Poemas nesta obra
A Ausência
Entre a pedra e a seiva, entre a espessura e a clareira,
num sítio de delicadeza e de silêncio,
cintilando do fundo e num nimbo de brancura,
na atenção mais tranquila e vagarosa,
entreabre-se a figura da ausência através da neblina.
Na penumbra onde pousa brilha o inviolável.
Estremece silenciosa, é apenas uma mancha rutilante
que quase não deslumbra e quase acalma.
Ilumina e obscurece ao tremular o véu
que é ela própria em movimento largo
e nada mais que um véu de névoa branca
que não chega a ser corpo ou forma nítida.
Talvez seja de uma idade antiga ou sem idade
e na onda de dolência e nostalgia
nos leve ao fundo de quanto é abolido
e num relâmpago se abra o fundo imerso
em que a vida inteira vem acima num só gume
de insondável tristeza e de desejo. E tudo e nada
se consuma. O silêncio move
a mancha cintilante e escura
que se adensa ou esvai
até que o instante é já o ido
na solidão de ter perdido o inviolável.
num sítio de delicadeza e de silêncio,
cintilando do fundo e num nimbo de brancura,
na atenção mais tranquila e vagarosa,
entreabre-se a figura da ausência através da neblina.
Na penumbra onde pousa brilha o inviolável.
Estremece silenciosa, é apenas uma mancha rutilante
que quase não deslumbra e quase acalma.
Ilumina e obscurece ao tremular o véu
que é ela própria em movimento largo
e nada mais que um véu de névoa branca
que não chega a ser corpo ou forma nítida.
Talvez seja de uma idade antiga ou sem idade
e na onda de dolência e nostalgia
nos leve ao fundo de quanto é abolido
e num relâmpago se abra o fundo imerso
em que a vida inteira vem acima num só gume
de insondável tristeza e de desejo. E tudo e nada
se consuma. O silêncio move
a mancha cintilante e escura
que se adensa ou esvai
até que o instante é já o ido
na solidão de ter perdido o inviolável.
A Casa
Um sossegado alento na penumbra de madeira.
A casa adormeceu e está viva numa tranquila pulsação.
Oiço um leve martelar de teclas de sombra.
Um prato de cobre brilha verticalmente na obscuridade.
A mesa é redonda e limpa como um círculo de harmonia.
Numa parede flutuam arabescos cintilantes.
O tempo segrega sílabas de argila e espuma.
A casa adormeceu e está viva numa tranquila pulsação.
Oiço um leve martelar de teclas de sombra.
Um prato de cobre brilha verticalmente na obscuridade.
A mesa é redonda e limpa como um círculo de harmonia.
Numa parede flutuam arabescos cintilantes.
O tempo segrega sílabas de argila e espuma.
A Cidade Que Habito
Quem vê entre os ramos a delicada
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
A Filha do Sono
Tu és a filha do sono e cintilas na folhagem.
Vieste do fundo do rio ainda envolta na noite.
O meu apelo recebeste-o e é a claridade que vibra.
A confiança nasceu numa onda mais verde
e inclinei-me sobre os teus joelhos num ardor tranquilo
para que a verdadeira chama fosse reconhecida na árvore do desejo.
De caminhos, de árvores, de nascentes,
de signos impenetráveis que se tornaram vibrantes
eras o corpo que se reunia na alegria partilhada
e consentias a palavra como um redemoinho
que culminava numa tranquila abóbada.
Que serenidade nas claras árvores
e nas folhas profusas onde repousam novos frutos!
Os desejos adormecem no silêncio e entre as pedras.
A infinita sede acalma-se e a ausência desce até à terra nua.
Vieste do fundo do rio ainda envolta na noite.
O meu apelo recebeste-o e é a claridade que vibra.
A confiança nasceu numa onda mais verde
e inclinei-me sobre os teus joelhos num ardor tranquilo
para que a verdadeira chama fosse reconhecida na árvore do desejo.
De caminhos, de árvores, de nascentes,
de signos impenetráveis que se tornaram vibrantes
eras o corpo que se reunia na alegria partilhada
e consentias a palavra como um redemoinho
que culminava numa tranquila abóbada.
Que serenidade nas claras árvores
e nas folhas profusas onde repousam novos frutos!
Os desejos adormecem no silêncio e entre as pedras.
A infinita sede acalma-se e a ausência desce até à terra nua.
A Haste
Na claridade da pedra sobre a poeira áspera
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
A Mulher Dilacerada
Tinhas um sabor a terra escura e à espuma
amarga de uma árvore. Descobri-te o rosto
sujo trabalhado pelo vento
e pelas marés negras. Um oleoso girassol
enublava-te. O rosto inclinava-se
sobre um ombro matinal dilacerado.
As tuas pernas densas eram nervos atrozes
implantados na pedra. Sobre o teu peito neutro
repercutiam as ondas e os metais furiosos.
O mundo obscurecera nas dilaceradas ancas.
Como um pássaro nocturno entre espelhos abolidos
movias a matéria da tua identidade.
No teu vestido opaco o vento ressoava
num furor de consoantes e relâmpagos escuros.
amarga de uma árvore. Descobri-te o rosto
sujo trabalhado pelo vento
e pelas marés negras. Um oleoso girassol
enublava-te. O rosto inclinava-se
sobre um ombro matinal dilacerado.
As tuas pernas densas eram nervos atrozes
implantados na pedra. Sobre o teu peito neutro
repercutiam as ondas e os metais furiosos.
O mundo obscurecera nas dilaceradas ancas.
Como um pássaro nocturno entre espelhos abolidos
movias a matéria da tua identidade.
No teu vestido opaco o vento ressoava
num furor de consoantes e relâmpagos escuros.
A Ordem do Mar
À medida que ver se completa em arco
de uma harmonia que reúne o espaço inteiro
a flor se ergue em fantasia calma e se decanta
na brisa que a inclina e a rodeia e a aviva.
Não mais a máscara, não mais a mímica, não mais
as flautas e as palavras flutuantes. Só a canção
do mar, a sua ordem múltipla e monótona,
os seus artifícios frescos, a sua fragrância funda.
É uma voz que torna o céu mais amplo e a folha
mais azul. É o conhecimento de uma ordem
em que as sombras se combinam com o vento,
em que os corpos são formas do verdadeiro oceano.
de uma harmonia que reúne o espaço inteiro
a flor se ergue em fantasia calma e se decanta
na brisa que a inclina e a rodeia e a aviva.
Não mais a máscara, não mais a mímica, não mais
as flautas e as palavras flutuantes. Só a canção
do mar, a sua ordem múltipla e monótona,
os seus artifícios frescos, a sua fragrância funda.
É uma voz que torna o céu mais amplo e a folha
mais azul. É o conhecimento de uma ordem
em que as sombras se combinam com o vento,
em que os corpos são formas do verdadeiro oceano.
A Personagem
Lisa e ainda ausente, ignorante
no exílio de não ser mais que um projecto
nulo, completa já e suscitada,
avança no átrio em movimentos verdes.
É já a forma de um fluxo, sangue e vento.
Insegura e ágil e todavia fácil
ninguém a espera porque sempre principia
rasga uma avenida, maravilhosamente frágil.
Vê-la é ondular na pupila de um barco.
Ela própria se anula em branca concavidade.
Quem a contempla dança um sono solar.
Sobre a primeira página do sol escrevo o seu nome.
no exílio de não ser mais que um projecto
nulo, completa já e suscitada,
avança no átrio em movimentos verdes.
É já a forma de um fluxo, sangue e vento.
Insegura e ágil e todavia fácil
ninguém a espera porque sempre principia
rasga uma avenida, maravilhosamente frágil.
Vê-la é ondular na pupila de um barco.
Ela própria se anula em branca concavidade.
Quem a contempla dança um sono solar.
Sobre a primeira página do sol escrevo o seu nome.
A Presença
Entre o não saber e o poder
a mais ligeira ponte.
Entre as ruínas dos olhos e a limpidez da luz
as frágeis escadas de sombra.
Entre a língua cega e as palavras intactas
a mão que procura o hálito de um deus
na revelação do mar e do poema.
O que se resolve em espuma no final de uma frase,
o que vem do fundo ininteligível da noite
e é uma súbita ordenação transparente
e o frémito de um equilíbrio, uma modulação, uma frescura
e o reino absoluto no instante, o verdadeiro lugar
e um grito, um grito de alegria na sua forma pura.
Simplicidade da presença discreta, furtiva e no entanto límpida.
Coerência fragílima, claridade confiante à beira de ser nada.
Era o que esperava, era o que não esperava no imediato sabor
das palavras e das coisas.
a mais ligeira ponte.
Entre as ruínas dos olhos e a limpidez da luz
as frágeis escadas de sombra.
Entre a língua cega e as palavras intactas
a mão que procura o hálito de um deus
na revelação do mar e do poema.
O que se resolve em espuma no final de uma frase,
o que vem do fundo ininteligível da noite
e é uma súbita ordenação transparente
e o frémito de um equilíbrio, uma modulação, uma frescura
e o reino absoluto no instante, o verdadeiro lugar
e um grito, um grito de alegria na sua forma pura.
Simplicidade da presença discreta, furtiva e no entanto límpida.
Coerência fragílima, claridade confiante à beira de ser nada.
Era o que esperava, era o que não esperava no imediato sabor
das palavras e das coisas.
A Volubilidade do Ser
Um sopro sobre as nuvens, sobre as ondas e as árvores
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
Abertura
Abrem-se os espaços calmos
abrem-se clareiras para estar indefinidamente num repouso fresco.
Que inexplicável confiança
removeu os últimos obstáculos!
As orientações são outras e são todas para o Único.
Abertura como uma avalancha de tranquilidade.
A altitude enche o peito de uma leveza vasta.
Um sabor de lucidez aérea tomou conta de mim.
Já nada me falta vibro à beira do incompreendido.
O que procurei explode em evidências que me inundam.
Nada mais sou do que uma vibração unânime.
O ignorado habita o elementar sem impaciência.
Algo se completa a cada momento algo principia.
Ideias como brisas inteligência de horizonte.
Um soterrado corpo despertou e dilata-se luminoso.
Sem palavras respiro o gérmen que dá magnanimamente.
Sublime e simples é o lugar onde a luz domina.
Que presenças nas imagens que estremecem na brancura!
Modelado pelo imponderável o alento purifica-se
e une-se à inalterável continuidade do ser.
Longínquas reminiscências cristalizam no ar
e são gestos do ar e de um prodígio suave.
Como que do fundo da pedra me liberto e sou o espaço
que diz na vasta luz o sim do universo.
abrem-se clareiras para estar indefinidamente num repouso fresco.
Que inexplicável confiança
removeu os últimos obstáculos!
As orientações são outras e são todas para o Único.
Abertura como uma avalancha de tranquilidade.
A altitude enche o peito de uma leveza vasta.
Um sabor de lucidez aérea tomou conta de mim.
Já nada me falta vibro à beira do incompreendido.
O que procurei explode em evidências que me inundam.
Nada mais sou do que uma vibração unânime.
O ignorado habita o elementar sem impaciência.
Algo se completa a cada momento algo principia.
Ideias como brisas inteligência de horizonte.
Um soterrado corpo despertou e dilata-se luminoso.
Sem palavras respiro o gérmen que dá magnanimamente.
Sublime e simples é o lugar onde a luz domina.
Que presenças nas imagens que estremecem na brancura!
Modelado pelo imponderável o alento purifica-se
e une-se à inalterável continuidade do ser.
Longínquas reminiscências cristalizam no ar
e são gestos do ar e de um prodígio suave.
Como que do fundo da pedra me liberto e sou o espaço
que diz na vasta luz o sim do universo.
Árvores
O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.
As Imagens
Sucedem-se sem coincidirem entre silêncios
e simultâneas vencem o inexplicável vazio.
Cada uma inteira com um gesto inicial.
Novas e limpas embriagam e despertam.
Não são ilhas. Trazem o vento completo.
Serei algum dia parte desta plenitude?
Sou já o amor da terra nestas vértebras.
As sílabas afluem como se um deus dormisse.
Tudo pertence às árvores, a uma frescura louca.
A exacta realidade é a mais viva fábula.
As imagens estremecem magníficas, errantes.
Uma linha trémula separa o rosa do cinzento.
Alguns vocábulos tenazes: vértebras, estrelas.
Uma segurança no incerto, um brilho no obscuro.
A mão vegetal toca a rosa libertada.
Quantas nascentes, quantas portas livres!
e simultâneas vencem o inexplicável vazio.
Cada uma inteira com um gesto inicial.
Novas e limpas embriagam e despertam.
Não são ilhas. Trazem o vento completo.
Serei algum dia parte desta plenitude?
Sou já o amor da terra nestas vértebras.
As sílabas afluem como se um deus dormisse.
Tudo pertence às árvores, a uma frescura louca.
A exacta realidade é a mais viva fábula.
As imagens estremecem magníficas, errantes.
Uma linha trémula separa o rosa do cinzento.
Alguns vocábulos tenazes: vértebras, estrelas.
Uma segurança no incerto, um brilho no obscuro.
A mão vegetal toca a rosa libertada.
Quantas nascentes, quantas portas livres!
As Palavras
Compreendo lentamente a voracidade branca
das palavras. Que ardam e ondulem como carícias nuas,
que o pulso as articule às árvores, que se arredondem
até à inteligência de uma visão sem febre,
que tragam a distância para a mesa e adormeçam
em sossegadas virilhas. Que procurem
as plácidas clareiras onde a ignorância de ser
é a aliança. Palavras que não interrompem
e seguem a fluência de que nascem.
Matéria fiel ao fundo com estrelas rápidas,
cintilações de seixos minúsculos, clarões suaves
e a folhagem entre as pedras, a música no ombro.
Entreabertas entre os espelhos e os reflexos de astros,
as palavras buscam a consistência da terra
e toda a revolta feliz do vento que recomeça.
das palavras. Que ardam e ondulem como carícias nuas,
que o pulso as articule às árvores, que se arredondem
até à inteligência de uma visão sem febre,
que tragam a distância para a mesa e adormeçam
em sossegadas virilhas. Que procurem
as plácidas clareiras onde a ignorância de ser
é a aliança. Palavras que não interrompem
e seguem a fluência de que nascem.
Matéria fiel ao fundo com estrelas rápidas,
cintilações de seixos minúsculos, clarões suaves
e a folhagem entre as pedras, a música no ombro.
Entreabertas entre os espelhos e os reflexos de astros,
as palavras buscam a consistência da terra
e toda a revolta feliz do vento que recomeça.
Com a Tua Boca Ou o Teu Nome
É possível com a tua boca escrever uma palavra frágil
e o vigor simples do fundo e o vulnerável rosto.
Sobre a areia te ergues sobre o silêncio e a cinza
e na tua nudez jogas a água limpa que é um arco sobre o tempo.
É possível com a tua boca escrever uma palavra frágil
e que sem vidros se estenda com a sua trémula elegância.
É possível com a delgada língua acender a matéria dos arbustos
e nos rectângulos brancos incendiar um corpo na glória de um instante.
É possível com o teu nome escrever a tua boca
que se apaga no muro e no silêncio do papel.
É possível com as palavras de água do teu corpo
despertar as pedras dos teus músculos silenciosos.
É possível com a tua boca compreender as palavras
mais lisas que adormecem na frescura vegetal.
É possível com o teu nome ser uma folha de sombra
ou uma pedra na água na simplicidade cintilante.
e o vigor simples do fundo e o vulnerável rosto.
Sobre a areia te ergues sobre o silêncio e a cinza
e na tua nudez jogas a água limpa que é um arco sobre o tempo.
É possível com a tua boca escrever uma palavra frágil
e que sem vidros se estenda com a sua trémula elegância.
É possível com a delgada língua acender a matéria dos arbustos
e nos rectângulos brancos incendiar um corpo na glória de um instante.
É possível com o teu nome escrever a tua boca
que se apaga no muro e no silêncio do papel.
É possível com as palavras de água do teu corpo
despertar as pedras dos teus músculos silenciosos.
É possível com a tua boca compreender as palavras
mais lisas que adormecem na frescura vegetal.
É possível com o teu nome ser uma folha de sombra
ou uma pedra na água na simplicidade cintilante.
Corpo Escrito
Como pintar um corpo ainda submerso pela lama?
Como libertá-lo, libertando a alegria e o alento dos flancos?
Como trazê-lo à superfície sem sufocar o enigma e o sol sonhado?
Entre o sono e a lava uma frase terrestre diz a noite e a folhagem.
As pernas densas estão presas na ganga sombria e nas folhas negras.
Quem tocará, ó mãos do desejo, as suas pálpebras fechadas?
Mas já na garganta nua germina um grito que ilumina o cimo.
Levanta-se para beber e se banhar sob a abóbada
do livro. A água é a mais fresca e a mais obscura.
É ainda a criança na folhagem e um torvelinho
vermelho e violeta e a nuvem que precede a chama.
Entrega-se já à luz e ao tempo que é um barco
carregado de terra. A ausência arde nos seus ombros.
Inclina-se sobre um cristal ou sobre uma sombra tão preciosa
que poderia ser uma prova como um anel de fogo.
Um arco se organiza sobre um tumulto voluptuoso
e na alta gruta desfilam os sortilégios.
A língua adere à ignorância incandescente.
Que próxima está a árvore que obscurece o sentido!
Como libertá-lo, libertando a alegria e o alento dos flancos?
Como trazê-lo à superfície sem sufocar o enigma e o sol sonhado?
Entre o sono e a lava uma frase terrestre diz a noite e a folhagem.
As pernas densas estão presas na ganga sombria e nas folhas negras.
Quem tocará, ó mãos do desejo, as suas pálpebras fechadas?
Mas já na garganta nua germina um grito que ilumina o cimo.
Levanta-se para beber e se banhar sob a abóbada
do livro. A água é a mais fresca e a mais obscura.
É ainda a criança na folhagem e um torvelinho
vermelho e violeta e a nuvem que precede a chama.
Entrega-se já à luz e ao tempo que é um barco
carregado de terra. A ausência arde nos seus ombros.
Inclina-se sobre um cristal ou sobre uma sombra tão preciosa
que poderia ser uma prova como um anel de fogo.
Um arco se organiza sobre um tumulto voluptuoso
e na alta gruta desfilam os sortilégios.
A língua adere à ignorância incandescente.
Que próxima está a árvore que obscurece o sentido!
Dar Forma Ao Vazio
Alguém está no ângulo da sombra. Alguém
que tenazmente espera ou simplesmente está.
Suponho-o ou suscito-o na sua ausência
num espaço indemonstrável. Sei que ele é completo
e se completa na forma do vazio que quero dar-lhe.
Eis que forço a muralha e fracturo o futuro.
Ele sairá da sombra para ser designado antes da noite.
E eu escreverei ao nível dos tecidos e das fibras.
Lenta claridade sobre a frescura das folhas.
Estou no fundo do ar e escuto imóvel
as estátuas de água que em nuvens se evaporam.
Sinto que o braço ondula e é ele a ondulação.
E sou eu que sou cinza que escrevo o sopro dele.
E ele diz que é só o ar, a fábula do ar.
que tenazmente espera ou simplesmente está.
Suponho-o ou suscito-o na sua ausência
num espaço indemonstrável. Sei que ele é completo
e se completa na forma do vazio que quero dar-lhe.
Eis que forço a muralha e fracturo o futuro.
Ele sairá da sombra para ser designado antes da noite.
E eu escreverei ao nível dos tecidos e das fibras.
Lenta claridade sobre a frescura das folhas.
Estou no fundo do ar e escuto imóvel
as estátuas de água que em nuvens se evaporam.
Sinto que o braço ondula e é ele a ondulação.
E sou eu que sou cinza que escrevo o sopro dele.
E ele diz que é só o ar, a fábula do ar.
Dentro da Árvore
Por entre os ramos e as sombras sem tristeza
em claro e sonâmbulo vagar
mais baixo do que o dia com suas lâmpadas de espuma
em abóbadas de sombra entre o verde e a cinza.
Era a terra do sono e da solidão e da partilha
e a respiração da ausência. O destino
era próximo da mesa da folhagem, a sede
calma. E o sentido era um sonho
que se encarnava num flanco aberto.
Porque nascíamos em núpcias transparentes
com o ar adormecido num meio-dia completo.
Porque no fundo escuro amávamos a altura verde
e recebíamos a frescura de uns dedos ignorados.
em claro e sonâmbulo vagar
mais baixo do que o dia com suas lâmpadas de espuma
em abóbadas de sombra entre o verde e a cinza.
Era a terra do sono e da solidão e da partilha
e a respiração da ausência. O destino
era próximo da mesa da folhagem, a sede
calma. E o sentido era um sonho
que se encarnava num flanco aberto.
Porque nascíamos em núpcias transparentes
com o ar adormecido num meio-dia completo.
Porque no fundo escuro amávamos a altura verde
e recebíamos a frescura de uns dedos ignorados.
Eclipse E Germinações
Sempre no início o eclipse e os seus insectos.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
Ele
Quem era ele? Onde se encontrava ele?
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
Escrever
Escrever semear um pouco de cegueira
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
Espaço Soberano
Ela é uma evidência na distância
entre as árvores profunda como a morte.
Soberana iminência se decanta, desmesura
que vagarosa se expande até ao esquecimento.
E são palavras de retorno à sombra húmida
e ao que se abre na luz silenciosamente.
O enigma tem um rosto de sono fulgurante.
Os pássaros embriagam-se com as litanias nos arbustos.
A conivência é completa na amplitude aveludada.
entre as árvores profunda como a morte.
Soberana iminência se decanta, desmesura
que vagarosa se expande até ao esquecimento.
E são palavras de retorno à sombra húmida
e ao que se abre na luz silenciosamente.
O enigma tem um rosto de sono fulgurante.
Os pássaros embriagam-se com as litanias nos arbustos.
A conivência é completa na amplitude aveludada.
Incesto
Querer ainda um âmbito para um peito ou um ombro
e o gozo na beleza e o descanso nas árvores.
Ser a terra com as vertentes e os túmulos
e no fundo obscuro produzir a alta delícia.
E a fome e a sede na sua forma feminina
em que se misturam substâncias brancas e negras.
E o corpo a corpo com a noite para o âmbito completo
no esquecimento e no ócio num vegetal incesto.
Quem reina sobre o meu ventre e sobre as tuas ancas?
O meu corpo é uma caverna aberta até aos astros.
Quem me aboliu maternamente até ser o sorriso
de ninguém que reconhece em si a irmã amante?
e o gozo na beleza e o descanso nas árvores.
Ser a terra com as vertentes e os túmulos
e no fundo obscuro produzir a alta delícia.
E a fome e a sede na sua forma feminina
em que se misturam substâncias brancas e negras.
E o corpo a corpo com a noite para o âmbito completo
no esquecimento e no ócio num vegetal incesto.
Quem reina sobre o meu ventre e sobre as tuas ancas?
O meu corpo é uma caverna aberta até aos astros.
Quem me aboliu maternamente até ser o sorriso
de ninguém que reconhece em si a irmã amante?
Incluído
Algo volúvel lúdico involuntário
algo que se afasta e no entanto me rodeia
recebido pelo solo e por uns lábios dispersos
nascente sem começo porque nascida no meio do ar
constância subtil do que já não me foge
não a paciência mas a facilidade
incluído no grande bloco móvel e difuso
errante ignorante ao sabor do sem caminho
emudecido em diáfana lucidez
com o rosto lavado pelos perfumes da terra
nulo o sentido de tudo nulo e pleno
ouço o que me precede e me ilumina
a ausência é uma figura da presença inesgotável
tudo é fugaz e permanente tudo é evidente e imemorial
pertenço à fugidia origem
e desprendo-me e dissemino-me com o ar.
algo que se afasta e no entanto me rodeia
recebido pelo solo e por uns lábios dispersos
nascente sem começo porque nascida no meio do ar
constância subtil do que já não me foge
não a paciência mas a facilidade
incluído no grande bloco móvel e difuso
errante ignorante ao sabor do sem caminho
emudecido em diáfana lucidez
com o rosto lavado pelos perfumes da terra
nulo o sentido de tudo nulo e pleno
ouço o que me precede e me ilumina
a ausência é uma figura da presença inesgotável
tudo é fugaz e permanente tudo é evidente e imemorial
pertenço à fugidia origem
e desprendo-me e dissemino-me com o ar.
Matéria do Tempo
O tempo amadureceu as mãos e as lâmpadas.
A noite chegou com os seus prestígios, os seus meandros,
os seus astros. O espírito simplificou-se na folhagem.
E a terra acolhe a palavra inacabada.
A cinza dispersou-se e um vento forte sopra
sobre os flancos desertos. É a verdade do vento
que liberta o sentido e limpa a ferida.
O eclipse é o círculo em que o gérmen se ilumina.
A pedra aberta é a morada delapidada, intacta.
Esta ausência que é um rosto, esta matéria de vento
talvez reconcilie na serena imobilidade
a pobreza que ilumina com a noite invulnerável.
A noite chegou com os seus prestígios, os seus meandros,
os seus astros. O espírito simplificou-se na folhagem.
E a terra acolhe a palavra inacabada.
A cinza dispersou-se e um vento forte sopra
sobre os flancos desertos. É a verdade do vento
que liberta o sentido e limpa a ferida.
O eclipse é o círculo em que o gérmen se ilumina.
A pedra aberta é a morada delapidada, intacta.
Esta ausência que é um rosto, esta matéria de vento
talvez reconcilie na serena imobilidade
a pobreza que ilumina com a noite invulnerável.
Momento
Tudo está imóvel na luz: nada indica
uma passagem possível e imediata, o ar
não promove o caminho, o brilho do papel
não sugere a palavra ou o estilo cintilante,
a fidelidade do fogo, os matizes do canto.
Nada que irrompa de um seio e se estenda num aroma.
Mas que urgência volúvel nasce na espessura da sombra!
Para que as linhas de força se transformem em palavras,
para que o estranho se ligue ao simples e o abolido ao pleno.
A maneira como a árvore se inclina, o sol que a atravessa
no seu móvel fulgor, são os estímulos de uma mudança
ou um princípio ardente e claro entre o papel e o corpo.
A claridade vibra no rigor do solo e nas sílabas definidas
e uns lábios latem ainda entre sombrios cães.
A felicidade liberta-se por fim nas grandes superfícies.
uma passagem possível e imediata, o ar
não promove o caminho, o brilho do papel
não sugere a palavra ou o estilo cintilante,
a fidelidade do fogo, os matizes do canto.
Nada que irrompa de um seio e se estenda num aroma.
Mas que urgência volúvel nasce na espessura da sombra!
Para que as linhas de força se transformem em palavras,
para que o estranho se ligue ao simples e o abolido ao pleno.
A maneira como a árvore se inclina, o sol que a atravessa
no seu móvel fulgor, são os estímulos de uma mudança
ou um princípio ardente e claro entre o papel e o corpo.
A claridade vibra no rigor do solo e nas sílabas definidas
e uns lábios latem ainda entre sombrios cães.
A felicidade liberta-se por fim nas grandes superfícies.
Moradia
Talvez serenamente a moradia contínua
de uma limpidez e de uma leveza extremas.
Vejo as dunas da casa as vivas águas
a madeira que é uma nascente lisa
as largas folhas os papéis da sombra.
Sinto um odor novo a ramos e a pólen no silêncio.
A casa sabe a terra, a um inexplorado campo.
Ninguém me estendeu a mão mas o silêncio é cordial.
O corpo que vejo é de uma essencial delicadeza.
A ordem clara da mesa corresponde à transparência do jardim.
O meu pensamento vagueia nulo num vazio habitável.
Compreendo as árvores na sua obscura e leve densidade.
Mais do que nunca estou imerso no ser na sua luz intacta.
Perdi os atributos estou reduzido à essência.
Além é ainda aqui o horizonte brilha no interior da casa.
Amo na tranquilidade do átrio em consonância com as árvores e o mar.
de uma limpidez e de uma leveza extremas.
Vejo as dunas da casa as vivas águas
a madeira que é uma nascente lisa
as largas folhas os papéis da sombra.
Sinto um odor novo a ramos e a pólen no silêncio.
A casa sabe a terra, a um inexplorado campo.
Ninguém me estendeu a mão mas o silêncio é cordial.
O corpo que vejo é de uma essencial delicadeza.
A ordem clara da mesa corresponde à transparência do jardim.
O meu pensamento vagueia nulo num vazio habitável.
Compreendo as árvores na sua obscura e leve densidade.
Mais do que nunca estou imerso no ser na sua luz intacta.
Perdi os atributos estou reduzido à essência.
Além é ainda aqui o horizonte brilha no interior da casa.
Amo na tranquilidade do átrio em consonância com as árvores e o mar.
Mulher Barroca
Uma mulher dorme na areia. É uma hélice
de cristal e veludo.
Mas também de barro e cinza e também pedra.
O seu sexo é um tambor donde surgem insectos,
nenúfares, serpentes.
Nos seus olhos há pássaros que nunca conheceram a plenitude da distância.
Quando se levanta em seu redor ondulam os caminhos.
Amor, sentirá amor esta mulher de álcool e madeira?
A sua voz é redonda como uma concha e os seus dedos cantam
as anémonas e os caracóis obscuros que adormecem entre os ossos.
De lâmpada a lâmpada, circula com a sua cabeça transparente
ignorando a nostalgia dos pulsos e a anarquia do vento.
Vagarosa como no centro de um escuro diamante
ela coloca os pés nus sobre um fogo apagado.
de cristal e veludo.
Mas também de barro e cinza e também pedra.
O seu sexo é um tambor donde surgem insectos,
nenúfares, serpentes.
Nos seus olhos há pássaros que nunca conheceram a plenitude da distância.
Quando se levanta em seu redor ondulam os caminhos.
Amor, sentirá amor esta mulher de álcool e madeira?
A sua voz é redonda como uma concha e os seus dedos cantam
as anémonas e os caracóis obscuros que adormecem entre os ossos.
De lâmpada a lâmpada, circula com a sua cabeça transparente
ignorando a nostalgia dos pulsos e a anarquia do vento.
Vagarosa como no centro de um escuro diamante
ela coloca os pés nus sobre um fogo apagado.
Mutação
Inacabado e sem saber
qual o sinal
submerso na montanha silenciosa e vazia
nada me ilumina.
Quebradas as antenas, onde o horizonte?
Onde estão as raízes, onde está a folhagem?
É demasiado escuro para a adesão solidária.
A pulsação tornou-se ténue, incoerente.
Pedras e sombras caem sobre os ombros.
Como me posso mover?
Acordes, acordes ainda vibrantes, vivacidade pura.
Talvez a visão sem imagens na claridade imóvel.
Talvez a incoerência leve das perspectivas nuas.
Como se uma porta se abrisse para o mar.
Ó esquecido assombro, ó sede imensa
de estar vivo no ser e no desejo coincidentes!
Ser a fonte e a semente e a pedra e ser o vento
e ser um pequeno círculo pintado a cal sobre o vazio.
Já se abrem as corolas amarelecidas sobre a mesa,
já as primeiras palavras são de um verde sombrio
e as evidências, através de tudo, fluem rápidas, transparentes.
qual o sinal
submerso na montanha silenciosa e vazia
nada me ilumina.
Quebradas as antenas, onde o horizonte?
Onde estão as raízes, onde está a folhagem?
É demasiado escuro para a adesão solidária.
A pulsação tornou-se ténue, incoerente.
Pedras e sombras caem sobre os ombros.
Como me posso mover?
Acordes, acordes ainda vibrantes, vivacidade pura.
Talvez a visão sem imagens na claridade imóvel.
Talvez a incoerência leve das perspectivas nuas.
Como se uma porta se abrisse para o mar.
Ó esquecido assombro, ó sede imensa
de estar vivo no ser e no desejo coincidentes!
Ser a fonte e a semente e a pedra e ser o vento
e ser um pequeno círculo pintado a cal sobre o vazio.
Já se abrem as corolas amarelecidas sobre a mesa,
já as primeiras palavras são de um verde sombrio
e as evidências, através de tudo, fluem rápidas, transparentes.
Na Colina
Apenas margem e talvez lua, um torso que resvala
pela colina que amanhece numa neblina azul.
A figura recorta-se colorida no silêncio como uma melodia.
É ténue como uma moeda e como um halo entre os arbustos.
Musical na polpa terna das palavras, madeira, vinho.
Quase se desagrega sobre o rio tremulando como poeira.
Sob nomes disseminados recolhe a corola do vazio.
Interroga a chama onde ela é verde, onde ela se perde.
A sua boca desaparece na luz silenciosa.
O desejo apazigua-se entre as abelhas da folhagem.
pela colina que amanhece numa neblina azul.
A figura recorta-se colorida no silêncio como uma melodia.
É ténue como uma moeda e como um halo entre os arbustos.
Musical na polpa terna das palavras, madeira, vinho.
Quase se desagrega sobre o rio tremulando como poeira.
Sob nomes disseminados recolhe a corola do vazio.
Interroga a chama onde ela é verde, onde ela se perde.
A sua boca desaparece na luz silenciosa.
O desejo apazigua-se entre as abelhas da folhagem.
Na Erosão de Um Corpo
Como se não houvesse circunstâncias nem mensagem
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
Na Fragilidade Verde
Na fragilidade verde de um intraduzível enclave
a obliquidade do sangue silencioso,
a dispersão das árvores claras e ardentes.
Minúsculas vozes atravessam o silêncio.
Uns joelhos da folhagem sob as lâmpadas
tremem num movimento de pacífica violência.
A pele está liberta na fresca identidade.
O tecto é uma rosácea de voláteis linhas.
A violência do fogo é ligeira e florida.
Um único segredo diz na brisa o seu sangue claro.
a obliquidade do sangue silencioso,
a dispersão das árvores claras e ardentes.
Minúsculas vozes atravessam o silêncio.
Uns joelhos da folhagem sob as lâmpadas
tremem num movimento de pacífica violência.
A pele está liberta na fresca identidade.
O tecto é uma rosácea de voláteis linhas.
A violência do fogo é ligeira e florida.
Um único segredo diz na brisa o seu sangue claro.
Na Terra
Sorvo na garganta das folhas
o bafo verde e o rumor das vespas.
Uma neblina ascende, é a hora das raízes
e das pétalas de areia fulgurantes.
Olho por dentro dos ramos, as pequenas
espirais, as extensas plumas.
A luz da boca estende-se
no sílex, nas cicatrizes da mica.
Rodeio-me do fulgor das pedras
e dos torsos que, opacos, ainda abrigam.
Sou escolhido pela amplitude
no vagaroso tropel das árvores
e das nuvens. Todo o azul é meu.
Estou plantado e liberto, com um braço
intenso sobre a terra.
o bafo verde e o rumor das vespas.
Uma neblina ascende, é a hora das raízes
e das pétalas de areia fulgurantes.
Olho por dentro dos ramos, as pequenas
espirais, as extensas plumas.
A luz da boca estende-se
no sílex, nas cicatrizes da mica.
Rodeio-me do fulgor das pedras
e dos torsos que, opacos, ainda abrigam.
Sou escolhido pela amplitude
no vagaroso tropel das árvores
e das nuvens. Todo o azul é meu.
Estou plantado e liberto, com um braço
intenso sobre a terra.
Na Transparência de Um Outono
Que na transparência de um outono
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
Nascimento último
Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.
No Centro Tranquilo
Casa: com o rumor das dunas e das aves
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.
Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.
Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.
Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.
Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
Num Poço de Folhas
Espero escrever neste poço de folhas com as mãos entre as árvores,
tudo vem devagar em labirintos negros
ou em sequências de uma confusa caligrafia branca.
Amo este esconderijo suave e as paisagens fatigadas.
Eis que o texto principia com lábios, dentes, língua
e o rumor das vespas no seu sono esguio.
O que oscila na obscuridade é o meu árido alimento.
As minhas frases têm o aroma da água
e o calor de uma chama silenciosa.
Dentro da face incerta apreendo as pétalas solares
e entre sombras claras sou o chão amarelo, sou o vinho e a pedra,
sou a língua da árvore.
tudo vem devagar em labirintos negros
ou em sequências de uma confusa caligrafia branca.
Amo este esconderijo suave e as paisagens fatigadas.
Eis que o texto principia com lábios, dentes, língua
e o rumor das vespas no seu sono esguio.
O que oscila na obscuridade é o meu árido alimento.
As minhas frases têm o aroma da água
e o calor de uma chama silenciosa.
Dentro da face incerta apreendo as pétalas solares
e entre sombras claras sou o chão amarelo, sou o vinho e a pedra,
sou a língua da árvore.
O Círculo da Casa
Sem te nomear e quase sem te ver, tu és o círculo
que me envolve quotidiano na sua luz pacífica.
Não te dissimulas, estás aqui, obliquamente
ao meu olhar, enquanto escrevo e em ti reparo.
A sabedoria simples seria estar em ti e onde estou
com todos os objectos calmos e as cores vivas
e a luz que em seus rectângulos é já presença
de quanto não sabemos e ainda esperamos.
O solo é um enigma simples, suave amêndoa
e é talvez o centro de um ser que se distrai.
Tácito é o amor que, sem o saber, é espaço
e adere à paz de um latente paraíso.
Aqui mesmo, sem pressa, é o gérmen e o aberto.
E o ócio e o sabor do mundo numa corrente sossegada.
que me envolve quotidiano na sua luz pacífica.
Não te dissimulas, estás aqui, obliquamente
ao meu olhar, enquanto escrevo e em ti reparo.
A sabedoria simples seria estar em ti e onde estou
com todos os objectos calmos e as cores vivas
e a luz que em seus rectângulos é já presença
de quanto não sabemos e ainda esperamos.
O solo é um enigma simples, suave amêndoa
e é talvez o centro de um ser que se distrai.
Tácito é o amor que, sem o saber, é espaço
e adere à paz de um latente paraíso.
Aqui mesmo, sem pressa, é o gérmen e o aberto.
E o ócio e o sabor do mundo numa corrente sossegada.
O Corpo Inacessível
Cabeça adormecida iluminada nas varandas,
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
O Fogo Na Pele
Saborear a saliva do ar e o suor
de uma paisagem escura que se inclina
para um barco de raízes. Aderir
à afirmação da pedra impenetrável.
Entrar, estar no simples alcance do presente.
O fogo está na pele e é a urgência do ócio.
As pupilas de resina vêem os círculos de terra.
Nas axilas do vento há palavras redondas.
Os arbustos giram com as suas pedras verdes.
de uma paisagem escura que se inclina
para um barco de raízes. Aderir
à afirmação da pedra impenetrável.
Entrar, estar no simples alcance do presente.
O fogo está na pele e é a urgência do ócio.
As pupilas de resina vêem os círculos de terra.
Nas axilas do vento há palavras redondas.
Os arbustos giram com as suas pedras verdes.
O Instante
Quem posso eu chamar, que palavras lúcidas
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
O Losango da Pureza
Imagino na pedra o losango da pureza
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
O Movimento do Dia
Assim prolongo a paisagem e as suas pistas cálidas.
Defendo o meu peito árido com a gramática do sono.
Penetro no seio do esplendor e nas fendas de argila.
Que temeridade, que confiança no movimento do dia!
O horizonte corre à velocidade de um rio.
Os sinais são azuis ou rosa, amarelos ou fulvos.
Na fluidez vagarosa vejo as áreas deslumbradas
de um reino táctil anterior à palavra.
Colho um resto de frescura entre a poeira e a água
e alguns calhaus esparsos que irradiam na areia.
Nada desvendei: tudo é liso e tudo é vago.
Trago nas mãos o odor a pedra e a orvalho.
Defendo o meu peito árido com a gramática do sono.
Penetro no seio do esplendor e nas fendas de argila.
Que temeridade, que confiança no movimento do dia!
O horizonte corre à velocidade de um rio.
Os sinais são azuis ou rosa, amarelos ou fulvos.
Na fluidez vagarosa vejo as áreas deslumbradas
de um reino táctil anterior à palavra.
Colho um resto de frescura entre a poeira e a água
e alguns calhaus esparsos que irradiam na areia.
Nada desvendei: tudo é liso e tudo é vago.
Trago nas mãos o odor a pedra e a orvalho.
O Poema
As árvores têm o nome de árvores
e a pedra é pedra. Mas a mulher é árvore
e no pátio um sopro: uma lagartixa sem nome.
A mão desliza nos caminhos minúsculos.
A caneta escreve com a saliva das lâmpadas.
Alegria do sono numa virilha obscura.
Alguém escreve na erva e a erva é a sua camisa.
Tudo se traduz: músculos, nervos, papéis.
Come-se a epiderme frágil de um fantasma.
Quem ouve agora a voz cheia de areia?
As palavras agitam-se entre silhuetas esguias.
Dedos acariciam pedras e folhas, ventres.
Fibras e tendões produzem suor e tinta.
O alento das árvores invade os pequenos vocábulos.
Sem língua e sem dedos o poema caminha
num verde corredor para um arbusto de água.
e a pedra é pedra. Mas a mulher é árvore
e no pátio um sopro: uma lagartixa sem nome.
A mão desliza nos caminhos minúsculos.
A caneta escreve com a saliva das lâmpadas.
Alegria do sono numa virilha obscura.
Alguém escreve na erva e a erva é a sua camisa.
Tudo se traduz: músculos, nervos, papéis.
Come-se a epiderme frágil de um fantasma.
Quem ouve agora a voz cheia de areia?
As palavras agitam-se entre silhuetas esguias.
Dedos acariciam pedras e folhas, ventres.
Fibras e tendões produzem suor e tinta.
O alento das árvores invade os pequenos vocábulos.
Sem língua e sem dedos o poema caminha
num verde corredor para um arbusto de água.
O Que Não Está Dito
De palavras que resvalam como pedras num declive
ou de palavras que se desprendem de uma maranha verde
ou de palavras que são como um corpo adormecido,
de todas as palavras me socorro e de todas me liberto
mesmo se são monstros de água ou plumas ou relâmpagos.
Esta rede tem um rosto e é um discurso do vento.
O sol entrou no subterrâneo que ficou cheio de asas verdes.
O que não está dito resplandece numa alcova diminuta.
O dia desprende-se do teu corpo e os sinais negros dissipam-se.
Esta é a voz que ilumina a garganta e as lâmpadas de argila.
Há um aroma a estrelas nas palavras e sombra e sombra.
Sobre o ombro azul da torrente eleva-se um deus branco.
Entre as luas e os barcos estão os frutos lúcidos.
Ouve-se respirar o silêncio das cisternas.
ou de palavras que se desprendem de uma maranha verde
ou de palavras que são como um corpo adormecido,
de todas as palavras me socorro e de todas me liberto
mesmo se são monstros de água ou plumas ou relâmpagos.
Esta rede tem um rosto e é um discurso do vento.
O sol entrou no subterrâneo que ficou cheio de asas verdes.
O que não está dito resplandece numa alcova diminuta.
O dia desprende-se do teu corpo e os sinais negros dissipam-se.
Esta é a voz que ilumina a garganta e as lâmpadas de argila.
Há um aroma a estrelas nas palavras e sombra e sombra.
Sobre o ombro azul da torrente eleva-se um deus branco.
Entre as luas e os barcos estão os frutos lúcidos.
Ouve-se respirar o silêncio das cisternas.
O Que Separa E o Que Une
O que separa prevalece em suas lâmpadas opacas.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
O Simples
Acabaram-se talvez os excessos e os impulsos.
Dissipámo-nos na luz como uma sombra.
Mas as palavras continuam feridas e comovem-se
em presenças verticais no vento, em obscuras chamas.
Que alianças, que pedidos sem fim, que consentimentos
perduram ainda nas palavras feridas!
É já a música nos flancos e nos ombros
e a argila leve do desejo e um frémito de folhas
e o vento e a ausência que quase diz um nome.
Nós aceitámos o ardor e o luto, o deserto das mesas.
Porque quisemos recomeçar na génese das pedras
ao nível do repouso simples das folhas e da cinza.
Dissipámo-nos na luz como uma sombra.
Mas as palavras continuam feridas e comovem-se
em presenças verticais no vento, em obscuras chamas.
Que alianças, que pedidos sem fim, que consentimentos
perduram ainda nas palavras feridas!
É já a música nos flancos e nos ombros
e a argila leve do desejo e um frémito de folhas
e o vento e a ausência que quase diz um nome.
Nós aceitámos o ardor e o luto, o deserto das mesas.
Porque quisemos recomeçar na génese das pedras
ao nível do repouso simples das folhas e da cinza.
O Vento
O ar que se levanta com olhos móveis
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
Onde Ainda Não Nasci
Será montanha e amoroso destino.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
Onde o Vagar Se Inclina
A minha casa é onde o ócio se insinua
em limpa lentidão e em si repousa
até rodear a solidão e ser a concha
em que o vagar se inclina e é uma aura.
E tudo é intimidade silenciosa
em que há um ritmo de equivalências puras.
A atenção flui numa vigília imponderável.
O espaço se alarga em íntimas planícies
por onde ver acende abismos leves
que nos dão a luz mais recôndita do espírito.
E uma nuvem branca passa e o mundo se abre
em torno do anel onde estarmos é ser.
em limpa lentidão e em si repousa
até rodear a solidão e ser a concha
em que o vagar se inclina e é uma aura.
E tudo é intimidade silenciosa
em que há um ritmo de equivalências puras.
A atenção flui numa vigília imponderável.
O espaço se alarga em íntimas planícies
por onde ver acende abismos leves
que nos dão a luz mais recôndita do espírito.
E uma nuvem branca passa e o mundo se abre
em torno do anel onde estarmos é ser.
Os Reflexos do Corpo
Entre o sono e o sílex, sob a furtiva abóbada,
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
Os Signos Na Água
Os inacabados signos
silenciosos
que são a realidade e o desejo,
vejo-os no silêncio adormecidos
como um corpo de água que na água se dissipa.
Que dizer senão a confiança na imobilidade?
Tenho sede de uma nascente de água incerta.
Porquê a violência de uma palavra na simplicidade liberta?
O sabor do mistério dissipa-nos, desperta-nos.
Não toques mais nas formas consumadas
ou inventa ao nível da força errante
o sopro que pelos dedos desliza numa confiança simples.
silenciosos
que são a realidade e o desejo,
vejo-os no silêncio adormecidos
como um corpo de água que na água se dissipa.
Que dizer senão a confiança na imobilidade?
Tenho sede de uma nascente de água incerta.
Porquê a violência de uma palavra na simplicidade liberta?
O sabor do mistério dissipa-nos, desperta-nos.
Não toques mais nas formas consumadas
ou inventa ao nível da força errante
o sopro que pelos dedos desliza numa confiança simples.
Palavras
São apenas palavras que procuram
a sombra da língua, o seu pudor
de arbusto, as suas pétalas perdidas.
São palavras que se erguem para o início
onde o anel se abre, onde o jardim
que foi sonhado alvorece junto ao rosto.
São palavras que se dilaceram como vestes
e a noite se entreabre e a matéria
acende-se quando o tempo recomeça.
A espuma amadurece a luz, e as palavras
dizem sombra na sombra e o sono do caminho.
a sombra da língua, o seu pudor
de arbusto, as suas pétalas perdidas.
São palavras que se erguem para o início
onde o anel se abre, onde o jardim
que foi sonhado alvorece junto ao rosto.
São palavras que se dilaceram como vestes
e a noite se entreabre e a matéria
acende-se quando o tempo recomeça.
A espuma amadurece a luz, e as palavras
dizem sombra na sombra e o sono do caminho.
Para Além Das Palavras Com As Palavras
Palavras com o seu peso, apaixonadas
pelo seu peso.
Palavras que demoram nas fronteiras do solo,
palavras trabalhadas pelo vento,
palavras com sede como a água.
Até onde as palavras já não possam progredir.
No cimo do cimo, numa árvore de estrelas.
Um deus murmura, se é um deus o ar, o deus do aberto e do intacto.
Tão perto de ser nada, renasço no vazio, renasço anónimo.
Nada me protege nesta abóbada aberta e tudo me soergue.
Tudo é vago, tudo é irmão do vento, tudo é informulável.
Se escrevesses as palavras poderiam ser lâmpadas de pólen.
Mais longe, mais alto desata-se a serpente dos sinais.
Todo o prodígio é de ar, todo o sentido é ar.
pelo seu peso.
Palavras que demoram nas fronteiras do solo,
palavras trabalhadas pelo vento,
palavras com sede como a água.
Até onde as palavras já não possam progredir.
No cimo do cimo, numa árvore de estrelas.
Um deus murmura, se é um deus o ar, o deus do aberto e do intacto.
Tão perto de ser nada, renasço no vazio, renasço anónimo.
Nada me protege nesta abóbada aberta e tudo me soergue.
Tudo é vago, tudo é irmão do vento, tudo é informulável.
Se escrevesses as palavras poderiam ser lâmpadas de pólen.
Mais longe, mais alto desata-se a serpente dos sinais.
Todo o prodígio é de ar, todo o sentido é ar.
Plenitude
Ainda era quente e volante e luminosa
e o seu fulgor vibrava em orifícios verdes.
O seu pudor era feliz como um músculo no mar.
Tocava o cimo do mundo, as árvores mais claras.
O seu segredo era a frescura imensa do seu sexo.
O seu furor era o reconhecimento da experiência.
e o seu fulgor vibrava em orifícios verdes.
O seu pudor era feliz como um músculo no mar.
Tocava o cimo do mundo, as árvores mais claras.
O seu segredo era a frescura imensa do seu sexo.
O seu furor era o reconhecimento da experiência.
Presente
Neste círculo de pedras simplifica-se a ausência.
Eclipse na cabeça onde germina o branco.
Abolição no presente, soberania do gérmen
que dorme acordado entre o todo e o nada.
Quem não tem nome é um filho do vento
mais perto do enigma do ar e da distância.
O nada em pleno rosto volve-se o instante azul.
O fundo inacessível torna-se a superfície.
O inominado ilumina-se nos seus sombrios flancos.
O inerte mutismo vibra no silêncio que é o vento.
Eclipse na cabeça onde germina o branco.
Abolição no presente, soberania do gérmen
que dorme acordado entre o todo e o nada.
Quem não tem nome é um filho do vento
mais perto do enigma do ar e da distância.
O nada em pleno rosto volve-se o instante azul.
O fundo inacessível torna-se a superfície.
O inominado ilumina-se nos seus sombrios flancos.
O inerte mutismo vibra no silêncio que é o vento.
Quase
Quase vejo uma face cega e tranquila entre o sono e a morte.
Quase se ilumina uma imagem de água na veracidade do enigma.
Quase a nitidez de um círculo de paz, quase uma sílaba,
quase uma constelação do ar, quase uma confiança
no vazio. Ou nem sequer um marulho ou vibração clara
porque a mão escreve crivada de fulgores vazios
e todas as corolas se apagam no deserto.
É quase a transparência, é quase o limiar.
Extinguiram-se os sonhos e os caminhos, extinguiu-se a água
e o gérmen, que é semelhante à água. Não há fundo,
e já não ouço o tropel dos apelos, o rumor dos ombros.
Com os olhos desertos procuro a respiração do mar.
Quase se ilumina uma imagem de água na veracidade do enigma.
Quase a nitidez de um círculo de paz, quase uma sílaba,
quase uma constelação do ar, quase uma confiança
no vazio. Ou nem sequer um marulho ou vibração clara
porque a mão escreve crivada de fulgores vazios
e todas as corolas se apagam no deserto.
É quase a transparência, é quase o limiar.
Extinguiram-se os sonhos e os caminhos, extinguiu-se a água
e o gérmen, que é semelhante à água. Não há fundo,
e já não ouço o tropel dos apelos, o rumor dos ombros.
Com os olhos desertos procuro a respiração do mar.
Sim
Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
Terra
Terra verde e ensanguentada
e negra sob as folhas,
quero pintar o teu sono, a espádua nua
que estremece entre as árvores e a espuma obscura.
Desço aos teus húmidos patamares,
às clareiras onde a paz da seiva é o ignorado.
Bebo perto da tua sede
a água incerta e fresca da primeira manhã.
Toco as tuas espigas verdes e pesadas
e um seio inchado pelo fluxo da sombra.
Escorrem delgadas línguas entre ciprestes,
cabeleiras amarelas entre braços.
Ouço o fundo clamor das entranhas vermelhas
e os suspiros tíbios de um corpo juvenil.
Um sossegado barco preso a uma muralha
diz o vazio verde e o seu cego rumor.
Terra, quantos latidos, quantos metais furiosos,
quantas vacilações, quantos volumes densos!
Crispada a mão quer afagar as tuas ancas,
o teu púbis violento e fulgurante.
Ó generoso corpo que te curvas a um vento cálido
e voas como pólen à deliciosa superfície,
que estas palavras sejam papel, areia ou lua,
mas que sejam também as coxas negras
e o teu ventre escuro de soberana mãe.
e negra sob as folhas,
quero pintar o teu sono, a espádua nua
que estremece entre as árvores e a espuma obscura.
Desço aos teus húmidos patamares,
às clareiras onde a paz da seiva é o ignorado.
Bebo perto da tua sede
a água incerta e fresca da primeira manhã.
Toco as tuas espigas verdes e pesadas
e um seio inchado pelo fluxo da sombra.
Escorrem delgadas línguas entre ciprestes,
cabeleiras amarelas entre braços.
Ouço o fundo clamor das entranhas vermelhas
e os suspiros tíbios de um corpo juvenil.
Um sossegado barco preso a uma muralha
diz o vazio verde e o seu cego rumor.
Terra, quantos latidos, quantos metais furiosos,
quantas vacilações, quantos volumes densos!
Crispada a mão quer afagar as tuas ancas,
o teu púbis violento e fulgurante.
Ó generoso corpo que te curvas a um vento cálido
e voas como pólen à deliciosa superfície,
que estas palavras sejam papel, areia ou lua,
mas que sejam também as coxas negras
e o teu ventre escuro de soberana mãe.
Terra Abandonada
A incoerente no entanto suave
inundação
uma construção de sombras
em que se encontram caminhos mais aéreos
desconhecidos
com o sabor marítimo do silêncio.
Palavras livres que fluem nas veias
palavras por dizer obscuras leves
palavras ilegíveis e todavia transparentes.
Sinais cintilações
do ilegível que é um deus que ignora
e se esconde entre as pedras no silêncio e no sono.
Terra abandonada
terra onde não regressámos
onde o Incompreendido nos espera
onde já não se repousa na sua paz aérea.
Talvez uma pobreza nos liberte
talvez a simplicidade do ilegível
nos leve ao coração das coisas.
Quem sabe até onde se pode arder
no obscuro sol verde entre as coxas da terra?
Sinais sinais que nada dizem
senão o rumor confuso
das vozes da terra.
Sinais para o fundo e para o cimo
para construir a consonância com a amplitude.
Sinais de vento e árvore sinais de gérmen.
Sinais de ubiquidade inteligente e ignorante.
Sinais inexauríveis que abrem horizontes.
Sinais para a nudez sinais para o aberto.
………………………………………...
De novo a voz confusa do vento
a grande figura fugidia e esparsa
o visceral arbusto das palavras.
De novo o sopro selvagem sobre as folhas
de novo a iluminação obscura e rápida.
inundação
uma construção de sombras
em que se encontram caminhos mais aéreos
desconhecidos
com o sabor marítimo do silêncio.
Palavras livres que fluem nas veias
palavras por dizer obscuras leves
palavras ilegíveis e todavia transparentes.
Sinais cintilações
do ilegível que é um deus que ignora
e se esconde entre as pedras no silêncio e no sono.
Terra abandonada
terra onde não regressámos
onde o Incompreendido nos espera
onde já não se repousa na sua paz aérea.
Talvez uma pobreza nos liberte
talvez a simplicidade do ilegível
nos leve ao coração das coisas.
Quem sabe até onde se pode arder
no obscuro sol verde entre as coxas da terra?
Sinais sinais que nada dizem
senão o rumor confuso
das vozes da terra.
Sinais para o fundo e para o cimo
para construir a consonância com a amplitude.
Sinais de vento e árvore sinais de gérmen.
Sinais de ubiquidade inteligente e ignorante.
Sinais inexauríveis que abrem horizontes.
Sinais para a nudez sinais para o aberto.
………………………………………...
De novo a voz confusa do vento
a grande figura fugidia e esparsa
o visceral arbusto das palavras.
De novo o sopro selvagem sobre as folhas
de novo a iluminação obscura e rápida.
Um No Outro
Não aceito o que ainda não tem nome. Escuto
a noite de uma árvore, um ventre sem umbigo.
Nada desejo e desejo o imóvel fundo.
Quero conhecer a pele nua e o sol da vulva.
Que a palavra respire e seja planície.
Viver é o teu ventre na frescura do começo.
Cada parcela do teu corpo expande o sangue solar.
Do fundo de mim tu caminhas para mim.
Que delícia estender-me até ao teu nome cego!
No triângulo perfeito somos um no outro.
Inundo-te como uma lava como um vento de vertigem.
Em ti penetro até ao fundo, até à perda,
ó corpo incandescente!
a noite de uma árvore, um ventre sem umbigo.
Nada desejo e desejo o imóvel fundo.
Quero conhecer a pele nua e o sol da vulva.
Que a palavra respire e seja planície.
Viver é o teu ventre na frescura do começo.
Cada parcela do teu corpo expande o sangue solar.
Do fundo de mim tu caminhas para mim.
Que delícia estender-me até ao teu nome cego!
No triângulo perfeito somos um no outro.
Inundo-te como uma lava como um vento de vertigem.
Em ti penetro até ao fundo, até à perda,
ó corpo incandescente!
Um Obscuro Jardim
Lembro-me ou esqueço um obscuro jardim,
um lagarto de cinza, um lagarto de sombra
já não cintila entre os gerânios e as rosas.
Lembro-me ou esqueço, alguém escreve
com sílabas de orvalho que nada significam.
Tudo está e não está nesse jardim obscuro
onde a cinza é um espelho do fluxo do silêncio.
Lembro-me ou esqueço os frutos de oiro
e de veludo amadurecidos, a boca de musgo,
a voz da água, a cicatriz incandescente
da grande pedra. Que volúvel sossego
tão anterior a tudo na nudez do sono
e na alegria fiel à sombra que germina!
um lagarto de cinza, um lagarto de sombra
já não cintila entre os gerânios e as rosas.
Lembro-me ou esqueço, alguém escreve
com sílabas de orvalho que nada significam.
Tudo está e não está nesse jardim obscuro
onde a cinza é um espelho do fluxo do silêncio.
Lembro-me ou esqueço os frutos de oiro
e de veludo amadurecidos, a boca de musgo,
a voz da água, a cicatriz incandescente
da grande pedra. Que volúvel sossego
tão anterior a tudo na nudez do sono
e na alegria fiel à sombra que germina!
Um Pequeno Vulcão
Aproximo a boca de um pequeno vulcão
que palpita e fulgura como uma magnólia.
Talvez seja uma folha que crepita na sombra.
Ou apenas um lábio que desliza sobre a terra.
Sorvo na sua chama um nó de pequenas veias.
Não sei senão beijar, beijar os negros brilhos.
Sou um cavalo aceso numa gruta incandescente.
Vai ascendendo a saliva dos minúsculos arbustos.
Vou penetrando os ossos até estalar a carne.
Deliram sombras, vacilam luzes, dança o vento.
Aliaram-se as veias e os astros.
Uma aldeia esconde-se entre os lábios.
Um vestido gira nas águas de um jardim.
que palpita e fulgura como uma magnólia.
Talvez seja uma folha que crepita na sombra.
Ou apenas um lábio que desliza sobre a terra.
Sorvo na sua chama um nó de pequenas veias.
Não sei senão beijar, beijar os negros brilhos.
Sou um cavalo aceso numa gruta incandescente.
Vai ascendendo a saliva dos minúsculos arbustos.
Vou penetrando os ossos até estalar a carne.
Deliram sombras, vacilam luzes, dança o vento.
Aliaram-se as veias e os astros.
Uma aldeia esconde-se entre os lábios.
Um vestido gira nas águas de um jardim.
Um Rosto Ou Uma Folha
É um rosto ou uma folha com um hálito de sangue.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
Uma Frase
Uma frase sem cor mas com o sabor do vento.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
Uma Voz
Quero pertencer à abóbada escura como um amante inerme
e ser o alento do silêncio sobre os ombros das nuvens.
Quero aderir à sombra das palavras da folhagem
e compreender a terra na selvagem seda do desejo.
e ser o alento do silêncio sobre os ombros das nuvens.
Quero aderir à sombra das palavras da folhagem
e compreender a terra na selvagem seda do desejo.
Vagas de Amplitude
Vagas de amplitude sobre o país mesquinho.
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
Português
English
Español