Poemas nesta obra
A Face Submersa de Che
Gastaram-se as promessas da sempre morte viva
Das sílabas do teu rosto novas palavras surgem
Sob as palavras as sílabas se reúnem
Outras palavras sob as palavras
nascem
A face submersa ressurge das raízes
Sempre ou nunca mais de cada vez e sempre
Um rastro se propaga rasga as superfícies
Um perfume silvestre desempesta as cidades
As sílabas reúnem-se Uma bondade antiga
retempera a revolta
Gastaram-se as promessas A face submersa
ressurge das raízes
Outras palavras sob as palavras nascem
Das sílabas do teu rosto novas palavras surgem
Sob as palavras as sílabas se reúnem
Outras palavras sob as palavras
nascem
A face submersa ressurge das raízes
Sempre ou nunca mais de cada vez e sempre
Um rastro se propaga rasga as superfícies
Um perfume silvestre desempesta as cidades
As sílabas reúnem-se Uma bondade antiga
retempera a revolta
Gastaram-se as promessas A face submersa
ressurge das raízes
Outras palavras sob as palavras nascem
A Minha Pedra Para José Gomes Ferreira
Prólogo
Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra
Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra
Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?
Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?
Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não
E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?
A pedra que eu habito
A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra
Podes chamar-lhe buraco
No buraco
está o arco
do buraco
Queria mais que uma pedra
queria outra pedra
Invento uma pedra
para esta pedra
Invento outro arco
e outro
e outro ainda
Não saio do buraco
Atiro uma pedra
para ser flecha
Mas será flecha?
E será de fogo?
Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra
É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra
e por isso dou-ta
com o calor da mão
O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge
Agora é que é teu
Se te dou a pedra
logo a pedra existe
Logo a pedra é pedra
A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei
Se uma pedra existe
todo o mundo existe
Se esta pedra é pedra
logo tu existes
Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra
Toma então a pedra
meu irmão
Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra
Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra
Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?
Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?
Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não
E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?
A pedra que eu habito
A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra
Podes chamar-lhe buraco
No buraco
está o arco
do buraco
Queria mais que uma pedra
queria outra pedra
Invento uma pedra
para esta pedra
Invento outro arco
e outro
e outro ainda
Não saio do buraco
Atiro uma pedra
para ser flecha
Mas será flecha?
E será de fogo?
Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra
É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra
e por isso dou-ta
com o calor da mão
O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge
Agora é que é teu
Se te dou a pedra
logo a pedra existe
Logo a pedra é pedra
A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei
Se uma pedra existe
todo o mundo existe
Se esta pedra é pedra
logo tu existes
Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra
Toma então a pedra
meu irmão
Apontamentos Para Um Estudo Sobre Fernando Echevarría
APONTAMENTOS PARA UM ESTUDO
SOBRE FERNANDO ECHEVARRÍA
Elogio da linha rítmica luminosa: verso.
Reaparecido o melodioso pássaro do número.
Visibilidade do fundo à superfície.
Torre lúcida de força harmoniosa.
A geometria com a música.
O conceito repentino, concêntrico (o timbre).
A estrutura — respiração.
A música que não flui sem as pedras das palavras.
A densidade clara, forte: o ritmo da energia, do intacto.
Pulsação e perfil da pedra.
rosa
O exacto esplendor — arrasa, fulgura: ————.
terramoto
O centro em cada palavra Cai arrasante.
Com coração
de grande terra sonora
A pedra-espelho: retina rua, dentro fora.
O infinito condicional. Sintaxe do incondicional.
Irrupção da rosa no seu rigor inicial.
A (im)pressão do compacto
a gestação
apresentando-se irrupção
re-presentando-se de um facto
e a fulguração-florescência
de forma virgem e completa:
o poema-rosa
A exactidão musical e plástica da dicção tensa flexibilidade do inflexível número
O viço e o vigor do vocábulo na dicção de pedra musical (branca-torre)
A pureza forte da palavra
palavra material
branca incandescência
de ritmo verde
Um novo canto e um novo en-canto:
a revolução entendida ao mesmo tempo como
um movimento de um astro
e uma insurreição da palavra no re-novo da revolução
A tradição
deixa de ser a traição de um esquecimento
e desdizendo-se retorna repentinamente
ao que gera a sua ficção.
O tempo do poema echevarriano é o tempo que um astro gasta em percorrer a sua órbita ou a girar em torno do seu eixo.
Amadurecimento. Gravitação.
O poema é uma rosa, uma torre, um astro
O poema é simultaneamente lento e repentino
com uma profunda ressonância
cuja profundidade
se resolve totalmente na superfície material verbal do poema
espessa e luminosa
subtil e grave
concêntrica
redonda:
Amadurece. Procura
sumos e pesos por dentro,
que cumulem a estrutura
de ti. Que te espera um centro
de escura gravitação
em terra. Com coração
de grande terra sonora.
Cai arrasante. Que o fruto
destruirá o tempo à hora
do golpe em que já te escuto.
SOBRE FERNANDO ECHEVARRÍA
Elogio da linha rítmica luminosa: verso.
Reaparecido o melodioso pássaro do número.
Visibilidade do fundo à superfície.
Torre lúcida de força harmoniosa.
A geometria com a música.
O conceito repentino, concêntrico (o timbre).
A estrutura — respiração.
A música que não flui sem as pedras das palavras.
A densidade clara, forte: o ritmo da energia, do intacto.
Pulsação e perfil da pedra.
rosa
O exacto esplendor — arrasa, fulgura: ————.
terramoto
O centro em cada palavra Cai arrasante.
Com coração
de grande terra sonora
A pedra-espelho: retina rua, dentro fora.
O infinito condicional. Sintaxe do incondicional.
Irrupção da rosa no seu rigor inicial.
A (im)pressão do compacto
a gestação
apresentando-se irrupção
re-presentando-se de um facto
e a fulguração-florescência
de forma virgem e completa:
o poema-rosa
A exactidão musical e plástica da dicção tensa flexibilidade do inflexível número
O viço e o vigor do vocábulo na dicção de pedra musical (branca-torre)
A pureza forte da palavra
palavra material
branca incandescência
de ritmo verde
Um novo canto e um novo en-canto:
a revolução entendida ao mesmo tempo como
um movimento de um astro
e uma insurreição da palavra no re-novo da revolução
A tradição
deixa de ser a traição de um esquecimento
e desdizendo-se retorna repentinamente
ao que gera a sua ficção.
O tempo do poema echevarriano é o tempo que um astro gasta em percorrer a sua órbita ou a girar em torno do seu eixo.
Amadurecimento. Gravitação.
O poema é uma rosa, uma torre, um astro
O poema é simultaneamente lento e repentino
com uma profunda ressonância
cuja profundidade
se resolve totalmente na superfície material verbal do poema
espessa e luminosa
subtil e grave
concêntrica
redonda:
Amadurece. Procura
sumos e pesos por dentro,
que cumulem a estrutura
de ti. Que te espera um centro
de escura gravitação
em terra. Com coração
de grande terra sonora.
Cai arrasante. Que o fruto
destruirá o tempo à hora
do golpe em que já te escuto.
Até Onde Vós Estais
Ó presenças amigas, ó momento
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.
Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.
Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.
A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.
Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.
Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.
A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
Catarina Palavra Viva
Catarina esta palavra vibra
vive
em nós
não é uma palavra morta
nem perdida
Catarina
é a palavra viva
que ninguém fuzila
Catarina
o teu nome é mais que um nome
ou é o nome
que encontrou
um rosto
a alegria viva
além de nós
aqui
presente
Catarina
não é um bosque musical
mas uma pedra
que canta
de pé
claramente
pura
com um rosto
de água
sua palavra viva
vive
em nós
não é uma palavra morta
nem perdida
Catarina
é a palavra viva
que ninguém fuzila
Catarina
o teu nome é mais que um nome
ou é o nome
que encontrou
um rosto
a alegria viva
além de nós
aqui
presente
Catarina
não é um bosque musical
mas uma pedra
que canta
de pé
claramente
pura
com um rosto
de água
sua palavra viva
Diante da Folha Branca…
Diante da folha branca. A tentação de escrever. Porquê? Que tenho eu para dizer? Nada. Talvez nada. Desisto. Não. O papel branco branco. Esta palavra «branco» é a primeira palavra? É o branco que me tenta antes de escrever. De súbito — como? o que se passa? — a primeira palavra, a primeira frase surgiu — irrompeu? O branco, a página? O branco da página? Uma página está cheia de caminhos. E que caminho escolher que caminho quando não se sabe qual o caminho ou se um caminho nos leva a algum lado? Mas escolho eu algum caminho? Faço eu acaso esta pergunta quando estou diante do papel? O que se passa ou não se passa ou vai passar-se o que está já a passar-se ainda antes de o texto principiar não é um problema a resolver (se fosse um problema, possivelmente nunca o resolveria, nunca poderia — começar a — escrever). Algo obscuro, de súbito, uma palavra, uma frase; um verso — explodiu? Eis que escrevo. Explodiu, disse, é talvez um exagero. Seria magnífico se o texto principiasse por essa bela metáfora: explosão. Que o texto, todo ele, fosse uma explosão. Por vezes, sim, por momentos e nem sempre logo no início… as palavras intensificam-se, tornam-se incandescentes? fluviais? a aridez do percurso volve-se na fluência de um insondável rio. Mas quantas vezes, que dificuldade! Como que escrevo para respirar fora dos caminhos conhecidos, fora das barreiras em que nos asfixiam(os). São os caminhos cheios de sentidos que se nos querem impor, que se nos impõem. Começo então a escrever. É uma aventura talvez sem sentido, vou talvez perder-me — como evitar o absurdo? Mas é preciso correr o risco do absurdo, é necessário que eu me perca. Trata-se de uma condição do acto de escrever, poderei talvez atingir alguma dimensão desconhecida. É indispensável não evitar tal risco, não temer perder-me ou, antes, temer e não temer perder-me. É necessário, pois, perder-me no sem-sentido, mas este não é o sem-sentido dos sentidos já não sentidos, por desgaste ou por demais sentidos na sua violência asfixiante. É uma busca obscura, incerta, cega, em que tento romper, abrir um caminho fora dos caminhos conhecidos — um caminho incerto entre mil caminhos ou um caminho que não o será talvez. Um caminho em que tudo é incerto porque os caminhos na página não estão traçados de antemão. E, no entanto, no incerto percurso há uma direcção obscura, indubitável. Uma palavra surge: espaço ou árvore e outras, tronco, insecto, pedra, palavras que traduzem um impulso e um desejo, um desejo que cresce e é já um ritmo, uma secreta vibração da língua, uma pulsação. Como que um oculto íman os atrai.
Que dizem estas palavras?
Que diz esta árvore
que não é exactamente a árvore que nós vemos
mas que na página respira
porque a palavra contém ar
e nela vibra o rumor do vento
como a árvore real que nós vemos lá fora?
As palavras dizem algo inicial
nascem da sede e do desejo
dizem e são a sede e o desejo
a pedra que era pedra e só pedra
é já mais do que pedra o próprio corpo
a dureza do corpo intacto
e de súbito a pedra de água
um novo caminho nasce, um novo espaço
a magia de uma imagem
e outra imagem
iluminam a página
Porque certas palavras se repetem no caminho
pedra folha insecto tronco
pedra pedra a pedra do poema
uma palavra uma pedra
as sílabas de um corpo
um sinal opaco
intenso
nítido
exacto
que nos diz o quê?
a pedra pulsa
fixa a pulsação
pedra palavra intensa
inexplicável
pura
O tronco é uma intensidade bronca
e branca
um trovão horizontal
a energia da língua vertical
da árvore
do corpo
a palavra mais forte sobre a página
a que implanta o intacto
a imagem mais visível do opaco
a sua identidade
inexplorável
O insecto o imperceptível quase
mínima forma
táctil
de um olhar
em que o ínfimo palpita
ao rés da terra ardente
Todo o poema é um tecido de relações
um corpo de palavras
e nesse corpo arde o desejo do corpo
O poema retorna sempre ao desejo inicial
insaciavelmente branco
incandescente
as palavras surgem renovadas
como se o poema as dissesse pela primeira vez
numa outra língua
mas é a mesma língua
de todos
um pouco mais nua
ardente
e branca
Que dizem estas palavras?
Que diz esta árvore
que não é exactamente a árvore que nós vemos
mas que na página respira
porque a palavra contém ar
e nela vibra o rumor do vento
como a árvore real que nós vemos lá fora?
As palavras dizem algo inicial
nascem da sede e do desejo
dizem e são a sede e o desejo
a pedra que era pedra e só pedra
é já mais do que pedra o próprio corpo
a dureza do corpo intacto
e de súbito a pedra de água
um novo caminho nasce, um novo espaço
a magia de uma imagem
e outra imagem
iluminam a página
Porque certas palavras se repetem no caminho
pedra folha insecto tronco
pedra pedra a pedra do poema
uma palavra uma pedra
as sílabas de um corpo
um sinal opaco
intenso
nítido
exacto
que nos diz o quê?
a pedra pulsa
fixa a pulsação
pedra palavra intensa
inexplicável
pura
O tronco é uma intensidade bronca
e branca
um trovão horizontal
a energia da língua vertical
da árvore
do corpo
a palavra mais forte sobre a página
a que implanta o intacto
a imagem mais visível do opaco
a sua identidade
inexplorável
O insecto o imperceptível quase
mínima forma
táctil
de um olhar
em que o ínfimo palpita
ao rés da terra ardente
Todo o poema é um tecido de relações
um corpo de palavras
e nesse corpo arde o desejo do corpo
O poema retorna sempre ao desejo inicial
insaciavelmente branco
incandescente
as palavras surgem renovadas
como se o poema as dissesse pela primeira vez
numa outra língua
mas é a mesma língua
de todos
um pouco mais nua
ardente
e branca
Não-Canto a Camões
O dia em que eu nasci moura e pereça,
Camões
Oh! que não sei que escrevo nem que falo!
Camões
Morrendo estou na vida e em morte vivo
Camões
Junto de um seco, fero e estéril monte
Camões
Quem gritaria se eu gritasse
se ———————
A impossibilidade do grito o não-grito do grito no ilegível silêncio entre as letras do livro letra a letra no livro
Vejo um muro branco
sem uma sombra
A impossibilidade do canto é a possibilidade de uma parede de palavras que aniquilam uma a uma o silêncio do canto
Um braço
até ao muro
O poema é devorado letra a letra por um silêncio que o atravessa sem tocar nas palavras nem no silêncio do poema
Na aridez do frio
nenhum insecto vibra
nem uma fibra estala
Quem pode erguer o canto
sem uma pedra
sem uma sombra
sem um grito
Não há sequer a sombra de um grito
Nenhuma sombra é um grito
A impossibilidade do canto é talvez a possibilidade de um impossível canto Com as palavras nuas e vazias de uma pobreza exausta talvez possa ainda ouvir o rumor de um chão e um silêncio de ervas e de frases na ausência do amor e no silêncio de um corpo destroçado
Só a página em branco
e a ferida sem nome
no silêncio
O sangue? Será sangue? No insondável silêncio em que se abismam as palavras?
Só no silêncio da página poderá erguer-se a palavra do silêncio inacessível o centro ausente da linguagem o extremo em que a palavra se destrói e renasce no grito que se cala na p a l a v r a
Obscura promessa do silêncio da palavra
A palavra nada diz
ou diz tudo
na iminência de o dizer
O silêncio fala na palavra ou é a palavra que devolve o silêncio à palavra que se segue ao espaço entre as palavras?
Um corpo não um corpo à distância de um corpo
no vazio da palavra
à espera da palavra
a palavra que ilumina o silêncio que ilumina a palavra
Um rosto incendiado ou só um rastro
branco na brancura
porquê oh porquê
não vejo mais que um sulco
um ponto
uma palavra?
Surgirá um dia o rosto deste rosto deserto?
E será ele o teu rosto que nunca será teu?
Na luz do eclipse
vejo um rosto vazio
um rosto ou rastro errante
— o luminoso enigma?
as sílabas do sol despedaçado intacto
Camões
Oh! que não sei que escrevo nem que falo!
Camões
Morrendo estou na vida e em morte vivo
Camões
Junto de um seco, fero e estéril monte
Camões
Quem gritaria se eu gritasse
se ———————
A impossibilidade do grito o não-grito do grito no ilegível silêncio entre as letras do livro letra a letra no livro
Vejo um muro branco
sem uma sombra
A impossibilidade do canto é a possibilidade de uma parede de palavras que aniquilam uma a uma o silêncio do canto
Um braço
até ao muro
O poema é devorado letra a letra por um silêncio que o atravessa sem tocar nas palavras nem no silêncio do poema
Na aridez do frio
nenhum insecto vibra
nem uma fibra estala
Quem pode erguer o canto
sem uma pedra
sem uma sombra
sem um grito
Não há sequer a sombra de um grito
Nenhuma sombra é um grito
A impossibilidade do canto é talvez a possibilidade de um impossível canto Com as palavras nuas e vazias de uma pobreza exausta talvez possa ainda ouvir o rumor de um chão e um silêncio de ervas e de frases na ausência do amor e no silêncio de um corpo destroçado
Só a página em branco
e a ferida sem nome
no silêncio
O sangue? Será sangue? No insondável silêncio em que se abismam as palavras?
Só no silêncio da página poderá erguer-se a palavra do silêncio inacessível o centro ausente da linguagem o extremo em que a palavra se destrói e renasce no grito que se cala na p a l a v r a
Obscura promessa do silêncio da palavra
A palavra nada diz
ou diz tudo
na iminência de o dizer
O silêncio fala na palavra ou é a palavra que devolve o silêncio à palavra que se segue ao espaço entre as palavras?
Um corpo não um corpo à distância de um corpo
no vazio da palavra
à espera da palavra
a palavra que ilumina o silêncio que ilumina a palavra
Um rosto incendiado ou só um rastro
branco na brancura
porquê oh porquê
não vejo mais que um sulco
um ponto
uma palavra?
Surgirá um dia o rosto deste rosto deserto?
E será ele o teu rosto que nunca será teu?
Na luz do eclipse
vejo um rosto vazio
um rosto ou rastro errante
— o luminoso enigma?
as sílabas do sol despedaçado intacto
O Que Nos Diz a Imagem? Diz-Nos o Que É E Não o Diz
O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
ou o silêncio do sentido que respira e transparece
Ausência na presença plena
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim
Um olhar vazio de tudo — que vê e não vê
e só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo.
Um signo que aponta a uma infinidade de sentidos
ou o sentido é infinito. Um sentido impossível.
Este é o aspecto incessante do signo,
o seu vazio e a sua vida,
todos os signos de um signo
de um incessante signo.
O olhar vazio é visão de um puro espaço
onde tudo é exterior e ao mesmo tempo íntimo
Todo o interior é nele o puro olhar do exterior
e a profundidade infinita do olhar silencioso.
Tudo o que ele vê a partir do puro espaço
o horizonte que está em si e à sua frente
e vem de dentro, do íntimo exterior,
e é todo ele olhar em si
a pura exterioridade de si mesmo
que ao abrir-se fecha-se e para dentro se abre.
Mas este olhar vazio
é ainda mais exterior do que qualquer olhar
porque reflecte à superfície todo o exterior
o puro exterior a partir do qual nos olha
e em si mesmo vê
numa esfera
em que a visão é presença fascinante
do que não vemos,
a ausência do que ela vê
— o tudo e o nada da visão,
a vacuidade do próprio acto de ver.
Ela olha… Não. Não olha. Vê.
Não vê. Olha.
Olha o vazio, o vazio do centro.
E ela vê.
Mas quando vê
deixa de ver: olha
apenas.
Porque a visão suspende-se
ante o vazio do centro.
Ela não pode ver-nos. Ela olha-nos.
Olhemo-la.
Olhemos os seus olhos, o seu olhar.
Não vemos, olhamos apenas.
Estes olhos não se vêem.
Como não se vê a luz vazia,
a luz do imo,
o fundo sem fundo do próprio fundo.
Mas podemos olhá-la
porque olhar é deixar-se fascinar
e o que olhamos é a fascinação do vazio
sem fundo algum.
Mas o seu rosto reflecte a harmonia
do seu fundo sem fundo com a superfície pura.
O seu rosto fala do silêncio
que é o silêncio da sua beleza.
E a discreta plenitude deste rosto
revela-nos
que o puro espaço inacessível
é também a pura presença da terra,
a misteriosa transparência de cada ser,
a plenitude de uma semelhança.
Este rosto reconhece-nos
porque é a própria semelhança.
Esta semelhança reúne-nos,
reconcilia-nos connosco
é o nosso coração reencontrado.
Este rosto aceita-nos no seu silêncio
na sua distância próxima.
É um sorriso de uma serena plenitude,
um sorriso de aceitação e amor,
uma amizade no mistério do ser.
Este rosto atrai-nos para uma distância
uma longínqua proximidade
ponderação da nossa transparência
porque nela nós estamos presentes
através de uma contemplação
que recusa olhar o que não deve ser visto
que atravessa o visível para ver.
Ela vê o que se oculta no visível,
o único, o ser,
o centro onde não estamos
mas que talvez em nós amadureça
que o seu olhar faz amadurecer.
Não a vemos. Olhamo-la.
E é todo o seu corpo que nos olha
que não cessa de nos olhar.
Vemos o seu corpo.
Mas é antes o seu corpo que nos olha.
O seu corpo é palavra e silêncio da palavra.
A palavra-silêncio do seu corpo
entra no íntimo de nós
onde recolhe o sonho de viver
que só pode revelar-se numa infinita
contemplação
que não pode deter-se em nenhum sentido
porque é o incessante, o interminável sim do amor.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
ou o silêncio do sentido que respira e transparece
Ausência na presença plena
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim
Um olhar vazio de tudo — que vê e não vê
e só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo.
Um signo que aponta a uma infinidade de sentidos
ou o sentido é infinito. Um sentido impossível.
Este é o aspecto incessante do signo,
o seu vazio e a sua vida,
todos os signos de um signo
de um incessante signo.
O olhar vazio é visão de um puro espaço
onde tudo é exterior e ao mesmo tempo íntimo
Todo o interior é nele o puro olhar do exterior
e a profundidade infinita do olhar silencioso.
Tudo o que ele vê a partir do puro espaço
o horizonte que está em si e à sua frente
e vem de dentro, do íntimo exterior,
e é todo ele olhar em si
a pura exterioridade de si mesmo
que ao abrir-se fecha-se e para dentro se abre.
Mas este olhar vazio
é ainda mais exterior do que qualquer olhar
porque reflecte à superfície todo o exterior
o puro exterior a partir do qual nos olha
e em si mesmo vê
numa esfera
em que a visão é presença fascinante
do que não vemos,
a ausência do que ela vê
— o tudo e o nada da visão,
a vacuidade do próprio acto de ver.
Ela olha… Não. Não olha. Vê.
Não vê. Olha.
Olha o vazio, o vazio do centro.
E ela vê.
Mas quando vê
deixa de ver: olha
apenas.
Porque a visão suspende-se
ante o vazio do centro.
Ela não pode ver-nos. Ela olha-nos.
Olhemo-la.
Olhemos os seus olhos, o seu olhar.
Não vemos, olhamos apenas.
Estes olhos não se vêem.
Como não se vê a luz vazia,
a luz do imo,
o fundo sem fundo do próprio fundo.
Mas podemos olhá-la
porque olhar é deixar-se fascinar
e o que olhamos é a fascinação do vazio
sem fundo algum.
Mas o seu rosto reflecte a harmonia
do seu fundo sem fundo com a superfície pura.
O seu rosto fala do silêncio
que é o silêncio da sua beleza.
E a discreta plenitude deste rosto
revela-nos
que o puro espaço inacessível
é também a pura presença da terra,
a misteriosa transparência de cada ser,
a plenitude de uma semelhança.
Este rosto reconhece-nos
porque é a própria semelhança.
Esta semelhança reúne-nos,
reconcilia-nos connosco
é o nosso coração reencontrado.
Este rosto aceita-nos no seu silêncio
na sua distância próxima.
É um sorriso de uma serena plenitude,
um sorriso de aceitação e amor,
uma amizade no mistério do ser.
Este rosto atrai-nos para uma distância
uma longínqua proximidade
ponderação da nossa transparência
porque nela nós estamos presentes
através de uma contemplação
que recusa olhar o que não deve ser visto
que atravessa o visível para ver.
Ela vê o que se oculta no visível,
o único, o ser,
o centro onde não estamos
mas que talvez em nós amadureça
que o seu olhar faz amadurecer.
Não a vemos. Olhamo-la.
E é todo o seu corpo que nos olha
que não cessa de nos olhar.
Vemos o seu corpo.
Mas é antes o seu corpo que nos olha.
O seu corpo é palavra e silêncio da palavra.
A palavra-silêncio do seu corpo
entra no íntimo de nós
onde recolhe o sonho de viver
que só pode revelar-se numa infinita
contemplação
que não pode deter-se em nenhum sentido
porque é o incessante, o interminável sim do amor.
Um Espaço de Silêncio
(Proposições sobre a pintura de Vieira da Silva)
O instante
suspende-se metamorfose da abolição
VISÃO VAZIA
restituição do mínimo no ABERTO
as primeiras minúcias de um estranho e límpido mistério
o puro amor a cada coisa
o absoluto no ínfimo
Presença-Ausência Ausência-Presença
Não o além do mundo mas o além no aqui
o aqui entreabrindo o Instante
a distância interior constelando-se em silêncio
relação liberta livre
com o desconhecido o irrevelado
não de um outro mundo mas do mundo outro
(o Mesmo)
a infinita abertura do mundo na luz do seu silêncio
na profundidade liberta
em espaços de espaços
o diverso no uno
indissolúvel unidade do ínfimo e do infinito
janelas ou portas que se abrem
(que abrem para:)
Libertação da opacidade libertação da Ausência
Ausência extrema da Presença desaparecendo
desaparecida
tudo raiou de sua luz de silêncio e sombra
le vide n’abolit pas l’inconnu mais l’éblouit
uma imponderável ponderabilidade de palácio-aéreo
as salas abriram-se
destruição das aparências reinvenção das suas cinzas
filhas do relâmpago da Presença
lampejos da Presença no momento da desaparição
matéria de um sabor e sabor de uma matéria
que respira em minúsculos abismos
transubstanciação da fulguração total
as cintilações imobilizaram-se no silêncio
de um rastro no vazio
constelado
Tudo arde ainda na minuciosa paciência de uma
dádiva na subtil pontuação de uma apaixonada visão
Intensidade e tensão
da atenção pura
que sabe conter o que não se pode conter
estremecimento que não treme
tudo respira no silêncio
tudo se tornou respiração do silêncio
amorosos dedos de um amor da terra
revelam suspenso
o incessante fluxo
rios de uma extensa estrela tensa
teia aberta
dilatando-se retendo-se
suspensa e retida
pela interminável e silenciosa paciência
das raízes da terra
estrela de sabor a pão
tapete de velha e antiquíssima sabedoria
com um cheiro a trigo e de amêndoa
estrela
e navio submerso
multiplicando-se no espaço
multiplicando o espaço
pedra de infinita transparência
em que se lêem os sonhos e as sombras
paciência ardente
que dominou a fascinação da miragem
pela fascinação clara do vazio
vazio amante
constelado
terra recuperada na distância da infinita proximidade de tudo
mão que penetrou no impenetrável
com a suavidade de uma flexível inflexibilidade
as múltiplas portas salas janelas células
a permanência do intacto
a infinita intensidade do contacto
O instante
suspende-se metamorfose da abolição
VISÃO VAZIA
restituição do mínimo no ABERTO
as primeiras minúcias de um estranho e límpido mistério
o puro amor a cada coisa
o absoluto no ínfimo
Presença-Ausência Ausência-Presença
Não o além do mundo mas o além no aqui
o aqui entreabrindo o Instante
a distância interior constelando-se em silêncio
relação liberta livre
com o desconhecido o irrevelado
não de um outro mundo mas do mundo outro
(o Mesmo)
a infinita abertura do mundo na luz do seu silêncio
na profundidade liberta
em espaços de espaços
o diverso no uno
indissolúvel unidade do ínfimo e do infinito
janelas ou portas que se abrem
(que abrem para:)
Libertação da opacidade libertação da Ausência
Ausência extrema da Presença desaparecendo
desaparecida
tudo raiou de sua luz de silêncio e sombra
le vide n’abolit pas l’inconnu mais l’éblouit
uma imponderável ponderabilidade de palácio-aéreo
as salas abriram-se
destruição das aparências reinvenção das suas cinzas
filhas do relâmpago da Presença
lampejos da Presença no momento da desaparição
matéria de um sabor e sabor de uma matéria
que respira em minúsculos abismos
transubstanciação da fulguração total
as cintilações imobilizaram-se no silêncio
de um rastro no vazio
constelado
Tudo arde ainda na minuciosa paciência de uma
