Ó Forma da Minha Forma
Ó forma da minha forma
ilumina estes flancos frios, esta mão crispada.
Que eu respire, túmulo, mas vivo.
Tanta espera vã,
tantos espelhos de máscaras.
Eis-me desconhecido e nu
para receber por rosto um sopro.
Um Excesso de Transparência E de Leveza
Expectativa na nulidade em que nenhum impulso se gera ainda. Escuto ou não, e não é o silêncio que oiço nem o murmúrio do vazio. Quero começar a partir do momento em que sinta o tremor lúcido de uma palavra que surja de uma evidência misteriosa, inelutável, pura. Por enquanto, escrevo sem escrever, isto é, sem necessidade. Ignoro, porém, se estas palavras prematuras não irão precipitar o momento da eclosão em que o silêncio espontaneamente se manifesta através de uma formulação que seria a própria pulsação do informulado. Estou completamente árido, nulo, apagado. É, todavia, nesta clareira de cal que devo permanecer. Ninguém aparecerá, nenhuma presença viva virá acender a paisagem. Continuo a escrever no meio das pedras, sem sequer o rumor da folhagem. As palavras, que são as palavras que vagarosamente vou juntando sem felicidade, quase sem ardor nem gosto? O momento único não surge, talvez nunca venha a surgir. Mas é na expectativa desse momento único que continuo a escrever desesperadamente e contudo com uma certa confiança, confiança que move estas precárias e quase nulas palavras. Tão devagar escrevo e tudo é ausência ou separação. Porque nem sequer a passageira luz da alegria? Onde há palavras porque não está a nascente, porque não a brisa? Na verdade, o que procuro é um espaço para respirar. Que as minhas palavras desenhem uma paisagem aérea, silenciosa, inicial. Dir-se-ia que algo me impede de forçar, de pesar, como se a eclosão da palavra viva só se desse num excesso de transparência e de leveza! Estou perdido de não chegar a nada, mas agora leve, mais leve, vou abrindo o espaço adolescente em que o movimento se inclina para a frescura de uma primeira idade. Algo passa inteiro, animal ou deus, e a sua ausência é a completa felicidade de um sulco que é tanto silêncio como palavra nua. Passam as figuras sem se revelar, profundas e ausentes, e os seus gestos cintilam nas misteriosas expressões. O firme timbre das frases repercute a passagem vibrante das imagens que se libertam nas águas. Algumas abrem-se em curvas de concavidades. Escrevo agora na companhia efémera de presenças puras. Poderão as palavras dizer as cores, a doçura, o perfume que transforma o exílio no claro paraíso do silêncio? Agora escrevo na coincidência e na amplitude do aberto. As pobres palavras tornam-se ardentes, unificadas, vivas evidências de uma nudez enigmática. Quantos caminhos se abrem na página respirável, quanto azul se propaga nas palavras nuas, quanta sombra pelo calor adentro!
O Encontro
Por vezes, sem qualquer esforço, sou uma atmosfera ou identifico-me com um arvoredo, com a sua cor sombria, cor de veludo e silêncio, cor de estar ou ser, intemporal e densa. Eis onde vivo por momentos. Onde sou uma respiração do silêncio. Ou então uma encosta. Umas quantas janelas onde já ninguém vem assomar-se. Uma faixa oblíqua de cor ensimesmada no abandono de uma tristeza que é um gesto da imobilidade. Alongado, profundo, externo gosto de ser e nada mais. Estar ou ser no encontro tornou-se a exactidão pura de uma densidade tranquila e suficiente, internamente imensa. Contemplação intensa e calma, como liberta do desejo, e todavia a forma e o fundo do desejo como substância única, salva numa completa tranquilidade. Neste muro inabitável, por abandonado e solitário, está a mais viva e a mais sossegada habitabilidade do mundo. Sinto a vibração aérea do imperecível e todavia efémero. Sou agora, abandonando-me, o próprio encontro com o que não responde e que responde no silêncio do inanimado. Horizontal, vertical, estou reunido como uma pedra e não me afundo, não soçobro entre a sombra e a água.
Viver Em Ti
Vivo sem ti. Tu mesma, em ti mesma, quem és tu? Inexpugnável, no círculo de ti mesma, tu mesma em ti dentro, quem és tu? A minha ignorância do teu ser é completa. É a distância de uma total separação. Porque eu nada sei, nada, nunca saberei de ti um lábio, um impulso, um ardor de ser, um sossegado olhar, uma sensação feliz, uma sílaba viva do teu corpo. Queria ser-te, queria estar em ti, no mistério vivo e absoluto que tu és. Queria ser o deus fascinado de ti, no centro de ti, vendo-te, cheirando-te, sabendo-te, ouvindo-te, todo redondo e cheio, dentro e fora de ti, no vazio de ti, na espessura ardente e obscura do teu ser. Como te quero assim, no inteiro contacto, tocando-te e respirando-te, ardendo onduladamente em tuas veias! Esta é a mais perfeita glória, o gozo mais pleno, a mais maravilhosa identidade. Estou em ti e já nada me distancia ou me separa do que tu és dentro de ti e fora de ti. Estou dentro de ti, cego e luminoso, sou o teu espaço interno, o teu permanente renascer. Sou agora o que tu és, um caos suave e tumultuoso, um movimento permanente de sombras e de luzes, de ritmos e de cores. Estou dentro do teu corpo, maravilhosamente dentro, no sol do teu sexo, no centro da tua consciência. Sinto-me extremamente vivo em todos os teus poros. Toco o que tu tocas, ardo onde tu ardes, respiro o que tu respiras. Tudo o que eu disser é a tua própria palavra, a tua confiança vertiginosa, o teu alento de fulgurante ignorância.
O Excesso do Simples
Quando estarei desperto, preparado para? Na verdade, nada pressinto, a minha espera é vazia e prolonga-se no vazio sem qualquer rumo ou perspectiva. Onde a consistência interna de um corpo, onde a água, onde o subtil temor do perigo? Escrevo no entanto para a aceitação do mundo, para a perda e a festa reunidas na palavra inicial. Mas como, se não oiço ninguém, se não busco nada, se não procuro ninguém? Aqui não é aqui, mas o vão, o inominável obstáculo que é talvez o vazio. Voracidade e luz. Sol sem sombra, superfícies e superfícies brancas, ofuscantes. Vivo entre abandonos: abandonando, abandonado. Mas alguém respira na intensidade extrema do silêncio. A sua palavra é água e principia e completa. Mas essa voz agora está calada. E estas palavras separam-se, sem volubilidade, sem os seus gestos novos. Escrevo no entanto por uma vida selvagem e delicada e neutra. Algo busca em mim outra boca, algo inventa o júbilo da nudez do fogo. Atinjo o excesso e o excesso é o simples, o fortuito, o imediato. Eis que a pedra canta silenciosamente uma canção.
No Ovo da Sombra
Escrevo não para abrir um espaço, escrevo talvez para me fechar num grande ovo de sombra com árvores imensas e lâmpadas de pedra. Longe, longe, longe, na amplitude, no compacto, na ignorância cálida, na perfeição fechada do enigma. Eis que encontro o encontro na cegueira azul, no silêncio da afasia, na boca apagada e escura, na imobilidade vegetal. É o regresso ao sim do sono e à densidade terrestre. Conheço agora a palavra que não vibra, a palavra imersa no sal da sua sombra. Longínquo, longínquo é o espaço onde nada ressoa, onde tudo flui obscuro e aéreo, onde nada se diz, onde nada se perde.
O Silêncio No Corpo
Procuro o espaço, procuro o corpo. Escrevo, não para confirmar, mas para descobrir, para iniciar. Como que procuro o gesto que seja o gesto do ar, que inaugure um lugar aberto e transparente. A substância é imponderável, nada prescreve a ordem libertadora, não a conheço, não a pressinto no silêncio e na ausência. Continuo todavia à superfície e é aí, entre a folhagem das letras, que a palavra pode consumar-se e abrir o espaço inteiro. O silêncio que escuto é o silêncio dela e pela sua própria ausência ela me é de algum modo sempre presente. Não posso ouvi-la, mas sem palavras ou mesmo através delas, bebo inteiramente o seu silêncio. Dentro do corpo, o sono, o sangue, a sombra da palavra. A plenitude de uma nascente serena. Não será já preciso dizer a frase que abriria o espaço e inauguraria o lugar aberto e transparente?
Na Perda Sem Perda
Donde parto — acaso partirei? Porque não me poderei manter na expectativa da não-espera, aberto e nulo, ao nível exacto da sombra, apagado e porventura vivo ainda, sobre uma folha, como um insecto, dormindo sem avidez, envolvido por fugidias sombras, igualado ao silêncio de mil rumores vegetais? Porque me abri eu, porque parti? Posso acaso regressar ao primeiro embalo do ar, que não era quimera nem visão, que não era nada ou era a simplicidade aérea, a completa entrega de um corpo verde que se prolongava pelo espaço, que era espaço e se demorava na imobilidade como num sonho? Que volúpia, que nostalgia! Quando fui assim? Quando serei assim? Será que, escrevendo, me aproximo desse letargo ardente, será que, na sombra do que escrevo, no vazio que abro, abrigo a criança feliz que nunca se perdeu e que na perda não permite a perda? Sei agora talvez o sabor de outra ignorância. Dir-se-ia que o impossível desejo se volveu na respiração da página e na abertura do corpo. Nada começou, tudo terá já começado, mas é agora que as palavras se apagam nas veias suaves do ar, é agora que, nas altas ervas do espaço, um corpo se entrega e se consuma unido à boca do silêncio…
Palavras Terrestres
Ante a imensa e silenciosa insistência de um céu imaculado, os lábios libertam-se, dilatam-se, dissipam-se e reúnem-se, flexíveis, numa boca de sombra e esquecimento. Palavras ou não palavras, nomes silenciosos, ascendem de um fundo ilimitado e obscuro. Um corpo em formação dilata-se, volátil. Na velocidade lenta que se espraia, corola imensa, a felicidade grita. Impaciência ou paciência, a vigilância infinita do poema. Escreve-se agora surpresa, sabor, sílex, espaço, palavras talvez, palavras terrestres, mas nada mais que folhagem, brancura e sopro.
A Voz do Papel
Aqui: mas não há um aqui para o ser perdido. Dilaceração do que perdeu o pulso e mal respira, sem ritmo, sem horizonte. Quem fala em voz baixa, voz de terra, idêntica, sussurrante? Nenhuma árvore próxima, nenhuma palavra habitável, nenhuma pulsação terrestre. Espaço, espaço, talvez o espaço de uma palavra perdida. Extrema tenuidade nas frases esparsas, enubladas, nulas. Nada se concentra em clareira ou sombra, nada fustiga o centro da ausência. Nula e nua é a voz branca do papel que não figura, que não abre, que, sem interstícios, repercute uma única matéria inerte.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda