O Instante
Quem posso eu chamar, que palavras lúcidas
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
A Ausência
Entre a pedra e a seiva, entre a espessura e a clareira,
num sítio de delicadeza e de silêncio,
cintilando do fundo e num nimbo de brancura,
na atenção mais tranquila e vagarosa,
entreabre-se a figura da ausência através da neblina.
Na penumbra onde pousa brilha o inviolável.
Estremece silenciosa, é apenas uma mancha rutilante
que quase não deslumbra e quase acalma.
Ilumina e obscurece ao tremular o véu
que é ela própria em movimento largo
e nada mais que um véu de névoa branca
que não chega a ser corpo ou forma nítida.
Talvez seja de uma idade antiga ou sem idade
e na onda de dolência e nostalgia
nos leve ao fundo de quanto é abolido
e num relâmpago se abra o fundo imerso
em que a vida inteira vem acima num só gume
de insondável tristeza e de desejo. E tudo e nada
se consuma. O silêncio move
a mancha cintilante e escura
que se adensa ou esvai
até que o instante é já o ido
na solidão de ter perdido o inviolável.
Na Plenitude do Espaço
Um rumor de jardim, luzes sobre as águas, num ramo de espaço em firme esplendor, calor de flancos brancos, estrela de sílex. Estou fixo e livre neste centro com uma intensidade monótona, habitado pelo vento, ao rumor das lâmpadas. Contente de ser teu e de ser meu, na expressão plana do desenho e na expressão redonda do volume, alto em densidade e transparente, animal de fundo e de ar, no equilíbrio fluido de um movimento sólido, glória claríssima que não explode, que não arde, imensa, imensa, mas à medida do corpo ardente, límpido, unificado. A integridade canta, a voluptuosidade canta em pássaro em ar em palavra em lábio em silêncio em corpo. Estou com a luz, na harmonia segura, nesta água viva do universo, alegre, alegre de ser a placidez imensa do azul, quase como um pássaro humilde, delicado, universal.
O Que Separa E o Que Une
O que separa prevalece em suas lâmpadas opacas.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
Terra Abandonada
A incoerente no entanto suave
inundação
uma construção de sombras
em que se encontram caminhos mais aéreos
desconhecidos
com o sabor marítimo do silêncio.
Palavras livres que fluem nas veias
palavras por dizer obscuras leves
palavras ilegíveis e todavia transparentes.
Sinais cintilações
do ilegível que é um deus que ignora
e se esconde entre as pedras no silêncio e no sono.
Terra abandonada
terra onde não regressámos
onde o Incompreendido nos espera
onde já não se repousa na sua paz aérea.
Talvez uma pobreza nos liberte
talvez a simplicidade do ilegível
nos leve ao coração das coisas.
Quem sabe até onde se pode arder
no obscuro sol verde entre as coxas da terra?
Sinais sinais que nada dizem
senão o rumor confuso
das vozes da terra.
Sinais para o fundo e para o cimo
para construir a consonância com a amplitude.
Sinais de vento e árvore sinais de gérmen.
Sinais de ubiquidade inteligente e ignorante.
Sinais inexauríveis que abrem horizontes.
Sinais para a nudez sinais para o aberto.
………………………………………...
De novo a voz confusa do vento
a grande figura fugidia e esparsa
o visceral arbusto das palavras.
De novo o sopro selvagem sobre as folhas
de novo a iluminação obscura e rápida.
Para Além Das Palavras Com As Palavras
Palavras com o seu peso, apaixonadas
pelo seu peso.
Palavras que demoram nas fronteiras do solo,
palavras trabalhadas pelo vento,
palavras com sede como a água.
Até onde as palavras já não possam progredir.
No cimo do cimo, numa árvore de estrelas.
Um deus murmura, se é um deus o ar, o deus do aberto e do intacto.
Tão perto de ser nada, renasço no vazio, renasço anónimo.
Nada me protege nesta abóbada aberta e tudo me soergue.
Tudo é vago, tudo é irmão do vento, tudo é informulável.
Se escrevesses as palavras poderiam ser lâmpadas de pólen.
Mais longe, mais alto desata-se a serpente dos sinais.
Todo o prodígio é de ar, todo o sentido é ar.
Moradia
Talvez serenamente a moradia contínua
de uma limpidez e de uma leveza extremas.
Vejo as dunas da casa as vivas águas
a madeira que é uma nascente lisa
as largas folhas os papéis da sombra.
Sinto um odor novo a ramos e a pólen no silêncio.
A casa sabe a terra, a um inexplorado campo.
Ninguém me estendeu a mão mas o silêncio é cordial.
O corpo que vejo é de uma essencial delicadeza.
A ordem clara da mesa corresponde à transparência do jardim.
O meu pensamento vagueia nulo num vazio habitável.
Compreendo as árvores na sua obscura e leve densidade.
Mais do que nunca estou imerso no ser na sua luz intacta.
Perdi os atributos estou reduzido à essência.
Além é ainda aqui o horizonte brilha no interior da casa.
Amo na tranquilidade do átrio em consonância com as árvores e o mar.
A Volubilidade do Ser
Um sopro sobre as nuvens, sobre as ondas e as árvores
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
Os Signos Na Água
Os inacabados signos
silenciosos
que são a realidade e o desejo,
vejo-os no silêncio adormecidos
como um corpo de água que na água se dissipa.
Que dizer senão a confiança na imobilidade?
Tenho sede de uma nascente de água incerta.
Porquê a violência de uma palavra na simplicidade liberta?
O sabor do mistério dissipa-nos, desperta-nos.
Não toques mais nas formas consumadas
ou inventa ao nível da força errante
o sopro que pelos dedos desliza numa confiança simples.
Incluído
Algo volúvel lúdico involuntário
algo que se afasta e no entanto me rodeia
recebido pelo solo e por uns lábios dispersos
nascente sem começo porque nascida no meio do ar
constância subtil do que já não me foge
não a paciência mas a facilidade
incluído no grande bloco móvel e difuso
errante ignorante ao sabor do sem caminho
emudecido em diáfana lucidez
com o rosto lavado pelos perfumes da terra
nulo o sentido de tudo nulo e pleno
ouço o que me precede e me ilumina
a ausência é uma figura da presença inesgotável
tudo é fugaz e permanente tudo é evidente e imemorial
pertenço à fugidia origem
e desprendo-me e dissemino-me com o ar.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda