Escritas

Lista de Poemas

Ao Nível Das Raízes

Sorvo uma onda verde sem consciência e todas as formas flutuam.
As palavras levantam-se com pequenas cabeças negras.
Oiço um diminuto fragor de grãos de areia ou de milhares de insectos ou de formas que vão despertar ou de pedras que se erguerão como uma torre incandescente.
Escrevo na obscuridade da folhagem ao nível das raízes.
Uma palavra suspende-se, tremula e tenta fixar-se como uma sombra febril.
Escrevo ao sopro de uma promessa em que tudo se torna presságio, iminência, vinho do vento e língua de uma transparência que nunca é tempo nem presença, mas o imperceptível instante que alia a nostalgia e a promessa.
👁️ 993

Não Dissemos As Palavras Mais Simples

Não dissemos as palavras mais simples
a caligrafia das águas sobre a pedra     uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical
👁️ 1 072

Ei-La Despida Ou

Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada

A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde

O vento é a inteligência libertada

E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
👁️ 942

Como Dizer a Outra Face Num Vislumbre

Como dizer a outra face num vislumbre
uma figura respirando
na transparência
e a face transposta no suplício ou no prazer
das linhas
no branco     o novo solo
Lê-las ou pisá-las com o estrume
tremendo no temor de estarem vivas
com raízes inextricáveis e vivazes
👁️ 508

A Palavra Oscila

A palavra oscila
avança e vibra no vazio
👁️ 1 026

Sucedem-Se As Imagens

Sucedem-se as imagens
sobre imagens
em busca de um alvo que recua a cada avanço inacessível
É preciso deter esta corrida e procurar o caminho da palavra

no branco que a desloca

suscitando
a nitidez nua de umas frases
que esparsas se reúnam num só corpo
👁️ 1 012

Inexplicável Para Não Explicar

Inexplicável para não explicar
saborear na língua a virulência
de uma circulação
de um influxo

Ligeiros jogos na aparência
mas o trabalho sempre do arado
o rosto exposto
à incessante ressaca
da terra

Material e método de uma experiência
a vida aberta gasta
até à transparência
aqui e além de uma palavra
Corpo e língua acesos
pela mesma obscura deflagração
👁️ 826

Há Uma Clareza Nas Pedras

Há uma clareza nas pedras
Uma obstinação ligeira nestas vespas
Entre a inércia e o voo
o fogo do ar
um sono escuro             dos animais

o grande sono da brancura
👁️ 918

Dizem Que É Jardim

Dizem que é jardim
porque repousa

E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas

Mas que dizer da trama
em movimento?

Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
👁️ 864

Húmido Como a Névoa

Húmido como a névoa
assim ainda se diz

Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa

Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura

Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
👁️ 1 033

Comentários (10)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).