Escritas

SONHOS DE ABRIL

José João Murtinheira Branco

25DE ABRIL "40 ANOS"

 Sendo um facto que nada é eterno e que asmutações temporais, aliada á sabedoria e endurance de uma sociedade, deveriamevoluir, caminhando para um processo mais justo e mais solidário. Por isso, eraensejo, de grande maioria dos portugueses, que o 25 de Abril fosse liberdade eafirmação de dignidade humana e, de democracia vivida einstituída.

  Infelizmente, nos últimos tempos, assiste-sepaulatinamente à degradação dos valores mais elementares, emergindo a incúria,o erro torpe, a ausência de culpa e responsabilidade.

  Em memória, de um passado recente, querendoque o mesmo seja mais que uma quimera, mais que uma memória, que seja oconcretizar dos valores que geram a evolução da sociedade de forma criativa,participada e pacífica. Fica o poema, brotado do peito em palavras, dedesencanto, de desilusão, mas ao mesmo tempo de esperança.

 

 SONHOS DE ABRIL

 

 Tristeza que corrói a alma e me enche de rugaso rosto,

 profundas, vincadas pela ansiedade, pelodesejo de gritar,

 de dizer não quero, por lutar e sentirdesgosto.

 Por chorar por um Abril que não vejo, quetarda a chegar,

 por um Portugal diferente. Que não sejaadulterado

 por governantes políticos, sem alma e semsoluções.

 Por um País de promessas, corrompido,queimado,

 conspurcado por ganâncias, manietado por obsessões.

 

 Sinto neste silêncio podre, místico como amorte

 o vento do descontentamento e o som da agonia,

 gélido, cortante, permanente, rodopiando semnorte,

 sugando a identidade, matando a alma daharmonia.

 Comendo nas entranhas a nobreza e a memória

 de um povo que tem garra, que tem raça.

 Apagando a herança dos sinais fortes dahistória,

 de quem foi forte de quem tem credo de quemtem casta.

 

 Agora, um grito de revolta na minha almaardente,

 escorrido como água, por entre o rochedo darazão,

 num doce eco fluido, que se prolongapermanente,

 neste corpo curvado cansado da espera e desolidão.

 Sinto o meu coração elanguescido, fundir-se nasaudade,

 daqueles momentos vividos no prelúdio daincerteza,

 resgatados na coragem dos capitães, quefizeram a liberdade,

 de armas e cravos na mão, honraram e cantarama Portuguesa.

 

 Quero afastar esta tristeza, que me invade aalma,

 quero dormir embriagado, pelo doce sabor dailusão,

 daquela noite diferente, inquieta, livre ecalma,

 deram cores aos sonhos, deram corpos e almas àrazão.

 Abril dos cravos, de cores mais vivas nessaprimavera,

 sofreste, crescestes por entre estertoresmoribundos,

 ergue-te e sai de novo à rua e grita pela vozdo povo,

 para que o sonho não seja turvo e a esperança,uma quimera.

 

 João Murty

 

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