Escritas

Mediadoras

Ano
1985
Mediadoras

Poemas nesta obra

Mediadora Apagada

Acolhe na sua língua
um veneno de lâmpadas.
Apaga-se e
centra-se

na obscura falha.
Onde os nomes nas ervas
da noite?
Um silêncio de ilha

propaga-se nas palavras.
Uma boca desaparece
no fulgor
de uma nuvem.

Mediadora Árida

Que pedra de música
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?

Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.

Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?

Mediadora Branca

Inacessível próxima
sim do vagar e de um cimo
magia de sempre e nunca
água que nasce da água

Branco jardim na noite
um acorde entre ruínas
de novo a beleza branca
a transparência do corpo

Continuamente desnuda
azulada inalcançada
nada acumula ou retém
no seu redondo horizonte

Que mensageira tu és
que só o branco revelas
inundas como se nada
em teus relâmpagos brancos

Presença feita de ausência
do silêncio estrela branca
em ti permanece o idêntico
sem miragens nem figura

Solitária e povoada
glória imóvel vigília
branco palácio do ar
balança sobre o vazio

Quieta de sílabas altas
fonte do espaço presença
tudo se apaga e exalta
em tua branca morada

Uma água de distância
flui em tuas largas veias
Magia íntima música
pureza metal brancura

Na pausa de um grande círculo
transpareces repentina
centro de ser incêndio liso
viva palavra da vida

Mediadora Caminhante

Perdida em suave lucidez
na dolência do vazio. Nada
decifra, caminha claramente
nas diurnas arenas derradeiras.

Um inesgotável desejo de nascer
ou ser o odor da terra. Quem é a incógnita
soberana? Uma vigília
de praias. Uma tranquilidade de árvores.

Tudo é liso e repousa. Escuta
os ramos do silêncio, a simplicidade
do sangue. Perdida em suave
lucidez.

Mediadora da Água

Cúmplice da água
num caminho que envolve e não domina,
ágil, tácito, na demora plena
segredo em dócil fluência.

Suspendem-se os nomes. E na sombra
adormecem as coisas. Um latido fulgurante
cria a imprevista ressonância
de um encontro.

As armas de uma aliança resguardam o silêncio.
A mão segreda e aproxima-se
de um pequeno país de música.
A água desliza para dentro da sombra.

Mediadora da Ausência

O sol é uma noite suave.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.

Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.

De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.

Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.

Mediadora da Casa

Tão próxima da casa,
discreta maravilha
que vive num murmúrio
em sua vida mínima.

Feliz de ser concreta
num ambiente secreto.
Todo o rumor um concerto
numa penumbra serena.

Intacto o silêncio sempre
é um repouso redondo.
Tudo se oculta e se abre
entre a vigília e o sonho.

Sem forma, refulge num sono
inicial, movem-se minúcias,
sombras de brisa, recolhe
a suavidade do mundo.

Mediadora da Coincidência

Escreve sobre paisagens de areia.
Conversa confiante com a pedra.
Solidária do sílex e dos campos
luminosos. Trabalha

nos flancos do mundo, na medula
obscura. Conhece os mínimos
movimentos, os íntimos
tecidos, a pupila,

o sexo da terra. Vibra
discreta e lancinante, espera
coincidir.

Mediadora da Coincidência Nupcial

Conheço a flora do seu corpo
e a sua cabeleira cintilante.
Dorme sob as axilas da água.
Nos seus olhos cintilam coincidências.

Claro apogeu de dança horizontal.
Evidência e enigma imediato.
Um sabor inesgotável, o mundo num só arco.
Oferta, já não promessa, lâmpada profunda.

Veemência de cimo à superfície,
pele e palavra, pálpebras e pétalas.
Um tumulto acende-se em relâmpagos de água.
Aflui a harmonia na violência calma.

Júbilo no vento, alegres coincidências
no movimento azul. Livre insensatez
de gestos nupciais. Frescura transparente.
Inocência absoluta.

Mediadora da Construção

Construir um corpo com as sílabas
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.

No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.

Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.

Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento

ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.

Mediadora da Escrita

Precipita-se ou vacila cintilante
subterrânea selvagem
a transparente espuma atravessando.
Desenhando os obstinados traços

busca a figura do desejo e do repouso
numa superfície plana e verde.
Espessa e subtil entre o fulgor e a névoa,
interrompe, acumula, esquece,

forma a sua própria forma. Contornos
mais vibrantes do que o círculo.
A face que ela imprime é a do corpo.

Mediadora da Lacuna

Diz-se a transparência elementar.
É um objecto que quer ser amado com o nome.
Algo azul flutua entre volutas
verdes.

Florações de imagens libertinas,
voláteis. Imprevistas, inexplicáveis.
Ou as brancas lâmpadas monótonas.
A figura escurece no papel

onde o corpo se enterra. O diamante
ou a gota minúscula do sol?
De uma lacuna os lúcidos contornos
separam-nos do jardim.

Mediadora da Lucidez Espacial

Principia por
uma inclinação
leve
coincidência frágil

rumor aceso
de que silêncio outro?
entrar
escutar

onde não se erguem perguntas
em abandono límpido
num impulso de terra
em espacial lucidez.

Mediadora da Nudez

Um corpo aquece
ascende
liberta-se
dos círculos cinzentos.

Uma língua se tece
dentro da pele
as pálpebras compreendem
as cordas do silêncio.

Aroma global
da ferida e da resina
os extremos são barcas
nudez completa.

Mediadora da Página

Desaparece. Renasce.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas

intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio

requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.

Mediadora da Palavra

Um rumor irrompe das nocturnas
margens. Sombras deslumbrantes.
Um fulgor que desnuda e que despoja.
Campo de água ágil. Dança

imóvel. Uma cegueira arde
incendiando o tempo. Pátria
áspera de delicado alento.
Soberano marulhar do inexplorável.

Unânime é a pedra. Selvagem
a palavra despedaça a língua.
Um silêncio central domina e orienta
a substância primária. A palavra inicia.

Rapidez da água entre resíduos
obscuros. Talvez o diadema.
Talvez a obscura dança aérea.
O leve poder do fogo, as suas marcas

ácidas. Pulsação
dos poros. Ardor do silêncio
no nocturno centro. Fulgor do desejo.
Uma deusa de água espraia-se nas palavras.

Mediadora da Perfeição Aberta

Entre a luz e o vento as praias
emigram. Vaivém imóvel.
A substância do segredo aérea e cálida.
Satélite ou desejo, perfeição aberta.

Pela alegria e pelo ócio, o voo
das nuvens e dos pássaros oblíquos.
Cálido poder oferece o espaço.
Ao nível da fábula o ar segreda.

Um animal sinuoso ou a língua do fogo
arde e desliza no exacto inviolável.
As praias não cessam. Frases livres deslumbrantes
deslumbradas. O aroma total da claridade.

Mediadora da Presença

E continua o fogo aqui
o fogo tácito
no seu som de espaço abrindo.
Aqui tão só aqui

o prodígio verde de um início
inesperado. Que frágil
a folhagem
e como abriga a veemência

da vigília. O simples
estar aqui
deixa livre a ausência.
A presença confunde-se com o vazio exacto.

Mediadora da Sombra

A que dissemina o sal
da sombra,
a que circula sem nome
portas sobre

portas.
A que dissemina a sombra
de um incêndio.
A que procura

uma nocturna
pedra.
A que segue
paralelamente à água.

Procura sombra, mais sombra.

Mediadora da Totalidade Secreta

Alguma ressonância, alguma esquiva
sílaba de água. Não desígnios.
Um ar ignorado, um arco
por nascer.

Algum vislumbre mas obscuro.
Algum halo ou hálito pressentido.
Alguma vibração antes da luz.
Algo mais que um silêncio de pedra.

A promessa do pulso imediata.
O arco inesperado do impenetrável.
Sede de palavras subterrâneas.
Secreta totalidade respirada.

Mediadora Das Alturas

Clara ligeireza
na mais clara distância.
Silêncio ardente e suave.
Subtil incêndio.

Que tão leve tumulto
nas ligeiras alturas!
Tão íntima e calada
no imponderável.

Nos ares constrói a fábula
de um suavíssimo surgir.
Que cálidas certezas
entre nuvens e ares!

Nascer sempre, nascer
em errantes delícias,
na fácil transparência.
Que grácil equilíbrio!

Mediadora de Estar

A paz é de sombra. Imóvel
a torrente da pedra abandonada.
Ressonância da luz, do bulício
longínquo do sangue. As armas nuas.

Áreas cintilantes das gramíneas
nocturnas. O veludo de um pássaro
na folhagem. O longo mutismo
das cores. Ritmo, repouso,

espaços limpos. Lucidez
de vidro. Densidade branca
do silêncio. Nomes, dedos,
clareira do sossego sem miragem.

Imóvel o poder que não cintila
no ar depurado: ócio, princípio puro,
murmúrios de arvoredos e águas vivas,
lúcida nudez de embriagada vida.

Mediadora do Acaso

Nua, no acaso,
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,

hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso

subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.

Mediadora do Corpo

Vive no meio de um incêndio
entre o silêncio e a água.
Azul veloz, o sangue do desejo.
Ninguém a defende da perfeita

noite. Move-se entre espelhos
e sombras. Cumpre-se a matéria
com as feridas do vento.
Incendeia os sulcos dos acordes.

Um tremor de planeta, um som negro,
reflexos de um confuso esplendor.
Pólen de pedra nos flancos.
Um voo permanente, submerso,

através dos dédalos, dos círculos,
das móveis dunas do deserto.
Estrela, sim, estrela de argila
em núpcias consigo e com o mundo.

Mediadora do Deserto

Cegueira límpida. Silêncio
de um incêndio. Que odor
nas áridas axilas!
Ela escuta a música do sol.

Divagações, figuras
esvaem-se na brancura.
Cegas frases de areia
no deserto da mesa.

Nada, ninguém. Retorno
à matriz branca. Ausência.
Espaços nus e inertes.
Mineral simplicidade.

Querer e não querer no início.
O risco é apenas um sopro
para incendiar o vento
no esquecimento do mundo.

Mediadora do Dia

Sai do ventre da sombra,
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,

nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.

No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.

Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.

Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.

Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.

Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.

O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!

Mediadora do Espaço

Dedos abertos ao sopro,
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos

na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.

Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.

Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.

Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!

Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.

Mediadora do Inicial Constante

Fuga que restitui: ritmo
de cinzas. Obscuro
destino na aragem
das artérias.

O longínquo respira num corpo
de penumbra.
No alento se abre
o labirinto.

Visão do ilimite compacto.
Surge
o inicial constante.
Unidade vertical de um convertido abismo.

Mediadora do Jardim

Nenhuma cabeça emerge
das linhas que germinam
nenhum corpo é o corpo
visível voo de um pássaro

incendiando o branco.
Mas os ângulos verdes
vibram. Silêncio cintilante.
É talvez o jardim.

Devagar sobre a pedra
um deslumbrado instrumento
cria o signo volátil
para que se abra a esfera.

Mediadora do Mutismo

Onde não começa o sopro
no côncavo da língua muda,
o peso da sombra entre ruínas,
falha que nunca coincide.

Silêncio do incontível, como
recusar a veemência
desta cegueira? Antes da fuga
das formas, no sem fundo

inabitável. Artérias vivas,
estrelas, relâmpagos,
jorrarão da obscuridade vermelha?
E as palavras serão o espaço

do grito,
o espaço de nada, o espaço
do espaço,
a obscura dor da terra?

Mediadora do Não Lugar

Múltiplas vozes anulam-se
no branco. A visão não é
da vibração dos actos
mas de máscaras brancas

invioláveis. A perspectiva
muda por momentos. Súbitas
muralhas fulgurantes,
uma mão tão antiga como a terra.

De súbito enegrece
a paisagem do mar. Nenhum rosto
ou palavra
ascende da terra.

Apenas uma árvore solitária
e um fogo negro na espuma
enevoada. É o lugar da
disparidade e da cegueira.

A opressão é permanente,
as relações indiscerníveis.

Mediadora do Olvido

Não soam grandes vozes no olvido.
Move-se a água não sulcada
de viagens.
Marcas de luz percorrem o silêncio.

Não sinais já. Indícios esquivos.
Simples estar aqui flutuando
no inocente instante.
O eco de uma festa.

A sede de sentido, o ressurgir
no abandono da água do silêncio.
Gestação réptil.
Afirma-se o impenetrável na silenciosa memória.

Mediadora do Opaco

Para o mínimo olhar a terra negativa,
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.

Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode

no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.

Mediadora do Princípio

Na primeira porta a primeira página.
Respiram escadas numa elipse frágil.
A mão é cega. As sombras esvaziam-se.
Escreve-se na pele de um planeta incerto.

Urgência de sílabas e de lábios.
Urgência de um fulgor, de uma matéria lúcida.
Alegria limpa. Lábios, lábios
sem ecos nem sombras, puríssimos, actuais.

O coração ascende. O pulso de um rio
freme. A folhagem acende-se.
Areia e sangue. Pedras ou pássaros.
Palavras de uma áspera primavera.

Mediadora do Real

Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.

Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.

Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.

Mediadora do Silêncio

Onde o incandescente
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?

Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.

Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.

Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.

Mediadora do Sono

É uma nuvem que repousa? Um barco
no jardim?
A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.

Há um lado do silêncio iluminado,
há um sol das folhas nas veias do jardim.
Que ócio e que segredo nas corolas de água!
Leves densidades de um incêndio branco.

Adormeceu a voz. O encanto é sossego.
Amorosa lentidão de uma infinita espera.
A nuvem repousa. A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.

Mediadora do Vento

Ligeira sobre o dia
ao som dos jogos,
desliza com o vento
num encantado gozo.

Pelas praias do ar
difunde-se em prodígios.
Tudo é acaso leve,
tudo é prodígio simples.

Pequena e magnífica
no seu amor volante
propaga sem destino
surpresas e carícias.

Pátria, só a do vento
de tão subtil e viva.
Azul, sempre azul
em completa alegria.

Mediadora Dos Dias

Cada página um dia
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas

do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.

Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.

No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.

Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.

Mediadora Dos Frutos Nocturnos

Estão acesos os obscuros
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.

Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.

Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.

Mediadora Imediata

Com as ancas da terra, num sopro
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante

corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.

Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.

Mediadora Iminente I

A que não vem não virá?
De súbito acesa. Como?
Sem nimbos e sem volume
num rumor enamorado.

Que silêncio de murmúrios,
que tremor de dedos finos!
Zona delgada no céu
de irredutível distância.

Ardente pausa submersa
translúcida. Amante
mas tão longínqua, dentro
da sua azul espessura.

Ó profunda, ó fugitiva,
em seu olvido parada,
em sua evidência oculta!
Como resplandece na sombra?

Mediadora Iminente Ii

Tensa, finíssima trama,
soberana fugidia.
Jamais figura, esparsa
em sua fugaz nebulosa.

Recessos de alto silêncio.
Rigor do indiscernível
num movimento sem nome.
Quase são dardos de espuma.

Trémula em fogos minúsculos,
mas ausente. Talvez esboce
um corpo minucioso?
As veias vibram. Mas quando?

No mais íntimo do espaço
no fulgor do seu vagar
suspensa está sem presença.
E o mundo não principia?

Mediadora Irrevelada

Descalça e fulgurante
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.

Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.

Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.

Mediadora Leve

De que suaves declives
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência

perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.

Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.

Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.

Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.

Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.

Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.

Mediadora Límpida

Delicada insondável
a mediadora límpida
desliza sem rumor
no repouso do seu espaço

Serenidade vivaz
íntima na distância
habitação de altura
esplendor do branco

Tão nada como imagem
profunda em transparência
Demora nos instantes
unidos do silêncio

Ouvem-se cantos de água
inundação de ser
Abolição de um reino
palácio de palavras

Libertos os contrários
toda a bruma se evola
Nitidez de perfis
Rio luminoso e lúcido

Secreta calma intensa
como um lento prodígio
intocável suprema
do mundo espaço vivo

Não se prolongam ecos
nem ressoam pisadas
em sua esfera estática
sem fuga nem exílio

Sua nudez e assombro
paixão silenciosa
concavidade presente
onde se descobre o ar

Pura firmeza de estar
à superfície ondula
em misteriosa leveza
habitação segredada.

Mediadora Mínima

É quase imperceptível.
No halo mais antigo
germina silenciosa.
Seu coração, folhagem.

Pobre sombra habitada
pela água da pedra,
mas líquida, liberta,
no seu breve horizonte.

Mediadora Negra I

A que diz não e nunca
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.

Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.

Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.

Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.

Mediadora Negra Ii

Cresce num turbilhão de areia
e vidro. É uma evidência negra.
Entre oblíquas aves gira.
Dorme nas gargantas da sombra.

O centro cintila? Relâmpagos
rápidos não arredondam o campo.
Como unir a terra à estrela?
Seu ardor negro separa.

Vibra a língua, vibra o corpo
da água cega que a nutre,
sem esplendor de inteligência.
Muralhas, muralhas densas.

Não perfaz, não principia
por terras, máquinas, sombras.
Gritos vãos e nenhum canto.
Sangue frio do movimento.

Mediadora Negra Iii

Germina ainda um desenho
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?

Mediadora Para Além Das Imagens

O olhar sucumbe ante as imagens.
Fulgor de desordem, dança, ecos,
acorde e graça, silenciosa
tempestade. A vibração

contínua do espaço,
uma imensa praia vertical
azul.
Entrechoques, densidade, alegria,

imagens irmãs atravessadas
atravessando, sufocadas, sufocantes,
é preciso detê-las numa curva de frase,
numa equivalência que será o seu reverso.

Mediadora Simples

Demora em sossegos fundos
sonoros o seu fogo azul
por simples caminhos de erva,
talvez cristal, mas argila.

Sempre amiga e silenciosa
inunda a sombra dos quartos
sem esplendor nem coroa vã
mas em suas flores de água.

Não irrompe, surge plácida
entre a surdina das coisas.
Límpida, intensa, suave
cheia de fulgores minúsculos.

Mulher de serenidade,
sem grutas nem sombras ácidas,
abre o âmbito mais suave
na simplicidade de ser.

Mediadora Sonâmbula

Dançarina do sono,
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.

Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência

tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.

Mediadora Terrestre

A sua língua é um jovem animal.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!

Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.

Mediadora Vazia

Já deslembrada, perdida
na agonia da sede.
Obscura e sem lugar
morta vivendo em luz cega.

Sempre a areia do deserto
e calcinadas as frases
sem lucidez nem repouso,
imagens despedaçadas.

Qual o último país?
Qual o silêncio do mar?
Do seu nulo amor errante
resta o seu halo inquieto.

Era um secreto jardim
de obscura transparência,
era um corpo, era um recinto
de silenciosa alegria.

Ausência, menos que água,
estrangeira e solitária,
busca a esfera azul e limpa,
a nitidez de um lugar.

Amante escura, longínqua,
que pátria no seu desterro,
que presságio de sossego,
que dom impossível tem?

Sua viagem é um exílio
no vazio transparente
onde cristal não cintila
nem um liso mundo gira.

Só no ardor se ultrapassa
e vibra já sem fronteiras,
a derradeira, a primeira,
num sopro que inscreve a vida.