Escritas

Lista de Poemas

SAGA DE LUZ NAUFRAGADA

Emerjo da tua luz naufragada

 Ainda que espero no paraíso

 Por ti minha mulher amada

 Farei tudo o que é preciso.

 Ladeado por cavalos brancos alados

 Dobro os Ceus de azul celeste

 Esvoaço ao lado de meteoros cinzelados

 Galgando os sinais que me deste.

 

 Astrolábio de fé, azimutes cintilantes marca mais longe

 Buraco negro, sítios ermos para além da crista

 Demanda incandescente nesta alma monge

 Persistindo num querer que não te avista.

 Grito por ti! E encontro apenas sobre o mundo

 O percurso que me deste sem ver nada

 A tua ausência trágica! E no fundo

 Minha vida é a tua luz naufragada

 

 João Murty

👁️ 631

AURORA BOREAL

Eu vi o sol nascer rompendo o horizonte numa aurora boreal

Aurora deusa benigna estende teus braços e sara este meu mal

Luz angélica exultante, que singra entre os escolhos

Aquece a alma de quem padece e seca o sal dos meus olhos.

 

Ó escuridão faminta e tenebrosa

Que te alimentas das entranhas do medo

Massacras com arte vagarosa

A solidez do meu rochedo.

 

Escuta, vem chegando a aurora boreal, luminosa e graciosa no seu andar

Sem arautos nem pasquins, traz no rosto de criança um sorriso de sonhar

E no seu manto de jasmins de fundo em ouro e marfim, vêm anjos cantar.

 

Ecoam doces melodias, estrofes, odes, sonetos nesse coro matinal

Senti naquele momento, que a força do pensamento de forma clara e real

Fundia-se suavemente, num estado omnipresente, na aurora boreal

João Murty
👁️ 303

ESPIRITO DE UM HOMEM DÓ

Homem só que pareces uma ilha neste universo

Não isoles essa alma triste no meio da multidão

Deixa-me levar-te nas letras deste meu verso

Segue-me e viaja seguro na minha mão.

 

Companheiro aqui estou, aqui estou para te ajudar

Pousa o fardo da saudade, suaviza o trilho do teu penar

E mesmo que esteja frio, parecendo que quer nevar

Junta-te ao lume comigo e agasalha-te no meu gibão

Fala-me de ti meu bom amigo, que eu também sei escutar.

 

E mesmo essa indefinível nostalgia

Que persiste de saudade de quem já soube amar

Escuta e dança esta música de alegria.

Ri e sepulta as recordações no meio do mar

Neptuno irá afunda-las numa esteira de espuma

Aberta com o seu carro em noite de vendaval e trovoada

E se não ficaram todas, se por acaso submergir alguma

Os pássaros do mar irão saudá-la em revoada

Levando nas suas asas brancas, para parte incerta

Essas recordações que choram, quando o coração aperta.

 

Alma gémea, que em vidas continuadas por mim cruzaste

Interrompe a tua prece, entrecortada de suspiros e solidão

Fala-me de ti irmão, com a voz de glória que já usaste

A voz, daqueles dias de concórdia, gerado em mil temas e paixão

Que tinha por cenário a planura estrelada em noites passadas ao relento

Onde tranquilo e feliz observava todos os símbolos do firmamento.

 

Homem só, quem chora por ver os outros chorar

Fortalecendo a raiz da piedade com as lágrimas desse pranto

Salpica a sombra do pecado que por ti tenta passar

Nesse olhar fascinante, já mora uma luz de santo

 

E se o teu espírito purificado já não reencarnar

Peço-te que veles por mim, por entre os trilhos do pó

Darás luz ao meu caminho e estendes-me a tua mão

Nos dias em que o sol não brilha e um homem se sente só.

 

João Murty

👁️ 314

ALMA PERDIDA

A lma perdida é apenas uma sombra que flutua

Ligada em pecado no materialismo de outra geração

Hospedeira de um corpo, numa vida que não é a tua

Procuras o perdão, nos dias imaculados da redenção.

 

Nos âmbitos da lenta evolução, que tens vivido

Padecendo sem luz, no universo do teu mundo

Despertando em ti, horríveis instintos sem sentido

E uma mão cheia de nada, num pavor profundo.

 

Vagueias, percorrendo o transe do teu conflito

Olvida-te, silencia em ti o espaço de um novo dia

Encontra nesse escuro, a luz e o olhar puro do teu guia.

 

Se a câmara de recordações for triste e dolorosa

Refletindo os vícios e pecados, constantemente

Reencarna e inicia uma vida mais pura, mais ardente


👁️ 287

SHABA

Recordo, quando te encontrei, abandonado, sujo, doente

Perdido no gesto de ser amado, mas de quem quer amar

Teus olhos eram uma súplica num pedido permanente

Quer ser teu amigo, leva-me contigo, não me deixes ficar.

 

Não sei se foi magia, se pura empatia ou a beleza do teu olhar

Chamei-te e tu cão inteligente, vieste num gesto de medo e desejo

Humilde, de cauda baixa, num movimento confuso de rastejar

Deixaste-me afagar a cabeça, devolvendo-me a carícia de um beijo.

 

Fiel companheiro, que alegremente me recebia e comigo ficavas

Lembro os dias que passamos juntos e os momentos que brincavas

A forma como o destino te pôs no meu caminho e forjou este sentimento.

 

Viveste feliz e deixaste-me triste, partindo no silêncio mudo de um olhar.

A tua casa vazia parece mais fria sem a chama da alegria do teu forte ladrar

Recordações que ficam na saudade que me aperta o peito a cada momento.

João Murty
👁️ 311

ESTRELA D` ALMA

Desde esse dia adverso à sorte

Observo à noite o Céu, por entre as nuvens sombrias

Apressadas, correm, escuras enigmáticas como máscaras da morte

Entediadas por um véu chuvoso, sórdidas frias e doentias.

 

Procuro por entre essa constelação

Resposta à minha alma, perpetuada em visões nubladas pela demência

Sedimentada na angústia de um vazio e fluida na solidão

A luz de uma estrela em ti renascida, bela e precoce na inteligência.

 

Olho sobre o astro pálido. Mas não te avisto

Vou mais longe, nesse lugar mais alto que a morte

Marcado por meteoros e cometas em rastos de fogo e xisto

Persistindo na rota do sonho e no desejo deste amor tão forte.

 

Vou mais longe, ainda que o sonho sem regresso não te traga

Acordado, pulo, corro pelo trilho infinito azul dos arcanjos

Nos fluxos e refluxos das órbitas das estrelas, continuo nesta saga

Perdido, desesperado por te ver, quero gritar, pedir ajuda aos anjos.

 

Ligado em ti neste sonho eterno que se percute e me acalma

Num orbe que sobe e desce em ponte de suspiros vejo onde vagueias cintilante

Traças o caminho, que apaga a melancolia que bateu à porta da minha alma

Dando um rumo novo à vida, pela visão protetora dessa luz tão brilhante.


J oão Murty

👁️ 286

PEREGRINO

Sou um peregrino do tempo,

de alma corroída e sem saber fixar-me,

deambulo,  numa saga  buscando a verdade,

procuro no passado e no sentimento,

a eloquente razão para encontrar-me,

apagando a sombra, que me invade.

 

Como um samaritano percorro,

lentamente a estrada da expiação,

apenas um nada, preenche o vazio

espaço que no pensamento, escorro,

dissecado no processo de reflexão,

esconjurado do seu homizio.

 

Uma sombra amargurada,

no divino caminho da verdade.

uma mentira branca, sem sorte,

pérfida,  escondida, dissimulada

um frémito, vibrante de ansiedade,

viaja na consciência, até á morte.

 

Não tenho origem, nem mundo,

esvazio as mágoas no fim de cada dia,

expio o fogo do passado que me aperta,

peregrino do tempo e na dor que me afundo,

minha alma hilota castrada, é água fria,

que apaga a chama e me liberta.

 

João Murty

👁️ 567

TEMPOS DE ALMA

Ai! Se eu pudesse parar o tempo e esculpir

Esculpia esse teu sorriso de lábios rosados

Emoldurado nesse olhar afogueado de fugir

De cabelos soltos de tons ruivos acobreados.

 

Ai! O porquê de tanta incerteza se o tempo voa e não para

Mas se chegar e não partir, é porque o prendi nos meus braços

Então eu vou rir, rir, porque o riso todos os males sara

Teria de novo os teus beijos e o calor dos teus abraços.

 

E na memória uma história esvoaçando na ilusão

Teria vida e fantasia, nos gemidos das noites quentes

Dos clamores e desalentos de um amor de perdição.

 

Ai! Quero reter o tempo e cerrar os olhos de desejo

Ouvir o murmúrio da tua boca sobre a minha boca

Num prazer e ensejo transportado nas asas de um beijo. 


João Murty

👁️ 565

SENHORA DO LAGO

Donde vieste tu senhora do lago, ardente, vibrante audaciosa?

Envolta nos mistérios das brumas, que esconderam tanta beleza

Que ilha de aromas e encantos te conservaram tão airosa

De que reino e de que história são as insígnias da tua nobreza.

 

De que tempos, de que séculos, te trouxeram a nós doce rainha

Embalada por harpas pressagias e pelo troar das trombetas

Que horas profundas, lentas e caladas, teve senhora minha

Que não ouvistes os cânticos sacros que te cantaram monges poetas.

 

Quem te prendeu nesse lago, de marés nostálgicas e de mágoas

Que neblinas de feitiçarias te deixaram no tempo adormecida

Esquecida de ti, eremita de clausura, nesse sono Elfo sem vida.

 

Já não és mais cativa, a doce magia da luz te desfolha nessas águas

Decantas um casto sorriso, rasgando a bruma que no ar ascende

Teus olhos de luz irradiam a pureza do azul que o céu resplende

João Murty
👁️ 248

RECORDAÇÃO

Nesta água da verdade, tão distantes estão os anos

Que me salvaste do abismo e de emoções tenebrosas

Recolhendo no teu regaço as lágrimas de muitos danos

Brotadas por tantos enganos, suavizado por rosas.

 

Refletido nesta água vê o teu rosto ardente

Vejo o teu olhar sereno, no pedido que me fizeste

Comissura nos teus lábios, que sorriam docemente

No adeus permanente, do ultimo beijo que me deste.

 

No torvelinho desta água, vejo e relembro o passado

A dor que me vara o peito, nas lágrimas colhidas no manto

E a etérea palidez da saudade, vincada no esgar do teu pranto.

 

Num olhar profundo, colocamos o adeus num ósculo puro e amado

Esperando para além da morte, para além dos nascimentos

Que o crepúsculo do ocaso reencontre os nossos sentimentos.

João Murty

👁️ 445

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments