Nudez
Toquei um nome quando a luz amanhecia.
Era uma ferida menor do que um suspiro.
Ondulava um campo, um luminoso mar.
Nada podia faltar porque as palavras o diziam.
Imediata era a sede, o coração na espuma.
Cheguei e era o espaço, a suave inteligência
de um corpo. Eram pálpebras e lábios.
Era um pássaro, o pulsar de uma pedra, os dedos
como um sopro cálido, o vento nos cabelos.
Era leve a nudez e a frescura da sombra.
Nasci dormindo, sonhando, abrindo os olhos
num pleno descanso transparente. Conheci
a realidade completa do desejo, o diamante
da água. Voluptuosa, a folhagem estremecia.
Eu adormecia a teu lado como um puro esquecimento.
Tu erguias-te da penumbra vegetal. Uma mulher
nasce sem cessar. Tu ardias na aresta azul
do horizonte. Um pássaro cantava
no centro de uma árvore. Eu vibrava
numa terra imóvel, num país imenso.
O Obscuro
Porque o obscuro cresce e cresce em ambíguas sombras,
porque a folhagem sobe já os declives, porque a boca
respira a árvore obscura, porque o suave clamor
das sombras se propaga no nocturno espaço.
Frases, que possíveis frases imediatas e seguras
oferecem os arcos da tranquilidade luminosa?
Onde a ternura e o perfume, onde o pulso
amoroso que navega na aragem?
Quando poderei consumar-me na certeza do espaço?
Algo oscila em mim como uma folha, algo diz sim.
É uma corrente de ar brilhante, é um lugar que emerge
de obscuras veias. Que leveza no vento! Estou no meio do espaço.
Oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.
Sou renovado pelo espaço, nasço num espaço verde.
O que eu amo está perto entre a terra e o ar.
O Corpo Fugitivo
Avanço ou não avanço. Nada muda.
O fulgor de um animal furta-se aos sinais.
Violentos raios sinuosos, pulsações
de uma trama verde ilimitada.
Separar. Dizer. A noite cintilante.
O sopro incerto prepara um outro corpo
na deriva do fogo que corre em águas negras.
Vegetais se desenham as manchas mais escuras.
Em traços verticais compõe-se a transparência.
De uma frase a outra respiro o ar da ferida.
Membro a membro toco o corpo que inicio
no desejo de chegar ao vivo, num trabalho líquido.
É o mundo que se esvai, o corpo fugitivo,
todo o amor nos olhos claros se incendeia,
a altura arde, a nudez é imensa.
Falo de Um Desequilíbrio
Falo de um desequilíbrio gracioso
de um corpo. Linhas que se desagregam quase
unidas, na violência da sombra, por um raio de sol.
Pressinto a terra da minha sede, a terra do meu desejo,
escura, saborosa. E falo aqui da noite
e da figura frágil que eu amo, o seu espaço
que ignoro, o seu quarto intacto, o seu odor de rapariga.
Estes traços são negros como árvores. Uma parede
abriu-me os olhos: vejo linhas que dançam e brilham,
segredos que cintilam, sopros cegos, vocábulos da terra.
Oscilante, sempre, uma figura está entre as árvores, triste.
Que sei eu destas pétalas, destes pulsos, desta água?
Há uma felicidade fulgurante na sua nostalgia.
Eu desejo as palavras das suas fibras, a saliva da sua língua.
Desejaria habitar o seu caminho, bater à sua porta.
Eu não pertenço a nenhum reino, sou uma árvore
que não sabe ser imóvel para estar em tudo.
Sou esta mão que procura as evidências mais simples.
A figura amanhece entre oblíquas brisas, solitária.
Nada obscurece o canto da água nem as mãos antigas.
Uma Mão Vazia
Uma mão vazia que poderia ser, um deslize
que multiplicasse os arcos e as figuras
transparentes. Um sopro da paisagem, um erro
dilacerante e puro, um perfume, um segredo.
A vida ampliou-se sonâmbula sob o vento.
Ninguém divide o rio: evidências, enigmas,
libertam-se na folhagem em animais do ar.
Ó antigas ervas, amadurecidas pedras, cores
nunca sonhadas tão simples, ó lisa confiança!
Tão suave, tão imensa a onda nupcial!
Alguém escreve? Alguém saberá dizer as adivinhas
cintilantes, os murmúrios, as móveis manchas
de um só corpo liberto em clara confluência?
Nenhuma palavra diz a alegria do vento.
Esta é a terra nua da nossa identidade.
Um Corpo Vegetal
Um corpo vegetal repousa, um corpo de sossego
em leves impulsos, em silêncio e cor.
Óleo sobre os lábios, penumbra, júbilo. Lâmpadas e muros.
Este é o instante branco dos imóveis relâmpagos.
Vagueio entre ondas amantes, entre dedos e folhas.
Sou um viajante em núpcias com a sombra
e com a luz. O mundo não sonha. Sonho eu as coisas?
O mundo amoroso sinto-o nas paredes, na inocente vertigem,
é sempre um corpo unânime que murmura na folhagem.
Num frenesim disperso abraço esguias formas.
Os meus companheiros são vagabundos ténues, inocentes selvagens.
Que plenitude vazia, que viagens tão leves!
Não outro mas o mundo das antenas amorosas.
Formas insubmissas, formas felizes, formas vivas
que o olhar bebe num sossegado assombro.
Os Campos Paralelos
Que chuvas despertam os campos paralelos?
Onde a pátria do corpo, a pantera do ar
delicioso? A realidade apaga as suas lâmpadas.
Resta uma estrela sem fogo, o abismo das moscas.
O corpo compreende o que significa ser corpo?
Num crepitar de gozo, sobre a impassível superfície
branca, inclino-me para a chama que se levanta
como um pássaro vigilante. Todas as feridas se iluminam.
Surgem formas nos seus nítidos contornos sossegados.
As corolas do ar voltijam num súbito esplendor.
Sei onde aguardar agora amorosamente
o barco que passa para o outro lado do rio.
Quero levantar a casa transparente sobre a água.
Quero conhecer o ar e o sexo de relâmpago
e barro. Quero ser um sopro da unidade perdida.
Encontro No Vazio
Apenas uma luz ínfima num verde subterrâneo.
A textura mais secreta, o esplendor inerme.
Um corpo, um corpo ainda suavemente amoroso,
mas em ruínas, em cal, em transparência vazia.
Uma esfera partida em ombros e cabeças,
em volumes exíguos, em palavras esquecidas.
Tudo se perdeu no vazio, tudo se encontra no vazio.
Intacta é a matéria materna, a nocturna folhagem.
Fragilidade da montanha, aérea a brisa subterrânea.
Que idade recomeça no princípio da música?
Uma cálida cabeça ama as folhas de mercúrio
e sombra, a pausa harmoniosa, a linha de equilíbrio
e de repouso. Lentamente tudo se desloca
para uma luminosa boca de água e pedra.
Ó delicada pele, ó melodia nua do vazio!
Tangência No Centro
Até à terra, sem me inclinar, inclinando-me,
a cabeça idêntica ao solo circular,
lenta velocidade num fundo indefinido,
relação de folha e língua e pedra e água
e ar, leve tangência de um imenso sopro.
Cheguei a um silencioso, a um suave centro.
Desperto um fogo errante em minúsculas crateras.
Estou isolado, aberto a uma vida repentina.
A minha boca é incestuosa, os meus lábios verdes.
Há vozes submersas, há palavras que requerem
a visão das pálpebras. Sinto-me ligeiro
como um pequeno peixe, uma coisa vagarosa.
Feliz, feliz, na frescura das veias, nos músculos libertos.
Ouço as flores bebendo luz, ouço o esplendor
absoluto. Como saberei cantar no grande círculo móvel?
Lugar de aroma e claridade e de palavras,
o ar e a água e o fogo, o murmúrio essencial.
A primavera ascende com uma leveza de sílaba.
Tudo oscila em hastes e flores e folhas.
Suave fulguração de horizonte a horizonte.
Omnipresença Imediata
Ela é nuvem, omnipresença imediata,
a mais viva, a mais próxima, imperceptível,
sem contornos e sem caos, a mais antiga
e a mais nova, em suave movimento,
omnipresença do ar, infância leve,
profusão inicial que o olhar não capta,
sempre feliz e aérea, mas quem a vê, quem a demora?
Ó atenção inocente e amorosamente desarmada!
Todos os vivos se inspiram deste sopro que ilumina
e que consagra o solo antes que os deuses cheguem.
E todavia, nenhum abrigo. Imprevisível, livre,
não ouve de nenhuma boca o seu caminho.
Não força nenhum obstáculo, obedece à gravidade
de forças puras. Amplitude sem reserva,
o seu canto irriga obscuramente o mundo.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda