O Abrigo
Enigma vivo, avança na busca impenetrável
sobre o abismo ou sobre a maravilha. Só há um movimento
de descida à nascente. Vivo, eu vou também
para o lugar que me aspira, verde coincidência
de um abrigo que é espaço de descanso e de encontro.
Estamos no fundo incessante, na espessura materna
da figura submersa em profusão harmoniosa.
Ela não é ainda real, mas já é um ritmo, uma cintilação,
o fulgor de uma folha, um queixume exultante.
Que movimentos lentos, que pensamentos suaves!
Alguma vez se abriram as portas do início?
Uma voz se eleva entre o pressentido e o sentido.
As frases não se distinguem das sílabas da folhagem.
O que não cessa apaga-se e desaparecendo nasce.
A água adormece. A sombra declina.
Escrita Ou Corpo
Ele prepara os incertos lugares. Escreve
o que escreveria um réptil pulsando sobre as pedras.
Segue a linha do braço da mulher até ao obscuro
lábio. Penetra na musgosa gruta
incandescente. Que perfume ancestral,
que orvalho ardente! Ele aprende a suavidade
da sombra e a luz de um aroma. É uma escrita
de voluptuosas armas nas páginas do vento.
Quando a pedra encontra a transparência
ou a transparência se tornou uma pedra,
abre-se o espaço das palavras que nós somos.
Monotonia alegre de uma serpente de água.
Que insensatez tão certa, nada começa, nada acaba.
Quantos astros cintilam sob as pálpebras!
Quantos barcos se acendem na folhagem!
O Jardim
Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
O Crescimento Escreve
A trama é verde num clima de brancura.
O crescimento escreve. Como uma flor se forma
em eficaz simplicidade. A energia é lenta
de uma lentidão silenciosa. Somos um fragmento
de um obstinado discurso de brancos arabescos.
Matéria porosa, transparente. Eclosão de torsos
sumptuosos, delicados. Génese violenta, límpida
dos corpos. Lisas, flexíveis, insinuantes formas.
O olhar vê e adere e escreve as carícias voluptuosas
deste caminho silencioso. Em fogo, em água, em terra
e ar. Que multidão tão branca e nua,
que exuberância calma, que prodígio aberto!
A afirmação do fundo é evidência aérea.
A luz nasce da água, tudo está suspenso,
as figuras dançam no círculo do princípio.
Completo No Ar
Quando surge, substância subtil em rotação
de oferta, abre-se no rumor um espaço de silêncio.
Ponto imóvel. Luz branca. Incandescência.
O alento esqueceu-se de si e prolonga-se na luz.
Completa no ar é a realidade do desejo.
São lábios, são sementes, são dedos sobre o pólen?
Aprendemos a leveza das pétalas, o peso dos insectos.
A visão move-se, a lentidão é beleza.
O pensamento despiu-se e flui como uma onda.
O corpo revela a sua frágil, líquida, obstinada
violência. As coisas vibram, nuas,
incandescentes. Todas as nuvens ardem
azuis, vermelhas, brancas. No centro está o diamante lúcido.
Tudo abstraio até onde começa a transparência.
O poema apaga as letras e depois respira-as.
Esta Lacuna
Esta lacuna à qual adiro, mais próxima do que a mão,
e que se estende branca, interrompida, aberta,
semelhante aos lábios. Serão palavras, serão pedras
as formas que diviso antes de qualquer caminho?
São figuras do ar, são evidências do ar?
O fogo dissimula-se no espaço, o fogo pronuncia
espaço. Volúveis os dedos oblíquos
seguem um sinuoso rosto. Avançam e separam
até que o sol e a terra se confundam
numa densa folhagem verde e silenciosa.
Na frescura das volutas é o vazio que respira
sem suporte e sem espessura. Tudo se obscurece
ou ilumina. Abro os olhos no centro.
Amo tudo o que é vivo, falo às pedras e aos ramos.
Perco-me e encontro-me na leveza do desejo.
O Círculo Cego
Uma linha expressa a cor e o som
das suas células. As palavras são pétalas
de pedra ou gotas do espaço. A chuva
levanta o mundo. Não há conhecimento
que mereça o nome do mais obscuro ruído.
O universo é mais lento e mais intenso.
Obscura luz obscura. Pirâmides de sombra.
Falamos com a respiração encerrada numa pedra
para que não se rompa o círculo cego.
Guia-nos a suave mão do vento.
Na brancura rápida há um tremor de gérmen.
Somos feridas vibrantes num jardim de veias.
Tocamos o rosto do ar e a suave lua de areia.
Uma aranha branca desenha um arco minucioso.
Esta é a pequena fonte junto a um arbusto resplandecente.
Perdi o Nascimento da Árvore
Perdi o nascimento da árvore. O acaso
chove sobre as minhas páginas brancas.
Quero apertar a argila entre os meus dedos,
possuir a madeira, o sal, o vidro, o fogo.
Quero ouvir a canção que é uma ilha de chuva.
Escrevo. Uma música hesita entre ser água
ou espaço. Uma palavra cinge a luz
do ar. Uma folhagem abriga o rosto.
Descanso como a água inteiramente em si mesma.
Aqui é a redondez de um aroma de silêncio.
O tempo que leva uma sombra a cair
é uma evidência que abriga obscura e leve.
Cerimónia pura em lugar tão aberto.
Que sede de água com as mãos ardentes!
Cai o corpo no corpo e o silêncio no silêncio.
Onde Li Eu Os Amplos Caminhos
Onde li eu os amplos caminhos, os carros
de madeira perfumada, os bois obscuros,
os brancos cavalos? Onde li os jardins
das mulheres e dos pássaros nocturnos, dos sussurros
marinhos? Como se alguém tocasse suavemente as nuvens.
Como se alguém unisse num abraço ligeiro
o esquecimento e as formas, o negro interno
e a brancura exterior. Um planeta vibrava.
Não sei que dia foi, não sei que nome tinha,
era um jardim, ou talvez uma casa, o mar, um monte.
Tu preenchias o círculo completo, totalidade limpa.
Acordavas sorrindo em segurança clara.
Quantas arcadas brancas na tua dança viva!
Que maravilha despertar ou adormecer contigo!
Que intensa luz de sombra, que rotação imensa!
A Leitora
A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.
Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,
branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda