Lista de Poemas
SAGA DE LUZ NAUFRAGADA
Emerjo da tua luz naufragada
Ainda que espero no paraíso
Por ti minha mulher amada
Farei tudo o que é preciso.
Ladeado por cavalos brancos alados
Dobro os Ceus de azul celeste
Esvoaço ao lado de meteoros cinzelados
Galgando os sinais que me deste.
Astrolábio de fé, azimutes cintilantes marca
mais longe
Buraco negro, sítios ermos para além da crista
Demanda incandescente nesta alma monge
Persistindo num querer que não te avista.
Grito por ti! E encontro apenas sobre o mundo
O percurso que me deste sem ver nada
A tua ausência trágica! E no fundo
Minha vida é a tua luz naufragada
João Murty
AURORA BOREAL
Eu vi o sol nascer rompendo o horizonte numa aurora boreal
Aurora
deusa benigna estende teus braços e sara este meu mal
Luz
angélica exultante, que singra entre os escolhos
Aquece
a alma de quem padece e seca o sal dos meus olhos.
Ó
escuridão faminta e tenebrosa
Que
te alimentas das entranhas do medo
Massacras
com arte vagarosa
A
solidez do meu rochedo.
Escuta,
vem chegando a aurora boreal, luminosa e graciosa no seu andar
Sem
arautos nem pasquins, traz no rosto de criança um sorriso de sonhar
E
no seu manto de jasmins de fundo em ouro e marfim, vêm anjos cantar.
Ecoam
doces melodias, estrofes, odes, sonetos nesse coro matinal
Senti
naquele momento, que a força do pensamento de forma clara e real
ESPIRITO DE UM HOMEM DÓ
Homem só que pareces uma ilha neste
universo
Não isoles essa alma triste no meio
da multidão
Deixa-me levar-te nas letras deste
meu verso
Segue-me e viaja seguro na minha
mão.
Companheiro aqui estou, aqui estou
para te ajudar
Pousa o fardo da saudade, suaviza o
trilho do teu penar
E mesmo que esteja frio, parecendo
que quer nevar
Junta-te ao lume comigo e
agasalha-te no meu gibão
Fala-me de ti meu bom amigo, que eu
também sei escutar.
E mesmo essa indefinível nostalgia
Que persiste de saudade de quem já
soube amar
Escuta e dança esta música de
alegria.
Ri e sepulta as recordações no meio
do mar
Neptuno irá afunda-las numa esteira
de espuma
Aberta com o seu carro em noite de
vendaval e trovoada
E se não ficaram todas, se por
acaso submergir alguma
Os pássaros do mar irão saudá-la em
revoada
Levando nas suas asas brancas, para
parte incerta
Essas recordações que choram,
quando o coração aperta.
Alma gémea, que em vidas
continuadas por mim cruzaste
Interrompe a tua prece,
entrecortada de suspiros e solidão
Fala-me de ti irmão, com a voz de
glória que já usaste
A voz, daqueles dias de concórdia,
gerado em mil temas e paixão
Que tinha por cenário a planura
estrelada em noites passadas ao relento
Onde tranquilo e feliz observava
todos os símbolos do firmamento.
Homem só, quem chora por ver os
outros chorar
Fortalecendo a raiz da piedade com
as lágrimas desse pranto
Salpica a sombra do pecado que por
ti tenta passar
Nesse olhar fascinante, já mora uma
luz de santo
E se o teu espírito purificado já
não reencarnar
Peço-te que veles por mim, por
entre os trilhos do pó
Darás luz ao meu caminho e
estendes-me a tua mão
Nos dias em que o sol não brilha e
um homem se sente só.
João
Murty
ALMA PERDIDA
A lma perdida é apenas uma sombra que flutua
Ligada
em pecado no materialismo de outra geração
Hospedeira
de um corpo, numa vida que não é a tua
Procuras
o perdão, nos dias imaculados da redenção.
Nos
âmbitos da lenta evolução, que tens vivido
Padecendo
sem luz, no universo do teu mundo
Despertando
em ti, horríveis instintos sem sentido
E
uma mão cheia de nada, num pavor profundo.
