Escritas

Lista de Poemas

SEM GRAÇA

A praça 
Oferece árvores flor e jardins
Passeio gramado e calçadas
Porém está deserta

O deserto
Acolhe pessoas carros e dunas
Vasta areia a céu descoberto
Porém sem jardins

O mundo é canteiro 
Fértil de escolhas


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👁️ 117

ACINTE

A loucura é possível acinte 
Desconexo incidente intrínseco da mente
Daquilo que arrebenta a origem
Complexa mutante do todo 
Transeunte sob a finita face reticente

Pressuposto acidente acontecendo e ocorrido
O horror escorre feito sangue 
E traz o torpor por desdobramento pendente
Mordido e absorto pela dor
Espúria e contundente

Vivendo de modo aturdido
Eu louco advirto e previno-me incólume
Antes que a lucidez me raspe o juízo
E eu ache demente e sinta-me impune
Ante todo ser vivente


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👁️ 151

TOLICE

Crio um parêntese no meu dia

Paro para olhar a chuva na porta aberta
Com o frescor do respingo teimoso na cara

O cair da agua chiando demora
Retorno ao poema salvo na tela

Quanta tolice comete o poeta
A poesia acontece ali fora


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👁️ 103

PACIENTE

Meu barco fazendo agua
Seria isto suficiente para um breve desespero
Sinal de alerta para qualquer jovem marujo

Ah o velho marinheiro continua seu curso
Remando paciente buscando o cais
Uma vez já mais perto que distante do porto

Essa a lição da maioridade
Desprender-se do casco ainda que erroneamente nade
Ir adiante mesmo que convalido definhando afunde

Pela certeza de chegar a qualquer ponto
À frente ou abaixo do esperado encontro
Há o acaso entre o azar e a sorte de haver partido

São assim as conquistas os amores os sonhos
As paixões que traspassam o turbilhão do tempo
Somos todos navegantes desse mar incerto



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👁️ 182

VAGALUME

Vivo iludindo meus sonhos aclarando espíritos
Como faz o pirilampo que afugenta o escuro
Tornando-se fulgente entre abelhas e mosquitos

Encanto-me com singelezas acendendo ideias
Em pleno espalhamento da luz porem sem ser estrela
Ilumino a minha casa com o fulgor da própria asa
Com mínima e parca energia imanente das colmeias

Entretanto espia-se o brilho e pouco importa se ligeiro
Sinuoso esvai-se ao breu como escorre o tempo
No inconsequente entremeio existente entre as fendas
Por mais que se apertem os dedos o que importa é o legado
Mútuo entre mestre e aprendiz seguido por primeiro

Alguém ao aperceber-se talvez da ousadia do vagalume
Possa invejar ou julga-lo por seu lampejo fugaz
Ser de pura insensatez querer se almejar lanterna
De minha parte porem desejo unicamente que a luz 
Independa de brilhar mas aclare áurea e alma 
E fortaleça nosso ser tornando a vida mais bela



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👁️ 113

BRIOS

Certo rio certo dia deixou de viajar
Empoçou suas aguas entre bancos de areia
Cansou de invadir o mundo das barrancas
Perdeu-se nas próprias pedras e beiradas

Um senil pescador que nadara em seu fundo
Chorou sete dias e viu que as lágrimas
Corriam saudosas no regalo do leito
E que naquele peito vida ainda haveria

Reuniu lá da vila todos os condenados
A viver sem futuro por falta de brios
Despertou-lhes a fome da fartura de peixes
E os levou para a ponte já sem necessidade

Juntos simplesmente insanos sonharam
Com a correnteza refeita novamente fluindo  
Assim conta-se que o rio voltou a rolar
Mas já não sei confirmar pois mudei de cidade



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👁️ 87

AINDA AGORA

Desde domingo reconto as horas
Enumero os anos
Domino o menino que foi embora
Embora ele venha a qualquer hora
E se valha do velho que existe agora

Se velho não seria ainda
Talvez antigo nos preceitos 
Usual nos conceitos diria aprendiz
Generoso por inteiro e arteiro
Aquele que revalida a própria história

Não faço questão dos demais dias
Se desde domingo decanta o tempo
Que afunila e desprende a fagulha
Que ainda acende a vaidade de outrora
Mesmo que a validade da idade desentoa

Tem sentido ter duplo medo
Só não preciso alarde e espanto
Quanto custaram-me bons segredos
Advindos do que serviram antes
Aguardo-os que me valham ainda e agora


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👁️ 91

QUE FIZERAM DE MIM AS ESTAÇÕES

Fria manhã de inverno
Lá fora a relva úmida
Exala interno sentimento
De que o âmago da vida
Resume-se a meras palavras escritas 
Guiadas por pautas traçadas
Em branca folha de caderno

Iluminada tarde de primavera
Lá fora jorram cores
Por nuvens claras de cera
Onde os olhos reviram de amores
As promessas ilusórias
Descritas entre quintais e jardins 
Em belas pétalas de flores

Quente noite de verão
Lá fora entre luzes acesas
Descansam as sobras do dia
Vertentes da escuridão
Digitais gravadas na mente
Prescritas fórmulas 
Reverberando alegria

Soberba madrugada de outono
Lá fora dorme a natureza
Espremida entre silêncio e breu
Nem tão quente nem tão fria
Remando as barcas do tempo
Vagueiam sonhos tardios
Repletos de astucia e pureza
 
Que fizeram de mim as estações
Presas a tantas e todas que vivi
Uma parte da vida bem as senti
Outras me voaram por indícios
Sou eu ator partícipe destas cenas
Ainda que as traga em círculos 
Recompostas de lembranças
 
Se sorri ao ouvir gritos
Ou gritei ao me ver sorrir
Misturei meus labirintos
Transpus máximas e os venci
É porque observei lá fora
Que o passado está aqui dentro
E o futuro efeito incerto do agora




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👁️ 155

NASCI

Não chorei porque nasci
Não senti o corte umbilical

Chorei somente no momento seguinte
Para que alimentassem a fome
Do tênue ar a carne que me trouxe aqui

A primeira lição foi respirar
As demais adquiri

Ademais sobrevivi


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HORIZONTES

Nasci entre caudalosas lagoas de rios

Por cujas beiras de areia crescera a cidade

Mas eu na contramão das aguas

Deixei de aprender a nadar

 

Mal molhava os pés

Já antevia possibilidades de afogamento ao lacrimejar

Chorando assim embainhava cismas e medos

Recomendados por meus pais

 

O fim daqueles dias também morria todas as tardes

Abrasado entre as correntezas

Mas subitamente emergia na oposta margem das manhãs

 

Eu não entendia aquele fascínio caprichoso do sol

E como jurara viver para teimosamente revê-lo surgir

Sentia vontades mas acovardado com ele eu não fora jamais

 

Agora distante daquelas doces aguas e na borda do mar

Espero sozinho o sol trazer-me os mesmos brilhos de outrora

Pois sei que ele ainda se perde naquelas aguas distantes daqui

 

Não mais choro nem de medo nem saudades

Pois descobri os significados de ocaso e aurora

Idêntico ao sol que intransigente pra dormir

Cruza resoluto e aclara a pequenez dos meus sonhos

Ante a imensidão do meu país



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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!