Escritas

Lista de Poemas

85. Vagos Sinais Dentes Na Pedra

85
Vagos sinais     dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único

este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul

e

que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
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Consonância do Intacto

Consonância do intacto

com o corpo

nudez

de pedra

exacta
👁️ 975

Que Importam Estas Pálpebras Na Cerração

Que importam estas pálpebras na cerração

da terra

um olho dilacerado vê     a nudez de um corpo

obstinada desordem dos membros dissolvidos

o latejante trajecto da obscura mão

atinge o vazio de um centro                     o limite vivo

boca na árvore

iluminado seio     caminho

do pulso
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81. Verde E Tu Verás Por Sobre o Sono

81
Verde e tu verás por sobre o sono
das marés o único céu abrindo o mar
ou senão o campo em que verás o céu das árvores.

E o animal que não dança mas que exalta
o corpo da mulher da lança
ela própria a lança o pulso que a persegue.

A lisa redondez é toda ela face
figura sem imagem e imagem de outra imagem
— verde e tu verás a extrema lança: verde.
👁️ 954

Como Se Caminhasse Para Um Encontro

Como se caminhasse para um encontro

encontro

a cor do muro

um murmúrio do sono

e do olhar

um murmúrio de sono no olhar
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Casa Entre Árvores

Casa entre árvores

tranquila próxima

na transparência

opaca e azul     opaca

E azul
👁️ 989

72. Porquê o Porquê a Sombra Viva, a Sobrevida

72
Porquê o porquê a sombra viva, a sobrevida
e escrever estes sinais na folha e não saber
e escrever ainda sem esperança e no desejo
dos sinais de uma paisagem acesa, o esplendor.

O esplendor. O encontro. Aqui jamais
eis o epitáfio e o motor da imagem
negra ou branca na incerta curva
de um verso e outro verso entre os espaços.

E se ela fosse vermelha, ah vermelha!
ela quem? — ela, o esplendor do encontro
tão raro e tão pouco no pouco que é

viver sem esperar, escrever sem esperar,
mas no movimento da imagem interior
acender a imagem da face ou o esplendor.
👁️ 1 004

84. a Incerteza E a Certeza Dessa Escrita

84
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha     chamamento
dilacerante e no entanto mudo.

E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras

caídas     e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
👁️ 922

Uma Falha Entre

Uma falha entre

duas pedras

a folhagem entre     as pálpebras acesas

a moeda de fogo        música de dedos sóbrios

o caminho     mas

sem caminho:     círculo de lâmpadas

o texto     o texto único        raiz

do pulso

lápis de sombra

raiz do lápis na montanha
👁️ 911

Não É Um Texto:

Não é um texto:

é um movimento da sombra

o pulso dos passos:     pedra     A mão

traça

o caminho     separa as sombras

no desejo de ervas claras     de ervas vivas

e só as pálpebras

pesam

sobre o texto

sem árvores

o braço oscila na montanha
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).