Escritas

Lista de Poemas

Onde Não Chegam Os Lábios,…

Onde não chegam os lábios, onde as mãos não ascendem, o intervalo interminável, as palavras dispersam-se, insectos da aridez essencial, breves breves e longas no deserto em que não se inscrevem, em que não ressoam.
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13. Palavra, Planta Activa, Trepadeira

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Palavra, planta activa, trepadeira
que se entrelaça no muro da imagem — lâmina
lâmina de laços na verdura.

Ó árvore ó palavra ó árvore
no jardim porque é jardim folhagem espaço
e o melro negro é duplo em duplos saltos.

É esta a aragem da palavra e é este o rosto
da figura
palavra que aviva o verde da folhagem.
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16. Tecida a Paciência do Tecido

16
Tecida a paciência do tecido
se escrevo o tempo exíguo
e ela dança sem lâmpada sem véus.

Vermelha a lança a nascer da perna
volumosa e dura sem face
figura de alta árvore
e obscena sóbria sem folhagem.

Ela dupla na marcha sobre
a pedra e pedra bem de pedra
o taco do tacão negro
tornando a perna incorruptível
pedra branca.
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Caminho Sem Saída…

Caminho sem saída porque é a incessante saída e a perda, o inesperado intervalo que se abre a outro intervalo que se abre, a sucessiva vida simultânea de uma parede de água, página respirada pela boca na árvore ou na mão da terra.
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15. Animado o Poeta Desce

15
Animado o poeta desce
a horizontal escada
para o encontro da lâmpada animal.

Desce até à terra humedecida
buscando a pobreza de uma lâmpada
roxa
sobre uma perna soberba ali perdida.

Desce
até que desce na pobreza
da face de folhagem negra
aranha negra sobre aquela perna
do corpo glorioso.
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Não Toco a Viva Fenda Ferida…

Não toco a viva fenda ferida na parede do ar vibrante, não toco, mas estalo a fronte sem olhar, com a parede na fronte, sobre o sol, quase vendo no bordo a esquina do momento que teve, tem, terá a boca breve do ar.
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As Palavras Que Suscitam As Pedras…

As palavras que suscitam as pedras sem a solidez das pedras podem ter a solidez das pedras, podem ser vivas, acres, surpresas do ar, ervas vivas, secretas sombras.
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Ó Treva Ó Música Na Extensão do Vazio

Ó treva ó música na extensão do vazio
e o silêncio no teu pulso o silêncio dos teus ombros
como eu amo esses silêncios como eu amo o silêncio dos teus olhos
quero escrever aqui os cristais vibráteis
dessa folha frágil e violenta a que chamo o teu corpo

Ó treva ó música música entre os juncos claros
música sobre a mesa de madeira nua
música da tua língua enrolada e lisa como um jarro
ó treva e música dos teus olhos ó frémito
das tuas ancas rodando contra o furor das ondas contra uma quilha ardente

Ó música entre o branco e o negro ó migrações silenciosas
das aves do sangue ó longas pulsações do ventre
o que te atravessa identicamente o que arde na consistência indemne
ó espessura vermelha ó murmúrio da fábula e da folhagem
há um fragmento imóvel há um peixe de sombra na parede

Ó música ó treva somos nós que nos abrimos
como podemos estar tão perto do limiar da folha
como escrever estes silêncios estas latentes lâmpadas
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A Boca Desviada,…

A boca desviada, sem o segredo do ar, sem o saber do outro, a boca solitária espera, sem sono e sem sombras, só com a água da sua sede, com o árido desejo da palavra dela e da outra boca que lê.
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14. Este (Aqui Formulado) Sobre Os Cílios

14
Este (aqui formulado) sobre os cílios
ou as pestanas pretas pretas mesmo
sob o deserto dele, a casa nuvem.

Terra (designação que nega) areia
do grito das pestanas, cílios sérios,
adormecendo a noite da folhagem.

Arranca à aragem o perfume sóbrio
desses cílios negros cílios
e colhe aí a perfumada imagem.
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).