Escritas

Lista de Poemas

APESAR DE IMPERFEITO AO MENOS SER JUSTO

Um monte de gente feriu-se com a peste
Ainda restamos nós para contar a historia
Talvez sejamos a sobra da humanidade
Por algum motivo estarmos vivos agora

Mas não só da peste se escapa ou se morre
Diz-se que ninguém se vai antes da hora
Empreender esse estágio deve ser nossa meta 

Há tanta gente no entanto sem dor e já morta
Debelada por dentro estirpada por fora
Que se ainda lhe sopra o santo verbo da vida
Em vão desse dom faz uso e de forma indevida
Cego usurpa escraviza ultraja maltrata
Se achando imortal desdenhando o destino

Ainda que exausto cabe um custo ao pedreiro
O de andar por inteiro a brigar por equidade
Abraçado à carência de quem pede uma esmola
E de dedo em riste combater peito aberto
Enfrentar poderosos e sempre verdadeiro
Apesar de imperfeito ao menos ser justo
👁️ 145

MINHA ESCRITORA

Essa menina nem sabe ler
Já põe o livro em seu instante

Estala as frases pagina as folhas
Rabisca as páginas com giz de cera
Reescrevendo à sua maneira
Novas histórias com outras letras
Nas prateleiras pela estante

Depois cansada deita serena
E faz com livros seu travesseiro
Cobre com as linhas as suas pernas
Colore as capas com os cabelos
Ilustra os contos de belos versos
E acorda rindo dos próprios sonhos

Minha menina nem sabe ler
Já ousa ser grande escritora


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 174

AQUELE QUE ABARCA O LOUCO

Genial aquele que abarca o louco
Quando a dor senil se desdobra
E lhe sobra parcimônia e tolerância
Para entender suas escolhas

Eu conheço apenas os insensatos
O resto que se descubram
Tadinho de quem lhes deve
Coitados de quem os cobram

Jamais tome emprestado outro dia
Achando que valha um tempo
A velha navalha raspa e apara
A aridez do pensamento

Sou discípulo do momento cego
Por isso me apego indecifrável
Aos apelos do conhecimento
À inefável sentença do fogo

Onde o ego atinge a cinza
Extirpa-se e a vida se apaga
Estoura a bolha da lucidez
Mas o amor jamais acaba


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 151

MENINO

Quando a infância passa 
Parece que o mundo acaba
Parece que passa o mundo 
Quando a infância adolesce 
Quando parece que o mundo acaba
Parece que a infância passa
O mundo parece que adoece
Quando a infância acaba
Quando a infância passa
O mundo parece que passa
A infância parece que acaba
O mundo parece que adolesce

O mundo adoece ou renasce
Quando passa a infância
Quando adolesce a velhice
Quando rejuvenesce a infância
Quando o adulto acaba menino
Quando o menino adolesce

E a gente envelhece?


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 117

BORDEJAR

Quão boa e nobre a sensação de circundar esse oceano
O sereno passear pelas bordas do teu lago intenso
Rudes ondas te escondem sob a saia de bons sonhos
E eu navego velejo tergiverso pairo sem querer voltar

Essa a arte verdadeira de bordejar sem pressa
E ao mesmo tempo apressado para alçar teus olhos
Ver-te precisa entre as ilhas da pele e as algas dos abrolhos
Dourados ao sol do norte ou ao vento minuano nos cabelos

Teu dorso é orla onde rola entre o pelo areia e sargaço
Abrigo e alimento da fragata de silhueta esguia
Essa arisca ave que guia meu mar escuro de ilusão
Quando alerta meu juízo das tempestades e marés
Quando vem quando passam quando advirão

Recolho-me à sensação de sentir toda a certeza
Dos rumos que as correntes irão singrar meu barco
Nalgum porto qualquer pelo teu corpo em viagem
Cuja miragem me distancia do cais e se apequena
E se eu perder-me em meio a essa correnteza
Salva-me com tua língua lambendo este poema


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 116

COMUNIDADE

Há um dente meu doendo
Apiedo-me com a dor nele
Sofrendo eu por inteiro

 Os demais dentes que ali convivem
 Incomodam-se do sofrimento ruim
 E comigo a mesma dor dividem

 Como acontece com as mãos
 Quando um dos dedos arde ou sangra
 Todo o meu corpo desanda

 Deveria ser assim entre irmãos
 Caso um não esteja bem
 Ninguém estará bem também

 Como os dentes convivem na boca
 Como os dedos residem entre as mãos
 Dividimos num mesmo peito um só coração


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 132

MORRO DE CONTENTE

As casas fincam os pés na terra
Para que as intempéries
Não demovam suas sólidas sapatas

Pelos cômodos se espalham moveis
Cujos pés e pernas os tornam fixas sentinelas
À espera de quem os visite ou more

Quem passará pelas portas
Quem irá assistir das janelas
Quem deverá expulsar a treva acendendo as luzes
Expurgar os defeitos por dentro delas?

Todo prédio tem seu muro que delimita o quintal
Adversa e alerta que se respeite o portão
Portal donde livres transeuntes são as ideias

O coração é esse imóvel enraizado nas veias
Aguardando que amores e amigos venham
Habitem os sentimentos mais íntimos
E se espalhem seculares entrementes
Ainda que isto demore

Bem sabes que se moras no meu peito
Morro eu inquilino de contente


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 166

POR UM FIO

Ainda não estou tão morto porem já frio
Lenta a vida pulsa
Estivesse febril haveria repulsa 
A morbidade expulsa a réstia de luz
E a morte avança avança

Quantas solas de calçados
Pelos passos caminhados foram gastos
Quantos rolos de papel
Limpando o anus por esses anos usei
Emendasse os cabelos pelas pontas
Em separado que distância os cortei
Fizesse as contas do volume mastigado
Quanto fora comido e devorado
Calculasse os olhares lançados
Distâncias alcançadas simplesmente admirando
Quanto foi suado quanto arrepiei
Quanto desejado quanto já gozei

Quanto de lágrima fora vertida
Por todos os motivos chorados
Quanto de agua lavando a alma
O corpo e a mente sempre maculada
Quanto sono então dormido
Com sonhos ou sem que os lembrasse
Quanto de dinheiro amealhado
Quanto gasto quanto resta a receber
 
Quanto trabalho concluído
Quanto construí sem saber
Quantas unhas cortadas
Quanto sangue escorrido
Quantas palavras pronunciadas
Quantas precisaram engolidas
Quantos espirros quantos sorrisos
Quanto ar aspirado quanta bufa já soltei

 
Quantas mentiras creditadas
Quantas verdades soltaram-se desatinadas
Quantos nomes já clamados
Quantos ainda chamarei
Tantas dores tantas máximas
Restarão ensimesmadas

Ainda nem mais nem menos vivo
Porem ainda morno
A vida por um sopro
A morte por um fio


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 159

NO ENTORNO DO FOSSO

Passeio de elevador
Mas temo que se soltem os ganchos
E rebelde ganhe os céus


Como saberei descer se tenho medo
Da altura da tua voz e do teu olhar?

Tua voz acusa e declama-me
Teu olhar seduz o que me vê

Não posso descolar da terra
Ir parar nas nuvens
Nem com os ventos por elas seguir

Portanto não destampe os edifícios
Cuide para que não se destelhem
E não me elevem além da cobertura

Está cedo
Ainda há poemas a fazer
No entorno do fosso 


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 152

FINADOS

Quem passa no derredor dos túmulos
Curioso lê os espaços resistidos
Entre uma data e outra
Sobre as lápides agravadas

Há quem tenha restado menos
Há quem tenha permanecido mais
No entanto todos experimentados
Os cúmulos da existência
Ao ter reaberto os olhos
Ao ater respirado o ar
Dito qualquer palavra
Ouvido além do silêncio soar

Quem passar pela minha cova
Imagina-me deitado sem cor
Sem ouvir mais nada da vida
Imóvel e sem falar
Como se nem estivesse ali
Como tantas vezes fiz

E ainda que haja dia ano e mês
Não tripudie do que o tempo quis
Qualquer hora será tua vez


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 170

Comentários (2)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!