Lista de Poemas
APESAR DE IMPERFEITO AO MENOS SER JUSTO
Ainda restamos nós para contar a historia
Talvez sejamos a sobra da humanidade
Por algum motivo estarmos vivos agora
Mas não só da peste se escapa ou se morre
Diz-se que ninguém se vai antes da hora
Empreender esse estágio deve ser nossa meta
Há tanta gente no entanto sem dor e já morta
Debelada por dentro estirpada por fora
Que se ainda lhe sopra o santo verbo da vida
Em vão desse dom faz uso e de forma indevida
Cego usurpa escraviza ultraja maltrata
Se achando imortal desdenhando o destino
Ainda que exausto cabe um custo ao pedreiro
O de andar por inteiro a brigar por equidade
Abraçado à carência de quem pede uma esmola
E de dedo em riste combater peito aberto
Enfrentar poderosos e sempre verdadeiro
Apesar de imperfeito ao menos ser justo
MINHA ESCRITORA
Já põe o livro em seu instante
Estala as frases pagina as folhas
Rabisca as páginas com giz de cera
Reescrevendo à sua maneira
Novas histórias com outras letras
Nas prateleiras pela estante
Depois cansada deita serena
E faz com livros seu travesseiro
Cobre com as linhas as suas pernas
Colore as capas com os cabelos
Ilustra os contos de belos versos
E acorda rindo dos próprios sonhos
Minha menina nem sabe ler
Já ousa ser grande escritora
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AQUELE QUE ABARCA O LOUCO
Quando a dor senil se desdobra
E lhe sobra parcimônia e tolerância
Para entender suas escolhas
Eu conheço apenas os insensatos
O resto que se descubram
Tadinho de quem lhes deve
Coitados de quem os cobram
Jamais tome emprestado outro dia
Achando que valha um tempo
A velha navalha raspa e apara
A aridez do pensamento
Sou discípulo do momento cego
Por isso me apego indecifrável
Aos apelos do conhecimento
À inefável sentença do fogo
Onde o ego atinge a cinza
Extirpa-se e a vida se apaga
Estoura a bolha da lucidez
Mas o amor jamais acaba
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MENINO
Parece que o mundo acaba
Parece que passa o mundo
Quando a infância adolesce
Quando parece que o mundo acaba
Parece que a infância passa
O mundo parece que adoece
Quando a infância acaba
Quando a infância passa
O mundo parece que passa
A infância parece que acaba
O mundo parece que adolesce
O mundo adoece ou renasce
Quando passa a infância
Quando adolesce a velhice
Quando rejuvenesce a infância
Quando o adulto acaba menino
Quando o menino adolesce
E a gente envelhece?
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BORDEJAR
O sereno passear pelas bordas do teu lago intenso
Rudes ondas te escondem sob a saia de bons sonhos
E eu navego velejo tergiverso pairo sem querer voltar
Essa a arte verdadeira de bordejar sem pressa
E ao mesmo tempo apressado para alçar teus olhos
Ver-te precisa entre as ilhas da pele e as algas dos abrolhos
Dourados ao sol do norte ou ao vento minuano nos cabelos
Teu dorso é orla onde rola entre o pelo areia e sargaço
Abrigo e alimento da fragata de silhueta esguia
Essa arisca ave que guia meu mar escuro de ilusão
Quando alerta meu juízo das tempestades e marés
Quando vem quando passam quando advirão
Recolho-me à sensação de sentir toda a certeza
Dos rumos que as correntes irão singrar meu barco
Nalgum porto qualquer pelo teu corpo em viagem
Cuja miragem me distancia do cais e se apequena
E se eu perder-me em meio a essa correnteza
Salva-me com tua língua lambendo este poema
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COMUNIDADE
Apiedo-me com a dor nele
Sofrendo eu por inteiro
Os demais dentes que ali convivem
Incomodam-se do sofrimento ruim
E comigo a mesma dor dividem
Como acontece com as mãos
Quando um dos dedos arde ou sangra
Todo o meu corpo desanda
Deveria ser assim entre irmãos
Caso um não esteja bem
Ninguém estará bem também
Como os dentes convivem na boca
Como os dedos residem entre as mãos
Dividimos num mesmo peito um só coração
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MORRO DE CONTENTE
Para que as intempéries
Não demovam suas sólidas sapatas
Pelos cômodos se espalham moveis
Cujos pés e pernas os tornam fixas sentinelas
À espera de quem os visite ou more
Quem passará pelas portas
Quem irá assistir das janelas
Quem deverá expulsar a treva acendendo as luzes
Expurgar os defeitos por dentro delas?
Todo prédio tem seu muro que delimita o quintal
Adversa e alerta que se respeite o portão
Portal donde livres transeuntes são as ideias
O coração é esse imóvel enraizado nas veias
Aguardando que amores e amigos venham
Habitem os sentimentos mais íntimos
E se espalhem seculares entrementes
Ainda que isto demore
Bem sabes que se moras no meu peito
Morro eu inquilino de contente
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POR UM FIO
Lenta a vida pulsa
Estivesse febril haveria repulsa
A morbidade expulsa a réstia de luz
E a morte avança avança
Quantas solas de calçados
Pelos passos caminhados foram gastos
Quantos rolos de papel
Limpando o anus por esses anos usei
Emendasse os cabelos pelas pontas
Em separado que distância os cortei
Fizesse as contas do volume mastigado
Quanto fora comido e devorado
Calculasse os olhares lançados
Distâncias alcançadas simplesmente admirando
Quanto foi suado quanto arrepiei
Quanto desejado quanto já gozei
Quanto de lágrima fora vertida
Por todos os motivos chorados
Quanto de agua lavando a alma
O corpo e a mente sempre maculada
Quanto sono então dormido
Com sonhos ou sem que os lembrasse
Quanto de dinheiro amealhado
Quanto gasto quanto resta a receber
Quanto trabalho concluído
Quanto construí sem saber
Quantas unhas cortadas
Quanto sangue escorrido
Quantas palavras pronunciadas
Quantas precisaram engolidas
Quantos espirros quantos sorrisos
Quanto ar aspirado quanta bufa já soltei
Quantas mentiras creditadas
Quantas verdades soltaram-se desatinadas
Quantos nomes já clamados
Quantos ainda chamarei
Tantas dores tantas máximas
Restarão ensimesmadas
Ainda nem mais nem menos vivo
Porem ainda morno
A vida por um sopro
A morte por um fio
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NO ENTORNO DO FOSSO
Mas temo que se soltem os ganchos
E rebelde ganhe os céus
Aí
Como saberei descer se tenho medo
Da altura da tua voz e do teu olhar?
Tua voz acusa e declama-me
Teu olhar seduz o que me vê
Não posso descolar da terra
Ir parar nas nuvens
Nem com os ventos por elas seguir
Portanto não destampe os edifícios
Cuide para que não se destelhem
E não me elevem além da cobertura
Está cedo
Ainda há poemas a fazer
No entorno do fosso
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FINADOS
Curioso lê os espaços resistidos
Entre uma data e outra
Sobre as lápides agravadas
Há quem tenha restado menos
Há quem tenha permanecido mais
No entanto todos experimentados
Os cúmulos da existência
Ao ter reaberto os olhos
Ao ater respirado o ar
Dito qualquer palavra
Ouvido além do silêncio soar
Quem passar pela minha cova
Imagina-me deitado sem cor
Sem ouvir mais nada da vida
Imóvel e sem falar
Como se nem estivesse ali
Como tantas vezes fiz
E ainda que haja dia ano e mês
Não tripudie do que o tempo quis
Qualquer hora será tua vez
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Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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