Escritas

Lista de Poemas

Até À Face Inteira

Um campo
vivido no olhar na lentidão
da pausa
momento no esquecimento
da terra

a breve folha
em que
nos reunimos    na espessura
do alento     do
compacto

É um lado forte
vindo devagar        deixando-o vir
um lado para
absorver nu
e recomeçar o limpo
intacto

Volta sobre o campo
anterior
até à face inteira
percorrendo o chão
da nudez recomeçada
até estar todo         junto de si         de fora
a mão na folha
ao alcance do rumor
da árvore                                         finda
e que não finda         no rumor de si
e recomeça         e se percorre     o branco
de uma respirada pausa                 o aspirado
espaço
👁️ 979

17. Purificada Pela Paz Dos Olhos Lindos

17
Purificada pela paz dos olhos lindos
sob o arbusto frio
ilimitada a pobreza a amêndoa incorruptível.

Filha de quem dormindo sob
a ameaça da sílaba sinistra
filha de nada e da noite da árvore.

Por quem a sílaba formada
por quem ou pela nuvem enublada
armada pela mão da morte armada.
👁️ 1 007

As Musas

Donde estou vejo-a nua com os joelhos sustentando a lua. O céu como se fosse a sua enorme sombra multiplicada está cheio de estrelas: estrelas na sombra do seu corpo. É como se fosse universal. Há o campo que nos envolve inteiro, ora num abraço raso de planícies, ora num abraço curvo de montanhas. Ergue-se por fim e os seus passos ardentes encaminham-se para as nascentes dos rios gerando ininterruptamente as manhãs. As suas palavras são totais de sílabas translúcidas. Na sua pele dura há a força da conquista e da marcha.
*
Ela tem os olhos sangrentos e serenos. São os seus olhos de sangue, de ondas de sangue em movimento. A sua boca cerra-se num silêncio de fogo, num silêncio terrível como se temesse desencadear, abrindo-a, a tempestade dos mundos, a hecatombe redentora. É a própria boca da vontade, do amor que não perdoa. A vingança nela tem outro nome: a justiça. Ela é todo o passado, todo o presente e todo o futuro.
*
É a figura de um pequeno grito, de um queixume de uma vida inteira. O seu corpo é como uma sombra de costureirinha. Tem os olhos frescos de luz: a luz neles parece uma lágrima. Olha para o lado da aurora, numa vaga expectativa feliz como se o sol a fosse tornar invisível, confundi-la com o murmúrio do mundo. É como uma flor uma nuvenzinha, mas o seu coração é uma minúscula semente duríssima: e é só por isso que não voa, que não se desfaz e há-de incorporar-se no grande coro da alegria que vai nascer.
*
É toda tristeza, indefinida de contornos, serenidade curiosa e plena. Ela sabe que o sol vai nascer e a vida vai tornar-se natural e feliz como se de toda a eternidade este momento tivesse sido preparado. Acaricia as flores e come os frutos, na antemanhã do mundo, com a tristeza de quem perdeu universos mas com a serenidade de quem sabe que a manhã que vai nascer criá-los-á aos milhares para a sua abundante tristeza se disseminar nos infinitos limites dos mundos.
*
Traz o sol atado aos cabelos e com as mãos distribui as noites e os dias, as estrelas e os planetas. Da sua ampla mão de deusa casta e fecunda cai um rio de sangue sobre a terra. Nas suas pupilas rebrilha todo o mar e todos os campos e todas as aves se cruzam, desenhando os seus voos em precipitadas e dolentes curvas que, entrelaçando-se, formam o oval dos seus olhos um móvel rendilhado em perpétuo e ininterrupto movimento.
*
Já não há nela memória presente do passado. É virgem da primeira hora do mundo, nasceu com o estabelecimento da alegria total, por isso os seus olhos rebrilham só de presente e futuro, só da primavera inicial, só das primaveras futuras. As estações, os dias e as horas combinam-se nos seus olhos em serenos cambiantes donde o medo é ausente. A natureza é um plácido domínio que ela conquistou com clara heroicidade. O seu peito infla do fôlego harmónico das cidades, é monumental e humana, poderosa e natural, da estatura de todas as possibilidades abertas.
*
É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho cego, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.
*
É um esqueleto. Flores, frutos, searas, um homem com um tractor. Crianças que brincam. É um esqueleto, oculto entre a seara, de um homem de outros tempos, um longínquo homem, eu, tu, nós.
*
É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e um músico da cidade compuseram. Ela é preguiça de felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.
*
É a negra mulher de cor de pó de carvão e desastre, com um hálito de minas, um punho de fogo e um verdadeiro sorriso de aurora. É surpreendente este perfil duplo, trágico e voluntarioso, de carvão e de sol, como uma noite-manhã, um parto subterrâneo da vontade, cujos filhos serão os claros dominadores das profundezas da terra.
*
É toda mar e vento e praia com um adejar de gaivotas nos cabelos. É todo o sol em todo o mar, todo o vento, toda a imensa frescura da terra e do céu e do mar combinados. O seu sexo oculta os palácios submarinos das imaginações ardentes: o leite dos seus seios não é amargo nem doce, tem a frescura dos rios e a sua pureza. A canção que ela canta só os peixes a ouvem, tão subtil é, como se estivesse sempre longe, com a cabeça nas nuvens, os olhos perdidos nos horizontes. É um murmúrio que se distingue tão vago como uma nuvem que se confunde com o céu. O seu sangue é uma tumultuosa cascata que purifica o ar com uma névoa cristalina e serenamente apoteótica. O seu lenço é um crepúsculo e o seu adeus uma ondulada mão desfazendo-se entre mar e céu.
👁️ 1 128

Como Findar No Intervalo…

Como findar no intervalo quando o incessante é o princípio, quando a palavra desliza no indelével bordo do vazio, obscuro sussurro do silêncio, o branco fogo se ateia no silêncio, branco e quase e já cinzento.
👁️ 1 068

A Espessura É Branca

A espessura da árvore
é branca

A casa repercute
os favos do silêncio

Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem

O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo

Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura

Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio

A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor

Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão

O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.

Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.

Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.

Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.

Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.

Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.

Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.

Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.

A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.

Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
👁️ 986

Corpo Solto Instantâneo…

Corpo solto instantâneo entre as árvores e o mar, margem de uma claridade de lâmina deserta, corpo devastado pela usura última, caminhando como na primeira página do deserto e já pressentindo e perdendo a primeira palavra do mar.
👁️ 1 004

O Sol Negro o Sol Branco

Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.

Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.

Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.

Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.

Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.

Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.

Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
👁️ 576

Pulsações da Terra

o gérmen na página         o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge

e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo

ávido silêncio
voracidade verde

a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro

o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia

e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever

e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos

no terraço branco

onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio

eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro

oiço o diálogo da terra
com a terra

vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
👁️ 1 038

Pedra Plana,…

Pedra plana, quase escrita e indelével, e a pulsação plana aflora o corpo e a frase estala, pedra e toalha, sinal vivo do caminho que não espera, que avança como se o mar aflorasse e o corpo vivo chegasse ao cimo da água, à frase sem memória, fonte de desejo.
👁️ 1 173

7. Amor da Imagem Ferida Aberta

7
Amor da imagem ferida aberta
pelo lábio perdido e o dente exacto
seja o delírio no nome no límpido quadrado.

Terrível branca imagem trémula
na mão de face dupla e branca
e branca como a folha na margem extrema
oblíqua sem espelho sem exemplo.

Lua de um crepúsculo e transeunte
no transe perfeito do acaso aberto
aqui: quase: quase exígua rara.
👁️ 1 061

Comentários (10)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).