Escritas

Lista de Poemas

FAXINA

Introspecto queimo todo o lixo que deparo:
O bem do mau, o luxo e amorfo
O sórdido e prolixo da boa intenção
Sob a desculpa da fala, das justificativas
No refluxo prévio da arrebentação

Limpo as gavetas, os arquivos do córtex
Varro o chão da memória, rastelo vértices
Arestas e faces que gramam minhas vontades
As mais sujas e obscuras possíveis
Por meio século sem razão recolhidas

Uso da palavra como ferramenta de mão
Que escava intenções, remexe pensamentos
Remodela a arte transformadora do sentir
Para erguer-se altivo e predisposto
Reforçando colunas e produzir gentilezas

Eis a forma como decompõe-se a cera que me arde
Mínima chama no escuro da morte
Porem transparente e útil como lâmpada e luz
Limpa, livre, solta feito flocos do sal
Que depuram lagrimas de silêncio no porvir da idade

Sigo, por fim, andejo pelos polos de um imã
Que desperto e involuntário reverte meu leque
Provocando por sinais longas tempestades
Cujos ventos internos de sua doma reformam a manhã
Por onde diuturno construo sadias as minhas tardes
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O SAL DA TUA LÁGRIMA

                   Paulo Sérgio Rosseto

A água pura quando da tua emoção desceu
Deixou rastros e verteu abundante 
Entre cílios e poros no entorno dos olhos teus

Mapeou o macio veludo do teu rosto
Acendeu a expressão casta da tua rosa
Riscou mansa a pele avelã em úmido apupo
Encharcou com rubor tuas maçãs e brios
Fez brilhar ainda mais as tuas meninas
Marejou os rebeldes fios das tuas franjas
Renovou vontades em teu soluço
Até ver-se displicentemente acolhida 
Pelas costas âmbares nos gestos parcos 
Do enlace terno das nossas mãos

Tua anônima poesia no entanto
Discreta e efêmera abrasou meus lábios
Ao me sentir no gosto azul
Entre o ósculo e a língua atônita 
Ao provar do sal da tua lágrima

@psrosseto

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TAPERAPUAN

Das tantas pedras seguras
A que mais me traz ternura
E arrefece a minha alma de encanto
Está em Taperapuan

É uma poliforme rocha
Esconde seus viços na agua
Refastela algas e lodos inquieta
E some quando a maré lhe amansa

Depois enquanto ronca a vazante
Aflora abundante molhada
Crescendo crescendo rebelde
Imponente, majestosa, encantada
Feito uma índia morena
Meio pedra, meio dama
Verossimilhança da deusa
Que nos meus braços descansa

Eu, tão marujo e barqueiro
Nada faço senão a canto
Enquanto ela em mim irrequieta
Friamente se recosta e dorme
Alentando meu viver de poeta


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A IRMÃ GÊMEA DE MINHA IMAGEM

A irmã gêmea de minha imagem
Caminha em forma de sombra em mim grudada
E a cada gesto meu transfigura-se tão rara
Que ninguém percebe de tão comum
E se apercebe nem repara

Por vezes retém dedos e traços
Esconde braços, confunde o dorso
Camufla o esqueleto
Deturpa os reféns detalhes da face
Em face ao que de mim se amolda e sobra

Mas ela, a minha sombra, não é meu lado ruim
E sim o retrato oposto à luz que me alumia
Que nem ofusca, enaltece ou contradiz
 
Por não ser translúcido o frasco
Não significa o desenho que o povoa
Esquivar-se sem forma e beleza
Deixar de ser intenso ou grato
Nem fantasma, opaco, nem ser nada
Diminui ou aumenta o que se preza

A minha sombra vai por mim
A cantos etéreos onde a alma iria sozinha
Mas não se assombra, apenas desalinha


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ENTRE A PELE E A MEIA

                 Paulo Sérgio Rosseto

Quantos apelos há entre a pele e a meia
Serena seda que recobre a perna
Encanta os poros, esperta os olhos 
Aveluda o tato, arrepia a penugem
Traz volúpia, seda os lábios 
Navalha a carne, orvalha a alma 

Tanto veneno está nesta candura rara
Que divisa a faixa, apreende à teia
Reaviva as margens, festeja as bordas
Margeia a taça, absorve a brisa
Rosa macia de pétala farta
Amordaça o senso, incandeia

Magna estrofe, carinhosa vasta 
Mansa e plácida cheirosa lua 
Tens a malícia sedenta exposta 
Da serena vontade de mergulhar às cegas 
Na onda abrupta entre o mar secreto
E a enxurrada arrítmica da vaga nua

@psrosseto

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AJUSTES

Quanto mais longe pude ir
Foi o momento que pensei
Nas viagens oportunas da vida
Fui sem de nenhum lugar de partida
E por haver chegado e nem ter saído
Dei-me conta ter voltado

Sou nuvem densa que se forma e derrete
Onda brava que arrebenta e desmancha
Vento que derruba e se esconde
Raio que explode e apaga
Estrondo que brada e silencia
Maré que enche depois foge
Fogo que aquece e extingue
Gás que pulveriza e some

Sou riso que escancara e aquieta
Sal que desce da lágrima
Vertigem que amarela e tonteia
Dor que tortura sem pressa
O cansaço que fatiga a célula
Partícula que protege a veia
Risco do azar sobre a sorte
Saliva cuspida na areia

O fio do novelo da lã
Feito o branco cabelo da orelha
Essa agulha que se põe a tecê-la
Entre os dedos da avó persistente
Película que enovela o casulo
E o delírio da foz que enevoa

Tudo enfim consumado
Não porque me quis concluído
Modificado por mero descuido
Somente ao meu tempo ajustado


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GUERRAS

                         Paulo Sérgio Rosseto

Ampla mente em carne fraca, desfalecida 
Cortada em posição obtusa, íngreme
Sangra como se forte fosse a textura 
E tênue apenas o que a denoda e atenua

Ela no entanto costura e cola a pele
Onde a faca estraçalhara o talho
Por quanto a boca entreaberta geme
A réplica do choro do meio da rua falha

Dor de todos os povos no corpo entreaberto
Indevida, renunciada, desfeita solidão
Os vasos da ferida sangram, marejam
Que até mesmo os anjos destemidos sentem

A lâmina arrazoada é essa lástima íngreme
Afundada sem anestésico onde nem mais ofende
Quando convencidos enxergamos esbaforidos
Que todas as verdades obscuras mentem

@psrosseto

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RESILIENTE

                 Paulo Sérgio Rosseto

A menor partícula resistente 
Reside no momento
Onde quanto maior for o desejo 
E mais ardente
Efêmera será a hipótese 
E o receio
Da palavra ser partida ao meio
Ou prender-se no silêncio
Do beijo velado 
E dado pelos lábios num hiato 
Entre os dentes!

@psrosseto

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FINALMENTE

           Paulo Sérgio Rosseto

Dá-me um gole da tua dor
Para que a tornemos discreta
E se possível mais amena
Como se um menor torpor
Daquilo que a alimenta
A ambos significasse

É assim que o amor se completa

Estúpido é quem acredita
Que solidão plena letra por letra 
Serve apenas a insanos
E se cura aos pedaços

Como se não bastasse
Vivemos daquilo que sentimos
E de tal forma nos complementamos
Que mesmo que um de nós
Vá ali fora morrer
Depois finalmente conversamos

@psrosseto

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INDECISO

De manhã quebro um ovo
Na borda da frigideira

A clara branca se espalha
Como pensamento impreciso Ele me olha com seu olho amarelo
De que o comerei apenas porque preciso

Além da janela
Um pombo discute com outro
A posse de uma migalha de nada

Eu também quero uma migalha de nada
Mas um nada feito do pão com o ovo
Que não discutem quando mordo

Apenas mato a fome
E indeciso esfarelo

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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!