Escritas

Lista de Poemas

À Memória de Vítor Matos E Sá

Não te encontrarei antes da noite
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra

E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz

Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas

Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia

Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto

Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva

Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra

É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
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Amamos Num Vislumbre Terra Suspensa

Amamos num vislumbre terra suspensa
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco

Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua

Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
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Semelhante À Dança a Dança Mesma

Semelhante à dança a dança mesma
dos sinais como pedras sobre a água
como figuras
nas varandas
palavras queimadas numa boca negra
mas as flores
vermelhas de novo e violentas

Semelhante à dança de água e fogo
imagem desnudada
pelos punhos

nas muralhas
o corpo aberto na sombria terra

perfeição vermelha apaixonada
da imagem
inacessível
semelhante
à inviolada folha
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A Palavra No Deserto

à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?

Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.

A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.

Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?

Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?

Será este o sinal? As palavras nascem?

Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.

O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
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Ambos Nos Transformámos, Ambos Somos

Ambos nos transformámos, ambos somos.
Mas quem somos?
Alguém nos indicou no espelho. E nós olhámos
o estranho homem que desceu as escadas.

Eu não sou tu. Tu não virás se
eu não souber
transformar a ignorância no trajecto
das palavras à imagem
nua.

Ambos nos separamos, confundidos.
Não somos mais que esta passagem única
mas agora quem escreve sou eu ou tu
e somos ambos a pergunta viva.
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Entre o Frio E o Sol

A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.

Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?

Nenhum ardor possível.

Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.

Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.

Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.

A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.

Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.

Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.

O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
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O Momento De

Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.

Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?

Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
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Campo do Silêncio

Enfim o laço do começo e a conjuntura
de uma extrema atenção e os sinais de
um vazio junto
a um muro propício à abertura
em que tudo é matéria do olhar
e a luz constitui o corpo branco
no campo do silêncio
num rumor de sombra e esquecimento
as palavras lúcidas
tão próximas da morte
com as marcas fixas
dos insectos
e a incessante explicação do espaço
que elimina as palavras e as renova
unindo a boca à boca do ar
entre o silêncio e o fogo
no incessante fim que se aproxima
enquanto o muro escurece sob a sombra
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Um Sorriso No Silêncio

a Jorge de Sena
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.

Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?

Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!

Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
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Portão do Jardim Deserto

«Portão do Jardim Deserto, 1935»
(KLEE)

É talvez Inverno.
Talvez. Mas
as labaredas amarelas
das ervas a cada lado do portão?

Umas incendeiam o muro,
as outras mais rasas
contrastam com o roxo
de um solo de sombra e humidade.

Mas já o verde do portão
ou só talvez o espaço entre os umbrais
clama o abandono frio de um esplendor:
uma porta ou o vazio.

Talvez um espelho que nada reflecte
em obscura transparência
— mas de quê?
Uma pequena chama fulva apenas arde
nas ervas ressequidas
e algumas linhas se adivinham.

Para além do muro
a densidade da distância
em superfície, todavia, é aliança.
Mas no jardim, no chão de cinza azul
as hastes dançam
uma estação de estrela.
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).