Escritas

Lista de Poemas

Terra Para Pronunciar…

Terra para pronunciar com os dentes da terra, terra escalavrada, presença e memória e espaço da ausência, espaço e desejo de espaço, e já o espaço do desejo, assim a terra negra, escalavrada, corpo branco e mudo.
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2. a Perda da Pedra Inerte E Pobre

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A perda da pedra inerte e pobre
e a exuberância do seio do corpo elástico
contrasta o negro e o rubro do viver a árvore
vermelha e negra musical secreta.

Contraste dos joelhos: no azul: no verde
e é ferida e não imagem que se beija
na selva do corpo em raiva rouca
tronco de beleza no não-instante instante.

Perda brusca descoberta límpida
das pernas em relevo viva água
da boca e dos seus dentes e das unhas

que rasgam os membros da matéria
nunca usada e não virgem e branca
elástico animal exuberante ardente
e grande e belo como o sol no seio.
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Feliz Fusão de Sol Parede E Água, Sol…

Feliz fusão de sol parede e água, sol — mancha entre lábios e olhos, sol de água, pedra que toco no ar, no princípio do ar.
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Escrever

Escrever para
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar

Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte

Escrever            E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra         um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
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Se Avançar Num Caminho…

Se avançar num caminho na cegueira, com os próprios sinais do opaco no extremo, um quase e um nunca mais, entre o rumor e o silêncio, e a palavra, a incerta testemunha que oscila na aridez da busca, na deserta sede da interrogação.
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Acende-Se o Desejo E É Tão Precária a Voz!

Acende-se o desejo e é tão precária a voz!
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?

Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.

Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.

Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
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A Ordem É Uma Sombra Noutra Sombra

A ordem é uma sombra noutra sombra
que movimenta as páginas e os membros.
A face é de papel, de olhar oblíquo.
O sol congelou-se. A solidão.

A mão inventa então outro calor
da página. Onde a quietude
seja outro sol na sombra de um só dia.
É este o fumo, o som, a cor, a terra.

É este o todo das palavras todas
renascidas da sede: nada e nada.
Palavras sem as torres, mas desastres
de um planeta esquecido agora surto.

E assim se ordena em sombra o personagem.
Não lhe perguntem nada, pois ele é a pergunta
de todas a mais una, a mais ardente.
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Os Primeiros Sinais Diferentes…

Os primeiros sinais diferentes no caminho, as sombras que afloram nas pedras escritas, nomes de nenhuma boca mas que aliciam a boca, a aligeiram até à saliva salva como a água do encontro entre boca e boca, palavra e palavra, pulso e terra.
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O Personagem Viola Uma Viola

O personagem viola uma viola
no vento. O personagem sabe
descobrir um coração de literato.
Não é a carne que se rasga nem a dor,

mas o humor universal de um só momento,
concerto de matizes, mortes, vozes,
desastres entre nuvens, velocidades,
crimes, cópulas, distinções confusas,

icebergs, insónias. Palavras e palavras
que reúnem os factos num só acto,
todas as sombras nas sombras deste sono
e um silêncio final de madrugada.
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12. Por Ela, o Qual: Por Ela

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Por ela, o qual: por ela
a iluminada lâmina cortando
o papel sobre a figura impura.

Nó límpido no desnudar da face
não exemplo na erva do seu ventre
no extremo lá da extrema árvore
no ribeiro gracioso ou na torrente.

Por ele: ali: por ela
cortado o papel cortada a sombra
fica o recorte da figura dele.
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).