Lista de Poemas
Excerto das notas acerca do presumido nada
uma notícia da vida
jeito de ser cometida
a nossa revelia
nem tão plena
que não seja avara
nem tão triste
que não seja comedida
porque de tê-la pelos tempos
nessa simbiose constrangida
ao homem descabe tê-la
como um avesso do nada
é que a morte sempre cabe
em cada desvão da madrugada
assim de sua feição
como viés da vida
nunca lhe cabe a semelhança
de um gesto comedido
é que lhe trai a razão
de ser sempre conteúdo
de um não atravessado
na garganta de tudo
a morte é apenas
um descomeço da vida
e continua seu exercício
como uma praça infinita
onde habitassem todos os ausentes
no tamanho exato
de todas as suas lidas
assim de sua gesta
em contrafazer a desmedida
nunca lhe sobra a confissão
de ser compreendida
é que de sua feitura
nas dobraduras da vida
nunca lhe sabe a homem
o que não é medido
antes lhe sobre a compleição
de um exato infinito.
dos verbos e sua andança
apenas tenta
derramar nas palavras
minha crença
não que o verbo
nas trincheiras da vida
tenha os mesmos metros
do que se acredita
antes delibera
nas esquinas do novo
aquilo que a palavra
mede em todos
meu poema
apenas convoca
todos os meus afetos
todas as minhas portas
e se os prolato
e se as invoco
é por ser o futuro
aquilo que eu posso.
Espaço
é estar em trânsito
e anunciar-me à vida
e nem tanto
e nem me ser adrede
em cada pranto
por cada grão de riso
que encontre
meu âmbito
é estar humano
e parecer-me crível
em tudo que eu canto.
em torno do meu país
as balas vão
aquelas do coração
e as da guerra
na favela
chora-se em dobro
as lágrimas de pedra
e as do choro
líquidas
as últimas são mares
em que se afoga
a vida e seus pesares
sólidas
as de pedra
são os gritos de quem luta
melhor dizê-las verbos
pela rua suja
na favela
o poema se escreve
com o sangue e a vontade
de quem deve
poema em dobro
retroativo
que teima em ser de pedra
apesar dos sentidos
na favela
a palavra medra
como o sacrifício
semente que não plantada
pergunta que nem se diga
na favela
a morte habita
uma intimidade comedida
parente que nem seja íntima
da vida.
excertos do tempo
não há um tempo
de dizer as horas
na compreensão intensa
dos momentos
não há um tempo
de demoras
quando vamos levando
a consciência
é que a vida é pouca
nas ausências.
não há um tempo
de discórdias
mas a exata compreensão
ilógica
de que o homem apenas luta
contra a história
não há um tempo
de sofreguidão
pois as horas teimam
em dizerem não
é que a emoção é campo
de se ter à mão
não há um tempo
de reformas
a revolução é o único tamanho
dela própria
não há um tempo
de facilidades
a mudança é apenas uma flor
que há-de
é que os olhos são curtos
para sentirem o infinito
da verdade
não há um tempo de mares
mas sonhos e navios pelas tardes
não há um tempo de águas
nos homens
há um leve rumor das cachoeiras
em que deságuam
é que a vida nem sempre
escorre pelas mágoas
não há um tempo de poesia
em que se caiba
o poema sempre tamanha
o que lhe invade
é que o discurso do homem
é de uma métrica
ainda tarde
que sobra no peito das gentes
como um sol de alvaiade
e a vida nunca é completa
por mais que verso haja
pois quando plena
apenas pela palavra
quem preencheria os metros
da fluidez dessas almas?
não há um tempo de poesia
apesar de sua tática
de discursar a coisa em verso
transitada pela alma
como forma mais condizente
de se dizer a palavra
é que a prosa tem viés
de estranha matemática
que soma verbos e veias
em equações inexatas
que sempre esquecem um pedaço
do que vai pela alma
o verso pelo contrário
tem o tamanho da vida
pois sempre tende ao infinito
apesar de tão contido
nas meias dúzias de palavras
que o homem leva consigo
e que é sempre bem maior
que seu próprio sentido
não há um tempo a desoras
todo tempo é permitido
nas curvas em que se faz da vida
um desacato aos sentidos
é que o tempo não acata
o que se faz sem seu juízo
pois as horas que lhe são próprias
deságuam na própria vida
e o homem tem seus minutos
na circunstância não dita
de que é apenas um
numa nave coletiva
mas há um tempo de necessidades
em que cada um é preciso
desde o resgate dos homens
à medição do infinito
por terem os dois o tamanho
de todos os nossos gritos
elegia com vegetais e outros tantos
miosótis
quem te baste
que desate
o escândalo azul
de toda face
II
margarida
que te lida
rosa maior te queira
do que a vida
III
jasmim
porque assim
é bastante ser só
para estar sem mim.
IV
açucena
vale a pena
truncar o jeito de flor
em ser, apenas
V
dália
que te vista
teu vestido de planta
reprimida
VI
boa noite
que te traga
o tempo escancarado
em que caibas
VII
girassol
que te deságuas
em ser um quê do sol
a que te abraças
VIII
flor-de-lis
porque te quis
rasgo das tranças
que te fiz
IX
sempre-vivas
quando queiras
inventar o sangue das horas
que incendeias
X
lirios
porque qui-los
estreitos assim em mim
os meus sentidos
XI
petúnias
assim forjadas
na dança maior
da vida desatadas
XII
rosedás
porque me dás
a culpa mais urgente
que me traz
XIII
orquídea
porque tanta
a desavisada floresta
da garganta
XIV
verbena
que te quisera
um tanto menos que flor
e muitas léguas
XV
trevo
porque me atrevo
a gerir meu riso
mesmo medo ?
XVI
espada de são Jorge
porque vige
esse jeito de ingratidão
em que se vive ?
XVII
antúrio
assim pacato
quem te prende no sonho
que me faço ?
XVIII
palmeira
por que tal aprumo
em apontar o nunca
como rumo ?
XIX
araçá
por quem será
a razão de quem não é
porque está ?
XX
avenca
despenteada
quem te lavra tão basta
em quase nada
XXI
alfinete
nem te prezas
assim em vão
lançado para a terra
XXII
maracujá
por quem está
traçado um destino
que já nem há ?
XXIII
vagalume
quem te pune
a ser candeia de mundo
tão sem rumo ?
XXIV
grilo que desandas
a gritar um amor
que nem proclamas
XXV
rosa
quem nervosa
rasgou o ventre do chão
por que se goza?
XXVI
pardal
por que do verbo
nunca te fizeste carne
apesar de tão sincero?
XXVII
jibóia
quem te apóia
a ser compasso de um mundo
que nem notas ?
XXVIII
papoula
do teu ócio
quem te fez ofício
do que mostras ?
XXIX
capim santo
que nem tanto
te pareces maior
que meu espanto.
XXX
vitória régia
que nem é tanta
como se tamanha fosse
se não planta.
XXXI
homem,
jardim de tudo
quem plantará as flores
nos ombros do mundo?
dos passos da vida e suas ingerências
a desculpa
para manter as manhãs
da nossa luta
o passado
é apenas um disfarce
que o futuro teima em dar
quando se gasta
o futuro
é um tempo baldio e conciso
tudo que lhe tange
é a possibilidade do riso
o suor
é apenas um passo
na construção
de todos os abraços
O pranto
é apenas um impasse
dos risos todos da vida
em que se nasce
a vida é sempre infinita
apesar de todos os pesares.
dos sonhos e das destemperanças
é flagrante
a vida sempre teima
em ser avante
não que o sonho
possa descaber-se
e traçar um futuro
em que coubesse
é que ao tempo
é dada a contradição
de parecer-se um sim
mesmo não.
e se, às vezes, por fim
desborda do sentimento
nada detém mais espaço
que os alvoroços do tempo.
dos tempos e das consequências
é um tempo gasto
toda esperança
vige inexata
tudo que o tange
é a prática
amanhã
é um tempo consumido
tudo que lhe mede
é infinito
é como se fora régua
que medisse o intangível
amanhã
é um tempo vasto
cabe qualquer futuro
nos seus atos.
em pássara consciência
não se avoque
por pássaro se ter
mais a molde
enseje continência
quando infinita
e se preste mais a pulso
quando incontida
tenha no jeito
a concisão e a urgência
de um sonho gravado
no vão da paciência
do tempo
não se provoque
a ser apenas fração
que me console
que seja bólide
e que não seja
engastada na conveniência
de toda a natureza.
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
Português
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Español
Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.