Lista de Poemas
A Mão Ainda Resiste
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro
Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo
Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio ou talvez um ininteligível
grito?
O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal Tropeço
em membros de palavras um jogo
quase de acaso e pura perda
Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase um negro violento
um ruído branco áspero surdo
As árvores são de sombra Não cantam pássaros
nas sombras
As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta
A mão escreve sangue e o sangue é branco
ou negro e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio
Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes
Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre
Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos
mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse
A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma
Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
Na Dispersão Unida
rua e corpo
no quarto
ferida a ferida
dada
A boca toca
a página
toca
o braço
do próprio ser na boca doutro
que
lhe dá a língua suprema sem saber
se arde se não
tão boa a nudez nua
arde laranja arde ardente
até ao terceiro grito branco
e
se abre a boca até ao centro negro
num felino incêndio de rasgadas partes
tudo redondo e suave em superfície
O Corpo Sob As Palavras
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore
Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra
Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa
Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia
Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho
Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio
O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha
Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra azul
Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?
Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio
Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.
O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?
Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?
O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva
Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido
Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra
Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra
As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio
Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca
Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda
Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez
Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono
Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra
e fria
O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca
Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra
O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca
Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas
E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)
Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
Presença Ausência
Chamo-te chamo-te ao rés da terra
face de sombra e erva Não és o rosto nem a
sombra do corpo
Chamo-te face de sombra
e erva
sem saber se te chamo
ou se escrevo apenas a sombra de uma palavra
Se te encontrasse diria esplendor diria rosto
viveria como uma folha à sombra de uma folha
Tantas sombras sombras Se escrever fosse
percorrer o teu corpo
ou as feridas em que a terra sangra
Que palavras são estas no deserto
que palavras tão lentas
tão pobres
Quando é que foste o esplendor
e os membros altos se juntavam lentos
chama sobre chama
boca contra boca?
Porquê estas palavras estas sombras de pedra
pedras de sombra
jogos nulos no vazio da areia
Se te chamo não sei com que palavra
te acordarei
Que argila límpida
te moldará o rosto que olhos de água
me darão teu corpo na surpresa da terra
E todavia chamo-te na ténue pulsação destas palavras tão ténues como pálpebras de areia chamo-te sem saber se te vejo se
tu existes para aquém ou para além destas palavras
chamo-te com as ervas
com a sombra
com a água
com as pedras
com esta árvore de silêncio
Chamo-te com as mãos da terra
Mas não estarás tu sempre presente na ausência? Não serás tu a figura nula inacessível que vive no silêncio do espaço branco? Não sei já quem tu és se tens um corpo se escrever é perder-te ainda mais se caminho em vão ou se te encontro na própria perda se já te achei e te acho a cada passo
lâmpada branca
esparsa
nesta página
jovem braço
de um poema
em que posso escrever de novo
jardim
espaço
e ver os teus olhos
da cor do ar
Não Digo Rosa Mas Pedra E Digo Sombra
por um ritmo que não sei e acendo aquela cor
que vi brilhar no muro de outono e de ferrugem
Não digo nem a sombra digo a pedra do ritmo
e quando for de água a pedra para os teus pés
não direi as flores do desejo mas a nuca
inclinada e branca sobre um lago sem lua
e toda uma colina de ar em teu redor
como uma grande e suave força do dia
como uma pulsação do campo e do olhar
luz do lugar sombra clara clareira nave
Tu Que Renasces do Abandono Magia Verde
magia da montanha e do lago soberbo
tu que renasces soberba do outono
com a música do campo e o vermelho
e o negro e o húmido clamor contido
dá-me o teu seio de consolação nobre
dá-me o teu coração os teus olhos o teu sonho
de quem não és nem podes ser amor de ser
amor no horizonte do teu ser
Dizer o Fulgor Sem a Lâmpada
sem
a cor da página
ar de boca breve
tecer a nuca desse animal
de sede
onde beber a língua de água e ser
Antes do barco ou pedra ou erva
a palpitação de um branco
insecto
a perna mais violenta
sobre o barco
o seio negro
sob a maré de Março
Abrir o branco a branco toque
de pupila liberta sob as letras
abrir a lâmpada
de vertigem branca
Entre o Fogo E Os Dedos Desligados
entre a cabeça longe na terra ainda vermelha
e a água sem dançar e o corpo sem o verde
enterrado no canal negro
impetuosamente nulo
o nome raso com o odor a fêmea
em que coxas comprimido ou em que boca
trucidado sem nascer
com os pulsos abertos
e os olhos coagulados sobre o muro
serei eu sou eu pedra sem lamento
pedra sem amargura e sem ventre
cabeça sobre o céu deserto
e sem a sede e no vazio e no deserto
Nem Antes Como Depois No Escuro Silêncio
do sol no estrépito da espuma
do dia branco
no incessante intervalo entre mar e mar
um arranque de água em todo o corpo aceso
um abrir os poros a todo o sol do ar
e cada vez mais até à lâmina da água
o frígido murmúrio da ferida junto à boca
o rasgar das pernas na delícia do gelo
a pedra do mar e os lábios delirantes
no ar do sol do mar
O Suporte Livre Inicial
no avanço imediato no silêncio do ar
aqui e mais à frente ainda sempre
o excesso novo de cada vez ser ar
no extremo do corpo e no limite insondável
o caminho e uma pergunta a que responde o ar
o avanço e um regresso às origens da língua
a língua toda ela língua de ar
Comentários (10)
Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.
Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.
Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.
Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.
Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).
Viagem através duma nebulosa
1960
Voz inicial
1961
Sobre o rosto da terra
1961
Ocupação do espaço
1963
Terrear
1964
Estou vivo e escrevo sol
1966
A construção do corpo
1969
Nos seus olhos de silêncio
1970
A pedra nua
1972
Ciclo do cavalo
1975
Boca incompleta
1977
A nuvem sobre a página
1978
As marcas no deserto
1978
Círculo aberto
1979
Declives
1980
O incêndio dos aspectos
1980
O centro na distância
1981
O incerto exacto
1982
Gravitações
1983
Quando o inexorável
1983
Dinâmica subtil
1984
Ficção
1985
Mediadoras
1985
Clareiras
1986
Vinte poemas para Albano Martins
1986
Volante verde
1986
No calcanhar do vento
1987
Poema de Antonio Ramos Rosa
António Ramos Rosa_Clip.avi
PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO - António Ramos Rosa, Poema do Dia 22.wmv
Celebrado Hoje Equinócio do Outono 2013 com poemas de Antonio Ramos Rosa
António Ramos Rosa, Grande Prémio de Poesia
Tiago Bettencourt - Nós somos do disco Tiago na toca e os Poetas (2011)
António Ramos Rosa lendo Manuel da Fonseca, 2009
Não posso adiar o amor de António Ramos Rosa
Quem Bate a uma Porta de Folhas na Noite
A Maresia do Mundo
Na capital, vivendo intensamente a vitória dos Aliados, trabalhou no comércio, actividade que logo abandonou para se dedicar à poesia.
Nos anos cinquenta, foi um dos directores das revistas Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia. Colaborou ainda com textos de crítica literária na Seara Nova e na Colóquio Letras, entre outras publicações periódicas.
Como poeta, estreou-se na colectânea O Grito Claro (1958). Estava criado o movimento da moderna poesia portuguesa. Ramos Rosa era o poeta do presente absoluto, da «liberdade livre» e sobe todos os degraus da admiração europeia. Em Portugal é comparado com os grandes escritores nacionais. Urbano Tavares Rodrigues considerou-o como o empolgante poeta da coisas primordiais, da luz, da pedra e da água.
Em meados dos anos sessenta, Ramos Rosa radicou-se em Lisboa, onde publicou Viagem Através Duma Nebulosa (1960). Um dos mais fecundos poetas portugueses da contemporaneidade, a sua produção reflecte uma evolução do subjectivismo, em relação à objectividade. Reflectem-se nela variadas tendências, desde certas formas experimentais até a um neobarroquismo. A sua escrita, caracterizada por uma grande originalidade e riqueza de imagens tácteis e visuais, testemunha muitas vezes uma fusão com a natureza, uma busca de unidade universal em que o humano participa e se integra no mundo, estabelecendo uma linha de continuidade entre si e os objectos materiais, numa afirmação de vida e sensualidade. Nos seus textos, está frequentemente presente uma reflexão sobre o próprio acto da escrita e a natureza da criação poética, a questão do dizível e do indizível.
Ramos Rosa, também tradutor, escreveu dezenas de volumes de poesia, entre os quais Voz Inicial (1960), Sobre o Rosto da Terra (1961), Terrear (1964), A Constituição do Corpo (1969), A Pedra Nua (1972), Ciclo do Cavalo (1975), Incêndio dos Aspectos (1980), Volante Verde (1986, Grande Prémio de Poesia Inasset), Acordes (1989, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), Clamores (1992), Dezassete Poemas (1992), Lâmpadas Com Alguns Insectos (1993), O Teu Rosto (1994), O Navio da Matéria (1994), Três (1995), As Armas Imprecisas (1992, Delta, Pela Primeira Vez (1996) e A Mesa do Vento (1997, primeiramente editado em França), Pátria Soberana e Nova Ficção (2000). Entre os seus ensaios, contam-se Poesia, Liberdade Livre (1962), A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), Incisões Oblíquas (1987), A Parede Azul (1991) e As Palavras (2001). Tem recebido numerosos prémios nacionais e estrangeiros, entre os quais o Prémio Pessoa, em 1988. É geralmente tido como um dos grandes poetas portugueses contemporâneos. Para Ramos Rosa, escrever é, sempre, a necessidade de respirar as palavras e de às palavras fornecer o frémito do ser, os pulmões do sonho, e, com elas, criar a dádiva do poeta. Em 2001, o poeta lançou Antologia Poética, com prefácio e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes
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Español
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda