Escritas

Lista de Poemas

REERGUER-SE

Um dia passei a língua de encontro a terra
Não levei voluntariamente um torrão à boca
Mas fui impelido ao chão de rasteira 

Eu raspei no solo todo o corpo e a cara
E provei o gosto daquela crosta rara
Que teve para um mundo e meio 
Inigualável sabor de tombo e chacota

Ouvia dizer que aquela terra era ruim
Que não tinha valia por ser íngreme 
Pedregosa e tão poucamente aerada

De fato aonde a minha língua lambeu o lugar
Pareceu-me um pedaço amargo exaurido de nação
Destes onde as santas putas parem exacerbadas 
Filhos sem pais em estado aleatório e decrépito

Mas não era escarpada nem putrefata aquela terra
Tinha sim o sabor denso das raízes e de fértil lama
E o intenso cheiro de pelo ralo em molhada pele 

Duvido que alguém possa governar um país
Sendo eternamente tirano por derrocar seu povo
Ainda que nos arruínem e nos debulhem às feras
Sempre seremos pátria e nos soergueremos de novo


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 164

ESSA SUJEIRA NOSSA

O mar não suja só expurga
A mata não suja somente expele
O deserto não suja talvez invada
O rio não suja às vezes inunda
O céu não suja apenas recobre
A terra que teimosa se renova

Na astuta ação do ímpio sujeira abunda 
Onde o germe maledicente procria

A mente gera o que não deteriora
E a mão da gente inconsequente mela

A natureza do mau espalha delinquências
E nos põe constantemente à prova

Todo dia nos acovardamos calados
Ante a crueldade que destroça

Essa sujeira do mundo é unicamente nossa



www.psrosseto.webnode.com
👁️ 149

NÃO TENHO PRESSA

Ninguém se importa sendo a carga leve
Quando o fardo flutua ou flana
Sobre o ombro de quem o leva

Poucos se importam porque a vida é breve
E essa brevidade aparente
Aparenta imortal e eterna para quem a vive

O farto mundo do outro engana quem o observa 
Ilude o sossego e acende a inveja
Contrapõe-se à paz que cada um almeja

O peso da carga mede-se pela interna beleza
Daquele que a suporta ainda que a meça
E se destroça e esforça para que a ela mereça

Não sou usurário e a nada me apego
Apenas sigo carregando meu ônus
E confesso não tenho pressa



www.psrosseto.webnode.com
👁️ 126

A MELANCOLIA

A melancolia por vezes bateu à porta do justo
Sem conseguir esmaecer-se

Da primeira tentativa nasceu o peregrino
Assim saíram  a caminhar juntos
Na oportunidade seguinte emergiu o eremita
E trancafiaram-se ambos em profusa solidão
Por terceira via eclodiu o imprudente
Que inconteste os instigou a loucura completa

Por fim fez do sonhador
Um iludido se achar poeta



www.psrosseto.webnode.com
👁️ 116

INTERGALÁCTICA

Em outro planeta nem todo longe da terra
Cada dia distende ainda que seja domingo
Às vezes por causa da segunda antes encerra
Ou mais cedo inicia por suceder a um sábado
Se indispõem com a hora exata na fração dos segundos
Cedendo aos caprichos da preguiça ou vontades

Caso morresse a luz e o azul de todos por lá cansasse 
Sair do caos tornar-se-ia a inexigibilidade galáctica
Poucos fariam para extirpar do perpétuo o escuro
O desconhecimento surreal de qualquer futuro
Não se preparam para o diferente do agora
Pouco importaria se deixará de ser reverso esse ciclo

Alguém precisaria lhes alterar o calendário
Pudesse contar-lhes o dia enquanto o sol claro ressurge
E encerra-lo no prelo advir da noite verdadeira
Então essa ilógica contagem surreal de lá mudaria
Haveria um só gênesis e não mais genealogia
Seria transposta a era da disritmia à do retorno 

O homem por lá se igualaria a todo ser vivente
Ninguém diferente seria do mar e das montanhas
Naquele planeta nem todo longe ou distante da terra
Seria como por aqui onde há bonança e a vida plena impera
Mas não se deve jamais intervir em outros mundos
Sob pena de perdermos por quase nada nossa paz interna



www.psrosseto.webnode.com
👁️ 102

QUEIRA OU NÃO QUEIRA

É o olhar o mais tenro gesto da sabedoria
Pelo olhar dá-se o gosto do poema
Através dele se ouve os passos da poesia

Cheira a gerânios quando o encanto peneira a tarde
E a paixão enxerga o menino que aceso arde
Na febre efervescente do dilema

Não são os olhos pois estes nem sempre veem
Mas sim o sentido exato de encarar o mundo
Por nuances jamais porventura vistas

As ruas entre línguas se cruzam ligeiras
E as palavras proferidas são descritas
Nas placas espalhadas das esquinas

Ninguém perde o endereço nem o ritmo da andança
Se os olhares intercalam os percalços da cegueira
Queira ser o destino de cada um ou não queira



www.psrosseto.webnode.com
👁️ 113

FORA DE LUGAR

Bom seria contigo uma xícara de chá
Vinho brando champanhe ou terroir  
Seria estranho não partilhar a bebida
A nossa frente sem compartilhar ideias
Deixar de silêncio ou ficar sem se olhar
Balbuciar doidices chamar o nome
Despretensiosamente confidenciar

Acho que o chá na taça e o vinho na xicara
Após tanta fala seria desnecessário cuidar
Das palavras ou algum nome fora de lugar

Valeria fechar os olhos para achar o sonho
Tornar-se vulnerável intruso confidente
Despretensioso endoidecer por amar

Estranho nem sem beber nem bem sonhar



www.psrosseto.webnode.com
👁️ 127

OLIMPÍADA DO TEMPO

Tanta gente morre nessa olimpíada do tempo
Enquanto sigo eu narrando esse jogo
Assistindo ao espetáculo
Hesitado em ser adversário e autor 
Ator de papeis de múltiplas novelas

Sou o cão absorto olhando o futuro
Estendido incompleto se vendo no espelho
Quarando os miolos num sol de primavera
Com as patas no chão e o peito arfando
Docemente esperando que alguém acorde
E caminhe ao meu lado por dentro e por fora

Pois minha ousadia no cotidiano
Sem sombra de dúvidas e por iniciativa
Esmurra o ócio e entreabre janelas

Somente assim se vai ao mundo
Eu conquisto cada minuto que me espera
👁️ 147

NÃO CUSTA NADA

Estreita ou larga toda estrada 
É saída ou entrada
Retorno ou partida

Nenhum transeunte
Tem de si idêntica jornada
Fosse repetir sua estada

Ainda que aparentemente
Seja a mesma viagem
Num único vagão
O amor e o ódio têm entre si
Igual caminhada

A vida não estaciona à margem
Da hora parada

Se o preço do apreço é um só
Tornar-se melhor
Não custa nada


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 2

SANCHO MODERNIZADO

Era ele menino
E da janela contemplava o quartel

Achava que patentes, inclusive a de capitão
Entre o quepe e a farda abaixo do pescoço,
Ostentavam mogno, cedro, mármore, aço, pedra-sabão
- Mas nenhum algo frágil,
Tipo pele, carne, vermelho sangue, osso e coração

Vendo o rei seminu agora envolto em fios e eletrodos
Aos pés do capelão, com pança tão protuberante
Olhando-se no espelho e vendo o quanto similares

Revestiu-se da ideia de também nalgum dia
Se tornar presidente!



www.psrosseto.webnode.com
👁️ 142

Comentários (2)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!