Escritas

Lista de Poemas

PEDREIROS POETAS

Não, não sou poeta pelo simples ilógico querer
Tanto que por vezes incomoda-me a poesia
Poderia estar gozando de outras formas de prazer
E justamente estar lendo o que alguém outro escreveria

Mas quando isso acontece eu me despeço da leitura
E vejo-me no involuntário clamor de fazer poema
Some do meu derredor todo o concreto da existência
Entrego à minha mão o verbo que a mente ordena

Então vou construindo palavra a palavra os seus anexos
Como um oleiro funda alicerces de argamassa e argila
Depois edifica casas absorto no suor do rico ofício

Quando se vê encontram-se ambas lapidadas, concluídas
Mais uma e outra e outra obra predicadas do Arquiteto
Feitas de magia, sonhos, barro, sintaxes e raros versos



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MEUS PROBLEMAS

Sentado aqui no macio conforto da sala
Sou vitrine para as nuvens calmas
Que passam e me olham de soslaio

Também para um coqueiro carregado
Que aproveita o vento e balança altivo seus cachos
E ri da minha sede pois sabe que lá não subo

Por vezes voa algum apressado pássaro
Levando insetos no bico ou no papo
Ignorando que existo como ele do vagar

Permaneço abstrato tomado na preguiça
Ciscando palavras no terreno do alfabeto
Enquanto as acho para mais alguns poemas

Nada mais passa pela minha janela fechada ou aberta
Senão a natureza de cada coisa verdadeira ou falsa
E o tempo impiedoso desprendendo meus problemas


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UM MESMO SONO

As minhas mãos tem luvas
Assim posso tocar despreocupado
Em tuas feridas
Os meus ouvidos estão vedados
Então não ouço os teus apelos
Teus gemidos de dor não apiedam

Entre um curativo e outro
Tomo sorvete
E você faz qualquer prece

De cansaço o dia escurece
E nós dois dormimos um mesmo sono


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A FÁBULA DOS NOVOS TEMPOS

PRIMEIRO DE MAIO DE DOIS MIL E VINTE E UM, e escuto gente dizendo que estamos definitivamente mergulhados na era digital e no tão propalado home office.

Que a pandemia em definitivo ensinou a todos, principalmente brasileiros, essa nova modalidade laboral. Trabalha-se à distância.

Sim, ninguém mais precisa sair de casa, cumprir horários, enfrentar trânsito, submeter-se a longos percursos utilizando os próprios veículos ou o transporte público. Que ampliou e permitiu um maior e melhor convívio familiar, pois pais e mães não se deslocam mais para as suas empresas, e por conseguinte, filhos estudam online; e isso permite interação ampla e irrestrita, reaprendendo a todos o quão saudável, necessário e gostoso é o convívio diário entre cônjuge e a prole.

É, a impressão que tenho é a de que quem assim pensa e age ou está gozando de um privilégio sobrenatural ou não está enxergando um palmo da realidade diante do nariz, e se está, tá tirando onda com a cara do povo.

Se a massa diuturnamente não sair pra rua para cumprir no mínimo 44 horas de jornada de trabalho semanal, perdão, mas quem irá lavar suas roupas, fazer seu almoço, colocar o bico da bomba de gasolina na boca do tanque do seu carro, entregar seu delivery,  tirar o leite da sua  vaca, obturar os dentes de seus filhos, trocar a lâmpada queimada do poste, recolher os enormes sacos com o lixo que você produz e larga ali fora do portão do seu quintal?

Estamos vivendo uma fome quase que sem precedentes. Uma desigualdade social inimaginável, um desgoverno epidemiológico sem fim.

Esse Primeiro de Maio tem muito mais que 24 horas. Tem a duração da falta de trabalho, a extensão das dores da alma, o comprimento do buraco na barriga e a insignificância de mais um boleto vencido sem condições de ser pago.

Haverá home office enquanto houver quem sustente com as próprias mãos e salgado suor, o tráfego que mantém plugados os gigabytes de sua internet.

Se não é trabalho será falso, senão ócio.

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EU ABUSO DE CERTAS CORES

Eu abuso de certas cores
Do vermelho por exemplo
Sangro-lhe pelas veias
Eu não acho feio que o mundo de ocre me tinja
Mas odeio um mínimo corte no dedo

Assim pensam os parvos sobre as necessidades:
Desde que não me atinja o medo
Pouco importa se a peleja quebrou-se a vidraça
Pois me vejo na farsa do espelho

Oh ruas sem saídas destas nossas soturnas cidades
Vigiai para que não perambulem por elas
Nenhum coitado sem graça sem remédio sem paga
Depois o conforto se areja

Mais logo quem sabe esteja
Nos braços do descanso quem deseja
Ouvir a lucidez do silêncio

Enquanto prosperar qualquer forma de inveja
O amor nos console o choro pelo encanto


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GOSTO DE VIVER

Quanto gosto a gente faz do viver
Notícias: o homem perde o paladar
Não se sente mais cheiro algum
Cegos seguem por corredores sem fim

Eu caminho surdo a tais pressões
Pois gosto da vida e seus sabores
Dos odores dos segundos e das cores
Ainda que haja muros e escuro esteja

Procuro nos espaços que possuo
Sentir o coração intenso amar
Tudo o que essa visão me entrega

Assim encontro precioso sentido
Em todo gesto em cada regra
E o mundo a mim jamais se nega



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DIACHO DE FOME

Diacho de fome que arde no bucho
Que rebaixa o bicho
Que o torna insano como qualquer homem
Um pária sem pátria sem rumo e sem nome
E vice-versa

É fome de verso diversa sujeita
O peito lhe aperta por estar na sarjeta
Sem voz e sem teto sem afeto e sem graça
Não importasse praça quintal ou casa
Nem absurda conversa

O mundo separa-nos entre o farto e a falta
E a alma se despe do corpo se mata


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BARBAS DE MOLHO

Certas coisas nos cegam tão de repente que quando abrimos os olhos ficamos pensando: como não as vi! Sim, tem situações inusitadas ou repetitivas que sempre nos pegam de surpresa. Quando alcei um ano após minha primeira metade de século de vida, prometi a mim mesmo que a partir dali não assustaria com mais nada. Venho tentando fazer isso já há dez anos, mas por mais autocontrole que se tenha, há por vezes (e muitas vezes, por sinal), algum espanto na curva. Prova de que estamos sendo submetidos constantemente a novos aprendizados. O desconhecido deve ter para todos, o significado de novos conhecimentos adquiridos. O inusitado precisa, portanto andar de mãos dadas com a nova realidade, sendo que essa nova realidade necessita de constante esforço para tornar-se parte do cotidiano.

Filosofices a parte, acontece que me considerava tranquilo, tomando os cuidados básicos de fuga da covid-19, com a finalidade de me preservar para preservar os que com os quais convivo e me cercam dia a dia. E assim driblando a rotina, um dia após meu aniversário levei satisfeito e cantante, meu braço nu de encontro a ponta de uma agulha que me faria a gentil fineza de introduzir em meu organismo a primeira dose da Oxford.

Agora estou aqui leso, dolorido, enjoado, e o pior de tudo, fingindo vender saúde para não preocupar quem me cerca.

Mas os sintomas são leves ante ao que vejo noticiar sobre as mazelas que essa pandemia provoca a cada fração de segundo por todo o mundo. Então, não é motivo de queixas ou reclames o que venho agora fazendo, mas sim, um nítido exame de consciência.

Primeiro, não sei no que isso vai dar e como irá acabar. Se isento e imune dos malefícios do sars-cov-2 ou pego pelo rabo (braço) e ao invés de inoculado, agente e distribuidor desse desgraçado vírus. Não sei se me isolo ou continuo a fingir até que esses sintomas sumam ou me debilitem por vez. Que estranha sensação de impotência total. E nem foi na curva do caminho, foi na retilínea estrada com total visibilidade e previsibilidade de sucesso.

Antes que os olhos apaguem por vez, pois nem estou conseguindo mirar mais a branca tela do computador, registro esse susto que nem sei onde irá ser publicado, para que não desperte qualquer preocupação em quem me ler.

Aguardo agora a segunda dose, que daqui há três meses virá. Depois disso tudo, espero poder sorrir do tropeço e dar risadas contigo comentando estas linhas. Porém, se der zica, não chore por mim!

Fui.

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PERTO DE TI

Procura
Pois perto de ti
Sempre poderá haver um encontro
À tua espera

Todos os dias partimos
Eternos buscadores sem asas
Ainda que em desencantos
A vida é essa valsa sobre as ondas
Esse balanço submerso
Essa mistura de ritmos

Encontre
Pois perto de ti
Sempre poderá haver uma espera
À tua procura


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MINHA VIDA

Semana passada resolvi fazer o registro de um novo e-mail, pois o que uso por bom tempo, ao longo dos dias foi sendo invadido por um turbilhão de mensagens de conteúdos estranhos, cuja caixa de spam já nem consegue mais absorver ou distinguir quem é quem nessa jogada multilíngue da virtualidade moderna. Culpa minha, certamente, que andei descuidado ao deixar portas abertas para os sites espiões fartarem-se com seus famigerados motores. Acontece que acabamos vinculando ao endereço eletrônico principal, celular, computador, e as contas das redes sociais. Assim, qualquer curiosidade que nosso permanente consumismo resolve pesquisar na internet, segundos depois dezenas de ofertas sobre determinados produtos ou serviços são despejadas na caixa de entrada e permanecem ali ramificadas e debulhadas em tantas outras mais similares.

Mas enfim, já estou usando um novo e-mail, e esse ainda limpinho e desvinculado dos principais avaros portais. E não se preocupem, pois o antigo faz automaticamente um redirecionamento das mensagens autenticadas, o que não me fará perder o contato de ninguém que me tem escrito, e deverá me manter a salvo, por enquanto, dessa disputada guerra invasora.

O que me chamou a atenção, no entanto, e quero fazer notar aqui pra vocês, foi justamente o momento de fazer o cadastro com os dados pessoais para obter a nova inscrição de e-mail. No campo Nascimento, coloquei obviamente onze, depois abril, sendo que no item Ano, marcava no automático, 2021. Então fui rapidamente retroagindo o calendário há algumas décadas para trás. Uma, duas, três décadas... quatro, cinco, seis: 11/04/1960! Achei legal isso.

Então ao invés de avançar para o próximo campo do formulário, resolvi brincar um pouco com os meus bem vividos anos. Desta vez fiz ao contrário: 70, 80, 90, 00, 10, 20...

E de novo: 21, 10, 00, 90, 80,70, 60 – onde tudo começou.

Não aguentei, fui para o Word, e dei o seguinte título ao documento:

MINHA VIDA

·         1960 –

·         1970 –

·         1980 –

·         1990 –

·         2000 –

·         2010 –

·         2020 –

Então à frente de cada bloco de dez, comecei nos subitens, a identificar algo relevante em que a vida me marcou e tomou por especial minha atenção – escola, casamento, filhos, neta, empregos, conquistas, perda de minha Mãe, mudanças, livros. E por aí afora, listando no meio desses sonhos, toda a realidade dos 61.

Certa vez li uma declaração que o diretor teatral Aderbal Freire-Filho fizera à Folha em 2008. Ele confidenciava que tinha o hábito de anotar coincidências numa agenda, na esperança de desvendar o mistério da vida.

Bem, posso concluir que não tive nem tenho essa ousada pretensão de Aderbal. Mas, após esse doce exercício que me custou bons momentos de recordação mnemônica, de uma certeza não abro mão em confessar a quem interessar possa:

            - Eu existo. Meu Deus, como sou feliz!!!


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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!