Escritas

Voz inicial

Ano
1961
Voz inicial

Poemas nesta obra

A Lâmpada

As palavras em chamas queimam veias e árvores,
lâmpadas em turbilhão fluem nas calçadas
entre pernas vermelhas e caixotes e cães.
Corro sobre o mar, esta palavra lâmpada
aquece-me por dentro, é um ovo de esperança,
corro, corro à espera de nascer no meu povo.
*
Quem dirá o contorno, o colo que se debruça
na imóvel finura dum punho silencioso
o fruto vigilante e submerso seio?
*
No silêncio da mesa sobre a lisa
dureza
ela é a inundação sem tempo e a presença
da origem e alta dignidade humana.
*
Ó lâmpada, exemplo de poema,
quando aprenderemos a tua dócil sombra
e as tuas sílabas em que o silêncio ama?
*
A esperança é vigilante em tua luz.
A luz é vigilante em tua esperança.

A Mulher a Casa

A casa é viva
(A mulher dorme)
Dorme na espuma
nas cores puras
Dorme na espuma do silêncio

Planos brancos
e cores lisas

Dorme no vidro
tranquilo

Dorme viva
*
A casa é branca
É mais branca no silêncio
É mais branca entre as árvores

A própria cidade é branca
*
A cabra
cheirou a casa
cheirou o branco

O puro nó
do silêncio
*
Chego em silêncio
à mulher viva
dormindo

A casa é ela
em espiral
rodando
branca
*
É fino o ar
quase sem pó
Uma árvore dá
uma curta sombra

Uma brisa lava
a casa fresca

A varanda nua
é seca e branca
com sede de mar
*
A varanda é nua
A mulher é nua
*
Da casa branca
vê-se o mar
o fulvo dorso
da praia
nu

mulher de areia
deitada e panda
na frescura azul
*
Uma vela branca
de minúcia fresca

dá ao olhar a brisa
dá ao silêncio o mar
*
A mulher dorme
viva
na espuma
do silêncio

A Palavra

A que mais se prolonga
termina e continua
A que abre um espaço e dança
a que quebra e é uma
e só lisa espada

Ó palavra que duras
no teu ar e nas pedras
brilhas só quando passas
respiras continuas
ó palavra sem mais

A Voz do Pulso

a Vergílio Ferreira
Se eu penso que é um crime
a luz clara nasce
deste não que suspendo

Não saber até onde
e claramente abrir
o começo tão certo
deste pulso que afirmo
*
A noite me confunde
e nela retempero
a flor que não distingo
de um destino sem olhos
*
Mas o dia de sol
a prumo
fere meus dedos
na página deserta
*
A música começa
no deserto do não
(no túmulo do quarto
as sílabas são mudas)

O delírio é só um
e a esperança é arriscar-se
nesta pedra de som
*
Eu me abro eu me levanto
à janela à mesa ao dia
Sou esse outro que anda
com um destino aos ventos
entre claras lâmpadas

O homem que aconteço
casualmente certo
e se afirma no dia
na igualdade pura

(Ó deserto tão simples)
*
Música alheia minha
Afirmação dos outros
Ao lado deles vou
Tenho um espelho no quarto

O dia é alto quando
na mesa nada espera
que não seja poesia
*
É verdade o que digo
Com a justa rapidez
Breve dureza
a luz
que abre o espaço tão certo
de cada um
a cada um
*
É uma rosa que surge
na mesa a contemplar
É uma forma onde
um mar pequeno sonha
onde recomeçar
a maravilha simples
*
A voz que subsiste
mas só nasce inesperada
A tua mão é larga
Limpa a tua vida

afirma-a sem nada

Atlan

Estas cores livres
em que o sonho é sol
homem ouve o dia
que há nos teus olhos

Estas cores bruscas
de quinas de pedras
homem vê os ossos
da tua alegria

Estas cores negras
de cílios de vespas
homem olha o centro
da loucura certa

Casa de sol onde os animais pensam

a Maria Teresa Horta

Casa de sol onde os animais pensam
erguida nos ares com raízes na terra
ampla e pequena como um pagode
com salas nuas e baixas camas
casa de andorinhas e gatos nos sótãos
grande nau navegando imóvel
num mar de ócio e de nuvens brancas
com antigos ditados e flores picantes
com frescura de passado e pó de rebanhos
ó casa de sonos e silêncios tão longos
e de alegrias ruidosas e pães cheirosos
ó casa onde se dorme para se renascer
ó casa onde a pobreza resplende de fartura
onde a liberdade ri segura

Corpo E Terra

Vejo o corpo grande, na solidão ignorada,
na sua alvura larga, toalha viva e água,
na banheira cantando como é larga a mulher!
Sem destino oiço o sol e as janelas abertas,
oiço um corpo extenso, branco, volumoso,
abraçando a madeira, abraço a carne, a terra viva.

Entrar em ti, mulher, ó lâmpada de seda,
abrir-me na paisagem de um só tronco com boca,
encrespar as planícies da tua pele ondulada,
oh como o mar é claro nesta onda deitada!

Oh como eu sou um homem no meio-dia claro!
*
Os seus seios louros (ó cor só de sonhá-la)
entre o branco e o negro, ó rósea sedução,
deitado à sombra respiro mamilos plenos
a obscura densa suave oscilação
*
(mulheres de Picasso)

Estou preso a estas linhas de espaço e de ternura
tremendo na montanha fina da carne plena
*
Murmúrio tão intenso e a água sempre bela!
A casa branca, gloriosa e simples.
Aberto o vale diante da janela,
a mesa com os frutos e a claridade da água
na jarra ao centro, as flores no azul!

E Certas Palavras

a Fernand Verhesen
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas

este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto

Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta

Eis Os Instrumentos

Eis os instrumentos
no vagar da terra

A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe

Este Viver Comum

Este viver comum
será nosso futuro
É nosso já presente
este amor que não temos

É nosso e nosso o tempo
que de tão longe somos
O pomo puro que negam
branco se fez no dia

Ex-Voto

Pelo muito que oiço
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.

Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.

E pelos ombros das árvores
que não abraço.

Monólogo

Perdi a infância e as grandes horas
e procuro numa árvore não sei que intimidade
como se um sol para as mãos nascesse deste olhar
mas a inocência é rápida como o brilho
silenciosa
e existe em si mesma.

Uma forma, sim, sempre silenciosa
dia a dia nascida da surpresa e constância
dia a dia nascida da inocência, mas
como fugir a esta inútil presença?

No Vagar da Terra

Serão nossos os nomes nesta pausa,
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.

O Homem de Abril

a José Gomes Ferreira
Eis o homem de Abril.
Nasceu fraco e de pé.
De fraco, fez-se velho.
Fez-se velho a valer.

Sentou-se ao pé dum muro.
Atrás o sol nascia.
Uma rosa rompeu.
Era manhã. Bom dia!

O Único Sabor

a Manuel Pinto
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor dum relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.

Passagem

É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo agora este poema.
Já onde estou agora nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.

É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.

É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e sou no seu passar.

Por Uma Aridez Fecunda

É o tempo de uma árvore ou de um cão,
é essa grave simplicidade de estar
com o Sol.
É o tempo em que sentados na pedra
ouvíamos a erva. E era Verão.
*
De nada, nem de música,
nem de qualquer glória humilde...
Apenas esta secura de meio-dia,
esta sem-razão tão grande como a vela
no mar.
Oh, ninguém viu o ouvido da árvore,
mas ouvi-o eu.
*
Mais uma vez longamente
qualquer coisa que seja a negação de tudo isto!
Na fenda da muralha
o riso da árvore,
um outro tempo,
um desvio no destino,
a claridade a pique.
*
Não de rosas
nem de breves titilações.
Mas somente a quebra
branca
a aurora de pedra
o frio dos lábios no sonho
a terra junto
um abraço ao poço.

Se o Mar Entrar

Se o mar entrar em casa
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó

O mar já está aberto
e voltado de borco
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo

Seis Poemas da Terra

Ó verde caminho de ouro,
pequeno na memória
de duas lágrimas.

Bebo pelos olhos as linhas
desse caminho de vinho.
*
Terra nos joelhos
quente
até às axilas.

Terra como um mar
e montes
palmas de simplicidade bêbeda
terra nas mãos seios
de alegria.

Em pé estou de borco sobre a terra.
*
Abro os olhos
e a terra é verde.

Enlaço troncos
e o mundo é meu.

Beijo folhas
e o amor é meu.
*
Vinho contido em si mesmo
por ti bebo o vinho do teu corpo.

Bebo a terra pelos ombros.
*
É uma claridade de página
matinal.
*
Estou deitado em ti como na terra.
Respiro a suavidade dum monte.

Sementes Livres

a Pedro Tamen
Eu amo o reino
da promessa

As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos

Ter Um Braço de Barro, Um Braço Apenas

a Alexandre O’Neill
Ter um braço de barro, um braço apenas
todo o carinho: terra!
Cabelos, telhas, livros, solidões
pedras e pedras, pedras
e ruídos doces de casas velhas de fundos corredores.
Um braço: uma raiz.

Um menino que mija no escuro sobre as estrelas
sobre o meu rosto:
no chão, na terra, nas pedras, no estrume,
irmão do insecto, obscuro, pesado
de muros, ervas, ossos e flores.

Um pássaro?
Um braço
Um braço de terra, pedras, ossos,
um braço: todo o carinho, terra.

Terra Dos Silêncios Grandes

Terra dos silêncios grandes
e numerosos quartos
livros e homens dormem
e prolongam-se os arcos
nas memórias e nos sonhos
pastam cavalos nas
nuvens rente ao horizonte
cantam mulheres na branca
tranquilidade do mundo
e nos espelhos velhos
corpos novos resplendem

Terraço Aberto

Terraço aberto
aos ventos e aos astros
crivado
das balas de frescura
das ranhuras do sol

muros
onde vejo dedos
muros fraternos
de meus ossos

aqui respiro
através das flores
da chaminé
nos planos brancos
nos montes azulados
nas velas brancas
nas areias douradas

aqui respiro
a claridade

Traços

Eu não vos sei dizer
à claridade
um grito

sobre a mesa o pão
contém tranquilo som
sobre a casa ninguém
só a luz do muro

o traço duro na parede
*
Jacto claro
que rompe
dum seio de pedra

É novo e alto metal
é o sol nos sulcos secos
brechas por onde bebo

só nesta cegueira branca
*
A porta onde houve um anjo
mas só na memória ou na sombra
a porta hoje rachada
*
A casa que compus
ao longo de anos fresca
vazia como um túmulo

como um cavalo o tempo
parou neste silêncio
duma janela aberta
onde há ao fundo um monte

Um Dia Perfeito. Um Ombro…

Um dia perfeito
Um ombro
E treme a flor

Nenhum vento
nos objectos leves
Apenas
a reticência duns cílios
*
Ó rosa imóvel
a lâmpada dum seio
Ó tenebrosa e clara
suavidade
de mulher
*
O quarto sem espelho
Um jardim só de nome
Pousam os objectos
na mesa sem cuidados

Tudo está consumido
Ó glória dum insecto
silencioso no quarto
*
Impenetrável nome
a meio do livro aberto
A noite é uma presença
sem perfil flutuante

Mas o dia ordenou-se
na fímbria duma rosa
Bola de escaravelho
*
Claro e sem destino
se perfaz este dia
arrumado em silêncios
e sombras sombras leves

Um Óleo de Manuel Baptista

Na parede as teias
a cor de uma adega
o vinho que cheira
de séculos e o sol
debaixo da terra
ouro subterrâneo
poente que dura

Um Outro Sol, Um Outro Pão

Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.

Árvore! gritaste.

Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?

Vertentes

As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra
*
A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores
*
Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga
*
A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar
*
Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge
*
A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo

Voz Inicial

Quem sou já não interessa
se o disse na certeza
que começa outro ser