Vagueias,
percorrendo o transe do teu conflito
Olvida-te,
silencia em ti o espaço de um novo dia
Encontra
nesse escuro, a luz e o olhar puro do teu guia.
Se
a câmara de recordações for triste e dolorosa
Refletindo
os vícios e pecados, constantemente
SHABA
Recordo, quando te encontrei, abandonado, sujo, doente
Perdido
no gesto de ser amado, mas de quem quer amar
Teus
olhos eram uma súplica num pedido permanente
Quer
ser teu amigo, leva-me contigo, não me deixes ficar.
Não
sei se foi magia, se pura empatia ou a beleza do teu olhar
Chamei-te
e tu cão inteligente, vieste num gesto de medo e desejo
Humilde,
de cauda baixa, num movimento confuso de rastejar
Deixaste-me
afagar a cabeça, devolvendo-me a carícia de um beijo.
Fiel
companheiro, que alegremente me recebia e comigo ficavas
Lembro
os dias que passamos juntos e os momentos que brincavas
A
forma como o destino te pôs no meu caminho e forjou este sentimento.
Viveste
feliz e deixaste-me triste, partindo no silêncio mudo de um olhar.
A
tua casa vazia parece mais fria sem a chama da alegria do teu forte ladrar
ESTRELA D` ALMA
Desde esse dia adverso à sorte
Observo
à noite o Céu, por entre as nuvens sombrias
Apressadas,
correm, escuras enigmáticas como máscaras da morte
Entediadas
por um véu chuvoso, sórdidas frias e doentias.
Procuro
por entre essa constelação
Resposta
à minha alma, perpetuada em visões nubladas pela demência
Sedimentada
na angústia de um vazio e fluida na solidão
A
luz de uma estrela em ti renascida, bela e precoce na inteligência.
Olho
sobre o astro pálido. Mas não te avisto
Vou
mais longe, nesse lugar mais alto que a morte
Marcado
por meteoros e cometas em rastos de fogo e xisto
Persistindo
na rota do sonho e no desejo deste amor tão forte.
Vou
mais longe, ainda que o sonho sem regresso não te traga
Acordado,
pulo, corro pelo trilho infinito azul dos arcanjos
Nos
fluxos e refluxos das órbitas das estrelas, continuo nesta saga
Perdido,
desesperado por te ver, quero gritar, pedir ajuda aos anjos.
Ligado
em ti neste sonho eterno que se percute e me acalma
Num
orbe que sobe e desce em ponte de suspiros vejo onde vagueias cintilante
Traças
o caminho, que apaga a melancolia que bateu à porta da minha alma
Dando um rumo novo à vida, pela visão protetora dessa luz tão brilhante.
J oão Murty
PEREGRINO
Sou um peregrino do tempo,
de alma corroída e sem saber fixar-me,
deambulo,
numa saga buscando a verdade,
procuro no passado e no sentimento,
a eloquente razão para encontrar-me,
apagando a sombra, que me invade.
Como um samaritano percorro,
lentamente a estrada da expiação,
apenas um nada, preenche o vazio
espaço que no pensamento, escorro,
dissecado no processo de reflexão,
esconjurado do seu homizio.
Uma sombra amargurada,
no divino caminho da verdade.
uma mentira branca, sem sorte,
pérfida, escondida, dissimulada
um frémito, vibrante de ansiedade,
viaja na consciência, até á morte.
Não tenho origem, nem mundo,
esvazio as mágoas no fim de cada dia,
expio o fogo do passado que me aperta,
peregrino do tempo e na dor que me afundo,
minha alma hilota castrada, é água fria,
que apaga a chama e me liberta.
João Murty
TEMPOS DE ALMA
Ai! Se eu pudesse parar o tempo e esculpir
Esculpia esse teu sorriso de lábios
rosados
Emoldurado nesse olhar afogueado de
fugir
De cabelos soltos de tons ruivos
acobreados.
Ai! O porquê de tanta incerteza se
o tempo voa e não para
Mas se chegar e não partir, é
porque o prendi nos meus braços
Então eu vou rir, rir, porque o
riso todos os males sara
Teria de novo os teus beijos e o
calor dos teus abraços.
E na memória uma história
esvoaçando na ilusão
Teria vida e fantasia, nos gemidos
das noites quentes
Dos clamores e desalentos de um
amor de perdição.
Ai! Quero reter o tempo e cerrar os
olhos de desejo
Ouvir o murmúrio da tua boca sobre
a minha boca
Num prazer e ensejo transportado
nas asas de um beijo.
João Murty
SENHORA DO LAGO
Donde vieste tu senhora do lago, ardente, vibrante audaciosa?
Envolta
nos mistérios das brumas, que esconderam tanta beleza
Que
ilha de aromas e encantos te conservaram tão airosa
De
que reino e de que história são as insígnias da tua nobreza.
De
que tempos, de que séculos, te trouxeram a nós doce rainha
Embalada
por harpas pressagias e pelo troar das trombetas
Que
horas profundas, lentas e caladas, teve senhora minha
Que
não ouvistes os cânticos sacros que te cantaram monges poetas.
Quem
te prendeu nesse lago, de marés nostálgicas e de mágoas
Que
neblinas de feitiçarias te deixaram no tempo adormecida
Esquecida
de ti, eremita de clausura, nesse sono Elfo sem vida.
Já
não és mais cativa, a doce magia da luz te desfolha nessas águas
Decantas
um casto sorriso, rasgando a bruma que no ar ascende
RECORDAÇÃO
Nesta água da verdade, tão distantes estão os anos
Que
me salvaste do abismo e de emoções tenebrosas
Recolhendo
no teu regaço as lágrimas de muitos danos
Brotadas
por tantos enganos, suavizado por rosas.
Refletido
nesta água vê o teu rosto ardente
Vejo
o teu olhar sereno, no pedido que me fizeste
Comissura
nos teus lábios, que sorriam docemente
No
adeus permanente, do ultimo beijo que me deste.
No
torvelinho desta água, vejo e relembro o passado
A
dor que me vara o peito, nas lágrimas colhidas no manto
E
a etérea palidez da saudade, vincada no esgar do teu pranto.
Num
olhar profundo, colocamos o adeus num ósculo puro e amado
Esperando
para além da morte, para além dos nascimentos
Que
o crepúsculo do ocaso reencontre os nossos sentimentos.
João Murty
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No período de 1993 a 1998, na qualidade de Diretor Geral de Operações, teve intervenção relevante no processo de recuperação e viabilidade do Grupo Torralta – CIF, que veio a ser adquirido pelo Grupo SONAE.
Ao longo da sua atividade profissional integrou o concelho fiscal de várias empresas e exerceu cargos de direção e administração em hotéis e grupos turísticos-hoteleiros. Cumulativamente esteve ligado á área do ensino e formação tendo lecionado no CFA – Pontinha, a disciplina de Planeamento e Controlo. Na área da consultadoria desenvolveu vários trabalhos no âmbito de Estudos, Projetos e Diagnósticos de Investimento e conjuntamente com o prof. Dr. João Carvalho das Neves (prof. Catedrático do ISEG) e com o prof. Dr. Charles Blair (prof. Catedrático da U. Manchester), participou no “Estudo de Desenvolvimento Integrado de Turismo - Ilha Porto Santo.
Em 1997, numa singela manifestação de agradecimento foi agraciado pela Casa do Pessoal do Hospital de Vila Franca de Xira. E, em Março de 2010 foi homenageado pela ADHP (Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal), com o PLACA CARREIRA distinguindo o profissionalismo colocado ao serviço da Indústria Turístico - Hoteleira.
A leitura esteve sempre presente na sua vida Tem como autores de referência Pessoa, Bocage, Florbela, Poe, Quintana, Drummond, Aleixo, Mário de Sá Carneiro.
Gosta de futebol, golfe, mar, e do seu próprio espaço para escrever.
Em relação à vida, entende que é uma caminhada num processo cíclico de evolução. E que tudo é efémero, nada mais prevalece para além da aprendizagem dessa caminhada.
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