Poemas nesta obra
A Caminho de Ti, Em Ti
Leve mobilização de um maquinismo suave e ardente.
A alta fenda do ar que se me abre.
A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.
Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.
Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
A alta fenda do ar que se me abre.
A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.
Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.
Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
A Língua Árida
Sorvo na magreza da tábua o pó de verão. Calco — um dia, longo hausto — o chão seco, os livros.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
A Paixão do Ar
Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
A Polpa do Sabor
A polpa fresca, lâmina rápida que se crispa e salta viva.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
A Sombra de Uma Face a Face de Uma Sombra
Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
Antes da Noite
Eu não fabrico a água.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
Aqui Mereço-Te
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
As Palavras Desenham-Se Na Parede
As palavras desenham-se na parede.
Não há centro, tudo prolifera.
A vela entre as espinhas.
As palavras ásperas resplandecem.
São as mais nuas feridas,
as mais desertas entre pedras.
O rosto é percorrido por formigas.
Raspado, e luz uma malícia pura.
Um cigarro aqui é mais do que uma estrela.
Um risco mais rápido que um foguete.
E a seara acende-se para além do muro.
Não há centro, tudo prolifera.
A vela entre as espinhas.
As palavras ásperas resplandecem.
São as mais nuas feridas,
as mais desertas entre pedras.
O rosto é percorrido por formigas.
Raspado, e luz uma malícia pura.
Um cigarro aqui é mais do que uma estrela.
Um risco mais rápido que um foguete.
E a seara acende-se para além do muro.
Através do Dia E da Rua
Para acordar no dia
na confusão real.
Lâmpadas, olhos fáceis.
Fachadas, pedras, faces.
Sou eu que componho a face
deste dia e desta rua.
Sou eu que componho a sombra
que no dia se esconde e rompe.
Sou eu que passo entre as árvores
do próprio dia que sou.
Não posso criar outro dia
nem outra rua.
E a sombra?
Sou eu a rua ou o dia
que arrasta a sombra?
Sou eu que passo pela rua
que comigo próprio caminha.
É a rua o dia em que passo.
É a sombra do próprio dia.
São árvores, pedras e livros
rompendo por entre os passos
na margem de um muro alto
com o vento a bater de frente.
Com o sangue a bater bem alto,
a sombra a bater no dia.
na confusão real.
Lâmpadas, olhos fáceis.
Fachadas, pedras, faces.
Sou eu que componho a face
deste dia e desta rua.
Sou eu que componho a sombra
que no dia se esconde e rompe.
Sou eu que passo entre as árvores
do próprio dia que sou.
Não posso criar outro dia
nem outra rua.
E a sombra?
Sou eu a rua ou o dia
que arrasta a sombra?
Sou eu que passo pela rua
que comigo próprio caminha.
É a rua o dia em que passo.
É a sombra do próprio dia.
São árvores, pedras e livros
rompendo por entre os passos
na margem de um muro alto
com o vento a bater de frente.
Com o sangue a bater bem alto,
a sombra a bater no dia.
Bater o Metal
É para bater e para ver. Para bater e para ver. Para bater. Para bater na fronte do silêncio. Bater na fronte. Bater.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
Campo de Acção
Quando as forças duras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
Campo E Corpo
Não houve antes nem haverá depois.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
De Bruços Sobre a Margem
A mão seca o abre: é um sabor vago.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.
Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.
O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.
Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.
Lenta paixão do olhar.
Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.
Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.
Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.
A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.
Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.
Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.
O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.
Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.
Lenta paixão do olhar.
Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.
Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.
Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.
A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.
Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
Dia de Verão
Contra a muralha de ar
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
É Aqui: Talvez Uma Cidade
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
É Um Jogo?
É um jogo? Ainda não…
Serei eu? Em que objecto?
Aqui, na mão, o movimento
ou corda de água ou sol por dentro.
Ainda não, e já poema?
Desejo só de lentidão
que abre o espaço para a mão.
… Que se desata no silêncio
e que ao silêncio dá a forma
do espaço vivo entre objectos.
Forma do gosto, de língua e pulso,
uma carícia da atenção.
E as palavras — afloram pedras
por sobre a água — brilham ao sol.
Jacto de luz: tempo de espaço.
Respiração… Aqui sou eu
um movimento que abre a mão
a todo o corpo e ao horizonte.
É um jogo da atenção.
Serei eu? Em que objecto?
Aqui, na mão, o movimento
ou corda de água ou sol por dentro.
Ainda não, e já poema?
Desejo só de lentidão
que abre o espaço para a mão.
… Que se desata no silêncio
e que ao silêncio dá a forma
do espaço vivo entre objectos.
Forma do gosto, de língua e pulso,
uma carícia da atenção.
E as palavras — afloram pedras
por sobre a água — brilham ao sol.
Jacto de luz: tempo de espaço.
Respiração… Aqui sou eu
um movimento que abre a mão
a todo o corpo e ao horizonte.
É um jogo da atenção.
Entre a Parede E o Silêncio
Entre a parede e o silêncio
há talvez uma palavra
que eu tenho de formar.
Ou não há nada e eu quero
não me perder.
Entretanto… a luz pode surgir.
O dia é claro. A parede nua.
E mal respiro. Perco o meu dia.
Tudo é instantâneo ou não,
fulgura ou não,
ou vale a pena ou não
— mas poderei expor-me ainda mais
como uma pedra nua?
Aspiro ao instante exacto
em que a palavra surja.
Quero o olhar mais limpo,
a linguagem sem véus como a parede.
E esse momento em que eu seria eu,
o movimento entre mim e o dia.
Poderei caminhar, dizer bom dia
se o tiver dito ou o souber dizer
pelas palavras mesmas que disser,
por essa única que soube ou não formar.
há talvez uma palavra
que eu tenho de formar.
Ou não há nada e eu quero
não me perder.
Entretanto… a luz pode surgir.
O dia é claro. A parede nua.
E mal respiro. Perco o meu dia.
Tudo é instantâneo ou não,
fulgura ou não,
ou vale a pena ou não
— mas poderei expor-me ainda mais
como uma pedra nua?
Aspiro ao instante exacto
em que a palavra surja.
Quero o olhar mais limpo,
a linguagem sem véus como a parede.
E esse momento em que eu seria eu,
o movimento entre mim e o dia.
Poderei caminhar, dizer bom dia
se o tiver dito ou o souber dizer
pelas palavras mesmas que disser,
por essa única que soube ou não formar.
Entre As Raízes
Dedos articulados através das folhas,
folhas sobre folhas, num espaço verde, aberto
ao corpo que solta o olho à língua,
branda flecha perfurando frestas,
bichos lentos, fetos de ar, linhas fluidas,
palpo cabeça rente ao chão, caminho, inscrevo,
com a saliva, as finas raízes perceptíveis,
troncos visíveis nas fronteiras de água.
Avanço, caracol, a longa cama salivando,
raspando ervas, calcando o solo, na terra árida
com seus canteiros de treva e de silêncio, onde não há
nem rosto nem figura, caminho só de insectos,
longa cabeça suspensa sobre o ovo do silêncio.
A mão deitada escuta, um joelho num sulco,
longamente imóvel — eis o dorso da terra.
É o barco de ervas, a rotação lentíssima
que a tua mão recebe da terra e à terra imprime,
é o horizonte aberto que o teu rosto absorve,
é a página que o teu corpo sulca com o rumor da pedra sobre o sulco,
é o corpo que soluça sobre o solo, desliza solto,
deliciada duna adunando-se à terra,
um barco, um caracol saindo das raízes.
folhas sobre folhas, num espaço verde, aberto
ao corpo que solta o olho à língua,
branda flecha perfurando frestas,
bichos lentos, fetos de ar, linhas fluidas,
palpo cabeça rente ao chão, caminho, inscrevo,
com a saliva, as finas raízes perceptíveis,
troncos visíveis nas fronteiras de água.
Avanço, caracol, a longa cama salivando,
raspando ervas, calcando o solo, na terra árida
com seus canteiros de treva e de silêncio, onde não há
nem rosto nem figura, caminho só de insectos,
longa cabeça suspensa sobre o ovo do silêncio.
A mão deitada escuta, um joelho num sulco,
longamente imóvel — eis o dorso da terra.
É o barco de ervas, a rotação lentíssima
que a tua mão recebe da terra e à terra imprime,
é o horizonte aberto que o teu rosto absorve,
é a página que o teu corpo sulca com o rumor da pedra sobre o sulco,
é o corpo que soluça sobre o solo, desliza solto,
deliciada duna adunando-se à terra,
um barco, um caracol saindo das raízes.
Esplendor Calcinado
Calcando o solo, colado ao vento,
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.
Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.
Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.
Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.
Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.
Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.
Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.
Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?
Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!
Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.
Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.
Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.
Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.
Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.
Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.
Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.
Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.
Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.
Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?
Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!
Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.
Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.
Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
Estou Em Minha Casa
Estou em minha casa
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
Iminência
Corda tensa bem viva,
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?
Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.
Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.
Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.
Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.
Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.
Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.
Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.
Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?
Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.
Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.
Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.
Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.
Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.
Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.
Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.
Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
Imóveis, Enquanto a Luz Declina…
Imóveis, enquanto a luz declina,
harmoniosas plantas unidas no repouso, religião lisa.
Mútuos barcos embalados completam-se
sobre o solo inefável que atingiram.
Embalam-se, embalam-se longos sob a luz
na extensão curvando o seu volume vivo.
Alimentam-se, bebem-se devagar, consomem-se
inextinguivelmente.
Acenderam a lâmpada dentro da qual se vêem,
sobre o mesmo tapete voam imóveis flores.
Viajam na imobilidade.
Soberania vegetal. Diadema após o festim.
Não o sabiam antes, o imprevisível sim.
O que não tem princípio, porque é o princípio e o fim,
porque é o centro da teia que entretecem,
onde estão, onde repousam, solo onde irradiam longos.
Não falam. Como falar dentro de uma lâmpada? Ciciam.
Renovam-se de onda a onda, o mesmo é o novo ser.
Respiram prolongados. Não cessam. Recomeçam
na incandescência suave. Têm a febre do dia.
Regressaram. Regressam. Estão donde partem.
Onde retornam. Circulam sem se mover.
Longamente calmos, abraçam-se como jorros
bebendo-se mutuamente sem nunca se confundirem,
e por isso retornam, incessante roda
que é o seu estar sob o repouso da luz.
harmoniosas plantas unidas no repouso, religião lisa.
Mútuos barcos embalados completam-se
sobre o solo inefável que atingiram.
Embalam-se, embalam-se longos sob a luz
na extensão curvando o seu volume vivo.
Alimentam-se, bebem-se devagar, consomem-se
inextinguivelmente.
Acenderam a lâmpada dentro da qual se vêem,
sobre o mesmo tapete voam imóveis flores.
Viajam na imobilidade.
Soberania vegetal. Diadema após o festim.
Não o sabiam antes, o imprevisível sim.
O que não tem princípio, porque é o princípio e o fim,
porque é o centro da teia que entretecem,
onde estão, onde repousam, solo onde irradiam longos.
Não falam. Como falar dentro de uma lâmpada? Ciciam.
Renovam-se de onda a onda, o mesmo é o novo ser.
Respiram prolongados. Não cessam. Recomeçam
na incandescência suave. Têm a febre do dia.
Regressaram. Regressam. Estão donde partem.
Onde retornam. Circulam sem se mover.
Longamente calmos, abraçam-se como jorros
bebendo-se mutuamente sem nunca se confundirem,
e por isso retornam, incessante roda
que é o seu estar sob o repouso da luz.
Irradiação
ventre cavo donde parte a primeira sílaba com a redonda força aspirante
palpitação de abóbada até ao arco da cabeça
ampliação surda que a boca ritma de hausto em hausto
— volante que principia a girar
tensão — atenção no limite extensível campo plasmável
volante em punho
conduzo o corpo para a fonte corporal
as mãos jorram dos braços
o rosto nasce entre as mãos
as tenazes da nuca libertam a cabeça
as espáduas são duas ondas livres
posso descer à terra aos grãos do solo vivo
com as plantas dos pés adiro à terra
formo o meu corpo ao ritmo de todos os contactos
acaricio a casca rugosa de uma árvore
balanço como a árvore visível forma de respiração
moldo-me ao silêncio que se alia à luz
implanto-me dilato-me centro-me disperso-me
o meu amplexo amplia-se de círculo em círculo
nas largas avenidas contenho a trepidação
estou no centro do meu corpo e da cidade
a partir das raízes com as fibras mais tensas
circulo
em toda a parte.
palpitação de abóbada até ao arco da cabeça
ampliação surda que a boca ritma de hausto em hausto
— volante que principia a girar
tensão — atenção no limite extensível campo plasmável
volante em punho
conduzo o corpo para a fonte corporal
as mãos jorram dos braços
o rosto nasce entre as mãos
as tenazes da nuca libertam a cabeça
as espáduas são duas ondas livres
posso descer à terra aos grãos do solo vivo
com as plantas dos pés adiro à terra
formo o meu corpo ao ritmo de todos os contactos
acaricio a casca rugosa de uma árvore
balanço como a árvore visível forma de respiração
moldo-me ao silêncio que se alia à luz
implanto-me dilato-me centro-me disperso-me
o meu amplexo amplia-se de círculo em círculo
nas largas avenidas contenho a trepidação
estou no centro do meu corpo e da cidade
a partir das raízes com as fibras mais tensas
circulo
em toda a parte.
Lâmpada Oscilante
O que eu diria, caminho pobre,
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
O Papel, a Mesa, o Sol, a Pena…
O papel, a mesa, o sol, a pena…
Ao lado, a janela. E nada tenho
e nada sou que escrevo. E nada espero
de quanto espero.
Enquanto escrevo não sou nem mesmo quero
não escuto nem palavras nem silêncio.
Alinho palavras mas ainda não caminho.
Estou a uma mesa pobre sem movimento.
O papel, a mesa, o sol, a pena…
Nada começa, nem à sombra respiro.
Tudo é distinto e claro.
Tudo é certo ou obscuro. Em vão caminho.
Não quero esperar,
não quero navegar num mar fácil de palavras.
Quero caminhar somente com o corpo que sou,
quero, sem querer, ser o próprio sangue,
músculos, língua, braços, pernas, sexo,
a mesma certeza oculta e única, tantas vezes clara,
a mesma força que nos pulsos aflora, tensa,
a mesma noite aberta que a todo o dia estendo,
a mesma alta, elástica dança de um corpo vivo!
Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.
Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.
Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.
Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.
Ao lado, a janela. E nada tenho
e nada sou que escrevo. E nada espero
de quanto espero.
Enquanto escrevo não sou nem mesmo quero
não escuto nem palavras nem silêncio.
Alinho palavras mas ainda não caminho.
Estou a uma mesa pobre sem movimento.
O papel, a mesa, o sol, a pena…
Nada começa, nem à sombra respiro.
Tudo é distinto e claro.
Tudo é certo ou obscuro. Em vão caminho.
Não quero esperar,
não quero navegar num mar fácil de palavras.
Quero caminhar somente com o corpo que sou,
quero, sem querer, ser o próprio sangue,
músculos, língua, braços, pernas, sexo,
a mesma certeza oculta e única, tantas vezes clara,
a mesma força que nos pulsos aflora, tensa,
a mesma noite aberta que a todo o dia estendo,
a mesma alta, elástica dança de um corpo vivo!
Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.
Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.
Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.
Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.
O Que Escrevo Ou Não Escrevo
Caminho com a pequena lâmpada vazia
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
Percursos
Atravesso a rua com o gosto do ar na língua, o silencioso pousar que me ergue do solo até à copa das árvores, o mar respirado, a sede entre o olhar e o tronco — estendo a mão para a terra, o ar: para rir entre as folhas na rua do ar.
Atravesso — alguma coisa (a folha/a mão) cai devagar, o corpo mais pequeno — em si — ligação firme da cabeça ao tronco — uma pequena mão moldando a nuca — ver como cego na corrente, descer agora — o momento em que a rua se abre.
Passo entre os que passam, sobre os que passam — consciência gostosa do ar com pequenas crepitações vegetais — o meu pulso bate, flui, retenho-me entre os muros numa febre de solidez consciente — ESTOU na corrente: sou um vivo: vejo o mar vertical.
A minha mão acaricia a esquina da rua: anónimo inexisto na corrente cega de mil olhos — a mão investe-me, retesa-me, osso em brasa, dilatada gota que se articula ao ritmo, à luz, à trepidação, à plenitude deste mar de inexistência, banho-me na mortalidade fluente: ar aglomerado inexisto único entre todos.
Atravesso — não rostos nem olhares — ritmo apenas, movimentos, deslizo como uma gota sem contactos, entre sinuosos sulcos que abro entre formas cegas que me ignoram — avanço cantando esta cegueira de pressa e massa movendo-se sem uma pausa, sem um MOMENTO para respirar, pequena gota que se eleva à alta abertura da rua, mão contida que se estende plana sobre o mar.
Atravesso — alguma coisa (a folha/a mão) cai devagar, o corpo mais pequeno — em si — ligação firme da cabeça ao tronco — uma pequena mão moldando a nuca — ver como cego na corrente, descer agora — o momento em que a rua se abre.
Passo entre os que passam, sobre os que passam — consciência gostosa do ar com pequenas crepitações vegetais — o meu pulso bate, flui, retenho-me entre os muros numa febre de solidez consciente — ESTOU na corrente: sou um vivo: vejo o mar vertical.
A minha mão acaricia a esquina da rua: anónimo inexisto na corrente cega de mil olhos — a mão investe-me, retesa-me, osso em brasa, dilatada gota que se articula ao ritmo, à luz, à trepidação, à plenitude deste mar de inexistência, banho-me na mortalidade fluente: ar aglomerado inexisto único entre todos.
Atravesso — não rostos nem olhares — ritmo apenas, movimentos, deslizo como uma gota sem contactos, entre sinuosos sulcos que abro entre formas cegas que me ignoram — avanço cantando esta cegueira de pressa e massa movendo-se sem uma pausa, sem um MOMENTO para respirar, pequena gota que se eleva à alta abertura da rua, mão contida que se estende plana sobre o mar.
Primavera Material
É a noite em pleno dia. Uma luva que avança, esteira invisível. A mão que não vê o sulco, a planta do pé que assenta sobre a delgada película.
É a terra vazia, a língua que se enrola, o olhar inerte. O corpo que procura a palavra. A palavra do corpo que entra no espaço ilimitado. Todas as árvores se dispersam. As pálpebras tropeçam nas ramagens de uma floresta deserta. A fome de uma claridade nua. Um objecto que centre o espaço — promontório que avança na bruma e se submerge. Terra, nova terra, novo espaço — eu vi os troncos, os arbustos em chamas, as clareiras do verde. A primavera aqui é negra, mas eu vi a primavera das cores, respirei-lhe o hálito delicado, vi uma árvore extática coberta de lâmpadas finíssimas. Aqui é negro ou é branco e eu vou formando o sopro obscuro, o tapete que enfuno com a minha respiração entrecortada. Quero retratar-te a terra abrasada, dar-te o espelho do instante luminoso, prolongá-lo nas sequências do teu amplo olhar. É toda a terra viva que eu quero despertar na tua língua e nos teus músculos. Tropeço em membros duros e ásperos, em materiais macios e falsos, em espelhos que me aprisionam. Quero abrir-te a vasta clareira onde os objectos brilham com as suas massas sólidas e as suas nítidas e fascinantes presenças, quero rasgar-te as avenidas do espaço, o grande canto do olhar oferecido ao mundo, a áspera e triunfante materialidade da primavera verdadeira.
É a terra vazia, a língua que se enrola, o olhar inerte. O corpo que procura a palavra. A palavra do corpo que entra no espaço ilimitado. Todas as árvores se dispersam. As pálpebras tropeçam nas ramagens de uma floresta deserta. A fome de uma claridade nua. Um objecto que centre o espaço — promontório que avança na bruma e se submerge. Terra, nova terra, novo espaço — eu vi os troncos, os arbustos em chamas, as clareiras do verde. A primavera aqui é negra, mas eu vi a primavera das cores, respirei-lhe o hálito delicado, vi uma árvore extática coberta de lâmpadas finíssimas. Aqui é negro ou é branco e eu vou formando o sopro obscuro, o tapete que enfuno com a minha respiração entrecortada. Quero retratar-te a terra abrasada, dar-te o espelho do instante luminoso, prolongá-lo nas sequências do teu amplo olhar. É toda a terra viva que eu quero despertar na tua língua e nos teus músculos. Tropeço em membros duros e ásperos, em materiais macios e falsos, em espelhos que me aprisionam. Quero abrir-te a vasta clareira onde os objectos brilham com as suas massas sólidas e as suas nítidas e fascinantes presenças, quero rasgar-te as avenidas do espaço, o grande canto do olhar oferecido ao mundo, a áspera e triunfante materialidade da primavera verdadeira.
Ritmo do Ritmo
Era a mão que me conduzia por entre os troncos e as folhas.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
São Os Lábios, As Suas Letras
São os lábios, as suas letras
e esta mão que desliza,
esta janela e esta mesa…
O que eu desejo, o que eu escrevo
não é a claridade nem o meu olhar.
Um imperceptível movimento,
um antegosto…
Não. O meu desejo
só o saberei no sabor
das palavras com que o persigo
e o vou perdendo…
Qual o seu hálito?
De pedra e água.
É aqui mesmo que o saboreio
onde o ignoro.
Bafo de animal — rio.
Mão calma.
Instantânea força sábia.
Tentá-la!
Mão que tempera o sono.
Dorso que sobe da água.
Duas ou três palavras
para captá-lo nu e vivo.
Um lápis. Um papel deslumbrante,
tudo consinto, ó lisa força que
amacias os músculos e o olhar,
ó palavra flexível e palpitar da sombra
para a vivaz vertigem!
Não há razão para desesperar.
Não posso ser senão o que sou
no momento em que adiro e ardo!
e esta mão que desliza,
esta janela e esta mesa…
O que eu desejo, o que eu escrevo
não é a claridade nem o meu olhar.
Um imperceptível movimento,
um antegosto…
Não. O meu desejo
só o saberei no sabor
das palavras com que o persigo
e o vou perdendo…
Qual o seu hálito?
De pedra e água.
É aqui mesmo que o saboreio
onde o ignoro.
Bafo de animal — rio.
Mão calma.
Instantânea força sábia.
Tentá-la!
Mão que tempera o sono.
Dorso que sobe da água.
Duas ou três palavras
para captá-lo nu e vivo.
Um lápis. Um papel deslumbrante,
tudo consinto, ó lisa força que
amacias os músculos e o olhar,
ó palavra flexível e palpitar da sombra
para a vivaz vertigem!
Não há razão para desesperar.
Não posso ser senão o que sou
no momento em que adiro e ardo!
Trielo de Poetas
A fonte e a escada. A fonte. E a escada.
No centro o terror ou a loucura. É uma alta árvore.
Este é o primeiro poeta.
O outro caminha no quarto. A cor pousa na página.
Leve. Ou na parede. A praia é extensa.
O terceiro vê um homem de costas. Lê anúncios.
O homem é mortal, caminha à chuva.
Um átrio rodopia na aldeia branca.
Sem o saber combatem entre si.
Por uma lâmpada. Um muro. Ou um zenabre.
Entre mulheres e plátanos traçam linhas
que se encontram em tufos negros, verdes.
Um dirá inocência. Inocência.
Outro dirá pedra ou braço. Pedra ou braço.
O terceiro seguirá ao longo da rua até ao fim da sua idade.
Três poetas que se ignoram e se conhecem.
Três léxicos. Um vermelho. Outro branco. Outro cinza.
Vermelho. Branco. Cinza.
Se um só poeta. Um só escrevesse o poema.
Vermelho branco cinza.
A fonte na parede. Alta no braço. A chuva
caminhando. O jornal aceso.
São três braços, três palavras numa página.
O mesmo fogo violento nos cabelos.
Um só pulso. Uma haste viva. Rompendo
da parede.
E o mesmo ventre. Ou o mesmo muro.
A boca da ausência
beijando as suas sílabas.
Ó poeta da tua idade e do esplendor do ventre
no centro flutuante a mesma lâmpada vazia
que as palavras acendem. As do jornal do dia.
Ó poeta das três idades.
O da lâmpada. O do ventre. O do jornal do dia.
Três da mesma idade. Ao pé da mesma árvore.
Um desfolha o vocabulário violento.
Outro pousa lentamente a mão na árvore.
O terceiro está ausente. As folhas secas rodopiam.
No centro o terror ou a loucura. É uma alta árvore.
Este é o primeiro poeta.
O outro caminha no quarto. A cor pousa na página.
Leve. Ou na parede. A praia é extensa.
O terceiro vê um homem de costas. Lê anúncios.
O homem é mortal, caminha à chuva.
Um átrio rodopia na aldeia branca.
Sem o saber combatem entre si.
Por uma lâmpada. Um muro. Ou um zenabre.
Entre mulheres e plátanos traçam linhas
que se encontram em tufos negros, verdes.
Um dirá inocência. Inocência.
Outro dirá pedra ou braço. Pedra ou braço.
O terceiro seguirá ao longo da rua até ao fim da sua idade.
Três poetas que se ignoram e se conhecem.
Três léxicos. Um vermelho. Outro branco. Outro cinza.
Vermelho. Branco. Cinza.
Se um só poeta. Um só escrevesse o poema.
Vermelho branco cinza.
A fonte na parede. Alta no braço. A chuva
caminhando. O jornal aceso.
São três braços, três palavras numa página.
O mesmo fogo violento nos cabelos.
Um só pulso. Uma haste viva. Rompendo
da parede.
E o mesmo ventre. Ou o mesmo muro.
A boca da ausência
beijando as suas sílabas.
Ó poeta da tua idade e do esplendor do ventre
no centro flutuante a mesma lâmpada vazia
que as palavras acendem. As do jornal do dia.
Ó poeta das três idades.
O da lâmpada. O do ventre. O do jornal do dia.
Três da mesma idade. Ao pé da mesma árvore.
Um desfolha o vocabulário violento.
Outro pousa lentamente a mão na árvore.
O terceiro está ausente. As folhas secas rodopiam.
Um Movimento Como Um Sopro
Um movimento como um sopro
Um tronco branco transparente
Vejo-o suave sobre a folha
Mais branco ainda e transparente
Não o perco não o quero perder
Fascina-me até ao branco
Mas sempre branco e transparente
Objecto do olhar
irreal porque me absorve
até à fixidez da vertigem
Real se o movimento
donde nasceu me faz mover
as palavras com que o transporto
Cego através dele vejo
o branco donde o tronco surge
a transparência que se move
o chão do sopro
Um tronco branco transparente
Vejo-o suave sobre a folha
Mais branco ainda e transparente
Não o perco não o quero perder
Fascina-me até ao branco
Mas sempre branco e transparente
Objecto do olhar
irreal porque me absorve
até à fixidez da vertigem
Real se o movimento
donde nasceu me faz mover
as palavras com que o transporto
Cego através dele vejo
o branco donde o tronco surge
a transparência que se move
o chão do sopro
Um Pouco À Frente
Extrema e vaga lâmpada, um pouco à frente, onde o corpo vai entrar, murmúrio morno.
Mão desligada, levemente alta — para o sabor do olhar.
Volátil molde onde a língua ondula. Ténues linhas dos cabelos da terra pela face.
Uma água lenta e madura de terra. Todo o braço vivo na corrente — o pé sorve a poeira irredutível.
Mão desligada, levemente alta — para o sabor do olhar.
Volátil molde onde a língua ondula. Ténues linhas dos cabelos da terra pela face.
Uma água lenta e madura de terra. Todo o braço vivo na corrente — o pé sorve a poeira irredutível.
Um Rastro
Tangível mão quase, olho que não vês.
Inútil muro sobre outro muro.
Invisível o que se lê,
o visível que se não lê.
O que não sei, o que não vejo.
É desta sombra que me envolve
que eu posso ver e respirar.
No silêncio desta pausa,
onde me afundo, de onde me elevo,
persigo um rastro, um corpo novo.
Tangível quase, ouso não ver,
perder-me mais para te encontrar,
cegar-me em ti, muro consoante,
interior a ti, antes de mim.
Perdi-te… o muro corre.
O que eu ganhei foi esta sede.
Inútil muro sobre outro muro.
Invisível o que se lê,
o visível que se não lê.
O que não sei, o que não vejo.
É desta sombra que me envolve
que eu posso ver e respirar.
No silêncio desta pausa,
onde me afundo, de onde me elevo,
persigo um rastro, um corpo novo.
Tangível quase, ouso não ver,
perder-me mais para te encontrar,
cegar-me em ti, muro consoante,
interior a ti, antes de mim.
Perdi-te… o muro corre.
O que eu ganhei foi esta sede.
Uma Só Palavra
São quatro ou cinco ou duas
palavras duras e uma só mão.
Para o corpo inteiro a boca única,
o braço estende-se aos limites: quatro.
O pulso livre o branco aberto
um único sol pelo corpo todo
enche a cabeça o tronco o ventre
um sol interior no corpo.
É uma palavra ou quatro
ou todas as palavras rodando num olho fixo
ou só duas palavras dois ovos sobre o branco
duas iguais sobre a branca igualdade.
Duas brancas alvo, quatro cinco
proliferam moscas negras azuis
mas o suspiro do ventre sobe
à garganta, à língua, à fronte,
as comportas do cérebro abrem-se uma
bola branca solta e tensa
sol terra e ar: brancura extrema
um solo essencial um único solo
adere.
Um pé que ganhou gosto e sabor adere
a um soalho limpo, uma madeira cálida,
onde a nudez se sente e sabe viva. Uma palavra
em corpo ganhou o pé redondo e firme.
Eis no extremo limite o peso material
a que a língua adere: planta, dorso, palma.
Dali, do solo liso, jorra uma água sólida,
articulada e ágil, repousa, ascende em corpo,
pesa, pesa, eleva-se, massa de altura viva,
sol que se aperta, sol e solo, sol.
palavras duras e uma só mão.
Para o corpo inteiro a boca única,
o braço estende-se aos limites: quatro.
O pulso livre o branco aberto
um único sol pelo corpo todo
enche a cabeça o tronco o ventre
um sol interior no corpo.
É uma palavra ou quatro
ou todas as palavras rodando num olho fixo
ou só duas palavras dois ovos sobre o branco
duas iguais sobre a branca igualdade.
Duas brancas alvo, quatro cinco
proliferam moscas negras azuis
mas o suspiro do ventre sobe
à garganta, à língua, à fronte,
as comportas do cérebro abrem-se uma
bola branca solta e tensa
sol terra e ar: brancura extrema
um solo essencial um único solo
adere.
Um pé que ganhou gosto e sabor adere
a um soalho limpo, uma madeira cálida,
onde a nudez se sente e sabe viva. Uma palavra
em corpo ganhou o pé redondo e firme.
Eis no extremo limite o peso material
a que a língua adere: planta, dorso, palma.
Dali, do solo liso, jorra uma água sólida,
articulada e ágil, repousa, ascende em corpo,
pesa, pesa, eleva-se, massa de altura viva,
sol que se aperta, sol e solo, sol.
Português
English
Español