Lista de Poemas
Secreta E Branca
agita-se
sem flancos
à beira do vazio
O Que Conta As Letras
esquece o viscoso e o obscuro
não vai mais longe que
o dicionário
O que ouve a música das sílabas
não se perde no prazer
a fugitiva luz está presente
em algo simples inacessível
Tocaste o lábio desse monstro
abre-se a ferida de uma estátua
um mugido ondula
e é ele próprio o sopro da brancura
As Pernas São o Grito
no rosto no ventre A língua
contra a língua
ou antes as duas línguas que a destroem
Vertigem dos limites
contra a vertigem
Explosão esta figura
ao atingir a superfície branca
A Minha Pedra Para José Gomes Ferreira
Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra
Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra
Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?
Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?
Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não
E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?
A pedra que eu habito
A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra
Podes chamar-lhe buraco
No buraco
está o arco
do buraco
Queria mais que uma pedra
queria outra pedra
Invento uma pedra
para esta pedra
Invento outro arco
e outro
e outro ainda
Não saio do buraco
Atiro uma pedra
para ser flecha
Mas será flecha?
E será de fogo?
Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra
É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra
e por isso dou-ta
com o calor da mão
O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge
Agora é que é teu
Se te dou a pedra
logo a pedra existe
Logo a pedra é pedra
A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei
Se uma pedra existe
todo o mundo existe
Se esta pedra é pedra
logo tu existes
Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra
Toma então a pedra
meu irmão
A Água E o Vento
palavras vivas
a água o vento
O Que Eu Movo
até
onde não sei
suspendo
e algo avança
à minha frente
Um Espaço de Silêncio
O instante
suspende-se metamorfose da abolição
VISÃO VAZIA
restituição do mínimo no ABERTO
as primeiras minúcias de um estranho e límpido mistério
o puro amor a cada coisa
o absoluto no ínfimo
Presença-Ausência Ausência-Presença
Não o além do mundo mas o além no aqui
o aqui entreabrindo o Instante
a distância interior constelando-se em silêncio
relação liberta livre
com o desconhecido o irrevelado
não de um outro mundo mas do mundo outro
(o Mesmo)
a infinita abertura do mundo na luz do seu silêncio
na profundidade liberta
em espaços de espaços
o diverso no uno
indissolúvel unidade do ínfimo e do infinito
janelas ou portas que se abrem
(que abrem para:)
Libertação da opacidade libertação da Ausência
Ausência extrema da Presença desaparecendo
desaparecida
tudo raiou de sua luz de silêncio e sombra
le vide n’abolit pas l’inconnu mais l’éblouit
uma imponderável ponderabilidade de palácio-aéreo
as salas abriram-se
destruição das aparências reinvenção das suas cinzas
filhas do relâmpago da Presença
lampejos da Presença no momento da desaparição
matéria de um sabor e sabor de uma matéria
que respira em minúsculos abismos
transubstanciação da fulguração total
as cintilações imobilizaram-se no silêncio
de um rastro no vazio
constelado
Tudo arde ainda na minuciosa paciência de uma
dádiva na subtil pontuação de uma apaixonada visão
Intensidade e tensão
da atenção pura
que sabe conter o que não se pode conter
estremecimento que não treme
tudo respira no silêncio
tudo se tornou respiração do silêncio
amorosos dedos de um amor da terra
revelam suspenso
o incessante fluxo
rios de uma extensa estrela tensa
teia aberta
dilatando-se retendo-se
suspensa e retida
pela interminável e silenciosa paciência
das raízes da terra
estrela de sabor a pão
tapete de velha e antiquíssima sabedoria
com um cheiro a trigo e de amêndoa
estrela
e navio submerso
multiplicando-se no espaço
multiplicando o espaço
pedra de infinita transparência
em que se lêem os sonhos e as sombras
paciência ardente
que dominou a fascinação da miragem
pela fascinação clara do vazio
vazio amante
constelado
terra recuperada na distância da infinita proximidade de tudo
mão que penetrou no impenetrável
com a suavidade de uma flexível inflexibilidade
as múltiplas portas salas janelas células
a permanência do intacto
a infinita intensidade do contacto
Quase
a garganta forte a respiração do tronco
obsessão branca
a casa do nome
com o vento das ervas
e o fogo sem o nome
Uma Folha de Sombra
para os teus pés
um muro de água
para os teus lábios
A Nudez da Duna
esplendor deserto
Comentários (10)
Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.
Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.
Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.
Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.
Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).
Viagem através duma nebulosa
1960
Voz inicial
1961
Sobre o rosto da terra
1961
Ocupação do espaço
1963
Terrear
1964
Estou vivo e escrevo sol
1966
A construção do corpo
1969
Nos seus olhos de silêncio
1970
A pedra nua
1972
Ciclo do cavalo
1975
Boca incompleta
1977
A nuvem sobre a página
1978
As marcas no deserto
1978
Círculo aberto
1979
Declives
1980
O incêndio dos aspectos
1980
O centro na distância
1981
O incerto exacto
1982
Gravitações
1983
Quando o inexorável
1983
Dinâmica subtil
1984
Ficção
1985
Mediadoras
1985
Clareiras
1986
Vinte poemas para Albano Martins
1986
Volante verde
1986
No calcanhar do vento
1987
Poema de Antonio Ramos Rosa
António Ramos Rosa_Clip.avi
PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO - António Ramos Rosa, Poema do Dia 22.wmv
Celebrado Hoje Equinócio do Outono 2013 com poemas de Antonio Ramos Rosa
António Ramos Rosa, Grande Prémio de Poesia
Tiago Bettencourt - Nós somos do disco Tiago na toca e os Poetas (2011)
António Ramos Rosa lendo Manuel da Fonseca, 2009
Não posso adiar o amor de António Ramos Rosa
Quem Bate a uma Porta de Folhas na Noite
A Maresia do Mundo
Na capital, vivendo intensamente a vitória dos Aliados, trabalhou no comércio, actividade que logo abandonou para se dedicar à poesia.
Nos anos cinquenta, foi um dos directores das revistas Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia. Colaborou ainda com textos de crítica literária na Seara Nova e na Colóquio Letras, entre outras publicações periódicas.
Como poeta, estreou-se na colectânea O Grito Claro (1958). Estava criado o movimento da moderna poesia portuguesa. Ramos Rosa era o poeta do presente absoluto, da «liberdade livre» e sobe todos os degraus da admiração europeia. Em Portugal é comparado com os grandes escritores nacionais. Urbano Tavares Rodrigues considerou-o como o empolgante poeta da coisas primordiais, da luz, da pedra e da água.
Em meados dos anos sessenta, Ramos Rosa radicou-se em Lisboa, onde publicou Viagem Através Duma Nebulosa (1960). Um dos mais fecundos poetas portugueses da contemporaneidade, a sua produção reflecte uma evolução do subjectivismo, em relação à objectividade. Reflectem-se nela variadas tendências, desde certas formas experimentais até a um neobarroquismo. A sua escrita, caracterizada por uma grande originalidade e riqueza de imagens tácteis e visuais, testemunha muitas vezes uma fusão com a natureza, uma busca de unidade universal em que o humano participa e se integra no mundo, estabelecendo uma linha de continuidade entre si e os objectos materiais, numa afirmação de vida e sensualidade. Nos seus textos, está frequentemente presente uma reflexão sobre o próprio acto da escrita e a natureza da criação poética, a questão do dizível e do indizível.
Ramos Rosa, também tradutor, escreveu dezenas de volumes de poesia, entre os quais Voz Inicial (1960), Sobre o Rosto da Terra (1961), Terrear (1964), A Constituição do Corpo (1969), A Pedra Nua (1972), Ciclo do Cavalo (1975), Incêndio dos Aspectos (1980), Volante Verde (1986, Grande Prémio de Poesia Inasset), Acordes (1989, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), Clamores (1992), Dezassete Poemas (1992), Lâmpadas Com Alguns Insectos (1993), O Teu Rosto (1994), O Navio da Matéria (1994), Três (1995), As Armas Imprecisas (1992, Delta, Pela Primeira Vez (1996) e A Mesa do Vento (1997, primeiramente editado em França), Pátria Soberana e Nova Ficção (2000). Entre os seus ensaios, contam-se Poesia, Liberdade Livre (1962), A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), Incisões Oblíquas (1987), A Parede Azul (1991) e As Palavras (2001). Tem recebido numerosos prémios nacionais e estrangeiros, entre os quais o Prémio Pessoa, em 1988. É geralmente tido como um dos grandes poetas portugueses contemporâneos. Para Ramos Rosa, escrever é, sempre, a necessidade de respirar as palavras e de às palavras fornecer o frémito do ser, os pulmões do sonho, e, com elas, criar a dádiva do poeta. Em 2001, o poeta lançou Antologia Poética, com prefácio e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes
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Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda