Escritas

Lista de Poemas

elegia prosaica ao caldo-de-cana com pão doce

o rio verde

é quase uma alegria

que amolga o instinto

na garganta

e como porto

tange a língua

como as mulheres tangiam
as panelas gerais

da minha infância
 
pão invente-se pão

menos por ser pasto
mas por trazer-nos à mão
um sentimento arcaico

e um gosto transeunte e laico

dos enredos disformes da razão
 
e ainda que pasto

seja a condição

pra se ter o peito livre
grávido da nação
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espacial

qualquer lugar

é sempre onde

curso que se queira perto
mesmo longe.
 
é que ao homem é dada
essa sintonia

de querer-se pleno
mesmo baldio
por derramar-se pela vida
em desfastio.
 
 
 
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dos tamanhos da gente

não caibo em mim
frequentemente.

é que, às vezes, a vida
sobra da gente

como se fora um rio

que procurasse corrente
pensando em todas as ondas
dos mares que se enfrenta
 
constantemente

a vida é um mar de outros
nos rios do que se sente.
 
👁️ 54

dos sentidos

meu ímpeto

é estar em trânsito

e distingui-lo das ruas
em que me espanto
nem todos os caminhos
me dirigem

no sentido exato

em que os tive

é que os passos,

às vezes, contradizem
todas as léguas

e todas as origens
 
caminhar

é apenas mais um jeito

do rio que guardo em mim
assim sem leito

no sentido da jusante

de mim mesmo.
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dos quereres de futuro

a utopia

é um sonho

que se leva na mão
embrulhado na luta

tudo que seja novo

é só um traço

dos metros todos de povo
a que me abraço
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encruzilhada

saio da inércia

em que me acho

a encruzilhada é uma véspera
do abraço
 
não é preciso que a tenhamos
como um caminho

que deixou de definir-se apenas
mas há que compreendê-la
na sua gesta insana

de conduzir a todas as razões
porque se chama

aliás
porque chama

a encruzilhada sempre é

de quem ama

nunca está onde se chega
nunca chega onde desama
porque é por tê-la na alma
que se é humano
 
há que sê-la na compreensão
de que a vida é problema
que sabe a solução

em cada dilema
e que se perde nas trocas
que o homem manipula
como se dar fosse moeda
que encontrasse recusa
 
na encruzilhada
me apercebo

que a coragem

é um tipo escancarado de medo
que nem chega a ser diferente
de todos os seus outros enredos.  
👁️ 78

dos personagens e outros tãos

a bunda da atriz

é grave frontispício

de tudo que o sistema

faz comício

carrega em si

toda filosofia

enclausurada nas manchetes
de cada dia

o sexo passa a ser drama

de exígua tessitura

trançado nas entrelinhas

da ditadura
 
a democracia

cresce na imagem

do marginal dilacerado
na paisagem

o jornal regurgita

um sangue profano

no sacro desentender
dos seus enganos
 
na face do senador

existe quase a certeza

de que ao homem é dada
qualquer desnatureza

seu verbo é tão baldio

e alheio ao que destaca
que chega a dizer-se tanto
nos discursos que alinhava
 
a mulher na foto
carrega a maquiagem
como se fora a solução
de todas as miragens

e o cronista social

atiça a conveniência
pela própria condição
de despresença

é que lhe cabe muito
nos verbos que assenta
 
o gerente do banco
garante a simetria
entre a dama da corte
e sua grave revelia
destrava todos os cofres
invalida suas guias
como se fora um calote
nos ombros de cada dia
 
o governo aparece

em sua métrica enorme
de assassinar os civis

nos militares informes

é que não pode o sistema
abdicar da função

de replicar pelos campos
as normas da escravidão
salvando a democracia
na boca de seus canhões
 
e ao macaco da manchete
resta a vermelhidão

uma vergonha animalesca
das coisas e das manhãs.
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dos vôos do povo nos ombros do futuro

garças tecerão o céu
entre as palavras do povo
e os ventos abrirão

as avenidas de todos
 
e o tempo estará nas algibeiras
com a solicitude inata

de quem constrói as horas

nos desvãos da prática
 
todos estarão em todos
pela lógica exata

de que a razão dos homens
permanece intacta

como se fora procissão

de todas as almas
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eletrocardiograma

nenhuma agulha
discursará meu pulso

na proporção do amor

na pauta do meu susto
nem se dirá nervosa
apesar do meu soluço
antes se queira rosa

de todo esse meu uso
porque mecânica

na sua estadia avara

poupe meu coração

da brutalidade da máquina.
 
nenhum coração

de propriedade tão exata
restará na ponta da agulha
nessa estranha matemática
que reduz meu peito impune
a se fazer de tão frequente
que me jogue as emoções
pelo vão incauto dos dentes.
 
👁️ 61

dos esconderijos recorrentes

A felicidade

é compacta
nada lhe mede
além da prática
 
se, às vezes, tarda
diz-se tão frequente
como se escondesse tudo
no meio da gente
 
a felicidade

em contradita

é apenas um jeito
que se dá na vida.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !