Lista de Poemas
AH MARIA!
Se a visse outra vez do meu lado passar amaria a fumaça
Se a visse de mim desprender-se amaria as centelhas
Se a visse de algum ponto partir amaria as fagulhas
Se a visse na curva dos olhos sumir amaria as saudades
Se a ouvisse novamente voltar lhe seria dormentes
Se a ouvisse surgir lhe amaria os brilhos
Se a ouvisse então retornar amaria seus sinos
Se a ouvisse chegar nesse horário te acolhia nos braços
Amaria embarcar na primavera e por todas as plataformas
Deslizante entre os vidros a poeira e o vento nas janelas
Passageiro que sou das emoções rotineiras
Encravadas no banhado sertão das estações pantaneiras
O fogo e o vapor em sua imensa caldeira
O rugir das roldanas no aço dos trilhos
Chiando longínquas ou no meu travesseiro
Vislumbres da idade seguindo trilhas boiadeiras
Amaria seu cheiro de estrada de ferro e madeira
Amaria o arrasto das pegadas nos vagões de areia
A deserta incansável ausência de ilusões que se foram
Apelos do coração de paixões verdadeiras
Enfim vieste de viagem soberana vestida de estrelas
Que extasiado brindo eu à vida feliz por revê-la
Ah Maria Maria atravessará o tempo que lhe é pertinente
Enquanto eu num repente cá estou de passagem
www.psrosseto.webnode.com
APARÊNCIAS
Há uma singela flor amarela
Num frágil talo verde sem prumo
Que a ostenta pouco acima da relva
Enquanto a mansa brisa perpassa por entre as ramas
Sobre as macias folhas um gesto breve aparentemente a deita
E verga suas pétalas num balanço suave
Como a alma estendesse o próprio corpo sobre a cama
Garoto olha atento
Não julga o rude vento por autor desse movimento
Foi apenas o pouso maroto
De uma gaiata borboleta
www.psrosseto.webnode.com
ENTRE VEDAS E MUDRAS
Com seus passes de yoga
Flexiona as belas pernas
Recolhe os braços de antenas
Mobiliza as nuas costas
Massageia id e ego
Com mantras de Om Namah Shivaya
Apensa entre exercícios
Sorri silencia sua escolha
De infinita criatura
Como navegante insinua
Após transpor precipícios
Tão volúvel pousaria
Nas entranhas do Himalaia
Passa a língua entre os dentes
Imóvel nem gesticula
Apenas pensa-se e fecunda
Inteiro estado de graça
Desvenda as nodas e traços
Entre vedas e mudras
Orvalha encharca se molha
Pudesse eu entender se
Quando o êxtase passa
Se deusa intensa humaniza
Ou mais sábia resiste
Transmuta o sonho em espelho
Contemplando-se pudica
Delicia afeita em malícia
www.psrosseto.webnode.com
ACASOS
Vislumbrei os meus sentimentos
Até então eu não os tinha nem claros nem livres
Foi no fixo breu dos olhos fechados
Que se tornaram iluminados
Libertos por estarem soltos
E de mim tão pertos quanto breves
Que os achei redescobertos pelo rosto
Fechar os olhos deveria ser tão contínuo
Quanto mantê-los despertos
Afinal é quando nos redesenhamos mórbidos
Que o encantado estado das coisas
Revela-nos como somos
Então a morte seria a profilaxia do acordado
Ou a esdrúxula condição do sono?
Metade de mim é essa arte que se reverte e desperta
Todo o resto é a outra parte
Que recobre de acasos meus atos
O portal do tempo é o parto
www.psrosseto@webnode.com
ANDANTES
Encontrei razões de não estar sozinho
Sozinhas minhas mãos não iriam por teus pelos
Não fosse o sentido de fazer carinho
Quando viestes flutuante beijar minha sede
Descobri o bom gosto do arrepio da pele
Sozinho jamais estaria suando os poros
No roçar dos lábios úmidos que o desejo impele
Se descalço andei por todo o teu corpo
Permitistes vir de intensas viagens
Mapear sensações preparando gozos
Próprio de quem envereda por tenras paragens
Dão-se as mãos ávidos mutuamente amando-se
Enamorados sentimentos de amor e ternura
Nenhuma razão haveria não fossem pensantes
Os segredos íntimos arrítmicos de toda criatura
Olhares, palavras sussurradas, êxtases
São doces cantigas embalando andantes
Passeemos separados porém virtualmente
Vimo-nos amando-nos, sentimo-nos amantes
www.psrosseto.webnode.com
DEUS FEZ A FOME
O tempo exato de suporta-la
Cabe à generosidade e consciência
De cada ser e oportunidades
Seja insípido amargo insosso ou de sal
Aquilo que nos alimenta agora
Igualmente deveria dar-nos fome de Deus
Ou dele saciássemos
www.psrosseto.webnode.com
ÂNFORAS
Como faz o vinhateiro com o néctar de suas uvas
E se não saem a contento elemento e contexto
Aguarda paciente o tempo moldar os seus erros
Ele cura a acidez dos vinhos e a turbidez das bebidas
Cicatriza a flacidez das vinhas e açoda seus frutos
Propicia o prazer da colheita como faz um beijo
Onde as palavras adormecem ébrias nos lábios
Cínicas sedutoras sedentas e loucas de desejos
Nossos corpos são preciosas e esculpidas ânforas
Em cujos vasos efervescem espírito e almas
Onde cada palavra decanta seus significados
E se mantém características aos sabores da terra
Ao palato das raízes revolvendo os solos
À pureza das campinas verdejando os elos
Apreendendo sentido à verve sorvendo a safra
Servida ao surreal inaudível som do espaço
Transbordando floridas eras da colheita à taça
Envasa os seus poemas em mágicas estrofes
Como faz o vinhateiro escolhendo as jarras
Lendo títulos rótulos descrevendo aromas
Degustando ervas raras combinando espécimes
Tanta poesia vivos sonhos íntimos ideais
No entanto perdem-se nas sarjetas e estradas
Quando uma nobre bebida na garrafa é quebrada
Quando as mãos cruelmente mantem escondidos
Os livros de um poeta com suas páginas fechadas
www.psrosseto.webnode.com
ILUSÕES
Sobre ásperas tábuas e aramados
Ele encontrou-se sozinho estirado
Como se nunca tivesse amado jamais
E somente às vezes doeram-lhe
Tais indesejáveis enroscos e tantas esperas
Sentiu por todos as mesmas dores
Vivenciou idênticas desconfianças e alegrias
Percebeu que nem tudo fora a seu tempo
Encomendado pelo inócuo coração já cansado
Não considera acerto o que dera certo
Nem inoportuno outras possíveis reversões
Aprendeu entretanto que amar é necessário
Tanto quanto livremente passear o pensamento
Por todas as suas diferentes versões
Agora amarrado às próprias experiências
Conclui sua jornada à sombra das sobras
Intimamente chamadas ilusões
www.psrosseto.webnode.com
SONETOS ESQUISITOS
Sem pé nem cabeça, nem asas, ferrões
Zunindo em volta das luzes feito insetos
Morando sob imundas lápides e porões
Justamente onde adormecem insensatos
Aqueles que subjugam os semelhantes
Que se julgam mais humanos porque podem
Esse poder aparente e podre de aparatos
Sonetos que exaltam a voz do povo
Por isso seguem por veias entupidas
Limando quaisquer restos de inconsciências
Unindo-se à dor de injustiçados
Meus versos destes sonetos esquisitos
Riem fartos das tuas inconsequências
www.psrosseto.webnode.com
ONTEM, HOJE, QUASE TODO DIA
Passeamos pela praça da saudade
Rememoramos passado e utopia
Que fomentam os sonhos fartos da poesia
Num fechar de olhos se viaja
Por estados que a mente vasculhou
E a qualquer próprio momento interaja
Com o presente que num instante já findou
E nesse rio de caudalosas e profundas águas
Seguem o curso prazeroso da memória
Sentimentos de que sempre se repetirão
Outros atos de satisfação ou duras mágoas
Pois assim nós escrevemos nossa história
Misto de penas, desejo e gratidão
www.psrosseto.webnode.com
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
Português
English
Español