Lista de Poemas
REERGUER-SE
Não levei voluntariamente um torrão à boca
Mas fui impelido ao chão de rasteira
Eu raspei no solo todo o corpo e a cara
E provei o gosto daquela crosta rara
Que teve para um mundo e meio
Inigualável sabor de tombo e chacota
Ouvia dizer que aquela terra era ruim
Que não tinha valia por ser íngreme
Pedregosa e tão poucamente aerada
De fato aonde a minha língua lambeu o lugar
Pareceu-me um pedaço amargo exaurido de nação
Destes onde as santas putas parem exacerbadas
Filhos sem pais em estado aleatório e decrépito
Mas não era escarpada nem putrefata aquela terra
Tinha sim o sabor denso das raízes e de fértil lama
E o intenso cheiro de pelo ralo em molhada pele
Duvido que alguém possa governar um país
Sendo eternamente tirano por derrocar seu povo
Ainda que nos arruínem e nos debulhem às feras
Sempre seremos pátria e nos soergueremos de novo
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ESSA SUJEIRA NOSSA
A mata não suja somente expele
O deserto não suja talvez invada
O rio não suja às vezes inunda
O céu não suja apenas recobre
A terra que teimosa se renova
Na astuta ação do ímpio sujeira abunda
Onde o germe maledicente procria
A mente gera o que não deteriora
E a mão da gente inconsequente mela
A natureza do mau espalha delinquências
E nos põe constantemente à prova
Todo dia nos acovardamos calados
Ante a crueldade que destroça
Essa sujeira do mundo é unicamente nossa
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NÃO TENHO PRESSA
Quando o fardo flutua ou flana
Sobre o ombro de quem o leva
Poucos se importam porque a vida é breve
E essa brevidade aparente
Aparenta imortal e eterna para quem a vive
O farto mundo do outro engana quem o observa
Ilude o sossego e acende a inveja
Contrapõe-se à paz que cada um almeja
O peso da carga mede-se pela interna beleza
Daquele que a suporta ainda que a meça
E se destroça e esforça para que a ela mereça
Não sou usurário e a nada me apego
Apenas sigo carregando meu ônus
E confesso não tenho pressa
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A MELANCOLIA
Sem conseguir esmaecer-se
Da primeira tentativa nasceu o peregrino
Assim saíram a caminhar juntos
Na oportunidade seguinte emergiu o eremita
E trancafiaram-se ambos em profusa solidão
Por terceira via eclodiu o imprudente
Que inconteste os instigou a loucura completa
Por fim fez do sonhador
Um iludido se achar poeta
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INTERGALÁCTICA
Cada dia distende ainda que seja domingo
Às vezes por causa da segunda antes encerra
Ou mais cedo inicia por suceder a um sábado
Se indispõem com a hora exata na fração dos segundos
Cedendo aos caprichos da preguiça ou vontades
Caso morresse a luz e o azul de todos por lá cansasse
Sair do caos tornar-se-ia a inexigibilidade galáctica
Poucos fariam para extirpar do perpétuo o escuro
O desconhecimento surreal de qualquer futuro
Não se preparam para o diferente do agora
Pouco importaria se deixará de ser reverso esse ciclo
Alguém precisaria lhes alterar o calendário
Pudesse contar-lhes o dia enquanto o sol claro ressurge
E encerra-lo no prelo advir da noite verdadeira
Então essa ilógica contagem surreal de lá mudaria
Haveria um só gênesis e não mais genealogia
Seria transposta a era da disritmia à do retorno
O homem por lá se igualaria a todo ser vivente
Ninguém diferente seria do mar e das montanhas
Naquele planeta nem todo longe ou distante da terra
Seria como por aqui onde há bonança e a vida plena impera
Mas não se deve jamais intervir em outros mundos
Sob pena de perdermos por quase nada nossa paz interna
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QUEIRA OU NÃO QUEIRA
Pelo olhar dá-se o gosto do poema
Através dele se ouve os passos da poesia
Cheira a gerânios quando o encanto peneira a tarde
E a paixão enxerga o menino que aceso arde
Na febre efervescente do dilema
Não são os olhos pois estes nem sempre veem
Mas sim o sentido exato de encarar o mundo
Por nuances jamais porventura vistas
As ruas entre línguas se cruzam ligeiras
E as palavras proferidas são descritas
Nas placas espalhadas das esquinas
Ninguém perde o endereço nem o ritmo da andança
Se os olhares intercalam os percalços da cegueira
Queira ser o destino de cada um ou não queira
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FORA DE LUGAR
Vinho brando champanhe ou terroir
Seria estranho não partilhar a bebida
A nossa frente sem compartilhar ideias
Deixar de silêncio ou ficar sem se olhar
Balbuciar doidices chamar o nome
Despretensiosamente confidenciar
Acho que o chá na taça e o vinho na xicara
Após tanta fala seria desnecessário cuidar
Das palavras ou algum nome fora de lugar
Valeria fechar os olhos para achar o sonho
Tornar-se vulnerável intruso confidente
Despretensioso endoidecer por amar
Estranho nem sem beber nem bem sonhar
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OLIMPÍADA DO TEMPO
Enquanto sigo eu narrando esse jogo
Assistindo ao espetáculo
Hesitado em ser adversário e autor
Ator de papeis de múltiplas novelas
Sou o cão absorto olhando o futuro
Estendido incompleto se vendo no espelho
Quarando os miolos num sol de primavera
Com as patas no chão e o peito arfando
Docemente esperando que alguém acorde
E caminhe ao meu lado por dentro e por fora
Pois minha ousadia no cotidiano
Sem sombra de dúvidas e por iniciativa
Esmurra o ócio e entreabre janelas
Somente assim se vai ao mundo
Eu conquisto cada minuto que me espera
NÃO CUSTA NADA
É saída ou entrada
Retorno ou partida
Nenhum transeunte
Tem de si idêntica jornada
Fosse repetir sua estada
Ainda que aparentemente
Seja a mesma viagem
Num único vagão
O amor e o ódio têm entre si
Igual caminhada
A vida não estaciona à margem
Da hora parada
Se o preço do apreço é um só
Tornar-se melhor
Não custa nada
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SANCHO MODERNIZADO
E da janela contemplava o quartel
Achava que patentes, inclusive a de capitão
Entre o quepe e a farda abaixo do pescoço,
Ostentavam mogno, cedro, mármore, aço, pedra-sabão
- Mas nenhum algo frágil,
Tipo pele, carne, vermelho sangue, osso e coração
Vendo o rei seminu agora envolto em fios e eletrodos
Aos pés do capelão, com pança tão protuberante
Olhando-se no espelho e vendo o quanto similares
Revestiu-se da ideia de também nalgum dia
Se tornar presidente!
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Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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