Escritas

Lista de Poemas

Secreta a Amadurecer E Abrindo-Se

Secreta a amadurecer e abrindo-se
quando a noite é a folhagem
Diria flor ou pétala mas não
Este segredo é de água une-se ao vento

São linhas ou corpos     indecidida
resta a palavra que não segue a imagem
Entre uns e outros respira-se talvez
e uns caem separados na distância
e outros formam o volume branco
que une o obscuro à claridade
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Interrompendo o Vazio

Interrompendo o vazio
busca os seus limites
negros

Divide-se no sol
cintila ou não no espaço
busca a nudez que é ele próprio
uma dança quase
e estes resíduos
em que se reproduz e se desfaz
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O Duelo de Um Braço

O duelo de um braço
lutando pelo contrário
no seu duplo ou duo
branco ou negro     ou negro e branco
forma do obscuro
e nu
e nulo
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Nervuras Nítidas

Nervuras Nítidas
Tal é a língua que não soçobra quando
se perde noutro sulco branco
Vertical e verde
não já aqui ou quando
mas
transposta exactamente
noutro espaço inflectido
onde a branco e negro
outro objecto se refaz numa outra língua
👁️ 739

O Desejo a Surpresa

O desejo     A surpresa
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a

Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem
do que será
se for     o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo
👁️ 979

Uma Felicidade Nos Dedos

Uma felicidade nos dedos
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido

Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos

Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
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Não Deusas Habitam Este Átrio

Não deusas habitam este átrio
onde alguém tocaria uma flauta
No meio da rua está uma pedra verde

A tranquilidade é suave mas incita
a uma inquieta procura     Já não vejo
a montanha na altura     escrevo
na rarefacção do texto inexorável

Os nomes? Que dizer se a trave obscura
se não vê ou os passos já se perdem
A terra espera a paciência de algum nome
👁️ 927

Ancas Intermináveis Flancos

Ancas intermináveis     Flancos
que trucidam quando oscilam     dançam
(Trucidemo-las)
já que elas rasgam templos
e o próprio tempo
e o espaço
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A Superfície da Água Móvel

A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca

O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
👁️ 1 027

Dançam Mas Não Na Praia Dançam Apenas Não Se Sabe

Dançam mas não na praia Dançam apenas não se sabe
o quê numa orla nocturna móvel Deserto na praia A
terra perdeu todos os sinais As únicas referências
são as do jogo Um obscuro combate para quê?
O que roçam os dedos ou o que eles segregam é um
muro de névoa ou uma muralha de astros
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).