Escritas

Lista de Poemas

É a Superfície o Que Se Passa À Superfície

É a superfície o que se passa à superfície
língua folhagem
instantâneo caminho sopro
de sinais

E dizer é aqui no muro
no escuro da pedra
uma visão que dilucida a fome
das mãos
e torna a precária erva um bem dizível

É o que passa e jorra não sei de
que lado do silêncio que ilumina
a macia terra cega
e não só lâmpada não só arco ou anca
mas a mesa árida mas o rosto de lama
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Alberto Burri

Vestuário ou pele
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga     um campo
uma costura     um caminho de poeira

Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho

Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra     a noite     o fogo

Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
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A Partir da Ausência

Imaginar a forma
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro

Não existir

Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro

Um muro vivo preso a mil raízes

Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo

Onde agora a mão se perde
E era o espaço

Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?

As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
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O Corpo Não Ardente

O corpo não ardente
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada

No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar

A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
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A Mais Simples Palavra

a Maria João Fernandes
A mais simples palavra
nesse lugar-limite
constituído de evidências, sucessivas folhas
no exercício da espera
sobre as pedras nuas
a palavra do exílio ou o ar na ferida
aroma do momento imóvel
o espaço no rosto
a limpidez dos dedos
entre as ervas
e
nada
— imóvel lugar
sem a língua loquaz
momento de luz ocre
num muro do tempo
na
amplitude visível
ao ritmo da respiração silenciosa
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Mas Se Ele Caminha Já

Mas se ele caminha já
(numa avenida a uma hora tal)
serei eu que o invento?

Se ele respira, se o sol o aquece já?

Eu olho-o aqui e vou com ele
no seu ténue percurso
quase intenso.
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O Seio Jovem

O seio jovem,
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.

Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.

Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.

Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?

Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?

Mas quem o vê não o vê.
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O Personagem Não Existe Sem Paisagem

O personagem não existe sem paisagem.
O personagem é imponderável.

Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.

E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.

Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.
Talvez empunhe enfim o guarda-chuva.
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No Imediato Descobrir do Ar

No imediato descobrir do ar
como uma estaca vibrante
com a brancura como único suporte
de uma palavra que seja ainda o ar
antes do depois ainda já
num bloco que sabe o não saber de estar
num avanço na folha do silêncio
para estar
como uma estaca vibrando
no ar
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O Grito Cego

à Ana
e ao Raul
A forma do grito um reflexo ardente
no extremo do visível rosto cego
a chama alta nas vertentes negras

linguagem densa a desfazer-se em espuma
a nudez do olhar sem as árvores duras
como um músculo de água apenas sob as pálpebras

aqui quando deslizam
arcos sob as sombras do desejo
substância porosa verde inerte
a mão sem o olhar na líquida viuvez

caudal abrindo o ciclo do declive

A paisagem fechou-se sobre o corpo como um poço as evidências ruíram arrastando os limos sobre os membros o contínuo rumor do sangue inundou o espaço disponível da visão perderam-se os nomes das pedras a distância dissipou-se

a explosão do grito na ávida parede
das virilhas à garganta em frémitos de fulgor
corpo envolvido pelo corpo rio viscoso
epiderme ligada às trevas interiores

vagas de frémitos
ruídos que deslizam nas margens líquidas
interminável fluxo apagando os nomes e as formas
o infinito ardor em ínfimas vibrações
de uma língua sem língua de uma boca hiante
cavidade do inarticulado furor cavo do grito
incessante redemoinho a destruir a visão
das possíveis formas dos limites dos sinais
numa confusão de manchas e linhas fugitivas
nas raízes da água escura alucinada
……………………………………………
O cerne do grito
ponto infinito inesgotável nó
dilacerante lento
sem espaço

corpo negro informe enterrado
em si mesmo
com o sabor último da terra rente à boca
e todavia desperto difuso ardente
na oclusão compacta sem princípio
sem memória sem futuro
retornando a si
……………………………………………
grito
no espaço deserto
linguagem espessa em glóbulos densos
amálgama igual à polpa do seu antro
carne igual ao interior da terra
deflagração quase inaudível
enigma
resíduo apenas
numa praia invisível ainda
que forma primeira
que visão abres
nas margens já possíveis?
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).