Escritas

Lista de Poemas

Um Jardim Um Jardim Obscuro

Um jardim     um jardim obscuro
É da luz que vem o obscuro

Os animais surgem numerosos
Ainda escuros mas sobretudo espessos
Cinzentos sobre o dorso
É inútil olhar

Só um maciço no branco é uma reserva
de um virtual contacto de uma chama
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Uma Figura Na Profundidade

Uma figura na profundidade
no centro móvel foge
e deixa um intervalo de luz
uma obscura arcada para os dedos
na intensidade da luz ou do escuro
Parte-se a serpente    se
e são pedaços

vivos na noite que se agitam
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Talvez Nada Nos Reste

Talvez nada nos reste
senão este trabalho
que divide e rasga a própria ferida

Tudo o que o poema faz desfaz

Mas sustenta a ferida
nas margens mais distantes
da distância
na insensata esperança
no abismo

Tu beijas aqui a dança e o desastre

Já ninguém te vê
palavra nula imediata
Nenhum sinal da aliança viva
um único sinal
dilacerante
acorde

Amanhã de novo buscarei
o lugar sem nome
e o nome inominável
👁️ 969

Talvez Cante Um Pássaro E o Céu Talvez Seja Na Aparente

Talvez cante um pássaro e o céu talvez seja na aparente
tranquilidade um liso tecido
Mas não se sabe como nomeá-lo indefinido vago
móvel sem as formas nítidas através do vidro
Talvez seja mais tarde o céu de novo em seus
pedaços ou o que através da palavra se mudou num
tecto imponderável
👁️ 988

O Que Segrega Névoa E Suor Debaixo de Um Sol Escuro Outro Sistema?

O que segrega névoa e suor debaixo de um sol escuro Outro sistema?
Nada mais do que sombras que não flectem nem respiram
Partiu-se o espelho das imagens
múltiplas
Abre-se o arco do sujeito nulo
no inesperado sopro de outras formas
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Trazem As Marcas do Suor da Noite

Trazem as marcas do suor da noite
Trazem a noite
E são já a noite
na velocidade branca desta escrita

Nulos impenetráveis (habitáveis lâmpadas?)
perdidos nos seus nomes
perdidos vivos

Não são já eles e são eles que
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O Fogo Sob Os Passos Vibra Verde

O fogo sob os passos vibra verde
sem o caminho exacto
A clareira é um lugar em que se está
O centro verdadeiro ou simulacro
imponderável
A aragem nas vértebras
O fogo dos pulsos
O inacessível tronco ardendo no quadrado
E um outro quadro com as folhas e o espaço
ditos não pela boca mas inscritos
na nulidade do vento e na nudez da escrita
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Até À Pedra Que

Até à pedra que
resvala
na terra e no silêncio

o espaço obscuro     estranho
e algo cintilando lá no fundo
nada se diz
porque se vê
não sei o quê ou só o escuro azul
👁️ 496

Com o Instrumento Frágil

Com o instrumento frágil
tudo se ordenaria
concêntrico

Perímetro de luzes
à volta do olhar         Crescem
num início
e disseminam-se

Irisações irrompem
de brisas e de estrume
até à corda nula que apaga o instrumento
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Verde a Lentidão

Verde        A lentidão
da curva
A anca surge branca
A forma vive na folhagem o seu dia

Nuvem cintilante        ou forma
sobre forma
Surpresa dita ou por dizer
um outro sempre

É preciso cingi-lo
inventar-lhe os limites
à superfície branca
Aqui quando se diz
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).