Escritas

Lista de Poemas

Acende-Se Algo Na Garganta

Acende-se algo na garganta
A língua distensa ainda verde
dirá talvez o odor da tempestade
e o silvo terrífico nas chaminés

Mas o que está a arder tão baixo
é quase imperceptível
quase nulo
como este voo raso sobre o vazio
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A Que Aparece Nua

A que aparece nua
na trama variável
figura numa teia viva
entre rupturas
alta adormecida
ou sem pálpebras perante o monstro
e informe perde-se sonâmbula
mas não o traço nem as sílabas
nem os resíduos de frescura
no obstinado escuro trajecto
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Limiar Ou o Silêncio

Limiar ou o silêncio
de um corpo obscuro e branco
As hastes vivas
envolvem-no na clareira
em que a sua nudez promete o nome

A fenda escura e verde
em que desliza a mão
sem atingir o inseparável ou o núcleo

Imagens múltiplas
até que os limites se conjuguem
no novo corpo ou na palavra
que o transpõe
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Será Viva Entre Acidentes

Será viva entre acidentes
demolida
a móvel coluna imperceptível
que estaca e se dobra na retina

Um novo furor na espessura cálida
abre-se ao vento e o vento
desnuda investe     a água nua
de uma figura incerta principia

Posso dizer terra fogo ou pedra
porque o limiar está limpo
e a limpidez do ar se afirma
nas sílabas
e na nudez obscura desta página
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As Coisas Que Olhamos São Às Vezes Olhares

As coisas que olhamos são às vezes olhares
rostos     Figuras da matéria
Como as estátuas nos antigos templos
Elas abrem os olhos as portas do olhar

O olhar é uma chave é esta chave
Avanço até à beira ainda visível
As pedras existem Existe esta montanha
São olhares também mas que se apagam já

Eu sei que assim me perco e tudo perco
se não souber arquitectar o fogo
desta matéria nova do rectângulo
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Aqui Está Um Arbusto E a Sua Luz

Aqui está um arbusto e a sua luz
tão branca     O seu volume
é leve surpreendente intacto

Se o trabalharmos sobre a terra parda
não saberemos não adivinhamos
a surpresa da flor vermelha
mas saberemos que insectos o assaltam

Ao vento à chuva
as flores tornam-se negras
são negras e todas hão-de arder
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Um Furor de Espuma Entre As Algas

Um furor de espuma entre as algas
e o abandono de qualquer coisa escura
A violência extrema     a extremidade
desejável
Que verde a violência e que brancura
Neste outro branco agora balbucio
pássaro branco
insecto
espuma
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Escrever a Um Outro Nível de Crescimentos Simples De

Escrever a um outro nível de crescimentos simples de
movimentos simples todos principiando no centro nulo
no princípio nulo Nem os ramos nem as folhas dirão
outra coisa simbolicamente mas serão
ramos
folhas
frutos
conduzindo a seiva
e o ar vivo

Caminho imprevisível o poema invenção das formas
e do espaço
que as transforma
e as esquece

Uma ampla textura de energia e movimento
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Algo Se Duplica

Algo se duplica
e inclina-se
refracta-se
num novo espaço em que se recompõe
Vertigem densa angústia do não igual de um outro qual?
O acaso decisivo
e o gesto imprevisível
negam ao espaço a multidão de imagens
👁️ 896

Quando

Quando
não há sinal na noite em que se escreve     o clarão é branco
alucinante o traço nulo marca no vazio o caminho

talvez um túnel ou descampado

a órbita branca oscila
a noite é que governa as sílabas

Há uma surpresa e um equilíbrio na intensidade
o vento treme     o obscuro emigra
um aglomerado de pedras
e a torre de palavras e de fogo
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).