Escritas

excertos do tempo

AurelioAquino

não há um tempo

de dizer as horas

na compreensão intensa 
dos momentos

não há um tempo

de demoras

quando vamos levando

a consciência

é que a vida é pouca 
nas ausências.
 
não há um tempo

de discórdias

mas a exata compreensão 
ilógica

de que o homem apenas luta 
contra a história

não há um tempo

de sofreguidão

pois as horas teimam

em dizerem não
é que a emoção é campo

de se ter à mão 
 
não há um tempo

de reformas

a revolução é o único tamanho 
dela própria

não há um tempo

de facilidades

a mudança é apenas uma flor 
que há-de

é que os olhos são curtos

para sentirem o infinito

da verdade
 
não há um tempo de mares

mas sonhos e navios pelas tardes 
não há um tempo de águas

nos homens

há um leve rumor das cachoeiras 
em que deságuam
é que a vida nem sempre

escorre pelas mágoas
 
não há um tempo de poesia 
em que se caiba

o poema sempre tamanha 
o que lhe invade 
é que o discurso do homem

é de uma métrica

ainda tarde

que sobra no peito das gentes 
como um sol de alvaiade 
e a vida nunca é completa 
por mais que verso haja 
pois quando plena

apenas pela palavra 
quem preencheria os metros 
da fluidez dessas almas? 
 
não há um tempo de poesia 
apesar de sua tática

de discursar a coisa em verso
 transitada pela alma 
como forma mais condizente 
de se dizer a palavra
é que a prosa tem viés

de estranha matemática 
que soma verbos e veias

em equações inexatas

que sempre esquecem um pedaço 
do que vai pela alma
 o verso pelo contrário

tem o tamanho da vida

pois sempre tende ao infinito 
apesar de tão contido

nas meias dúzias de palavras 
que o homem leva consigo

e que é sempre bem maior 
que seu próprio sentido
 
não há um tempo a desoras

todo tempo é permitido

nas curvas em que se faz da vida
 um desacato aos sentidos
é que o tempo não acata

o que se faz sem seu juízo

pois as horas que lhe são próprias 
deságuam na própria vida

e o homem tem seus minutos

na circunstância não dita

de que é apenas um

numa nave coletiva
 
mas há um tempo de necessidades 
em que cada um é preciso

desde o resgate dos homens

à medição do infinito 
por terem os dois o tamanho 
de todos os nossos gritos

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