audaciosa?
Envolta
nos mistérios das brumas, que esconderam tanta beleza
Que
ilha de aromas e encantos te conservaram tão airosa
De
que reino e de que história são as insígnias da tua nobreza.
De
que tempos, de que séculos, te trouxeram a nós doce rainha
Embalada
por harpas pressagias e pelo troar das trombetas
Que
horas profundas, lentas e caladas, teve senhora minha
Que
não ouvistes os cânticos sacros que te cantaram monges poetas.
Quem
te prendeu nesse lago, de marés nostálgicas e de mágoas
Que
neblinas de feitiçarias te deixaram no tempo adormecida
Esquecida
de ti, eremita de clausura, nesse sono Elfo sem vida.
Já
não és mais cativa, a doce magia da luz te desfolha nessas águas
Decantas
um casto sorriso, rasgando a bruma que no ar ascende
MEU AMOR QUEM SOU EU - II
Meu amor quem sou eu?
Como expressar nas palavras o meu delírio ardente
as coisas que gostaria de dizer.
Por essas doces noites de amor ser amado por
ti,
fluindo na tua boca incandescente,
em teus olhos desnudar o meu pensamento.
Mas no meu corpo, a alma foi e veio a dor,
rompendo o sonho, gerando o pranto.
Agonizante e branco como a bruma
o beijo ternurento se desfez em espuma,
um espasmo do sonho fez-se em espanto.
Meu amor quem sou eu?
Quero por ultima vez,
beijar teus lábios em delírio insano
Navegando pelo teu corpo ondulante,
de sabor de cravo e canela,
apagando o mar de fogo,
mas profundezas do oceano
Chegarei a parte incerta,
rasgando a bruma rompendo o véu.
Não sei quem sou! Nem para onde vou!
Quiçá para
o inferno? Ou talvez para o céu
Neste preludio de cinzas e meditação!
Caminho ao sabor da minha sorte,
Mesta vida transitória, deste triste coração
Só sei que te amarei, mesmo depois da morte!
João Murty
AMOR NAUFRAGADO
Nunca perto, sempre longe, sem domínio e sem cadência
Navego
na noite escura, sem estrelas, à luz das velas
Sem
rumo nem orientação, sou um náufrago da tua demência
Perdido
neste mar de sentimentos, sem portas e sem janelas.
Deste
amor navegante que se perdeu no mar e naufragou
Por
não encontrar um porto de abrigo, farol ou uma luz acesa
Flutuando
há deriva não resistiu a tanto rombo e se afundou
Nos
vis baixios do ciúme contra os rochedos da incerteza.
Onde
estavas quando precisei de ti? Perto, longe, distante do meu chamar
Náufrago
de ti, não escuto os passos, não sinto os teus braços, não te ouço falar
Já
não sinto, nem vejo esse teu gesto sem jeito de te enroscares no meu peito.
Nunca
perto, sempre longe e distante, naufrago neste mar de amor imperfeito
Onde
os poemas morrem e as musas cantam os sentimentos que já senti
REENCONTROS
Que
razões contrárias eu teria
De
amar, quem não me amou, nem me queria
Sussurro
de mil perdões em memória sentiria
Afagados
pela doçura do momento
Que
em traços de tinta vou escrevendo
Neste
gesto de escrever que vou perdendo.
Rasgo
as palavras escritas no sentimento
Com
olhar perdido no horizonte
Solto
o pensamento, prisioneiro do tempo e da saudade
Deixo-o
cavalgar na brisa das ondas mornas do vento
Que
trazem à memória, lembranças de um passado
Ligando
as nuvens rasgadas da minha ponte
Viajo
no retrocesso entre o radiante azul imenso.
E
nesse horizonte, trazido por essa brisa calma
Reencontro
o teu olhar, sinto a tua alma.
João
Murty
ALUCINAÇÃO
Estou só, inconsolável, neste desejo ardente de devoção
Fechado,
silenciado num tempo que passa sem ter hora
Numa
transe de conflito, entre a verdade e a alucinação
Sinto
no peito o ardor que ateia um fogo que me devora.
Lentamente
vai ardendo, num desejo louco de me consumir
Minhas
mãos são chaga viva que se esforçam por se mover
Afugentando
esta alucinação, onde o presente não consegue fugir
De
um passado enlouquecido, que a memória teima em trazer.
Transpiro,
gerando personagens distorcidas numa visão paralela
Nesta
alucinação de figuras caídas, que deslizam e vão embora
Levadas
nas águas dos meus olhos que em cascata caem fora.
Ardente
numa última prece, olho por dentro da frincha da janela
Esperando
que uma estrela arda num ocaso, num sinal resplandecente
ADEUS MEU AMOR
Procuro atentamente em teu rosto,
um olhar, um sinal de esperança,
algo que exorcize o desgosto,
que corre veloz e me alcança.
Em teu rosto a
tristeza perdura
mas o fim, não é
mais que um recomeço.
A tua face etérea á
luz da aurora,
mãos cruzadas, segurando
a flor,
marcante imagem,
que não vai embora
presa ao peito,
acorrentado à dor.
Sinto um vago receio, prematuro,
correndo
o meu olhar junto ao teu,
como o ultimo suspiro do universo,
do tanto que ainda dói, do tanto que já doeu
.
João
Murty
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No período de 1993 a 1998, na qualidade de Diretor Geral de Operações, teve intervenção relevante no processo de recuperação e viabilidade do Grupo Torralta – CIF, que veio a ser adquirido pelo Grupo SONAE.
Ao longo da sua atividade profissional integrou o concelho fiscal de várias empresas e exerceu cargos de direção e administração em hotéis e grupos turísticos-hoteleiros. Cumulativamente esteve ligado á área do ensino e formação tendo lecionado no CFA – Pontinha, a disciplina de Planeamento e Controlo. Na área da consultadoria desenvolveu vários trabalhos no âmbito de Estudos, Projetos e Diagnósticos de Investimento e conjuntamente com o prof. Dr. João Carvalho das Neves (prof. Catedrático do ISEG) e com o prof. Dr. Charles Blair (prof. Catedrático da U. Manchester), participou no “Estudo de Desenvolvimento Integrado de Turismo - Ilha Porto Santo.
Em 1997, numa singela manifestação de agradecimento foi agraciado pela Casa do Pessoal do Hospital de Vila Franca de Xira. E, em Março de 2010 foi homenageado pela ADHP (Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal), com o PLACA CARREIRA distinguindo o profissionalismo colocado ao serviço da Indústria Turístico - Hoteleira.
A leitura esteve sempre presente na sua vida Tem como autores de referência Pessoa, Bocage, Florbela, Poe, Quintana, Drummond, Aleixo, Mário de Sá Carneiro.
Gosta de futebol, golfe, mar, e do seu próprio espaço para escrever.
Em relação à vida, entende que é uma caminhada num processo cíclico de evolução. E que tudo é efémero, nada mais prevalece para além da aprendizagem dessa caminhada.
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