Escritas

elegia com vegetais e outros tantos

AurelioAquino
I

 
miosótis

quem te baste
que desate

o escândalo azul
de toda face
 
II

 
margarida

que te lida

rosa maior te queira
do que a vida
 
III

 
jasmim

porque assim

é bastante ser só
para estar sem mim.
 
IV

 
açucena

vale a pena

truncar o jeito de flor
em ser, apenas
 
V

 
dália

que te vista

teu vestido de planta
reprimida
 VI

 
boa noite

que te traga

o tempo escancarado
em que caibas
 
VII

 
girassol

que te deságuas

em ser um quê do sol
a que te abraças
 
VIII
 
flor-de-lis
porque te quis
rasgo das tranças
que te fiz
 
IX

 
sempre-vivas

quando queiras

inventar o sangue das horas
que incendeias
 
X

 
lirios

porque qui-los

estreitos assim em mim
os meus sentidos

 
XI

 
petúnias

assim forjadas

na dança maior
da vida desatadas
 
XII

 
rosedás

porque me dás

a culpa mais urgente
que me traz
 
XIII

 
orquídea

porque tanta

a desavisada floresta
da garganta
 
XIV

 
verbena

que te quisera

um tanto menos que flor
e muitas léguas
 
XV

 
trevo

porque me atrevo
a gerir meu riso
mesmo medo ?
 
XVI

 
espada de são Jorge
porque vige

esse jeito de ingratidão
em que se vive ?
 XVII

 
antúrio

assim pacato

quem te prende no sonho
que me faço ?
 
XVIII

 
palmeira

por que tal aprumo
em apontar o nunca
como rumo ?

 
XIX

 
araçá
por quem será

a razão de quem não é
porque está ?
 
XX

 
avenca

despenteada

quem te lavra tão basta
em quase nada
 
XXI

 
alfinete

nem te prezas

assim em vão
lançado para a terra
 
 
 
 
XXII

 
maracujá

por quem está
traçado um destino
que já nem há ?
 
XXIII

 
vagalume

quem te pune

a ser candeia de mundo
tão sem rumo ?
 
XXIV

 
grilo
que desandas

a gritar um amor
que nem proclamas
 
XXV

 
rosa

quem nervosa

rasgou o ventre do chão
por que se goza?
 
XXVI

 
pardal

por que do verbo

nunca te fizeste carne
apesar de tão sincero?
 
XXVII

 
jibóia

quem te apóia

a ser compasso de um mundo
que nem notas ?
 
 XXVIII

 
papoula

do teu ócio

quem te fez ofício
do que mostras ?
 
XXIX

 
capim santo

que nem tanto

te pareces maior
que meu espanto.
 
XXX

 
vitória régia

que nem é tanta

como se tamanha fosse
se não planta.
 
XXXI
 
homem,
jardim de tudo
quem plantará as flores
nos ombros do mundo?
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