dádiva na subtil pontuação de uma apaixonada visão
Intensidade e tensão
da atenção pura
que sabe conter o que não se pode conter
estremecimento que não treme
tudo respira no silêncio
tudo se tornou respiração do silêncio
amorosos dedos de um amor da terra
revelam suspenso
o incessante fluxo
rios de uma extensa estrela tensa
teia aberta
dilatando-se retendo-se
suspensa e retida
pela interminável e silenciosa paciência
das raízes da terra
estrela de sabor a pão
tapete de velha e antiquíssima sabedoria
com um cheiro a trigo e de amêndoa
estrela
e navio submerso
multiplicando-se no espaço
multiplicando o espaço
pedra de infinita transparência
em que se lêem os sonhos e as sombras
paciência ardente
que dominou a fascinação da miragem
pela fascinação clara do vazio
vazio amante
constelado
terra recuperada na distância da infinita proximidade de tudo
mão que penetrou no impenetrável
com a suavidade de uma flexível inflexibilidade
as múltiplas portas salas janelas células
a permanência do intacto
a infinita intensidade do contacto
Uma Substância de Sombra Um Aroma Quase
Uma substância de sombra um aroma quase
um desenho frágil
o espaço branco
cintilações de água sobre o muro
intensidade nua
a semelhança livre
do rosto e do lugar
Sinuosa e nua
sobre o vazio terra latente
Marca breve à superfície para não escrever
imagem do contacto
entre o branco e o negro
a semelhança
de nascer
de não nascer
Um seio verde
no fundo
do quarto
e tudo o que circula
os desenhos vermelhos
os insectos as nuvens
Entras no dia branco
na distância viva
Dedos incandescentes
sobre a laranja
e a lâmpada
Silenciosa intensidade
de um obscuro sabor
Rumor de uma corola
aberta pelo silêncio
Deslumbramento Espaço
Onde deixaste a noite
a noite
com a sua noite
e as suas dunas brancas
Sol dos lagos no rosto
sol cimo suave
Linha silenciosa
para o intangível
centro
de horizontal brancura
Tu és o centro móvel
na noite da nudez
folha verde
de luz
O traço que desenhas
é o sussurro branco
da semelhança liberta
Semelhança uma folha move-se
para um centro
de coexistência pura
A semelhança de um rosto é a diferença de um arco
A semelhança é uma surpresa culminando
na imagem
Aliança translúcida de alianças
semelhança de semelhanças
A semelhança da nostalgia e da presença
A semelhança do desejo e da inocência
A semelhança é uma viagem na ausência
o centro na distância
Nada é tão novo como a semelhança na sua ínfima diferença
A semelhança é o gérmen de si mesma e da presença da origem
No silêncio da imagem o teu rosto é a semelhança da Presença
um desenho frágil
o espaço branco
cintilações de água sobre o muro
intensidade nua
a semelhança livre
do rosto e do lugar
Sinuosa e nua
sobre o vazio terra latente
Marca breve à superfície para não escrever
imagem do contacto
entre o branco e o negro
a semelhança
de nascer
de não nascer
Um seio verde
no fundo
do quarto
e tudo o que circula
os desenhos vermelhos
os insectos as nuvens
Entras no dia branco
na distância viva
Dedos incandescentes
sobre a laranja
e a lâmpada
Silenciosa intensidade
de um obscuro sabor
Rumor de uma corola
aberta pelo silêncio
Deslumbramento Espaço
Onde deixaste a noite
a noite
com a sua noite
e as suas dunas brancas
Sol dos lagos no rosto
sol cimo suave
Linha silenciosa
para o intangível
centro
de horizontal brancura
Tu és o centro móvel
na noite da nudez
folha verde
de luz
O traço que desenhas
é o sussurro branco
da semelhança liberta
Semelhança uma folha move-se
para um centro
de coexistência pura
A semelhança de um rosto é a diferença de um arco
A semelhança é uma surpresa culminando
na imagem
Aliança translúcida de alianças
semelhança de semelhanças
A semelhança da nostalgia e da presença
A semelhança do desejo e da inocência
A semelhança é uma viagem na ausência
o centro na distância
Nada é tão novo como a semelhança na sua ínfima diferença
A semelhança é o gérmen de si mesma e da presença da origem
No silêncio da imagem o teu rosto é a semelhança da Presença
Português
English
Español